Ariel Lamour
2 Capítulo Segundo
Notas iniciais
O colégio onde eu estudava era estadual, com apenas doze salas, uma pequena biblioteca, com um refeitório pequeno e medíocre e com mais ou menos quinhentos alunos ao todo – sendo que a maioria estudava no turno da manhã. Eu e meus amigos estudávamos no período vespertino por isso podíamos ficar em festas até tarde da noite. Eu particularmente era a última a chegar. Por isso quando coloquei os pés na sala que frequentaria todos os dias pelo resto do ano, todo mundo se virou para me olhar.
Havia mais ou menos umas vinte pessoas ali, a maioria sendo meninas. Minhas amigas estavam sentadas no fundo da sala, junto com o Kyle e mais alguns outros garotos que eu não conhecia. Elas não estavam sorrindo para mim como eu imaginei que estaria; estavam me encarando como todo mundo. Comecei a me olhar para ver se havia alguma coisa de errado comigo. Meu cabelo – negro e grosso – estava naquele estado pós-festa, mas não estava tão mal assim. E eu estava usando uma calça jeans bonita, com a minha mochila pendurada em apenas um ombro. Não havia nada de errado comigo, pelo menos não por fora.
Então ignorei as encaradas e entrei. Havia uma cadeira reservada para mim – sempre havia – entre Luna e Babi. Logo fui apresentada aos dois meninos: Chris, um moreno alto que usava óculos e Luke, mais baixo e meio achatado, que fazia muitas piadas. Estavam todos falando sobre a festa, é claro, por isso fiquei quietinha no meu canto, porque não gostava de ficar falando sobre as coisas que já tinham acontecido.
Eu meio que só despertei quando o Kyle se inclinou por cima da Babi para falar comigo.
– Conseguiu chegar em casa?
Sorri.
– Claro. Depois da terceira tentativa.
Ele sorriu também, porque sabia que eu estava zoando.
– Eu devia ter me oferecido pra te acompanhar até metade do caminho, mas eu também já estava meio bêbado, então só ia atrapalhar.
– Ah, ia ser de boa. Melhor companhia de bêbado do que companhia nenhuma.
Ele riu
– Ahhh, na próxima vez eu te deixo na porta da tua casa só pra poder te fazer provar do prazer que é a minha companhia.
– Nossa, que honra.
– Quer dizer que todo mundo ficou curtindo na minha festa enquanto eu morria aos poucos? – perguntou a Babi, fingindo estar brava.
– Epa! – disse Luna – Eu fui embora quando você ainda estava sã.
Babi e Kyle começaram a rir. Eles combinavam juntos, porque ambos eram meio idiotas. Mas antes que nós pudéssemos continuar conversando, um homem alto e magro usando uma camisa de botão entrou na sala.
Ele se apresentou, mas eu meio que esqueci seu nome no segundo seguinte e passei a me referir a ele como O Professor de Filosofia. Ele ficou falando algumas coisas sobre o que iriamos estudar na sua matéria e logo em seguida nos liberou. Isso sempre acontecia no primeiro dia de aula, não importa em qual ano escolar estivéssemos. O professor fazia algum joguinho para saber o nome dos alunos, falava um pouco sobre si mesmo e sobre sua matéria, e então nos libera.
– O que a gente vai fazer agora? – perguntou Julie. Ela nunca queria ir pra casa, porque a situação era complicada lá. Julie não se dava muito bem com o pai porque não tinha paciência para cuidar do irmão mais novo e seu pai tratava isso como se fosse a pior coisa do mundo.
– Eu tenho que ir pra casa – disse a Monna . Ela era o contrário da Julie. Não gostava muito de sair com o pessoal quando éramos liberados do colégio, e nem mesmo aos fins de semana. Ela era mais do tipo caseira.
– Eu também vou pra casa – declarou Luna.
– Olha aí o mal – reclamou o Kyle – Bora lá pra casa, a vea saiu e o Sapo Cego deve tá no colégio.
Babi fechou a cara.
– Quem é véa e quem é Sapo Cego? – perguntou a Julie.
– Véa é a minha mãe e Sapo Cego é o meu irmão.
– Por que Sapo Cego? – perguntei.
– Porque ele nunca viu perereca.
Todo mundo começou a rir, menos a Babi.
– Ave Maria, Kyle! Tadinho.
– Oh, e eu tenho culpa? Eu tentei ensinar as tretas pra ele, mas o moleque é burro.
– Quantos anos ele tem? – perguntou Luna.
– 16, eu acho.
– E quantos anos tu tem, menino? – perguntei, porque todos nós ali tínhamos 16, menos a Julie que era um ano a mais e o Luke que com certeza já era maior de idade.
– 18 – ele respondeu, com um sorriso malicioso.
– Já pode ser preso, esse vagabundo – retrucou a Babi.
– Por excesso de beleza, é, posso.
Todo mundo riu mais uma vez. O Kyle tinha isso de fazer todo mundo rir das coisas que ele dizia.
– Mas é sério, bora lá pra casa.
– Vai ter alguma coisa pra comer? – perguntou o Chris.
– Minha casa não é restaurante.
– Nossa, que delicadeza – murmurei.
Kyle não disse nada, mas piscou pra mim.
A casa dele ficava na mesma rua do colégio, só que bem pra baixo. O sol estava escaldante, então pareceu ser mais longe do que era na verdade. Tinha uma garagem com uma rede e cadeiras confortáveis e aquele pareceu ser o lugar mais perfeito do mundo. Eu estava completamente suada, então quase chorei de gratidão quando o Kyle entrou lá dentro e voltou com o pote de sorvete lacrado e oito colheres na mão. Ninguém disse nada, apenas caímos matando.
Quando o sorvete finalmente acabou, começamos a conversar sobre nós mesmos. Coisas básicas sobre a nossa vida, lembranças engraçadas e tudo isso.
– Kyle, onde é o banheiro? – perguntei.
Ele fez cara de tédio, mas se levantou para me acompanhar. O interior da casa era grande e espaçoso, com móveis perfeitamente bem posicionados. O banheiro ficava num corredor perto da cozinha. Antes que eu entrasse, o Kyle segurou meu braço com uma mão e com a outra ele tocou meu pescoço e na parte de baixo do meu queixo.
– Que porra é essa no teu pescoço?
– Do que é que você tá falando?
Ele me empurrou pra dentro do banheiro e entrou junto, me colocando na frente do espelho. No local a onde ele tinha tocado havia marcas de arranhões recentes, ainda um pouco avermelhados. Era por isso que todo mundo ficou me encarando.
– Não é nada – eu disse, e tentei empurrar o Kyle para fora do banheiro, mas ele tinha mais força que eu.
– Nada é o caralho.
– Você não tem o direito de me perguntar nada. Eu te conheci ontem.
Ele fechou a cara na hora. Me espremi e passei por ele, pelo corredor e fui pegar minha mochila na garagem. Usei uma das mãos para cobrir as marcas no meu pescoço, mas não adiantaria de nada, uma vez que todo mundo já tinha visto. Claro que todo mundo percebeu que alguma coisa aconteceu, minha cara me entregava. Mas mesmo assim peguei minha mochila em silêncio e quando estava quase saindo, o Kyle apareceu na porta.
– Fica.
– Fica é o caralho – eu disse, apesar de tudo, com toda a calma do mundo – Eu tenho que ir.
– Oxe Ariel, o que foi? – perguntou a Julie.
– Nada.
– Ariel – repreendeu Luna. Ela era minha melhor amiga, era a pessoa que eu mais confiava no mundo. E certamente ela sabia de onde veio essas marcas. Mas então porque ela não entendia que eu tinha que ir embora?
Respirei fundo e tentei não me entregar.
– Kyle tentou te agarrar lá dentro? – perguntou o Chris, rindo.
– Cala boca, porra. Deixa de ser idiota! – eu nunca havia visto o Kyle falar daquele jeito.
– Não, idiota. Eu só lembrei que tenho um compromisso – eu não estava convencendo ninguém – É sério, pessoal. Foi mal aí, a gente se vê depois.
Eu não queria ir pra casa, mas tinha que ir. Precisava resolver esse problema.
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