Arcanum

7 O Condenado


Cinderhelm era uma cidade que nunca dormia, mas naquela manhã, seu pulso parecia preso a um compasso silencioso e pesado. Os céus estavam cinzentos, como sempre, cobertos por um manto de poluição e neblina artificial. E ainda assim, lá estava ele: Alexandros Carbone, com seu habitual casaco escuro alinhado sobre a camisa de punhos altos, botas engraxadas refletindo o chão metálico das passarelas elevadas, e o olhar fixo no horizonte tóxico da capital da invenção. Os olhos dele, de um azul tempestuoso, pareciam sempre refletir algo que não estava presente — seja um passado mal digerido, ou um futuro que só ele pressentia.


Seu cabelo azul, preso num coque baixo e limpo, contrastava com sua pele clara e sem marcas visíveis — as cicatrizes reais estavam escondidas sob camadas de compostura e tecido. Pietersita, sua ave de rapina reluzente, o acompanhava de longe, empoleirada em uma barra lateral da estrutura da refinaria como se também supervisionasse o local.


Ao seu lado, a passos lentos e gestos calculados, andava Caesar Carbone, o meio-irmão mais velho. Caesar vestia um traje executivo mais tradicional, mas ainda assim com traços mecânicos visíveis nos ombros e braços da roupa — vestígios de reforços industriais discretos, comuns para quem precisava transitar entre escritório e setor fabril. Seu rosto estava tão sério quanto cansado.


Eles percorriam juntos o Complexo Termoelétrico Mirafonte, uma das instalações mais antigas da EosMist, a joia energética da família Carbone. Turbinas, tubos, câmaras de fusão de carvão mineral, depósitos e os altos trilhos por onde caminhavam compunham o núcleo da refinaria. Tudo operava com precisão cirúrgica. O ronco grave das máquinas e a sinfonia dos painéis e relés davam àquela estrutura um som vivo — um monstro adormecido que devorava carvão e vomitava energia.


Alexandros se abaixou para ajustar uma válvula à mostra com um estalo seco dos dedos. Uma reação elétrica percorreu a superfície, corrigindo uma irregularidade detectada por ele no som da máquina. O engenheiro responsável, que os seguia em silêncio, soltou um suspiro aliviado.


— Tudo está fluindo como deveria — disse Alexandros, sem se vangloriar. Era um fato. A EosMist estava operando em capacidade máxima.


Mas Caesar franziu a testa. Passou a mão no rosto e, pela primeira vez naquela manhã, permitiu-se mostrar a verdade: o cansaço.


— E ainda assim, nada disso parece suficiente.


Alexandros ergueu uma sobrancelha. Eles andaram mais alguns metros antes que ele perguntasse, como quem já sabia a resposta:


— Isso é por causa do que aconteceu com o Núcleo Arcanum, não é?


Caesar riu, mas o som saiu mais como um arfar seco.


— Você não precisa ser um mago para adivinhar isso, Lex.


O mais velho se encostou contra o corrimão da passarela suspensa e encarou o enorme emaranhado de engrenagens funcionando perfeitamente abaixo deles. Parecia que o mundo inteiro estava em sincronia — menos ele.


— Desde que os Altharion receberam a moção para liderar o desenvolvimento do projeto, nossas ações começaram a despencar. Aquele cristal... aquele maldito cristal... — murmurou Caesar, olhando o nada. — A máquina deles gera energia própria, refina seu próprio núcleo, e dispensa qualquer infraestrutura externa. Não precisa da EosMist. Não precisa de ninguém.


Alexandros cruzou os braços.


— E dizem que tem gente querendo usar isso como base pra criar energia sem fio — completou.


Caesar assentiu devagar.


— Se eles conseguirem, Lex, ninguém mais vai querer usar dutos, redes ou distribuidores. Vamos estar obsoletos em cinco anos. Isso se não nos enterrarem antes com as especulações.


Houve um silêncio, pesado como a fumaça que saía das chaminés do complexo. O som dos motores abaixo rugia como um lembrete cruel de uma glória que poderia desaparecer em breve.


Alexandros tentou quebrar o clima com um meio sorriso.


— Podemos vender nossos nomes como ingrediente para chá. “Carbone: amargos, porém sofisticados”.


Caesar soltou um riso curto, surpreso pela quebra de tensão.


— Você sempre teve esse dom, não é?


— É o mínimo que posso fazer.


Caesar se calou, mas sorriu com uma pontinha de tristeza. O sorriso se desfez logo.


— O que me mata mesmo, Lex... não é o colapso da empresa. É o esquecimento.


Alexandros virou o rosto para o irmão.


— Adam?


Caesar assentiu.


— Faz dois dias que o desgraçado desapareceu. Dois. Ele tinha acabado de apresentar o Núcleo ao Conselho no Big Bang e puff... sumiu. E já estão tratando como se estivesse morto. Como se ele fosse apenas mais um passo na escada de alguém.


Os olhos de Caesar ardiam de indignação. Ele olhou para Alexandros e, pela primeira vez, parecia procurar apoio. Não técnico. Mas humano.


— Parece que genialidade só vale até você se tornar um obstáculo para o lucro.


Alexandros não disse nada. Apenas olhou para o horizonte de fumaça e prédios metálicos que se estendia para além das refinarias.


— O que eu ainda não entendo — Alexandros começou, franzindo o cenho — é como o projeto sequer foi parar nas mãos dos pais de Adam para começar. A propriedade intelectual era dele, não?


Caesar soltou um suspiro irritado, olhando para os trilhos de vapor que serpenteavam sobre as turbinas como veias vivas de metal.


— Não foi um erro. Foi uma brecha. Código Industrial, artigo cento e vinte e sete. Uma lei velha como a própria capital. Segundo ela, se um inventor "morre" e não há registro de sucessão contratual, o direito de exploração recai sobre os tutores legais ou, na ausência de cláusula de exceção, os ascendentes diretos.


Alexandros piscou, incrédulo.


— Você está de brincadeira. Isso ainda está vigente?


— É o tipo de coisa que ninguém lembraria. Eu mesmo só redescobri porque foi citado no editorial da Gazeta de Cinderhelm de ontem. — Caesar estreitou os olhos. — E sabe quem forneceu o trecho legal diretamente à redação? Blackwell. O canalha devia estar com essa carta na manga há tempos, se precavendo pra esse tipo de sabotagem.


O nome fez a garganta de Alexandros secar por um segundo. Blackwell. Um magnata do setor de catalisadores, além do principal fabricante de armas de fogo de todo o reino, um homem que entendia o poder da indústria como uma ferramenta de guerra.


— E ele é quem mais investiu no projeto — Caesar continuou, com um riso amargo. — Enquanto todos achavam que a Era dos Catalisadores estava acabando, ele estava comprando as fábricas falidas, pressionando os laboratórios menores, contratando propagandistas. Agora que o Núcleo Arcanum promete cortar as amarras das fontes externas de energia, ele é o dono do grilhão que todos vão querer vestir.


— Miserável esperto. — Alexandros tamborilou os dedos no corrimão de ferro. — E agora? Ele vai mirar em nós?


Caesar não respondeu de imediato. Ele apenas olhou para o irmão mais novo, o rosto antes cansado agora tomado por algo mais frio.


— Com os Altharion se unindo ao Conselho das Máquinas oficialmente, e Adam fora de cena... Blackwell não só vai, como já está mirando na EosMist. E você sabe por quê.


— Nosso pai. — Alexandros disse, com a voz abaixando. — Eles já eram rivais… Ouvi um pouco a respeito no diretório.


— Eles quase se mataram em uma reunião do Conselho das Máquinas, vinte anos atrás. Blackwell tinha insultado o papai como antiquado nos métodos da empresa. Aquilo nunca terminou em paz. E agora, sem o diplomata da nova geração dos Altharion... — Caesar fez um gesto vago no ar. — Não há ninguém para manter o monstro sob rédeas.


Alexandros olhou para o horizonte de aço e vidro, onde as chaminés desenhavam um céu mais negro que qualquer tempestade. Por um instante, ele parecia mais velho do que era.


— Desde quando você pensava em usar Adam como aliado?


Caesar hesitou. Depois, respondeu:


— Nós já éramos. — Ele olhou direto nos olhos do irmão. — De onde você acha que veio tanta energia limpa, tanta estabilidade na matriz dele? Você viu os gráficos. Nada disso fecha a conta... sem uma refinaria por trás.


— Você acobertou a taxação dos Altharion...?


— Em troca da garantia de proteção, sim. Adam queria paz entre nossas famílias. Eu queria evitar guerra. Acreditamos que o projeto seria revolucionário, mas equilibrado. Agora, com ele desaparecido... é só desequilíbrio.


Alexandros respirou fundo. Seus dedos apertaram o metal sob as luvas até rangerem.


— Ainda há uma chance. Se Adam aparecer de novo... ainda é dele. A autoria ainda dá o direito de revogação da moção. Nem o Conselho pode passar por cima disso, certo?


Caesar assentiu lentamente.


— Correto. Mas o problema, Lex, é que ele simplesmente... sumiu. Nada. Nenhuma pista. A Guarda de Ferro está revirando Cinderhelm de cabo a rabo. Nem a Comandante Draeven encontrou algo até agora, e ela é famosa por encontrar até a agulha mais fina no meio de um monte de sucata. — O mais velho encarou o irmão com uma gravidade incomum. — A pergunta é: se nem ela encontrou, qual a real chance de Adam ressurgir?


Alexandros abriu a boca para responder, mas foi interrompido por passos apressados e ofegantes subindo a escada lateral da passarela. Um dos operários da refinaria, ainda com fuligem no rosto e os olhos arregalados, se aproximou correndo, segurando o capacete contra o peito.


— Senhores Carbone! — Ele parou, curvando-se com um suor frio na testa. — Desculpem a interrupção, mas... há um visitante.


— Visitante? — Caesar estreitou os olhos.


— Alguém... importante. Ele... ele está no setor de entrada. Disse que não aceitaria ser anunciado.


— Quem? — Alexandros perguntou, o tom firme.


O operário engoliu seco.


— Luther Blackwell. Em pessoa.


O som do nome não ecoou. Ele afundou no chão metálico da passarela como uma bomba sem estopim.


Alexandros e Caesar se entreolharam. Não disseram nada. Apenas viraram de costas ao mesmo tempo e começaram a descer os degraus, com Alexandros estalando os lábios em sinal para Pietersita levantar voo temporariamente, para evitar uma possível, e provável, confusão com o visitante especial. A última coisa da qual precisavam era um caso de ataque de uma ave de rapina contra um dos maiores barões da indústria.


Na frente da refinaria principal da EosMist, onde o vapor criava halos difusos nas laterais das chaminés e a fuligem impregnava o próprio vento, Luther Blackwell aguardava. Estava impecavelmente vestido, como um diplomata no meio de um pântano — um terno azul escuro alinhado com sobriedade, botas lustradas demais para o terreno em que pisava, e luvas negras tão refinadas que parecia crime tocá-las no ambiente industrial ao redor. Seus cabelos grisalhos estavam penteados para trás com precisão cirúrgica, e a barba aparada com elegância denunciava o cuidado de alguém que não se sujava — pelo menos, não literalmente.


Ele observava a estrutura metálica da fábrica com um misto de nojo contido e julgamento clínico. Seus olhos passeavam pelos rebites e colunas de aço com a frieza de quem calcula o peso de um cadáver. Atrás dele, sua comitiva de assistentes e guarda-costas se alinhava com milimétrica precisão. Todos usavam próteses mecânicas aprimoradas com vapor e engrenagens. O som de seus corpos era um sussurro de pressão e metal tensionado.


Quando os irmãos Carbone surgiram na passarela superior e começaram a descer os degraus, Luther os notou com um sorriso lento, controlado como uma armadilha se armando.


— Ora, ora... — ele disse, abrindo os braços como se fosse receber velhos amigos. — Caesar Carbone... e o jovenzinho Alexandros. Como vocês cresceram. — Seus olhos se demoraram no mais novo. — Principalmente você, Alexandros. Ainda que não seja... digamos, tão másculo quanto eu esperava. Mas ao menos alguém nessa família puxou o pouco que Julius tinha de decente. Não é, Caesar?


Caesar nem se preocupou em responder. Seu olhar era duro como minério bruto, o maxilar cerrado, a paciência já deixada para trás.


Alexandros, por outro lado, permaneceu impecavelmente calmo. De braços cruzados, devolveu um sorriso educado, quase entediado — o mesmo que usava quando precisavam suportar os lunáticos da aristocracia em jantares formais.


— E você continua nos presenteando com sua... diplomacia usual, senhor Blackwell. Um charme. — Sua voz tinha o tom cortês, mas os olhos azuis como o mar denunciavam sua exasperação bem contida.


— Vamos pular a parte em que você finge que é uma visita social, Blackwell — Caesar interveio com um tom ríspido. — Diz logo o que veio fazer antes que eu tenha que te chutar daqui com esses seus parafusos ambulantes.


Os guarda-costas deram um passo à frente, engrenagens se apertando em resposta. Mas antes que qualquer coisa escalasse, Luther levantou uma mão casual, como quem afasta moscas.


— Vamos manter o tom... amistoso, não é? — disse ele, lançando um olhar lateral a seus homens, que imediatamente recuaram. — Caesar sempre tão direto. Julius ficaria orgulhoso... ou envergonhado, nunca consegui distinguir bem o que ele achava de você.


Ele então deslizou os olhos de volta para ambos.


— Vim a negócios. — A frase saiu com a suavidade de veneno pingando. — Confesso que, originalmente, estava planejando algo um pouco mais... unilateral. Mas tive uma realização após uma conversa com meus conselheiros — ele sorriu de novo, como se estivesse distribuindo bênçãos. — E decidi vir aqui oferecer uma proposta de misericórdia. Um gesto nobre de um bom samaritano para dois homens que, claramente, precisam de uma mão amiga.


Alexandros e Caesar permaneceram imóveis.


— Quero assumir 75% das ações da EosMist — Luther disse como se estivesse oferecendo um gole de vinho. — Em troca, garanto estabilidade financeira nos próximos cinco anos, a adaptação completa ao modelo de energia elétrica sem fio que está para chegar, e claro... um rebranding completo. A marca continua... com outro nome. Mas os lucros, ah, os lucros... permanecerão.


O silêncio que caiu era cortante. Caesar piscou, uma única vez, antes de avançar um passo, descrente.


— Você... só pode estar de brincadeira.


— Fique calmo, Caesar. — Alexandros colocou uma mão no braço do irmão e, com um passo à frente, se aproximou de Luther com olhos mais frios do que a mais intensa geada. — Você nos oferece um negócio que equivale a roubo legalizado. Quer transformar nosso legado em rodapé na história da nova era? — Ele sorriu, com a cabeça levemente inclinada. — Isso não é proposta. É um epitáfio disfarçado.


— Ah, Alexandros... — Blackwell balançou a cabeça, desapontado. — Não é um crime reconhecer quando uma era acabou. Os geradores vão se tornar tão obsoletos quanto as tochas de Eldorwyn. Vocês estão segurando uma vela na ventania. Isso aqui — ele gesticulou com uma luva enojada para a estrutura da fábrica — vai ruir.


— Pode ser. — Alexandros deu de ombros. — Mas não será sob seu nome.


Blackwell se manteve impassível por um momento. Depois, caminhou dois passos, com as mãos nas costas, antes de se virar novamente para os irmãos.


— Recusar essa oportunidade é como assinar o atestado de falência. — Ele falou mais baixo, mas com mais peso. — Pensem em Julius. Pensem na empresa que ele construiu. Se ela cair, cairá com vocês, não comigo.


— Engraçado... — Caesar falou, agora mais calmo, embora fosse o tipo de calma que precedia um furacão. — Porque eu me lembro de Julius ter dito uma vez que preferia ver o nome dele queimado do que depender de um verme como você.


Os olhos de Luther se estreitaram. O sorriso sumiu, apenas por um segundo — revelando o que havia de verdade por trás da cortesia e da luva.


— Que pena. — Sua voz ficou seca. — Eu tentei ser gentil.


— E agora que acabou a cortesia... — Alexandros cruzou os braços. — Faça o favor de sair da minha refinaria.


Luther os olhou mais uma vez, mas não respondeu. Com um gesto sutil da cabeça, seus guarda-costas já estavam se movendo. A comitiva partiu como sombras em meio à fumaça, suas próteses chiando, seus olhos voltando uma última vez para os irmãos Carbone.


E Luther, o último a se virar, deixou uma única frase atrás de si:


— Quando a torre de vocês desabar, não esperem que alguém apareça para recolher os escombros.


Alexandros e Caesar o viram sumir pelo portão.


O silêncio que pairou após a saída de Blackwell foi mais sufocante do que qualquer fumaça vinda das caldeiras. No andar superior da administração da refinaria, o escritório do diretório era cercado por janelas metálicas amplas que ofereciam vista para os corredores fumegantes da EosMist. Ali, entre plantas industriais e modelos de expansão engavetados, o som da explosão de Caesar quebrou qualquer tentativa de calma.


— Aquele desgraçado teve a audácia de vir aqui pessoalmente...! — Caesar rugiu, girando e arremessando um pesado grampeador contra a parede de metal. — Como se essa merda toda fosse uma piada! Como se fossemos brinquedos! Aquele maldito—


— Caesar. — A voz de Alexandros interrompeu, serena e firme. Ele cruzava os braços perto da mesa de madeira escura, os olhos cinzentos repousando com frieza sobre o rastro deixado pela visita. — É exatamente isso que ele quer. Te ver assim. Nos ver desmoronando por dentro antes dele sequer mover um dedo.


Caesar parou, arfando, ainda de punhos cerrados. Seus olhos estavam injetados e sua respiração pesada preenchia o ambiente como uma fornalha fora de controle. Mas as palavras do irmão começaram a fazer efeito. Lentas, mas afiadas como uma lâmina de precisão.


— Ele veio aqui pra plantar a semente do caos. Fazer a gente parecer vulnerável. — Alexandros se aproximou devagar, sua presença como um lençol frio sobre o calor excessivo. — Não vamos dar esse gosto a ele.


Caesar caminhou em círculos antes de enfim cair na poltrona com um suspiro de derrotado. Passou as mãos pelo rosto, pela barba e pelos olhos cansados. Cada traço seu parecia mais pesado do que na manhã anterior.


— A EosMist está perdida, Lex... — murmurou. — Blackwell não teria vindo aqui com aquele teatro se não tivesse certeza. Se havia alguma dúvida de que a gente ainda tinha alguma chance... ela morreu com aquele sorrisinho dele.


Alexandros manteve-se firme ao lado da mesa. Seu olhar desceu para a planta da refinaria aberta sobre o tampo. Tocou-a com a ponta dos dedos.


— Ainda há esperança.


Caesar ergueu os olhos, exausto.


— E onde, exatamente?


— Midland. — Alexandros respondeu com precisão. — Se os números estão nos enterrando aqui, vamos buscar ar onde ainda há espaço. Expandir a EosMist internacionalmente igual a GoldenCoal. Cinderhelm pode estar se rendendo à energia sem fio, mas Eldorwyn? Eldorwyn ainda está acendendo velas pra jantar.


O mais velho soltou um riso breve, rouco, descrente — mas não totalmente fechado à ideia.


— Você sabe o custo disso? O imposto de transição no embargo de tecnologia é uma facada. Precisaríamos de um caminhão de dinheiro só pra colocar um pé em Midland.


— E nós temos esse caminhão. — Alexandros se aproximou da cadeira de Caesar, apoiando as mãos na mesa à sua frente. — A GoldenCoal rende absurdamente. Mais do que precisamos pra sustentar essa refinaria por mais dois anos... sem corte algum. O povo de Eldorwyn preza a luz doméstica, a confiabilidade. Você viu como eles reagem a qualquer avanço vindo de Cinderhelm. Eles querem nossa tecnologia, Caesar. Só precisam de uma estrutura acessível.


Caesar esfregou o queixo, pensando.


— E os parceiros?


— Famílias Lysandra e Ardanis. — Alexandros foi direto. — Os Lysandra são cinderhelmianos, vão servir de ponte política. Os Ardanis têm matrimônio com eles e influência direta sobre o Conselho Comercial. Se jogarmos com tato... garantimos um contrato de distribuição sólida e influência diplomática. O nome Carbone entraria pelas portas principais, não pela garagem dos fundos.


Silêncio. Caesar levantou da cadeira. Caminhou até a janela de ferro retorcido, olhando as caldeiras expelindo vapor ao longe. O som constante das engrenagens fazia o tempo parecer passar mais rápido.


— Isso... — ele falou, quase para si mesmo. — Pode funcionar. Não... vai funcionar.


Ele se virou para o irmão, agora com os olhos acesos por uma chama familiar.


— Se selarmos com os Lysandra, os Ardanis vêm de brinde. E com os Ardanis do nosso lado, a coroa vai dar ouvidos. Podemos oferecer os primeiros modelos de geradores como fornecimento experimental, e usar isso pra entrar com tudo na demanda pública.


Alexandros esboçou um sorriso breve — não de alegria, mas de estratégia.


— E quando os demais barões da indústria perceberem que estamos ganhando território lá fora... será tarde demais pra eles.


Caesar apontou para ele com firmeza, como se estivesse selando um voto silencioso.


— Faça contato com os Lysandra. Eu vou cuidar dos cálculos de exportação e dar início à reorganização do setor internacional.


Alexandros assentiu, já se retirando em seguida do escritório com certa pressa.


[.]


Os aposentos de Alexandros estavam mergulhados num silêncio pesado, quebrado apenas pelo zumbido suave dos condutos de vapor que aqueciam as paredes em padrões rítmicos. Cortinas grossas de veludo azul-acinzentado filtravam a luz do entardecer, lançando sombras longas sobre o chão de mármore escurecido. Na escrivaninha de madeira entalhada – herdada do pai, mas reformada à sua maneira –, repousavam papéis em branco, um tinteiro selado, penas alinhadas e uma única folha meio amassada, com tentativas de escrita já descartadas.


Alexandros permanecia ali, sentado, os cotovelos sobre a mesa, os dedos entrelaçados. Os olhos fixos na folha diante dele como se ela fosse um oponente de duelo.


A caneta-tinteiro estava ao alcance da mão, mas sua mão... não se movia.


Era ela. A destinatária. Sua mãe.


Ariadne York Carbone. Matriarca da GoldenCoal, dama de diplomacia sutil e uma fachada perfeita para esconder a frieza que moldou a infância dele. A mera ideia de escrever qualquer coisa que soasse como pedido a ela o fazia sentir como se estivesse de volta à biblioteca, ajoelhado, com as costas latejando por um castigo bem aplicado.


Mas não havia como evitar.


Se queríamos que a EosMist sobrevivesse, pensou, a única pessoa em Eldorwyn com autoridade suficiente para isso é ela.


Soltou um suspiro profundo, apertando a base do nariz com os dedos. O tinteiro foi aberto com estalo contido. A pena, mergulhada e erguida, pingou sobre o branco absoluto.


Sua mão tremeu.


Ele esperou alguns segundos até ela parar. Inspirou. Expirou. E enfim começou.


“Para a representante da Família Carbone no território de Eldorwyn,


Venho por meio desta comunicar a movimentação emergencial do ramo energético da família para a esfera internacional, com foco estratégico na região central de Midland. Com base na recente pressão política causada pela moção do Núcleo Arcanum junto ao Conselho das Máquinas, e pela resposta agressiva de Luther Blackwell à estabilidade da EosMist, decidimos estabelecer contato com as famílias Lysandra e Ardanis para proposição de um acordo trilateral.


Seu papel será diplomático e inicial. Sua reputação ainda é funcional, e sua presença no Conselho Comercial de Eldorwyn continua sendo um pilar necessário.


Anexo a esta carta está um dossiê preliminar sobre os números e projeções envolvidas. Apresente-o como convier. A urgência é imediata.


Este comunicado é oficial. O selo abaixo é suficiente.”


O ponto final foi colocado com firmeza. Alexandros não leu novamente. Apenas deixou a pena de lado e pegou o pequeno bastão metálico que repousava ao lado do tinteiro. Pressionou-o contra a cera já derretida sobre o envelope dobrado com precisão milimétrica.


A insígnia da família Carbone — uma engrenagem com duas chamas cruzadas em seu centro — marcou o envelope..


Alexandros o observou por alguns segundos, depois o inseriu no envelope de couro escuro reforçado com pequenos nós de prata nas bordas. Discreto, formal. Impessoal.


Ele se levantou. Suas roupas estavam alinhadas, mesmo para o fim de tarde, como era seu hábito. Um sobretudo leve de lã azul-marinho, calças presas nas botas envernizadas. Sem pressa, atravessou seus aposentos e abriu a porta para o corredor principal da ala leste da mansão Carbone.


Enquanto caminhava, cruzou com dois autômatos domésticos.


— Boa tarde, jovem mestre. — disse o primeiro, de design esguio e braços retráteis, oferecendo-lhe um pequeno copo de prata.


— Leite morno, senhor. — completou o segundo, com voz mais aguda e olhos como lanternas.


Alexandros aceitou, sem parar o passo.


— Obrigado. — bebeu com lentidão, terminando antes de cruzar os degraus centrais da escadaria. Devolveu o copo ao primeiro autômato com um gesto casual e um sorriso suave, e os dois biparam entre si antes de retornar aos seus postos.


O vento o recebeu quando cruzou os portões laterais. O céu de Cinderhelm já começava a se fechar em nuvens densas de fim de tarde, carregadas de fumaça e relâmpagos ao longe. O cascalho metálico do caminho da mansão tilintava sob suas botas enquanto ele caminhava rumo ao centro da cidade.


Diferente de outros nobres que despachariam uma carta tão importante por mensageiros, Alexandros preferia entregar essa com as próprias mãos no correio principal — não por honra, mas por paranoia.


E também, talvez, para ter o prazer sutil de saber que aquela carta chegaria até Ariadne, e que, pela primeira vez, seria ela quem responderia a ele.


As ruas centrais de Cinderhelm fervilhavam com o fim do expediente. Carruagens automáticas cruzavam os trilhos com apitos metálicos, comerciantes recolhiam toldos e lanternas de gás começavam a acender nos postes vibrantes de cobre que se enfileiravam pelas calçadas. Alexandros caminhava com passos firmes, o casaco jogado sobre os ombros e o envelope marcado com a insígnia Carbone preso sob o braço. O prédio dos Correios já se erguia à vista, sua torre em espiral reluzente com brasões do reino.


Ele estava quase lá.


Foi então que os gritos começaram.


— Saiam da frente, porra! Sai, Sai, Sai! — uma voz rouca, agressiva, cortou o ar.


Alexandros virou-se instintivamente, os olhos arregalando no mesmo instante.


Um homem vinha correndo. Alto, vestindo roupas esfarrapadas, braços cobertos por próteses mecânicas irregulares que soltavam vapor e faíscas a cada movimento. Ele empurrava brutalmente quem estivesse no caminho — um vendedor caiu sobre a própria banca de frutas, uma senhora idosa foi jogada contra uma parede. Crianças gritavam, adultos puxavam uns aos outros.


O criminoso vinha direto na direção de Alexandros, que congelou em choque por alguns instantes. E no calor do momento, ergueu a mão livre em sua direção.


— Corações Tempestuosos! — exclamou, sua voz firme mas tremendo sob o impacto do susto.


Um círculo dourado brilhou sob seus pés, então outro surgiu no chão à frente, se abrindo com o som de grilhões se soltando do inferno.


Correntes douradas surgiram em disparada, como serpentes famintas. Três delas se projetaram contra o peito, os braços e as pernas do criminoso. O homem mal teve tempo de gritar. Foi arrastado em pleno ar e cravado contra o chão com força suficiente para deixar um estrondo metálico ecoando nas ruas. O nariz dele explodiu contra o asfalto negro, o sangue escorreu enquanto ele grunhia em agonia, completamente imobilizado.


Antes que Alexandros pudesse recuperar o fôlego, o som de engrenagens girando e vapor sibilante encheu o ar.


— Cuidado acima! — alguém gritou.


Três vultos desceram do céu.


Cabos de manobra puxaram os corpos com precisão brutal. O ar foi cortado pelas lâminas de estabilização.


Fanny, Capitã da Divisão dos Escoteiros da Guarda de Ferro, caiu com ambos os pés cravando a cabeça do criminoso mais fundo no chão, como um juízo inevitável vindo do céu.


Ela pousou com perfeição, sem desequilíbrio. O cabelo ruivo, preso em rabo de cavalo, dançava com o vento da descida. Seus olhos violetas brilharam com frieza enquanto ela já sacava as algemas de pressão de sua cintura.


— Em nome da Lei Industrial de Cinderhelm, você está detido pelos crimes de vandalismo urbano, resistência armada, ferimento civil e obstrução de propriedade estatal. Você tem o direito de se calar. Qualquer tentativa de retaliação será considerada ato terrorista. — Fanny recitou, mecanicamente, sua voz impassível.


O homem só conseguiu cuspir sangue e espuma.


— Capitã! — outro escoteiro aterrissou ao lado dela. — As vítimas foram retiradas, mas há dois feridos com possível fratura.


— Que a Equipe Médica do Posto Sete seja acionada imediatamente. Mandem automatos-auxiliares para o transporte. — respondeu Fanny sem tirar os olhos do criminoso.


Mais escoteiros desciam do alto dos edifícios ao redor, cercando a área, organizando a multidão.


Alexandros ainda estava de pé, mas sua respiração estava pesada. As correntes douradas aos poucos se retraíam no chão, desfazendo-se em fagulhas de luz. A tontura veio como uma onda.


— Ugh… — ele cambaleou, os olhos turvos.


— Senhor! — um dos escoteiros se aproximou rapidamente, o segurando pelo braço com firmeza.


— Estou bem… estou bem… — disse Alexandros, arfando. — Foi só o susto… e energia demais.


Enquanto a multidão começava a bater palmas em aplauso pela captura, os olhos da Capitã Fanny finalmente deixaram o criminoso para se voltarem para Alexandros. Ela limpou as mãos enluvadas contra a perna da calça do uniforme e deu um pequeno passo à frente.


A multidão continuava a aplaudir. Crianças tentavam ver por entre os adultos. Escoteiros guiavam os feridos. Automatos de manutenção vinham para limpar os destroços.


— Pode deixá-lo comigo. — a voz firme e fria de Fanny cortou o escoteiro como uma lâmina bem polida.


O jovem oficial, que ainda segurava o braço de Alexandros para mantê-lo firme, hesitou ao ver o olhar da capitã. Sem contestar, largou o braço do Carbone imediatamente e deu um passo atrás com um aceno respeitoso antes de desaparecer com os outros escoteiros pela multidão dispersa.


Fanny observou Alexandros com mais atenção. Ele tremia, não de fraqueza ou dor, mas de desconforto. Havia algo visceral naquela repulsa ao toque, algo que ela conhecia bem.


— Você não é fã de ser tocado, pelo visto. — comentou, sem julgamento, apenas constatando.


Alexandros puxou o ar devagar, assentindo com um gesto contido enquanto tentava firmar os próprios pés no chão.


— Não... não sou. Mas estou melhor agora. — sua voz recuperava o equilíbrio.


Fanny estreitou os olhos, sua expressão permanecendo neutra, mas suas palavras carregando ironia:


— Parece que nem mesmo os salões espelhados da alta sociedade de Cinderhelm escapam do caos, hein?


Alexandros soltou um riso seco, quase imperceptível.


— Não está errada. Nem um pouco.


— Ainda assim... obrigada por intervir. — Fanny disse, seu tom suavizando levemente. — Não é o procedimento recomendado, mas... você foi eficiente.


— Não foi nada demais. — Alexandros respondeu com falsa modéstia, a mão direita ainda pulsando com o eco do feitiço recém-desfeito.


— Hm. E o que fazia por aqui, diretor Carbone? Não é todo dia que um nome como o seu caminha sozinho pelas ruas da capital. — ela cruzou os braços, levantando uma sobrancelha ruiva. — Especialmente você. Tem quem diga que é só uma lenda urbana que aparece nas capas de jornais.


— Só estava indo ao correio. — respondeu com simplicidade, embora o peso do envelope ainda em seu bolso parecesse dobrar de tamanho naquele momento.


— Correio? — Fanny repetiu, surpresa. — Você não tem serviçais para isso?


— Tenho. Mas prefiro garantir. Não é todo mundo em quem se pode confiar hoje em dia. — respondeu com franqueza, os olhos ainda focados no chão rachado onde o criminoso havia caído.


Fanny assentiu, sua postura se desarmando um pouco.


— Um ponto justo. — ela suspirou. — Depois da decisão do Salão Oval e da jogada dos Altharion... tem sido difícil confiar até nos meus superiores.


O nome Altharion reverberou como um trovão contido na mente de Alexandros.


Ele levantou os olhos.


— A Guarda teve alguma pista sobre Adam?


Fanny hesitou por um momento. O uniforme pesava mais em seus ombros com aquela pergunta.


— … Não. — respondeu por fim, a sinceridade cortando o ar. — A Comandante Draeven me contou em sigilo que o rastro mágico dele... indica que ele provavelmente nem está mais em Cinderhelm. Isso foi o mais próximo que chegamos.


Ela fez uma pausa. Os olhos violeta se voltaram para a multidão dispersa como se buscassem o próprio Adam entre os rostos.


— E eu nem devia estar te dizendo isso. Mas, bom... não parece que vai mudar o fato de que ele já está sendo tratado como um cadáver entre a elite.


Alexandros ficou em silêncio. Um silêncio denso. Um raio de preocupação atravessou seu semblante, mas ele o guardou no fundo da garganta, engolido como um copo de leite amargo..


Fanny observou Alexandros por mais um instante antes de falar novamente, sua postura sempre firme, as luvas escuras tocando os quadris enquanto ela escaneava o entorno com o olhar afiado.


— Fiquei sabendo sobre a situação da EosMist, sabe? — comentou, casual mas atenta. — Os Vigias estão monitorando qualquer possibilidade de sabotagem. O mercado entrou numa espiral de ganância e todos os investidores têm agido como cães famintos pelo tal do Núcleo Arcanum. Se a EosMist continuar na mira, é bom estarem preparados. Especialmente se ainda estão usando... mercenários. — A última palavra saiu com peso, carregada de intencionalidade. — Você sabe que esse tipo de prática não é tão tolerada como antigamente, certo?


Alexandros manteve a compostura, inspirando com calma antes de responder:


— Isso não ocorre mais sob meu diretório. — afirmou, convicto. — Não me orgulho disso ter sido necessário, mas foi uma época. Não mais. Agora, o que me preocupa é apenas Blackwell.


Fanny arqueou uma sobrancelha.


— Blackwell, hein? — disse, cruzando os braços. — Ouvi uns rumores na delegacia... de que ele está comprando novos lotes de terra para construir fábricas inteiras dedicadas à energia sem fio. — Seus olhos se estreitaram. — Ele chegou a visitar a EosMist?


— Chegou. — Alexandros confirmou com simplicidade, mas seu tom tinha um peso oculto. — Pessoalmente.


Fanny expirou com força, levando as mãos aos quadris.


— É. A indústria está mesmo indo pro buraco. — murmurou. — Quando os barões começarem a devorar uns aos outros, não vai sobrar muito para quem ficar no meio. — Ela virou o olhar para a movimentação adiante, onde os escoteiros isolavam a cena e os atendentes da emergência finalmente chegavam para socorrer os feridos.


Ela voltou-se para Alexandros, agora com um leve aceno respeitoso e um sutil sorriso de gratidão.


— Obrigada, de novo. E tome cuidado, Alexandros. Há muito mais em jogo do que qualquer um está disposto a admitir.


Estendeu a mão e, com firmeza profissional, apertou a dele brevemente. Depois, girou nos calcanhares e caminhou em direção às autoridades para preparar seu relatório, enquanto Alexandros ficava para trás, com os olhos pousando nos entulhos do asfalto.


[.]


O céu de Cinderhelm estava tomado por um negrume denso, as estrelas obscurecidas por fuligem das chaminés distantes e o frio sutil da madrugada já escorria pelas janelas altas da mansão Carbone. O quarto de Alexandros estava mergulhado em sombras, iluminado apenas pela luz suave de um globo arcano, pairando inerte no canto superior da parede, pulsando fracamente em tons azulados.


"Se você está recebendo esta visão, é porque foi escolhido pelo próprio Arcanum. Seu destino foi decidido. A existência está em perigo, e seu papel será crucial para salvá-la. Venham para o Sul de Eldorwyn. O tempo é curto!"


Alexandros despertou de súbito, arfando como se estivesse emergindo das profundezas de um pesadelo. Seu corpo estava encharcado de suor, a camisa colada ao peito, as mãos trêmulas apertando os lençóis. Os olhos, inicialmente arregalados em pânico, se moveram por todo o quarto como se procurassem algo – ou alguém.


Ele passou a mão pelo rosto, tentando se acalmar. Respirou fundo. Depois, de novo. Lentamente, sua mente começou a se reorientar. O coração, ainda disparado, desacelerava a cada respiração cadenciada. Então, uma lembrança invadiu seus pensamentos com clareza impossível: aquela voz. Aquela presença colossal, tranquila e carregada de uma autoridade ancestral. Um homem envolto em vestes arcaicas, de olhos como vastas galáxias, barba longa e prateada, e um cajado adornado com entalhes rúnicos vivos de luz.


— Merlin... — Alexandros sussurrou para o vazio do quarto.


A certeza lhe caiu como uma pedra no peito. Era ele. Era impossível esquecer aquelas feições. Durante seus anos na Academia Arcana, devorara cada fragmento de informação que existia sobre a Ordem dos Magos. E entre todos os seus membros lendários, Merlin era o ápice. O primeiro. O último. O Mago Supremo.


Por mais insana que parecesse a ideia, não havia como negar. Alexandros tinha sido chamado pelo Arcanum. Aquilo não fora um sonho comum. Era a própria estrutura mágica do mundo reagindo, escolhendo-o. Um gesto reservado a poucos, e ainda menos entre os vivos.


Mas então, a clareza mística foi atravessada pela amarga realidade.


— O sul de Eldorwyn... — ele murmurou, sentando-se na beira da cama.


Seu olhar se voltou para a parede onde pendia o mapa antigo de Runeforge que seu pai, Julius, tanto gostava. A região sul de Eldorwyn estava destacada em linhas douradas – tão bela quanto inalcançável, um lugar intocado por milhares de quilômetros de pura fauna e flora mágica, a ponta do Continente King.


Alexandros se levantou e caminhou até o mapa, os pés descalços tocando o piso frio de mármore. Com o dedo, traçou o caminho até a costa sul. Era exatamente onde Merlin tinha mostrado, com clareza cortante, a visão de uma torre no alto de um monte verdejante.


Mas ele era proibido por lei de pôr os pés em Eldorwyn.


— Um exilado chamado por forças que regem o Arcanum... Que tipo de ironia cruel é essa? — pensou.


As autoridades de Eldorwyn não hesitariam em prendê-lo novamente, ou pior. Havia uma chance mínima de que conseguisse passar despercebido, com as conexões certas. Mas o risco era real. E ainda assim, algo dentro dele ardia como nunca antes. Um instinto primitivo, um sussurro antigo vindo de seu próprio sangue mágico.


Alexandros apoiou as mãos na parede e cerrou os olhos.


— O Arcanum não comete erros… Eles me chamaram por um motivo. Não posso ignorar isso. — disse para si mesmo, baixinho, quase como um juramento.


Ele voltou à escrivaninha, onde a carta à sua mãe havia repousado mais cedo. Abriu uma nova folha. Desta vez, seria uma carta informal, não marcada por insígnias. Apenas algumas poucas palavras para alguém de confiança.


Ele não poderia ir sozinho. E definitivamente não poderia ser descoberto.


[.]


A neblina espessa cobria Cinderhelm naquela manhã como um véu denso de algodão, engolindo telhados e deixando apenas silhuetas tênues das estruturas industriais que se erguiam como gigantes adormecidos. A velha instalação da EosMist, uma usina desativada às margens da cidade, zumbia apenas com o vento frio que atravessava suas fendas metálicas. O som de passos ecoou contra as paredes de ferro antigo quando Aaron DeLuca surgiu pela lateral do edifício.


Vestia um sobretudo pesado, cachecol vinho e luvas de couro. Seus cabelos já totalmente brancos estavam penteados para trás com elegância discreta, e seu rosto vincado revelava tanto cansaço quanto dignidade.


Ao ver Alexandros, parado junto a uma antiga caldeira enferrujada, esboçou um sorriso genuíno e caloroso.


— Você não envelheceu em absolutamente nada. — disse Aaron, aproximando-se com um aperto de mão firme. — Esperado de um elfo... Um insulto natural a todos nós, humanos enrugados.


Alexandros sorriu, com uma inclinação cortês da cabeça.


— E você continua mais elegante que qualquer um em Cinderhelm, mesmo com o tempo correndo contra. — respondeu, retribuindo o aperto.


Aaron olhou ao redor com um certo pesar.


— Confesso que fiquei preocupado quando sua... ave bicou minha janela no meio da noite. Achei que alguém estivesse tentando invadir minha casa até ver o bilhete. — ele passou a mão pela barba com um toque de humor. — Está tudo bem? Algum problema envolvendo os negócios?


Alexandros fez que não com a cabeça.


— Nada com a EosMist. Ainda. — disse, com um olhar distante. — Mas eu preciso de um favor, Aaron.


— E precisava me chamar aqui? Nessa carcaça…? Tínhamos cafés muito melhores onde costumávamos conversar. — comentou Aaron, tentando aliviar a tensão com bom humor. Mas sua voz perdeu a leveza ao ver a expressão grave de Alexandros.


— Não é o tipo de coisa que se pode dar ao luxo de outras pessoas ouvirem. — disse ele, baixando o tom, com os olhos fixos no chão.


Aaron estreitou o olhar. Ficou em silêncio por um momento. Depois, cruzou os braços.


— Então fala. O que você quer de mim, menino?


Alexandros respirou fundo. Aquele era o momento que ele vinha adiando até mesmo para si. Ainda assim, sua voz saiu firme:


— Preciso fazer uma viagem. Urgente. — disse. — Para Eldorwyn.


Aaron congelou. Um silêncio desconfortável caiu entre os dois, interrompido apenas pelo uivo do vento entre os tubos.


— Eldorwyn? Alexandros, você ficou louco? — ele deu um passo à frente. — Você é um exilado. Se alguém o vir por lá, vai preso no mesmo segundo. Não posso te ajudar com isso. Nem sonhar em colocar meu nome nisso!


— Eu sei... — Alexandros disse com dificuldade, sem encará-lo. — Mas preciso ir ao litoral sul. Só lá. Não tenho intenção de andar por cidades ou ser visto. É rápido. Mas eu... eu preciso.


— Por quê? O que tem lá? Não tem nem estrada decente naquela costa!


Alexandros hesitou. Olhou por cima do ombro, como se temesse que as próprias sombras pudessem ouvi-lo.


— É de extrema importância. E Caesar não pode saber. Ele me impediria. Anastasia... iria querer ir junto. Eu preciso fazer isso sozinho. Confio em você.


Aaron mordeu o lábio inferior. A tensão nos olhos envelhecidos era clara.


— Você não está me dando muitas opções. Isso é arriscado demais, Alex.


Alexandros então cerrou os punhos ao lado do corpo. Sua expressão vacilou por um instante. E com ela, veio a cartada.


— Você me deve essa. — disse, num tom baixo, e finalmente ergueu os olhos para encontrar os de Aaron. — Você sabe por quê.


Aaron ficou em silêncio.


Os olhos dele perderam o brilho por um instante. O peso da lembrança não precisou ser nomeado. Ambos sabiam o que havia acontecido. O nome não foi dito. Mas ele pairava entre eles como um espectro: Alice.


Aaron respirou fundo. Muito fundo.


Então desviou o olhar, olhando para a caldeira silenciosa, para a ferrugem no chão, para tudo que não fosse o jovem elfo à sua frente. E por fim, disse:


— Me dá um dia. — murmurou. — Terá um navio particular. Sem tripulação. Só você. Parte do cais oeste, na madrugada.


Alexandros assentiu lentamente, a tensão nos ombros começando a se dissolver. Aaron virou-se para ir, mas lançou um último olhar por cima do ombro:


— Se você for pego, não estive envolvido nisso. E se... se você morrer, seu pai vai puxar meu pé todas as noites no além.


— Não vou morrer. — Alexandros respondeu. — Não até descobrir o que me aguarda lá...

Notas finais
<3