Arcanum
8 O Assassino
A noite em Nocthys era mais escura que em qualquer outro lugar do mundo. Não por falta de luz, mas por excesso de trevas. A capital, com seus picos retorcidos e torres envenenadas pelo tempo, se erguia como uma catedral ao desespero.
Koryu Nephtys andava pelas ruas mais ocultas e perigosas da cidade, encoberto por um sobretudo que se misturava com a sombra como se fosse parte dela. A ponta de sua katana pulsava em silêncio sob o tecido grosso, como se soubesse que estava sendo trazida de volta ao coração do reino que a criou.
Já fazia um dia desde que a visão o havia assolado em seus pesadelos. Aquele clarão absurdo, dourado e insuportável, ainda queimava atrás de seus olhos. Aquele nome…
Arcanum.
Uma palavra que não pertencia à sua realidade fria, suja e decadente. Ainda assim, permanecia gravada com precisão em seu subconsciente..
Ele não sabia se estava enlouquecendo. Era uma possibilidade. A mais provável, até. Mas entre a loucura e a missão, preferia apostar na missão. Era mais fácil carregar uma espada do que carregar sua culpa. E, no fundo, talvez aquela fosse a única porta de saída que o universo ainda se dignava a abrir para ele.
O submundo de Nocthys o reconhecia. Não pelo nome, mas pelo vulto. Seus olhos — os seis — permaneciam semicerrados por detrás da franja desgrenhada, sempre alertas, mesmo cansados. Ele sabia onde estava entrando. Cada passo entre aquelas vielas podres era um mergulho mais fundo na lama, sentia-se sujo só de se permitir sentir a imundice daquele chão abaixo das solas dos pés.
A entrada da boate não tinha nome. Nunca teve. Apenas um letreiro quebrado que piscava em vermelho sujo, afundado na umidade. À porta, dois homens deformados e armados até os dentes com machetes, machadinhas e facas de cozinha exageradamente grandes o olharam com desconfiança, mas não disseram nada. Era costume por ali: quem tinha coragem de entrar, provavelmente tinha motivo e, claro, dinheiro.
O interior era abafado, envolto em um aroma de suor, bebida destilada e os piores pecados que um ser-vivo podia cometer. As luzes eram foscas, e a trilha sonora era uma mescla distorcida de algo que um dia foi música e agora só provocava náusea. Pessoas — ou o que sobrou delas — dançavam em palcos elevados, olhos vazios, corpos ornamentados como bonecos. Escravizados. Envenenados por prazer ou por necessidade, mas principalmente pelas milhares de substâncias tóxicas dadas a estes para os manter fora da realidade miserável em que viviam.
Koryu passou entre as mesas com os ombros tensos e a cabeça baixa. Alguns olhares se ergueram quando sua presença foi sentida. Ninguém ousava dizer nada, mas ele podia ver os cochichos entre as sombras. Um fantasma caminhava ali, um que devia estar morto fazia tempo.
Ele sabia o que procurava. Sabia que os Escorpianes não deixavam rastros a menos que quisessem. Não à toa compunham a rede criminosa mais efetiva e irrastreável até mesmo para a elite do policiamento da capital. Aquela boate era uma das fachadas deles.
O cheiro, o desespero, a alienação — tudo era parte do espetáculo. Era só encontrar o fio certo. Uma prostituta marcada. Um segurança de olhos baixos. Um garçom de andar milimétrico demais. Eles sempre deixavam uma trilha, mesmo que feita de veneno.
Ele se aproximou do balcão de metal corroído, batendo uma moeda de prata contra ele. O barman — um híbrido orquiso com músculos deformados e um semblante velho — nem olhou nos olhos dele, apenas pegando a moeda.
— Você não parece estar aqui pela bebida.
Koryu inclinou-se levemente para frente, seus olhos rubros encontrando os olhos opacos do velho.
— Estou procurando a Baronesa.
— Ela não recebe qualquer um.
— Talvez hoje ela abra uma exceção.
O velho riu com a garganta falhada. Mas não respondeu. Apenas deslizou uma garrafa para Koryu, com um pequeno bilhete amassado amarrado ao gargalo com um fio de couro seco. Havia apenas uma breve frase ali: "Sente e espere.”
Koryu pegou a garrafa e se afastou, sentando-se em um dos sofás rasgados nos fundos, de frente para o palco onde uma garota de olhos vazios dançava com movimentos quase mecânicos de tão perfeitamente ensaiados em um looping constante.
Esperar. Ele odiava esperar. Mas ali, onde as paredes tinham ouvidos, esperar era o único movimento seguro que lhe restava.
Ele puxou o sobretudo para mais perto do corpo, respirando devagar.
O garçom voltou ao balcão como se nada tivesse acontecido. Suas mãos velhas e costuradas com fios de cobre poliam uma caneca rachada, como se o vidro valesse ouro. Ele nem olhou para Koryu — não precisava. Aquilo já fazia parte do teatro.
Dos fundos da boate, as portas semiocultas por cortinas de veludo imundo se abriram com um rangido metálico, e quatro figuras monstruosas emergiram da escuridão. Seus corpos eram uma colagem grotesca de carne necrosada, próteses enferrujadas, mutações umbrais e olhos que não sabiam mais o que era luz. Caminhavam pesadamente, como bestas adestradas que só obedeciam a um mestre, e esse mestre veio logo atrás deles.
Pequeno. Retorcido. De um grotesco que feria até a visão de um noctheris. Um corcunda com a espinha quebrada e o rosto desfigurado como uma escultura feita pela metade. Um olho só, inchado e brilhante com uma veia pulsante, e um monóculo preso com arame malformado. Os dedos eram longos, amarelados, trêmulos — e quase pegajosos só de olhar.
Ele fungou, ruidosamente, e quando falou, sua voz parecia ter sido afogada em piche.
— Bom, bom, bom... Ou eu estou perdendo o juízo... ou o próprio Koryu Nephthys decidiu vir até nós de livre e espontânea vontade. — ele deu dois passos à frente. Os quatro brutamontes abriram espaço como cães bem treinados. — O desertor desonrado. Que dó.
Koryu não reagiu de imediato. Seu rosto estava na penumbra, os seis olhos observando cada movimento daquele que falava como se estivesse passando a língua em uma lâmina. Ele soltou um suspiro lento, pelas narinas.
— Quero falar com a Baronesa. — sua voz saiu firme, sem esforço.
O corcunda soltou um risinho abafado, arfando em seguida como se tivesse engasgado.
— Ah, direto ao ponto! Mas as coisas não funcionam assim, Ryuu... ah, posso te chamar de Ryuu? Hmmm?
Nenhuma resposta. Os olhos de Koryu brilharam levemente, num tom quase carmesim.
O corcunda se inclinou, com esforço, e estalou o pescoço com um som desagradável.
— Sou um dos intermediários. A Baronesa não fala com qualquer amaldiçoado que bate à porta, nem mesmo um filho esquecido da Casa Dominadora. — Ele fungou de novo, ajustando o monóculo enquanto se virava ligeiramente para os lados, teatral. — Ouvi falar de você, sim. Todos ouviram. Você... tentou proteger uma convergente. Uma aberração. E justo na região dos bairros nobres... bons aliados lá. Bons clientes.
Ele sorriu com dentes tão podres quanto a alma de quem os exibiu.
— E você quase causou uma ruptura diplomática com sua encenação de mártir.
Koryu sequer piscou. Sua voz cortou a fumaça como uma lâmina:
— Não vim aqui me justificar. Vim fazer um pedido. Posso pagar.
— Pagar? — o corcunda repetiu a palavra como quem saboreia uma fruta estragada. — Acha mesmo que a Baronesa precisa do seu dinheiro? Você é um problema, Koryu. Um problema que nem os Convergentes ousam caçar com gosto, porque sabe se esconder. Mas a Baronesa… ela prefere evitar problemas. Especialmente os que... chamam tanta atenção quanto você.
A tensão aumentou. Um dos brutamontes pôs a mão no cabo de uma faca do tamanho de um braço humano. Outro estalou o pescoço. Koryu se manteve imóvel, mas seus olhos percorriam cada músculo, cada movimento. Seu corpo estava pronto. A katana viva em sua cintura pulsava de leve, como se sentisse a ameaça no ar.
O silêncio durou três segundos.
— Se quiser evitar problemas… então me leve a ela. — Koryu respondeu, enfim, com calma afiada. — Ou você pode descobrir como um Nephthys resolve problemas.
Os olhos do corcunda brilharam por trás do monóculo trincado.
Ele fungou. E sorriu.
— Você tem coragem. E tolice. Duas coisas que a Baronesa admira em potencial descartável.
Ele estalou os dedos deformados.
— Siga-me. Mas se levantar a voz, erguer um dedo ou respirar no tempo errado...
Os quatro brutamontes avançaram um passo, sincrônicos.
— Posso garantir que pra onde vai não terá a presença da sua família.
Koryu se levantou devagar, silencioso como um lençol de névoa, ainda que internamente seu sangue fervesse. A tensão estava suspensa no ar, como uma corda prestes a se partir.
Ele apenas assentiu, com o corcunda assentindo satisfeito com a obediência do outro e gesticulando com a mão para que o seguisse com seus capangas aos fundos.
Koryu seguiu o corcunda em silêncio até o beco atrás da boate, com os brutamontes fechando o espaço atrás dele como se fossem uma jaula ambulante.
Uma carruagem esperava sob a sombra de uma construção colapsada, envolta por névoa espessa e constante, como se o próprio ambiente repelisse olhos curiosos.
A criatura que puxava a carruagem era uma aberração de carne e luz púrpura. Um cavalo, ou o que alguém minimamente normal consideraria como um. Sua pele era trincada em fendas rituais que brilhavam em um tom violeta, e de cada lado do corpo brotavam quatro pernas longas e articulações estalantes, lembrando um aracnídeo. As patas se mexiam com precisão mórbida, cada passo afundando o solo enegrecido.
No topo da carruagem, o cocheiro. Alto, esguio, costurado como um espantalho macabro e vestindo um chapéu desbotado. Seu rosto parecia esculpido em madeira podre e costurado com fios prateados. Ele mastigava uma fruta escura e deformada, de cujo interior escorria um líquido verde viscoso a cada mordida — seus dentes pontiagudos pareciam alvos demais dentro daquela boca larga.
Um dos brutamontes abriu a porta da carruagem.
— Entre. — rosnou com voz abafada.
O corcunda subiu primeiro, resmungando enquanto suas pernas retorcidas o arrastavam para dentro. Koryu o seguiu sem uma palavra, sentindo o cheiro pútrido de sangue velho e perfume barato mal aplicado dentro do veículo. Os guarda-costas entraram por último, empurrando as cortinas negras com força e trancando-as com um gancho de ferro.
— Hey, idiota! Para o lugar de sempre! — o corcunda diria, fungando alto após elevar a voz, enquanto batia no topo da carruagem com um punho.
A carruagem balançou com um grito baixo vindo do cavalo deformado, e o cocheiro deu um estalo com seu chicote de espinhos.
O animal gritou em agonia, uma nova fenda abrindo-se ao longo de sua costela, pulsando como uma boca que pedia misericórdia. A carruagem começou a se mover com um rangido pesado, semelhante ao de correntes arrastando cadáveres.
Koryu se manteve em silêncio, atento.
O corcunda, por sua vez, puxou calmamente um jornal dobrado do bolso interno de seu casaco e o abriu com o estalar crocante de papel grosso. Não era uma leitura casual. Ele virou a capa para Koryu, casualmente, como se estivesse abrindo uma conversa sobre o clima.
A manchete era clara, com letras quase berrando em tinta negra:
“Desertor Caça Soldados da Capital — Mais Dois Corpos Aparecem em Praça Pública.”
Koryu não reagiu. Nem um músculo de seu rosto se mexeu, mas o brilho de seus olhos traía a tempestade que girava por trás daquele semblante estoico.
O corcunda fungou.
— Você é notícia, sabia? — comentou, casual, enquanto ajeitava o monóculo. — Pelo visto virou uma espécie de símbolo.
Ele virou a página.
— A Casa Dominadora anda irritada. Dizem que há preces inteiras para a sua destruição, hehehe...
O silêncio de Koryu pesava. Suas mãos estavam firmes sobre as próprias pernas, sua katana viva imóvel na bainha, mas o ar ao redor dele parecia vibrar com uma tensão invisível.
A carruagem seguiu.
Vinte minutos se passaram na escuridão abafada do veículo, até que os ruídos externos começaram a mudar. Os sons dos becos e sujeira deram lugar a murmúrios abafados, buzinas roucas, goteiras metálicas e vozes — muitas vozes. O som de um mercado fantasma, de operações subterrâneas. De vida pulsando em lugares que não deveriam estar vivos.
Koryu sabia. Estavam entrando mais fundo na boca do inferno.
A respiração lenta do corcunda e o virar contínuo de páginas eram a trilha sonora daquele trajeto. Ele estava provocando. De propósito.
Mas Koryu, apesar de tudo, se manteve frio como a própria noite. Ele já havia perdido tudo. E quando alguém não tem mais nada a perder, não há provocação capaz de desestabilizar.
O rangido sinistro da carruagem cessou quando o cocheiro puxou as rédeas do cavalo-monstro com um assobio sibilante. A criatura estacou com um ruído grotesco e molhado, como se seus órgãos internos fossem feitos de lodo fervente.
— Lugar de sempre. — murmurou o cocheiro com sua voz fina e distorcida, tossindo algo verde no chão em seguida.
O corcunda ajeitou seu monóculo com um estalar seco dos dedos deformados e murmurou aos capangas:
— Movam-se, idiotas! E cuidado pra não quebrarem a porta com os ombros!
Os brutamontes saíram primeiro, abrindo a porta como se estivessem apresentando um espetáculo ao inferno. O corcunda desceu com dificuldade, sua figura retorcida se esgueirando escada abaixo com uma elegância cínica.
Koryu, por fim, saiu.
E o que viu fez até mesmo sua alma mergulhada em trevas estremecer.
Uma cidade subterrânea.
Mas não apenas um aglomerado de barracos ou uma rede de túneis escondidos. Era uma metrópole inteira escondida sob as entranhas de Nocthys — maior do que alguns distritos da capital. O teto, absurdamente alto, era coberto por estruturas metálicas, teias de cabos, plataformas flutuantes presas por correntes, com luzes mágicas opacas espalhadas por todos os cantos como olhos famintos. Tudo iluminava aquela urbe secreta com um brilho doentio, tingido de verde e púrpura.
As ruas eram movimentadas por figuras encapuzadas, encadeadas, mascaradas ou mutiladas. Alguns eram notoriamente criminosos; outros, miseráveis perdidos que provavelmente nasceram ali, naquele buraco onde nem mesmo a desgraça alcançava todos igualmente.
Do outro lado da rua, uma fileira de barracas se estendia em um corredor sufocante — um mercado negro ativo, barulhento, fedendo a suor, sangue e especiarias estranhas. Armas encantadas, próteses mecânicas de Cinderhelm, órgãos preservados em jarros, ossos esculpidos com runas proibidas. Até ali, Koryu não ficou surpreso. Aquilo ele já esperava.
Mas o que veio depois, não.
— Eu sei, eu sei… — disse o corcunda, notando a paralisação súbita de Koryu. — De tirar o fôlego, não é? Uma joia enterrada. Mas é melhor se contentar em ver só uma vez.
Koryu não respondeu. Seus olhos — todos os seis — se fixaram acima.
Gaiolas. Centenas delas. Suspensas por correntes grossas, dezenas de metros acima do solo. E dentro delas, pessoas.
Homens. Mulheres. Crianças. Idosos nus, com a pele marcada por tortura, alguns já inconscientes. Crianças de olhos arregalados, ossos visíveis sob a pele. Adultos que apenas murmuravam sem parar, catatônicos.
E nenhum deles era nocthyriano.
Eldorwynianos, em sua maioria. Gente dos reinos vizinhos. Contrabandeados. Escravizados.
As vozes deles se misturavam como um lamento coletivo que parecia envenenar o próprio ar. Alguns imploravam por ajuda com os últimos resquícios de voz. Outros apenas choravam em silêncio, já sem força.
— Mercadoria fresca. — comentou um dos brutamontes aos risos.
Do outro lado da rua, criminosos em filas esperavam pacientemente — muitos deles lambendo os beiços, outros segurando fichas, e alguns apenas observando como predadores.
Logo depois, mais além, havia tendas vermelhas com cheiro de carne cozida. Açougues.
Koryu viu uma mulher de Eldorwyn, inerte, com o peito aberto e uma placa dizendo “corte especial: coração de virgem”.
Outra barraca exibia um torso infantil coberto por um lençol, com um vendedor vendendo “ensopado de fertilidade”.
Um grupo de figuras mascaradas discutia valores por próteses roubadas de cadáveres da fronteira. Um outro traficava tomos mágicos profanados, grimórios de feitiçaria cobertos com pele de prisioneiros, ainda quente.
Koryu apertou o cabo de sua katana.
Tudo em seu corpo gritava para cortar os pescoços que encontrava, para quebrar cada corrente.
Mas ele se conteve. Pela primeira vez em muito tempo.
Porque sabia que, se desse um passo em falso, não chegaria à Baronesa. E, sem ela, não haveria sul. Sem o sul... não haveria propósito.
— Venha. — disse o corcunda, já andando com suas pernas bambas mas rápidas. — Se demorar mais, capaz de ela já ter encerrado o dia de atendimento.
Koryu o seguiu. As mãos cerradas. Os olhos mais afiados do que nunca. E o ódio crescendo em silêncio.
A cada passo que dava junto ao corcunda e aos capangas, Koryu sentia a energia do lugar se intensificar — como se o próprio concreto exalasse a podridão de incontáveis pecados acumulados ao longo de décadas. O ar se tornava mais espesso, a escuridão mais densa, os olhos em volta mais famintos.
E então, eles chegaram ao prédio.
Ou, melhor dizendo, à criatura que chamavam de sede.
O edifício parecia ter sido moldado de forma orgânica, com sua arquitetura grotesca simulando costelas gigantescas que subiam torcidas em espiral, como colunas deformadas sustentando o teto da cidade subterrânea. Pedaços da construção pulsavam levemente, como se respirassem. Partes das paredes pingavam um líquido negro, viscoso. Do alto, via-se uma torre envolta por correntes, de onde se penduravam bandeiras carmesim rasgadas, com o símbolo dos Escorpianes desenhado a sangue: um escorpião cravando sua cauda em uma flor.
O corcunda parou diante de dois dos mais imponentes guardas que Koryu já vira. Um deles possuía três cabeças, todas amarradas por uma coleira de aço, e braços de metal forjados que subdtituíam os aparentemente amputados. O outro era completamente encapuzado, mas a aura ao seu redor fazia o ar vibrar com instabilidade mágica. Os dois bloqueavam a entrada com um silêncio hostil.
— Código: sangue seco, veneno fresco. — anunciou o corcunda, com um fungado nasal e uma reverência estranha, como se estivesse dançando em um pé só.
Os guardas não responderam com palavras. Apenas abriram passagem.
Dentro, o ambiente era mais limpo. Mas só em aparência. As paredes pareciam compostas de osso polido e vidro negro. O som de engrenagens sussurrava em alguma parte da estrutura, misturado ao aroma leve de perfume floral enjoativo. Nas margens do grande hall de recepção, alguns criminosos conhecidos apenas por suas fichas de execução permaneciam parados como obras de arte macabras — um deles com o rosto costurado em forma de sorriso permanente, outro deitado sobre uma cadeira com quatro braços cruzados e dois olhos pendendo da boca.
No centro, atrás de um balcão feito de carapaças entalhadas, uma criatura.
Uma massa de carne inchada e viscosa.
Aquele era o secretário do edifício. Seu corpo era todo olhos, cada um focado em direções diferentes, alguns sem pálpebras, outros piscando em descompasso. Um par de tentáculos funcionava como braços, digitando informações em um painel orgânico diante de si, o qual comandava outras partes de seu corpo que compunham a estrutura em si.
O corcunda se aproximou e estalou os dedos. Como era pequeno demais para ser visto, estendeu a mão.
— Ei, já sabe o que fazer. Levanta aqui, grandão.
Um dos brutamontes o ergueu como uma criança ergueria um brinquedo.
Do alto do balcão, o corcunda pigarreou e falou:
— Diga à Senhora Baronesa que Murn está aqui, com um convidado inesperado. Um negócio potencial.
O blob não respondeu com voz. Apenas tremeu, e um som molhado escapou de sua carne — um glorp gutural. Então, um de seus olhos se dilatou, brilhando em um tom de púrpura intenso.
A quilômetros dali, no andar mais alto do prédio, um outro pedaço da criatura, menor e esférico, reagiu. A conexão entre os dois era arcana, quase neural. Esse segundo olho orbicular piscou, absorveu a informação — e logo, uma voz respondeu, suave como seda envenenada, grave como um rugido abafado:
“Murn? Huh. Entre. E traga o convidado.”
O blob da recepção apenas se curvou lentamente, como um pedaço de carne dobrando, liberando o acesso com um som de trava sendo liberada.
O corcunda sorriu largo, ajeitou seu monóculo que quase caía, e apontou com a bengala ao desertor:
— Vamos ver se você consegue ser digno de metade do tempo dela, Ryuu.
Sem hesitar, subiram a escadaria em espiral.
Cada degrau era largo, revestido de uma camada que parecia pele artificial. A iluminação era mínima. Subiram em silêncio, até chegarem em frente da porta do escritório dela.
A madeira da bengala de Murn ecoou com três toques rápidos e elegantes sobre a porta de ébano adornada por entalhes em forma de escorpiões se entrelaçando. Assim que o som cessou, as engrenagens ocultas atrás da estrutura começaram a girar, e a porta se abriu com um sibilo quase serpentino.
Uma onda de ar perfumado invadiu os narizes dos dois — denso, inebriante, adocicado com o toque de incenso de especiarias raras. O interior era desarmante. Um contraste perturbador com o fétido caos da cidade abaixo.
O escritório da Baronesa era de um luxo meticuloso e quase doentio. Cortinas de veludo carmesim cobriam as paredes ao lado de grandes estantes recheadas com livros raríssimos e frascos com substâncias suspeitas. Um globo de ossos girava lentamente no canto da sala, e o chão era de mármore negro polido, refletindo as luzes pálidas das lâmpadas de vidro encantado no teto. No centro, sobre um tapete de seda dourada estava ela.
A Baronesa.
Estava sentada em uma imensa cadeira de espaldar alto, esculpida em madeira escurecida e detalhes de prata. Atrás de si, duas correntes flutuavam como serpentes famintas, suas lâminas escarlates brilhando suavemente sob a luz ambiente, como se sussurrassem ameaças silenciosas.
Seu rosto era inexpressivo, exceto por aquele maldito sorrisinho de canto. Os olhos vermelhos analisaram os dois homens ao entrarem como se dissecassem cada centímetro deles — e quando Murn se preparava para apresentar-se como o diplomata sempre exagerado que era, ela ergueu uma das mãos.
— Poupe-me da introdução, Murn. — sua voz era refinada e felina, desinteressada com a cordialidade do corcunda. — Eu sei perfeitamente quem entrou na minha sala. Seis olhos. Vinte e três mortes públicas. E uma recompensa bem gorda.
Ela se inclinou sobre a escrivaninha, entrelaçando os dedos abaixo do queixo com uma elegância perversa.
— Koryu Nephthys. Que surpresa... não imaginava que seria tão burro a ponto de se entregar de bandeja para mim.
Koryu não respondeu de imediato. O olhar dele era firme, mas havia algo de quebrado em sua postura. Como se parte dele ainda se arrastasse pelo luto e o caos de sua alma. Mesmo assim, manteve a compostura. E a mão, no cabo da katana.
— Ninguém está se entregando. — disse ele, a voz rouca e afiada como navalha. — Vim por um motivo. E é exclusivamente meu.
Baronesa suspirou com falsa decepção, recostando-se. As correntes em suas costas balançaram lentamente, como caudas de escorpião prestes a golpear.
— Isso não me interessa, Nephthys. Você tem alguma ideia do que cinquenta milhões podem fazer por minha cidade? Com essa quantia, eu dobro os túneis, converto as minas em fábricas e ainda faço um teatro só com cabeças empaladas dos meus traidores.
Ela se levantou, esguia como um castigo divino, caminhando lentamente até a frente da escrivaninha. Cada passo seu soava como uma sentença.
— Por que exatamente eu deveria te ouvir, ao invés de te vender como um troféu para a Casa Dominadora ainda esta noite?
Koryu não piscou. A mão seguia no cabo da katana, firme como sua voz:
— Porque você não vai nem cheirar esse dinheiro... se não prestar atenção no que eu tenho a dizer.
Por um momento, o silêncio preencheu tudo. Até mesmo as correntes pararam.
A Baronesa parou de andar. O sorriso dela se alargou um pouco mais — mas agora havia algo a mais nele. Curiosidade.
— Muito bem. — ela disse, suavemente. — Me entretenha.
Koryu permaneceu firme, com os olhos semicerrados. A tensão de antes agora se convertia em algo quase sarcástico, e sua presença ali parecia pesar mais com cada palavra não dita.
— Eu quero sair de Nocthys. Para Eldorwyn, ao sul. Você vai providenciar isso.
Foi direto. Frio. Sem ornamentos ou rodeios.
Murn, parado um pouco atrás com o chapéu apertado nas mãos, arregalou o único olho como se tivesse levado uma bofetada.
— Você tá brincando comigo… — murmurou ele, engolindo em seco. — Foi por isso que veio aqui? Isso?! De todas as coisas que poderia pedir…!
A Baronesa encarou Koryu por longos segundos. Silêncio. Nem o som do ar. Apenas os olhos vermelhos e intensos dela, como brasas comprimidas, queimando através dele.
Então, ela começou a rir. Baixo no início. Um sussurro trêmulo de ironia nos lábios.
Mas logo se expandiu. Escandalosa.
Ela jogou a cabeça para trás e gargalhou com a alma, os braços abertos como se o teto da cidade subterrânea fosse desabar de tanto eco. Até Murn se encolheu como um rato no canto da sala.
— O SUL DE ELDORWYN!!!!!! — exclamou entre risos, limpando uma lágrima falsa do canto do olho. — Você quer… o quê? Acampar entre as pedras? Viver entre os cervos e os musgos? Eu pareço alguma agente de viagens pra você?!
Ela retirou os óculos prateados do rosto com elegância cínica, limpando-os com um pano de seda que combinava com seu vestido justo. Voltou a colocá-los e finalmente percebeu.
Koryu não estava brincando. A risada dela morreu.
Seu rosto endureceu como mármore. Um suspiro saiu pelas narinas com tanta força quanto desprezo.
— Talvez a escuridão tenha finalmente engolido sua mente por completo. — ela disse, voltando para trás da escrivaninha. — Você invade meu território, suja meu piso, exige favores absurdos e espera que eu não mande te empacotar e despachar sua cabeça para a Casa Dominadora numa bandeja de prata?
— O porquê não importa. — disse Koryu, inabalável. — Mas eu preciso ir. Agora.
Baronesa inclinou o rosto, os olhos semicerrados.
— E por que exatamente eu deveria considerar fazer qualquer coisa por você, seu lunático ingrato?
Koryu respirou fundo.
— Porque eu tenho informação.
Ela riu, mas com menos entusiasmo.
— Tenho mil olhos espalhados por Nocthys. Acha que preciso da sua informação? Vai me dizer onde escondem ração extra? Onde cagam no prato dos nobres?
Mas então ele completou:
— … Informações sobre a Congregação do Eclipse.
Um estalo seco percorreu o ambiente. Murn congelou.
A Baronesa parou. Ficou imóvel por dois longos segundos.
Virou lentamente o rosto. Os olhos dela apertaram como lâminas finas.
— Você tá mentindo. — disse, mas sua voz não tinha mais a mesma firmeza.
Koryu ergueu levemente o queixo. Seus olhos arderam com a intensidade de quem viu demais.
— Eles deixaram um rastro atrás de mim. Eu conheço as rotas. As entregas. Os rostos que não constam nos registros. Sei onde estão escondidos. Onde vivem. O que planejam. E… quem os financia em segredo dentro da Casa Dominadora.
Agora, nem Murn ousava respirar.
A Baronesa cruzou os braços com lentidão. As correntes em suas costas estremeceram, vibrando com uma energia que só aparecia quando ela estava pensando, muito.
— Você vai falar tudo isso aqui…? — ela perguntou, quase num sussurro.
— Não. — Koryu respondeu. — Só depois de me garantir o que pedi.
Baronesa caminhou até a janela atrás da escrivaninha. Olhou para as luzes enfermas da cidade abaixo. Pensou. Avaliou. Planejou.
A Congregação era uma praga até para os criminosos. Um câncer espiritual que corroía qualquer plano de longevidade. Se Koryu realmente tivesse o que dizia, era algo que nem mesmo a guarda da capital tinha conhecimento a respeito por vários e vários anos.
— Você tem coragem. — ela disse finalmente. — Ou tá mesmo desesperado. Provavelmente os dois. — virou-se para ele com um olhar afiado. — Muito bem. Você terá sua viagem. Mas se eu descobrir que isso é uma mentira, mesmo que no mínimo detalhe, eu pessoalmente vou arrancar cada um desses seus olhos e adicionar na minha coleção.
— Feito. — Koryu respondeu. Apenas isso.
O pacto estava selado.
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