Are You Afraid Of The Dark?
5 - Did You Save My Life? - No, The Easter Bunny.
Notas iniciais
A chuva fina batia na janela do quarto do Jeremy, ele estava lá com a testa encostada contra o vidro frio tentando enxergar alguma coisa através da névoa. Estava quase na hora de ir pra escola, mas ele havia acordado muito antes disso por causa de um pesadelo horrível. Ele não lembrava completamente agora, mas era algo como ele, Melanie e Ester nas margens do Tâmisa, alguém estava se afogando lá, mas parecia que ninguém podia fazer nada, e o Jeremy sentia como se seu coração estivesse se afogando junto com aquela pessoa. Ai ele acordou assustado.
Don’t wanna be na american idiot…
– Droga. – ele resmungou ao som do despertador que tocava uma música do Green Day.
Jer nem mesmo gostava de Green Day, mas desde a ultima vez que a Ester tinha dormido na casa dele, ela disse que não podia mais ouvir aquela música do AC/DC, então trocou por American Idiot que era uma das favoritas dela.
Foi andando pelo quarto procurando uma roupa qualquer pra ir à escola, depois entrou em baixo da ducha quente.
‘Que dor de cabeça dos infernos. ’ – pensou enquanto a água quente caia por sobre os ombros. ‘Chapar em plena terça-feira á tarde não é realmente muito legal. ’
Na noite passada ele havia saído com uns amigos e eles tinham 10g de maconha, todos acabaram muito doidões pelo centro da cidade, até que o Nick apareceu saindo de não sei onde e rebocou Jeremy pra casa.
Terminou o banho, vestiu a roupa e saiu pra tomar café, quando passou pelo corredor viu a foto dele e a mãe quando ele ainda era pequeno.
– Sinto sua falta... – falou baixinho tocando na moldura do retrato.
A mãe dele havia morrido há três anos em um acidente de carro, uma nevasca horrível em Los Angeles jogou o carro que estavam ela e o pai do Jeremy no outro sentido da pista, uma carreta veio e atingiu em cheio o lado do motorista que era onde ela estava. Morte instantânea.
– Você tá horrível. – falou uma voz grave e conhecida atrás dele.
– Obrigado pai, o senhor também não está nada mal.
– Sempre o velho tonzinho de sarcasmo né? – perguntou o senhor Garcia sentando em frente dele na mesa e abrindo o jornal.
– Ér, eu tento... – disse Jeremy dando a ultimo colherada na tigela de cereal e se levantando.
– Quando você voltar nós temos que conversar.
– Eu já disse que não vou fazer arquitetura, e não é você que vai me obrigar! – falou o Jeremy jogando a mochila nas costas e indo pisando duro pra porta da frente. – Que droga, ele não desiste nunca? – resmungou pra si mesmo quando já estava no meio da rua.
O pai de Jeremy era dos arquitetos de mais sucesso em Londres, e, por isso, queria que ele, o único filho, assumisse um lugar na empresa quando terminasse a escola. Mas Jeremy odiava tudo aquilo, projetos, cálculos, mais projetos... Ele queria mesmo era estudar filosofia em Oxford ou Harvard. Certo que ele não era um aluno exemplar, mas ele realmente se esforçava. Só tinha uma coisa nas aulas que era o que conseguia distrair ele de uma forma bastante, digamos... Distrativa.
Depois de uma caminhada de vinte minutos ele parou em frente à London High School. ‘Nome criativo pra uma escola... ’ – pensou enquanto passava pelos portões. Foi andando a esmo pelos corredores até parar em frente ao seu armário de ferro azul. Ele com certeza já estava atrasado, — observou. — não tinha basicamente ninguém á vista no corredor. Pegou alguns livros e saiu apressado pra classe de Física.
Chegou em frente a porta, espiou pela janelinha e viu que o professor ainda não estava lá. Abriu a porta e olhou diretamente pra trás, como de costume, lá estava Ester em uma mesa na penúltima fileira de cabeça baixa rabiscando alguma coisa e com fones no ouvido. Saiu andando pelas fileiras com um sorrisinho bobo no rosto, ela nem o notou antes dele passar um braço pela sua cintura, arrancar o lado direito do fone e sussurrar no seu ouvido: — Se você não falasse em intervalos regulares eu realmente pensaria que você é um zumbi.
Ester deu um pulo quando ele encostou a mão gelada por debaixo da sua blusa, mas deu uma risadinha quando ele fez o comentário espertinho. – Como você sabe que eu tô ouvindo essa música? – perguntou dando um tapa na mão do Jeremy pra ele a soltar.
– Ouvi a três mesas daqui, sabe, Zombie já não é um tom baixo por natureza e você ainda bota a música no ultimo volume, ai fica difícil. – respondeu ele sentando ao lado dela e a fitando.
‘Deuses de todas as culturas ao redor do mundo, ela é linda pra cacete.’ – pensou quando deu uma boa olhada nela. Mesmo de short curto, All Star azul celeste, blusa preta que era no estilo de um espartilho e casaco comum também preto ela parecia maravilhosa. O que mais chamava atenção era os seus olhos, não naturalmente, mas porque a maquiagem dela era só um pouquinho mais leve que a da Taylor Momsen que contrastava com os olhos castanhos avermelhados e a pele morena, tipicamente brasileira. No sol, quem olhasse pra os olhos dela poderia bem pensar que vampiros existiam de verdade, e que o poder de hipnose deles nunca foi tão vivo. Desde a primeira vez que Jeremy viu Ester pensou no quanto ela era linda e meio problemática, do tipo independente e que está se fudendo pra o que os outros pensam. Não poderia estar mais certo.
– Por que tá me olhando com essa cara de idiota? – ela perguntou franzindo levemente a testa.
– Aah, ér... – falou ele, agora notando que deveria estar parecendo realmente bastante estúpido com o queixo apoiado na mão e olhando fixamente com a boca aberta pra ela. – Não é nada. Olha o professor chegou. – disse agora virando pra frente e espantando de súbito os pensamentos sobre Ester da cabeça. ‘Vocês são só amigos, só amigos. Ela estava drogada quando beijou você naquele banheiro. Pra quê querer ela? Ela não é pro seu bico, vai acabar te levando pra se jogar da ponte sobre o tâmisa’ – Falou pra si mesmo enquanto abria o caderno e começava a copiar a matéria do quadro.
– Dormiu bem hoje? – Ester perguntou virando pra Jeremy.
– Por que a pergunta?
– Você tá com uma cara péssima de quem não dormiu nada, e, eu te conheço Jer.
– Ok, — disse ele com um suspiro. — não dormi nada mesmo, tive pesadelos, e, além disso, o meu pai já vinha querendo encher o saco plenas 7:30h da manhã.
– Entendo...- disse ela olhando pra o caderno na sua frente. — Mas como eu já disse, tudo vai ser resolver ok? – falou agora levantando o olhar pra ele e dando um daqueles sorrisos que o Jeremy mais amava e depois levando a caneta à boca pra roer a tampinha.
O sinal anunciando o fim da aula tocou, fazendo Jeremy e Ester quebrarem o contato visual.
– Próxima aula é de...? – perguntou ela recolhendo a bolsa e o caderno e levantando da mesa.
– História. – disse ele e os dois fizeram um barulho saído do fundo da garganta parecido com ‘aargh’, que queria dizer algo como: Odeio essa porra de aula porque é entediante até não poder mais.
Os dois foram se encaminhando pra aula de história, eles faziam essa junto com a Melanie, mas ela não estava lá. Pelo visto tinha faltado à escola. Sentaram em uma das mesas do fundo como de costume.
– Por que será que a Mel não veio? – perguntou a Ester.
– Deve ter perdido a hora. – respondeu o Jeremy.
– Bem provável. Meu pai, os nossos amigos são uns malditos preguiçosos. – disse ela com cara de indignada. — Eu bem queria ter faltado hoje também... – continuou, agora fazendo uma expressão de quem estava pensando seriamente em faltar à escola pro resto da vida.
E os dois caíram na gargalhada, que, como sempre, a qualquer sinal de piadinha idiota eles já estavam rindo.
– Tudo bem, vocês já podem calar as queridas boquinhas agora. – disse uma voz vinda do começo da sala, interrompendo os risos que ainda rolavam do Jeremy e da Ester.
– Ui, chegou o carrasco. – disse o Jer fazendo uma cara de quem estava com medo, o que provocou mais risadinhas dela.
– Eu disse calados, ou a senhorita Mc’Adams gostaria de vir dar a aula hoje? – perguntou o senhor Farias agora fulminando ela.
– Não professor, que é isso. Já parei ok? – respondeu ela, Jeremy reparou, agora genuinamente assustada. Ele sabia que a Ester odiava ser o centro das atenções, e ir pra frente de uma classe lotada era uma personificação em proporções menores desse pesadelo dela.
– Que bom. Então vamos começar agora com a formação dos Estados Unidos, abram os seus livros na página 324. – falou o professor agora se virando de volta pra mesa dele pra abrir o livro, mas os dois não deram à mínima. Ao contrário, Jer só abriu o livro, depois arrancou uma folha do caderno e começou a escrever.
‘Acho que já está na hora de você superar esse medo de pessoas sabia?’
Jeremy passou a folha pra Ester que escreveu em baixo:
‘E eu acho que você deveria cuidar um pouco menos da minha vida. ’
‘Ha-ha-ha como se isso fosse realmente possível, já que a cada passo que você dá parece acarretar algum tipo de desastre natural’
‘Sério? Me diz um exemplo de desastre que eu causei?’
Jer ficou tentado á escrever um: O maior de todos foi ter me feito se apaixonar por você, mas se conteve, já que ele não fazia ideia do que ele próprio estava sentindo por ela. Então escreveu:
‘Não se faça de desentendida mocinha, você sabe muito bem. ’
Assim se passou a aula de história, com eles dois discutindo por bilhetinhos enquanto o professor explicava a matéria. Jeremy tinha certeza que ia se arrepender de não ter prestado atenção nessa aula na hora de fazer as provas depois, mas por hora não estava nem ai. Ai o sinal anunciando o fim da aula soo e a voz do diretor se sobressaiu a toda a barulheira vinda dos alto-falantes.
– Só queria avisar que todos os alunos do ensino médio estão liberados, nós vamos ter que fazer uma lavagem em algumas salas de aulas porque os alunos de 1º e 2º anos conseguiram fazer um desastre maior que o esperado nas aulas de Química I e Química avançada... Bom é isso.
Então uma explosão de vivas pela escola toda, e no momento seguinte Ester e Jeremy estavam no portão principal da escola.
– Bom, eu vou pra casa. – disse ela.
– Eu também, a gente se vê depois ok? – falou ele se inclinando pra beijar a bochecha dela. Mas Ester virou e arrepios correram pelo corpo dele quando ela botou a mão na sua nuca e encostou os lábios levemente nos dele.
– Se cuida ok? – falou, depois sorriu e foi embora pelo caminho oposto ao de Jeremy, que poderia ter ficado lá, parado o dia inteiro sentindo toda a sua razão escorrer pelos ouvidos.
Ela me beijou – pensou. – Por livre e espontânea vontade, sem a presença de álcool ou drogas no organismo. Meu Deus, o que isso quer dizer?
Mas o bip de mensagens do celular do Jeremy o arrancou do sonho, era uma mensagem do seu pai, pedindo pra ele ir pra casa assim que desse. E lá foi ele, pelo caminho pensando na Ester, mas quando chegou no portão de casa teve que espantar esses pensamentos da cabeça.
– Cheguei! – gritou do hall de entrada.
– Aqui na cozinha. – gritou o senhor Garcia de volta. – Matou aula foi? – perguntou ele com uma sobrancelha levantada pro Jeremy.
– Não, a gente foi liberado mais cedo. – respondeu. – o que você quer?
– Não fale comigo nesse tom de voz mocinho. De qualquer forma, nós precisamos falar sobre o seu futuro.
– Meu futuro, ou o futuro que você jura que eu quero? – disse o Jeremy encarando o pai nos olhos ainda em pé na porta da cozinha.
– O futuro que eu sei que é melhor pra você!
– Não, nós já discutimos isso antes pai, eu não vou fazer isso! Eu não sou um boneco manipulável, eu não sou você. – falou o Jeremy se virando de volta pra porta.
– Ainda bem que a sua mãe não está aqui pra ver no que você se tornou. – disse o Senhor Garcia já irritado com o filho e levantando da cadeira.
– É, AINDA BEM QUE ELA ESTÁ MORTA NÉ?
– Não... Não foi isso que eu quis...
– Tchau pai.
Então Jeremy saiu caminhando embaixo de uma chuva torrencial que agora começava a desabar sobre Londres, estava muito frio, mas ele não se importava. Quem o pai dele pensava que era pra querer que ele seguisse os seus passos? Quem ele pensava que era pra querer manipular o Jeremy? E o pior é que essa não era nem a primeira, nem seria a ultima discussão sobre esse assunto entre eles. Porque ele simplesmente não aceitava que ele não iria ser um executivo estressado e que não parava em casa pra nada?
Quando Jeremy se deu conta, estava em um lugar em Londres que era um dos seus favoritos. Tinha um banco de madeira, e lá em baixo dava pra ver um rio, um dos únicos não poluídos da cidade, as águas estavam revoltas por causa da chuva. Era basicamente uma ribanceira até lá em baixo. Ele mandou uma mensagem pra Ester dizendo onde estava e se ela poderia encontrar ele, e depois ficou lá, parado, em baixo da chuva por uns bons cinco minutos sentindo que era capaz de o celular ter perda total de tão molhado que ele estava, mas ele nem ligava pra isso no momento.
Quando ia sentar, sentiu uma coisa deslizando sob os seus pés, e no momento seguinte estava rolando encosta abaixo, como um simples brinquedinho. Ele ia batendo na terra dura e molhada, e antes que pudesse calcular o quanto estava dolorido e por sorte ainda vivo, já que era uma queda e tanto, ouviu um alto e todo poderoso barulho de alguma coisa batendo em água. Todos os músculos dele gritaram em protesto diante do frio congelante que fazia dentro do rio, as águas turvas o jogavam de um lado pra outro enquanto ele tentava desesperadamente emergir, mas sem sucesso nenhum. Jeremy sentiu seus pulmões sendo inundados, não conseguia ver ou sentir mais nada além de dor. Parecia que ele ia explodir, então ele notou que não estava mais dentro do rio, simplesmente parou de sentir a água ao seu redor. ‘Mas se eu estou morto, porque ainda dói tanto?’ – pensou.
– SEU DOIDO, QUER ME MATAR DO CORAÇÃO? SEU CARALHO! O QUE PENSOU QUE ESTAVA FAZENDO? PORRA JEREMY, NUNCA MAIS FAZ ISSO COMIGO! – ele ouviu essa voz gritando, mas não conseguia distinguir de quem era ela, só sentiu um peso em cima do peito e depois ele botou toda água que deveria estar ali dentro pra fora, tossindo e tossindo.
– Mas, o que...? – ele tentou dizer e abrir os olhos, mas só via tudo turvo ainda, e a voz não saia direito.
– MEU PAI, GRAÇAS A DEUS VOCÊ AINDA TÁ VIVO, EU QUASE MORRO QUANDO VI VOCÊ CAINDO DESSA RIBANCEIRA!
– Es... Ester? Você me tirou de lá?
– NÃO, O COELINHO DA PÁSCOA! – Ela respondeu e ele finalmente conseguiu ver alguma coisa. Lá estava Ester, sentada do seu lado, completamente enxarcada e toda se tremendo pelo frio.
Jeremy conseguiu se sentar com dificuldade, mas se arrastou pra mais próximo dela e a abraçou.
– Obrigado, por me salvar. – murmurou.
– E eu tinha escolha? Idiota... – então ela se virou pra o olhar, e Jeremy sentiu o seu cérebro de novo como se estivesse derretendo, porque Ester o empurrou pelos ombros, ele caiu deitado, ela passou as pernas por cima dele e o beijou docemente. – Nunca mais me dá um susto desses ok?
– Ok, eu prometo. – e a beijou de volta.
Jeremy não sabia que horas eram, até porque não sentia mais o celular no bolso, ou o que ia acontecer depois, só sabia que estava ali, embaixo da chuva sob o céu londrino, beijando a sua melhor amiga.
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