Ariel Lamour
1 Capítulo Primeiro
Notas iniciais
Não gosto de falar sobre a minha infância, mas não posso evitar a minha adolescência. Está acontecendo agora; eu estou vivendo isso. E sei que esse é um período importante na minha vida, mas estou deixando-o passar livremente, sem grandes planejamentos ou emoções. É o que é.
Minha madrasta às vezes reclama com o fato de que eu não me comporto como uma adolescente, pois quando tinha a minha idade – 15 anos – já transava. Por falar nisso, gostaria de acrescentar que eu realmente não entendo a minha madrasta. Ela diz que quer que eu arrume um namorado, mas surta quando me vê falando com meninos. Diz que eu devia sair mais, mas sempre que eu saio fica me ligando para controlar a minha vida. Ela não pensa nas coisas. Ela apenas fala. E isso me deixa louca. Mas enfim.
O problema não é que eu não goste de garotos nem nada, o problema é que eu não gosto dos garotos da minha cidade. Não conheci nenhum que tenha despertado o meu interesse, pois para mim todos são iguais. Pelo menos todos os que eu conheci.
Por isso meu passatempo preferido é ler. Gosto de livros porque eles fazem com que eu esqueça a minha vida e seja uma heroína corajosa e forte, que se apaixona por um homem sem igual. Acho que alimento muito as minhas fantasias literárias, mas não me importo. Gosto de viver a vida que não é minha, gosto da fantasia. Minhas amigas acham isso tão estranho, dizem que eu devia prestar mais atenção no que acontece fora dos livros.
Mas a minha vida não é tão interessante assim.
Parei de pensar nas coisas e fui para porta de casa, esperar as meninas chegarem. Nós iriamos na festa da Babi, que estava voltando de viajem. Ela sempre fazia uma festa na noite antes do primeiro dia de aula, e hoje era ainda mais especial porque ela ia nos apresentar o seu novo namorado, o Kyle. Geralmente eu não gostava de festas, mas a Babi era aquele tipo de pessoa que fazia drama por tudo, e com certeza ia passar metade do ano com raiva de mim caso eu não aparecesse. E também Luna, Monna e Julie queriam que eu fosse. Então por causa delas, e para fazê-las felizes, eu coloquei um dos meus saltos mais altos, escovei o meu cabelo e passei maquiagem, vesti aquela calça de couro que nunca me imaginaria usando e coloquei uma blusa cheia de brilho azul escuro.
Passei voando pela sala; meu pai sabia para onde eu ia porque eu tive que pedir dinheiro a ele para pagar a cabelereira, mas não queria falar com a minha madrasta. Nós já tínhamos brigado de novo, e dessa vez foi por causa da festa da Babi. Minha madrasta não gostava da Babi, porque... Bem, é mais fácil ver.
Logo Luna, Monna e Julie estavam na frente da minha casa, arrumadas e lindas. Luna era a garota mais linda que eu conhecia. Ela tinha uma pele da cor de chocolate, cabelos negros na altura dos ombros e um sorriso encantador. Era pequena e delicada, não gostava do seu peso e não era ciente do quão bonita era – talvez isso a tornava mais bonita ainda. Ela estava usava um vestido azul e preto.
Monna também era muito bonita e se parecia um pouco com Luna. Era alta, tinha cabelos da cor de chocolate e uma personalidade forte. Monna conseguia ser a pessoa mais doce e mais brava do mundo em questões de segundos. Quando ela estava chateada, ninguém podia chegar perto, mas quando estava alegre, sua energia contagiava todo mundo. E ela estava usando um de seus shorts preferidos com uma blusa preta.
E também tinha a Julie. Ela era a mais velha – tinha dezessete anos – mas era a menor e mais magra de nós. Tinha cabelos pretos e grandes olhos escuros, gostava de falar e tinha a risada mais engraçada do mundo. Julie estava usando um dos seus vestidos curtíssimos vermelhos e esbanjando toda a sensualidade que possuía.
Não demoramos muito para chegarmos à casa da Babi. Ela morava com os tios, que tinham viajado, então ela e seus dois primos podiam fazer o que quisessem. O lugar estava lotado de adolescentes quase bêbados, luzes de neon piscavam desfocando as cores. Lá dentro estava abafado, o cheiro de bebida e cigarro tomava conta. Foi fácil encontrar Babi; ela era altíssima e usava um salto de 12 cm. Seu vestido de lantejoulas douradas brilhava tanto que ela parecia um pedaço perdido da lua.
Babi era aquele tipo de garota que podia muito bem ganhar dinheiro sendo modelo, porque era burra como uma porta, mas absurdamente linda. Tinha cabelo dourado liso e um corpo magro e esguio. Vestia-se bem e era simpática com todo mundo. Assim que nos viu, ela veio correndo e gritando.
- Vocês chegaraaaaaaaaaam!
Teve aquela troca de abraços e falatório, até que ela foi buscar um pouco de cerveja para nós. Eu não gosto de cerveja, mas bebo um pouco para socializar. Nós cinco ficamos saímos para o lado de fora, enquanto a Babi contava os detalhes sobre as suas férias e sobre como conheceu o Kyle enquanto eu olhava em volta. Geralmente quando a Babi começava a falar, eu me desligava completamente. Ela é gente boa, mas quando começava a falar, só falava merda.
Tinha gente de todo tipo naquela festa: um pessoal que eu conhecia por ter estudado com nós no ano passado; uma turminha de populares do colégio particular... Só havia poucas pessoas que eu não conhecia ali. Eram uns caras mais velhos que estavam olhando para nós. Eles pareciam ter dezoito anos, por aí, e eram bem bonitos. Ainda mais o moreno de camisa branca que olhava diretamente para nós. Ele estava bebendo algum tipo de bebida âmbar, acho que era uísque, enquanto os meninos ao seu redor tomavam cerveja. Ele era um pouco alto, mas não passava de 1,90, era magro, mas seus braços eram musculosos e seu cabelo preto era bem aparado nas laterais. Ele disse alguma coisa para seus amigos e começou a caminhar na nossa direção.
Foi só quando ele abraçou a cintura da Babi que eu notei que ele era o Kyle, o namorado dela. Babi apresentou todo mundo, e o Kyle sorriu para todas nós, parecendo um pouco envergonhado. Ele tinha um sorriso bem bonito, os dentes inferiores eram tortos e os superiores eram certinhos, ele até tinha covinha em uma das bochechas.
- Vamos lá pra dentro, estamos perdendo a festa ficando aqui fora – ele disse e todos nós entramos, até mesmo o grupo de amigos dele.
Ficamos todos juntos numa das mesas que estava na área de trás – onde só os “tops” ficavam, disse o Babi quando nos levou pra lá. Kyle nos apresentou aos seus amigos, mas eu esqueci o nome deles na mesma hora, e nos deu um pouco do que estava bebendo.
Kyle era muito simpático, engraçado e bonito. De todos os namorados da Babi, ele era o que eu mais tinha gostado, até agora. Porque como a Babi era muito bonita e tinha essa aparência de modelo, muitos desses meninos bossais pediam pra ficar com ela. E a Babi não tinha argumentos: ficava com qualquer um. Então, como dava para notar, ela tinha todo tipo de namorado e nem todos eles eram tão legais assim. Mas o Kyle era bacana.
Os amigos dele também eram legais, não demorou muito para nos colocarem no meio da conversa, fazendo perguntas sobre nossas vidas e tudo mais. Eles não iam estudar com a gente, como eu imaginei. Apenas o Kyle e outro cara iriam. O resto era de outra cidade, mas que vinham pra cá todo final de semana. Não demorou muito para a noite começar a virar madrugada. Luna foi a primeira a levantar bandeira branca.
- É, pessoal, tenho que ir – ela disse, se levantando.
- Ah, não vai, não – disse um dos meninos, acho que o nome dele era Juan, e ele passara o tempo inteiro dando em cima dela.
- Preciso ir, Alex me disse pra não chegar muito tarde.
- Quem é Alex? – ele perguntou no mesmo tempo em que Kyle perguntou:
- Ah, então você é a namorada do Arex?
Luna riu, mas assentiu.
- Sou, sim. E ele tá trabalhando, po. Ele me falou pra não chegar em casa muito tarde, então é melhor eu ir embora... É melhor evitar briga, né?
- Tá certo, tá certo – o Kyle disse, balançando a cabeça – Mas fica, po. Amanhã eu falo com ele, digo que estava de olho em tu. Fica aí.
- É, Luna, fica aí – insistiu a Julie, que estava sentada no colo de um cara bonitinho chamado Biel.
- Ah Julie, tu sabe que eu tenho que ir.
Julie fez uma careta de tristeza, mas assentiu. Alex era liberal ao ponto de deixar Luna ir para algumas festas sem ele, mas sempre pedia para que ela não bebesse muito e que chegasse cedo. Todas nós entendíamos o ponto dele, afinal Alex ficava trabalhando num restaurante enquanto Luna se divertia, mas Julie sempre tentava pedir para que ela ficasse. Acho que no fundo ela preferia que Luna fosse solteira.
Umas duas horas depois, Julie e Monna foram embora também, então ficou apenas eu, Babi, Kyle e os meninos. E depois de trinta minutos os meninos se despediram, Babi já estava podre de bêbada e eu não queria ir para casa. Não tinha bebido quase nada, e ainda não tinha dançado – pra mim, uma festa só vale a pena depois que você dança – então eu deixei Kyle e Babi ficarem se pegando e fui lá para dentro.
A maioria das pessoas já tinham ido embora e a fumaça dos cigarros tomava conta do ar. Dançar era uma das coisas que eu mais amava. Deixei a batida da música entrar na minha mente, fechei os olhos e comecei a me movimentar lentamente.
Não sei quanto tempo passei ali, talvez o bastante para fazer as sandálias machucarem meus pés e metade das pessoas irem embora. Estava morrendo de sede e precisava tomar alguma coisa, mas não conhecia ninguém ali. Foi então que eu reconheci o Kyle, sem camisa, segurando uma garrafa de Absolut Vodka. Ele me viu e veio caminhando até mim.
- Vai uma dose?
Sorri.
- Mais de uma pode ser?
- Claro.
Eu virei três doses de uma vez só, era uma delícia. Kyle virou mais uma, olhando pra mim e rindo.
- E olha só, a que parecia ser a mais quietinha, é a mais forte.
- Serenidade não significa fraqueza, Kyle. E o melhor agressor é aquele que ataca em silêncio.
- Verdade – ele se serviu e virou de novo, nós estávamos compartilhando o mesmo copo.
- Cadê a Babi?
Ele começou a rir de novo.
- Já foi pra cama, não aguentou.
- Mas ela está bem?
- Claro. Só não vai estar bem amanhã, quando a ressaca bater.
Cada um tomou mais uma dose. A garrafa ainda estava na metade.
- Vamos secar? – ele propôs.
Assenti e tomei mais outra dose, não sabia de onde vinha tanta coragem. Agora estava começando a descer ardendo pela minha garganta.
- Não tem nada pra misturar, não? – perguntei.
Kyle riu e deixou a garrafa comigo enquanto ia dá uma olhada na mesa, em busca de algum energético.
- Acabou tudo. Uns carinhas até tentaram pegar a garrafa da minha mão, mas eu dei logo a ideia e eles se saíram.
- A bebida é nossa – eu disse, sorrindo.
- Claro.
Mais ou menos meia hora depois, nós secamos a garrafa. Mas era estranho ficar ali no meio da pista de dança com o Kyle, porque ele não dançava. Não fazia nada, apenas ficava lá, paradão, olhando para os lados e bebendo. Aquilo começou a me incomodar um pouco... tipo, qual é o problema daquele cara? A música eletrônica que estava tocando era tão contagiante que eu simplesmente não conseguia ficar parada. Como ele não sentia vontade de dançar?
- Você não dança?
Kyle negou com a cabeça.
- Não gosto.
- Esse não é seu tipo de música?
Ele negou de novo. O clima ficou estranho. Kyle, que só sorria e distribuía simpatia, de repente ficara mudo. Mas eu não demonstrei nada. Continuei a dançar, porque foi por isso que eu vim. Monna vem para as festas para beber, Julie vem para ficar com alguém... eu sou mais como a Luna, que vai para as festas para dançar até cansar, sentar e depois ir dançar de novo.
- Eu gosto de rock, tá ligada?
- Ah, entendi. Então... você toca alguma coisa?
Kyle arregalou os olhos pra mim e imediatamente eu me toquei no duplo sentido da minha pergunta.
- Opa, cuidado com o que vai responder! Eu quis perguntar se você toca algum instrumento.
Ele começou a rir e voltou a ser o Kyle de antes.
- Não, não toco nenhum instrumento. Mas tenho vontade de aprender baixo, guitarra ou batera.
- E violão?
- Não. Violão é coisa de gay.
Comecei a rir.
- Pois eu tenho vontade de aprender violão...
- Ah, qual é! – ele gritou – Isso é tão... tão gay!
- Ai, para! Não é gay. É só que... eu sou uma pessoa muito agitada, sabe. E violão é um instrumento que produz um som capaz de acalmar as pessoas. Acho que isso é um desafio pra mim; fazer alguma coisa calma.
Durante todo o meu discurso, o Kyle ficou negando com a cabeça, mas não falou nada. Ficamos ali por mais uma hora, até que o primo da Babi colocou todo mundo pra fora porque a bebida tinha acabado.
Das poucas pessoas que ainda estavam ali, eu conhecia a minoria, mas o Kyle parecia conhecer quase todos. Ele já estudou na escola particular de riquinhos, por isso era bem popular e logo arranjou uma turma. Eles iam sair para continuar a beber, mas eu não aguentava mais. Não estava bêbada, mas me sentia tonta e também já estava cansada de tanto dançar.
Me despedi do pessoal e fui pra casa, afinal amanhã o dia seria longo.
Fale com o autor