Arcanum

4 Mudança de Planos


O zumbido grave das turbinas a vapor fundido com propulsores eletromagnéticos vibrava levemente sob os pés de Adrian Paxton enquanto ele observava a projeção holográfica dançar no centro da cabine de comando. O mapa mundial de Runeforge, em tons azulados e coberto de marcadores dinâmicos, se atualizava em tempo real graças ao satélite orbital recém-ativado por sua própria engenharia. Linhas vetoriais tracejavam a rota marítima, com alertas piscando ao longo da borda leste do continente.


Ele ajustou os vetores com gestos precisos, os dedos digitando comandos diretamente no ar. O mapa respondeu com uma rotação suave, indicando a proximidade de pequenas ilhas costeiras — obstáculos naturais que precisariam ser evitados se quisessem chegar aos portos industriais de Cinderhelm sem atraso ou detecção indesejada.


— Capitão — disse ele, com a voz calma e firme. — Corrija o rumo para leste-nordeste, vinte e cinco graus. Tem um aglomerado de ilhotas vindo da correnteza oeste. Não quero lidar com turbulência magnética desnecessária perto de Cinderhelm.


O capitão, um navegante veterano com metade do rosto substituído por próteses de cobre e bronze, assentiu com um gesto sóbrio e girou o leme com precisão mecânica.


Adrian se afastou do painel e deixou-se cair na cadeira com rodas que deslizava suavemente pelo piso metálico polido. Movimentou-se até uma mesa próxima, onde repousava um cesto de frutas coloniais — maçãs verdes, peras cristalinas de Zaratharn e figos fermentados de Stormgard. Escolheu uma maçã verde, girando-a em sua mão antes de sacar um canivete de bolso de lâmina rústica. Com movimentos lentos, descascou a fruta e cortou pequenos pedaços em silêncio.


A porta deslizou para o lado com um chiado pneumático, revelando a figura de Miló, alto, vestindo roupas escuras e ajustadas, com a katana escarlate repousando na lateral do quadril. A mão estava, como sempre, repousada sobre a bainha.


— Quanto tempo mais até chegarmos? — resmungou Miló, encostando-se ao batente da porta com os olhos semicerrados sob o visor danificado que cobria seu olho direito. — Os outros estão inquietos.


Adrian ergueu uma sobrancelha sem levantar o olhar da maçã.


— Os "outros"? Ou seria apenas você?


Miló suspirou, cruzando os braços e encostando-se à parede com o ombro.


— Tá. Eu. Mas eles também tão entediados, eu só sou o porta-voz. Três dias flutuando no mar sem nada além de treinar naquela cabine... tô ficando enferrujado.


Adrian cortou mais um pedaço da maçã e o encarou de relance.


— Eu a customizei do jeito que você pediu. Um dojô flutuante com piso reforçado, espaço de sobra, isolamento acústico...


— Isso não é o problema — interrompeu Miló. — A questão é que... não tem desafio. Desde que saímos daquela maldita ilha, não encontramos nada digno de empunhar minha espada. Tirando um ou dois monstros marinhos preguiçosos... todo o resto foi só... água.


Ele bateu o punho fechado contra a parede com leve irritação.


— Eu entrei nessa viagem contigo pra ver o que existia além de Neonith, Adrian. Algo que não fosse feito só de aço reciclado e circuitos gastos.


Adrian mastigou lentamente o pedaço da maçã antes de responder, olhando para o mapa ainda projetado ao fundo.


— E você vai ver. Logo. Só está sendo impaciente.


Estendeu um pedaço da maçã na direção de Miló.


— Quer?


Miló franziu o nariz.


— Dispenso.


Adrian deu de ombros e mordeu mais um pedaço.


— E o que exatamente a gente vai fazer em Cinderhelm? — perguntou Miló, agora encarando o chão de ferro como se procurasse resposta ali. — Você sabe que aquele povo detesta tudo que vem de Neonith. A rixa tecnológica é mais velha que a maioria dos nossos avós.


— Sei. — Adrian respondeu sem emoção. — Mas não vamos ser percebidos. Por isso temos Milena conosco.


Miló ergueu o olhar, fazendo uma careta.


— Aquela... maga caolha?


Adrian parou de mastigar por um instante, e seu olhar endureceu ligeiramente.


— Tenha mais respeito quando falar dela.


— Não tô desmerecendo, só... — Miló gesticulou vagamente — é que eu tenho minhas dúvidas se ela vale mesmo a pena nessa equipe. Quero dizer... os outros são comprovadamente barra pesada, todos eles. A gente tem muitos mercenários com décadas de experiência em tudo quanto é tipo de missão. Mas ela? Só fala com o vento.


— E você deveria estar agradecido — cortou Adrian, seco. — Foi graças à magia dela que passamos pelos bloqueios aéreos de Neonith sem disparar um alarme sequer. Os radares pensaram que ainda estávamos no porto. Nenhum sistema, nem o protocolo Órion, detectou a fuga. Isso não é acaso.


Miló desviou o olhar, mordendo a língua. Após alguns segundos de silêncio, murmurou:


— Isso de “magia”... é só um nome bonito pra algo que as pessoas não entendem. Nunca precisei disso pra provar meu valor.


Adrian se levantou da cadeira, lentamente, segurando ainda o último pedaço da maçã. Aproximou-se de Miló com passos tranquilos, mas firmes.


— E é exatamente esse tipo de visão estreita que mantém milhares em Neonith presos dentro de cápsulas de realidade virtual, ou vivendo nos esgotos das Zonas Inferiores, olhando pra cima sem nunca sair do lugar.


Ele parou diante do espadachim e apontou com o pedaço da maçã na mão para o visor rachado que cobria os olhos de Miló.


— Só alguém com visão real saberia o valor de enxergar além.


Miló rangeu os dentes, os dedos apertando levemente a bainha da katana, mas sem mover-se. Um grunhido baixo escapou de sua garganta antes que se virasse com irritação e caminhasse até a parede oposta da cabine.


— Tsc...


Adrian voltou para sua cadeira e jogou o cabo da maçã no lixo ao lado da mesa, sentando-se com tranquilidade.


A porta da cabine do capitão deslizou com um leve silvo mecânico, revelando a silhueta de Freya Snowe, a jovem maga de gelo da equipe. Sua pele pálida contrastava com o brilho suave dos circuitos azuis que corriam sutilmente por debaixo de seu traje tático branco e preto, ajustado ao corpo como uma segunda pele. Os cabelos bicolores entre preto e branco muito bem penteados, e seu par de olhos de cores opostas, azul cristalino e castanho claro, observavam o ambiente com serenidade.


Ela parou por um instante ao perceber a tensão pairando no ar entre Adrian e Miló, cruzando os braços com um pequeno sorriso lateral.


— Cheguei em má hora? — perguntou, arqueando uma sobrancelha.


Adrian mordeu o último pedaço de sua maçã com total calma, e respondeu com um tom seco, sem tirar os olhos da projeção do mapa:


— Impressão sua. O que precisa?


— Cipher captou uma transmissão de rádio que, bom... acho que você vai querer ouvir — disse ela, o tom agora mais sério.


Adrian se ergueu da cadeira, limpando os dedos num pano ao lado da mesa.


— Capitão, se houver qualquer alteração ou imprevisto na rota, me avise pelo comunicador interno. Escuta número três.


O capitão apenas acenou com a cabeça sem desviar os olhos da rota.


Adrian virou-se para Miló.


— Vamos.


Miló resmungou algo inaudível, mas seguiu atrás, ombro a ombro com Freya, até a sala de inteligência localizada no segundo andar da embarcação, atrás das turbinas estabilizadoras.


O ambiente era levemente mais escuro, iluminado pelas telas de altíssima resolução do terminal central. Várias interfaces flutuavam no ar, conectadas ao terminal neural de Cipher, que estava, como sempre, encolhido sobre a cadeira giratória, descalço, de pernas cruzadas, uma caneca de chocolate quente em uma mão e um biscoito de gotas de chocolate na outra. Seu cabelo desgrenhado caía por sobre os olhos, e seu olhar vidrado nunca piscava enquanto analisava as múltiplas telas em velocidade vertiginosa.


Ao perceber a chegada dos três, Cipher parou de mastigar e falou, sem tirar os olhos da tela:


— Miló. Está aqui por tédio ou porque foi mandado?


Miló bufou, cruzando os braços.


— Vai se foder.


— Ordenado, então — respondeu Cipher, casual, voltando a mastigar.


Freya se aproximou e se encostou na borda da mesa de dados.


— Mostra pro Adrian o que você captou.


Cipher deslizou a cadeira para o lado com uma perna só, abrindo espaço. Com um clique, uma das janelas holográficas expandiu-se diante deles. Ele pressionou o botão de reprodução.


A transmissão, com leve ruído de estática, começou:


“...e ainda não há qualquer indício concreto sobre o paradeiro de Adam Altharion, o inventor prodígio responsável pela criação do revolucionário Núcleo Arcanum. O desaparecimento ocorreu durante o próprio evento de celebração do seu feito, e deixou toda Cinderhelm em estado de comoção. Fontes próximas ao Conselho das Máquinas confirmaram que a produção em massa do Núcleo foi aprovada pelos representantes legais da família Altharion, o que abriu portas para aplicações industriais e militares em todo o continente.”


A menção ao Núcleo Arcanum imediatamente capturou o foco de Adrian. Ele se inclinou, os olhos fixos na tela, os dedos cruzados sob o queixo.


— “Núcleo Arcanum”? — repetiu. — Do que exatamente se trata?


— Pelo que consegui puxar da rede interna de Cinderhelm, — disse Cipher, limpando farelos da calça — é uma máquina criada por esse Altharion. Serve pra otimizar a lapidação de cristais mágicos. Reduz o risco de instabilidade nas unidades energéticas dos Catalisadores.


Freya franziu o cenho.


— Aqueles mesmos que vivem dando pane quando usados em excesso?


Miló deu uma risada seca.


— Cinderhelmianos… inferiores como sempre. Devem considerar o básico como milagre.


Adrian, no entanto, estava longe de zombar. Ele caminhava lentamente pela sala, os olhos ainda voltados à imagem congelada de Adam no canto da tela de transmissão.


— O que eles não têm em otimização, têm em poder bruto. — murmurou. — Já estudei os cristais mágicos de Eldorwyn. Extremamente instáveis. O processo de refinamento é tão delicado que, normalmente, precisa de encantamento mágico. Mas… se esse tal Adam criou uma forma de estabilizá-los mecanicamente, isso é…


— … Revolucionário? — completou Freya.


— Exatamente.


Miló gesticulou com a mão.


— Tá, e daí? O inventor sumiu. Nós nem sabemos quem ele é. O que importa pra nós é a Runa Ancestral de Cinderhelm. Nada mais.


Cipher ergueu a mão com um novo biscoito.


— A questão é que a máquina vai começar a ser produzida em massa agora. Isso me chamou atenção. O timing é... curioso, no mínimo.


Freya estreitou os olhos.


— Mas como isso é possível se o inventor está desaparecido?


Adrian se virou para ela com expressão contida, mas firme.


— Ganância superando a lei vigente.


Cipher soltou um risinho irônico, mastigando o biscoito.


— Ah… Cinderhelm sendo Cinderhelm. Neonith, com todas as suas falhas, herdou esse tipo de canalhice deles, sem dúvida.


Adrian, agora com o pensamento mais claro, voltou à tela.


— Isso muda o plano. Se essa máquina for realmente funcional… eu preciso dela.


Miló franziu o cenho.


— Por quê?


Adrian olhou diretamente para ele.


— Porque um estabilizador como esse é essencial para o funcionamento do Núcleo Neural Arcaico. A fusão das Runas Ancestrais ainda é instável. Arriscada. Mas se eu conseguir unir a tecnologia mecânica de Cinderhelm com a ciência neural de Neonith… — ele fez uma pausa — Posso tornar o processo exato e perfeito… Isso nos deixa um passo mais perto de reconstruir o mundo, como prometi.


Freya cruzou os braços, sorrindo de canto.


— Se é só pegar uma dessas belezinhas, não deve ser tão difícil. Vão produzir aos montes, não?


Adrian se voltou para Cipher.


— Mantenha-se atento a qualquer outra transmissão relacionada ao Núcleo Arcanum. Toda movimentação, todo transporte. Quero saber tudo. Entendido?


Cipher fez um gesto displicente com a mão, já vidrado na tela novamente.


— Já estava fazendo isso antes mesmo de você pedir.


Miló, por fim, cruzou os braços, encarando Adrian com certo ceticismo.


— Tem certeza disso? O plano não era esse.


Adrian se aproximou, deu dois leves tapinhas no rosto dele — quase com carinho debochado — e respondeu com um sorriso calculado:


— É preciso se adaptar às circunstâncias. É isso que separa quem sobrevive, de quem vira um código morto no fundo do mar.


Após isso, saiu da sala de comunicações, com Miló rangendo os dentes levemente por trás dos lábios fechados.


[.]


A cabine de Milena era o aposento mais silencioso do navio — e o mais sutilmente sagrado.


As paredes estavam adornadas com tapeçarias de símbolos arcanos entrelaçados a constelações em fios prateados. No centro do cômodo, flutuando levemente acima de um círculo de runas e velas de chamas azuladas, estava a maga prodígio.


Com sua expressão serena, olhos fechados e cabelos castanho-avermelhados caindo sobre os ombros, Milena meditava em completo silêncio. Seu corpo permanecia suspenso no ar, com as pernas cruzadas em lótus e os braços repousando no colo, as pontas dos dedos tocando-se com leveza em um mudra de conexão.


Ela vestia sua túnica ritualista: um manto negro com detalhes dourados e prateados bordados em formas de espirais cósmicas, a gola alta ocultando parte do pescoço, e a capa esvoaçante ondulando com o fluxo de magia ao seu redor. A faixa negra que cobria seu olho esquerdo cintilava levemente com energia de contenção, selando aquilo que jamais deveria ser liberado.


Em sua língua ancestral, Milena recitava um mantra antigo, ressoando com as frequências do Arcanum enquanto mantinha o equilíbrio de sua aura mágica — uma tarefa desafiadora, ainda mais em mar aberto. O navio oscilava suavemente, mas a jovem maga permanecia imóvel no ar, como se fosse uma estrela estática em meio ao firmamento em movimento.


Foi então que ela ouviu.


— Milena.


A voz dele. A voz de Adrian.


Seus olhos se abriram lentamente, franzindo o cenho. A concentração se desfez em ondas suaves e as velas do círculo vibraram. Com um gesto breve, Milena pousou no chão, sentindo o metal frio sob os pés descalços. Ela se aproximou da porta da cabine e a abriu com cuidado.


Nada.


O corredor estava vazio. Nenhum som além do ronco distante das turbinas. Nenhuma presença.


Confusa, ela fechou a porta com cautela. Deu meia-volta.


— Milena.


Dessa vez, a voz ecoou dentro da cabine, mas não de modo comum. As velas azuis escureceram. As chamas tornaram-se negras como breu, tremulando com uma energia pesada, antiga. O espaço ao redor dela se distorceu sutilmente, como se a própria realidade estivesse sendo empurrada para os lados.


E então, diante do círculo mágico, uma figura se formou.


Era feita de ar, ou luz condensada, ou talvez energia mágica bruta — era impossível dizer. Sua forma era translúcida, sem cor, sem textura. Mas era inconfundível: a silhueta de Adrian Paxton, com os olhos brilhando em um tom âmbar intenso, e um rosto sem traços, como uma máscara inacabada.


Milena imediatamente assumiu posição defensiva. Seus olhos brilharam, e com um gesto rápido, formou uma barreira de contenção ao redor da cabine, impedindo que qualquer distorção escapasse.


— O que você é? — sua voz saiu gélida. — E como ousa roubar a voz do meu mestre?


A figura se moveu. Lentamente. Um passo após o outro em sua direção, como se o chão não o sustentasse, mas ele ainda assim pisasse nele por escolha.


— Sou o seu mestre. — disse a silhueta com uma voz mais profunda, porém ainda perfeitamente reconhecível como a de Adrian. — Ao menos… aquilo que resta do que me tornei.


Milena manteve a magia concentrada, mas não atacou. Ainda. O instinto lhe dizia para ouvir antes de agir.


— O plano foi… um sucesso quase absolutamente perfeito. — continuou ele, dando mais um passo. — Eu me conectei ao Arcanum. Vi além dos limites da realidade. Compreendi a verdade em níveis transcendentais. Eu mudei o mundo.


A entonação não era de loucura, mas de certeza absoluta.


— Estava prestes a trazer a era que prometi a todos vocês. Paz. Equilíbrio. Recomeço. Mas no momento em que minha sincronia com o Núcleo Neural Arcaico atingia seu ápice, ele foi destruído.


Milena estreitou os olhos, sua expressão firme.


— Destruído... por quem?


O espectro respondeu sem hesitar.


— Adam Altharion.


Um silêncio denso caiu sobre a cabine.


— Aquele a quem confiei os meios, a quem considerei um aliado. — a figura continuava, sua voz agora carregada por um pesar distorcido — Ele me traiu. Por inveja. Por orgulho.


Milena se manteve em silêncio, ouvindo.


— O Núcleo explodiu no exato momento em que o Arcanum me acolhia. E a realidade se partiu. O espaço-tempo se rasgou. Toda Runeforge foi dizimada. Todo o universo, todo o fluxo temporal, varrido como poeira em um redemoinho cósmico.


Ele parou a poucos passos dela, os olhos brilhando como sóis em miniatura.


— E agora… só restam dois resquícios dessa linha do tempo. Eu… e o próprio Adam. Anomalias temporais. Âncoras de uma realidade que já não existe mais. E é por isso que estou aqui. Para te alertar. E para te guiar.


Milena vacilou por um breve segundo, mas não abaixou os braços. Sua mente girava como uma tempestade. Até que ele completou:


— Se o Núcleo Neural Arcaico não for reconstruído… se ele não permanecer intacto… tudo será perdido de novo.


Ele a olhou — ou deu a entender que o fazia, mesmo sem olhos reais.


— E você… você sabe qual era o nosso sonho, Milena.


Essas palavras congelaram sua alma. Seu olhar, antes tempestuoso, vacilou. Ela abaixou levemente as mãos, olhando para o chão, o coração batendo forte.


Ela sabia exatamente do que ele estava falando.


E por um momento, ela ficou em silêncio, envolta em um turbilhão de lembranças e promessas antigas.


Então, ergueu o rosto. Seus olhos ardiam com uma mistura de dor e determinação.


— O que eu devo fazer?


A figura não respondeu de imediato. Mas, no silêncio que se seguiu, um sorriso invisível pareceu se formar naquela ausência de rosto.


— Boa garota.

Notas finais
<3