Arcanum

5 A Ciborgue


Em Neonith, o Distrito 25 pulsava com a vitalidade decadente de uma cidade que trocou a alma por luxúria.


Os prédios se amontoavam como blocos desordenados, seus letreiros em neon projetando luzes frenéticas sobre ruas cobertas por asfalto rachado, cabos expostos e detritos tecnológicos. Cada andar do grande prédio central — conhecido como "Neon Eden" — era dedicado a uma forma distinta de vício. No oitavo andar, a boate mais badalada do distrito se expandia como um antro de ruído, suor e luz estroboscópica: Club Synapse.


A música reverberava como tiros abafados, com graves tão intensos que fazia o chão vibrar. Hologramas dançavam com os corpos reais, tornando impossível distinguir entre os dois. Brilhos falsos, toques artificiais, conexões efêmeras. Tudo ali parecia pulsar com um desejo desesperado de parecer humano.


E então, ela apareceu.


Baixa, corpo ágil, compacto como uma mola enrijecida. Os olhos grandes, cibernéticos, com íris que oscilavam entre tons frios conforme o ambiente, varriam o espaço com precisão. Seus cabelos longos, brancos como os monitores antigos de CRT, refletiam a luz azul da boate, e suas expressões eram mínimas, quase mecânicas. Trajava um casaco de couro sintético, colado ao corpo, aberto até o umbigo, revelando partes metálicas sob a pele pálida e opaca. As mãos, naquele momento humanas, mantinham-se nos bolsos como lâminas guardadas em bainhas. Ela se movia como se não fizesse parte do mundo ao redor.


Seu nome era Astrid. Ou pelo menos, era assim que preferia ser chamada.


A música estourava os tímpanos. Dançarinas subiam em hastes iluminadas e realizavam um polydance sensual para os festeiros. Hologramas oscilavam como marés visuais, com atendentes virtuais também passando charmes aos visitantes que passavam. Mas ela não via nada disso. Via apenas um indivíduo em específico.


Sentado em um sofá semicircular de couro azul-neon, no centro do lounge elevado da boate, o alvo estava cercado. Três capangas ciborgues ao redor, corpos massivos, olhos vermelhos piscando em sincronia. E no colo do homem, duas dançarinas com roupas transparentes e pele brilhante o alisavam enquanto ele ria alto, a cabeça jogada para trás, os botões da camisa aberta até o abdômen.


Seu rosto estava exatamente como no arquivo: Dorian Vox, trinta e seis anos, ex-namorado da filha de Marco Granzetti, chefe de uma célula mafiosa do Distrito. O anel de diamante safira, uma peça única, feita à mão por um joalheiro de Eldorwyn, contrabandeado por uma quantia de créditos absurda para que não fosse detectado pela vigilância marítima, ainda estava no dedo anelar da mão esquerda.


Astrid parou por um instante, suas pupilas diminuindo como lentes de câmeras.


[Reconhecimento Facial Ativado]

MATCH: 100%.

Identidade Confirmada: Dorian Vox.

Status: Alvo Prioritário.

Objetivo Primário: Resgate de Item.


Ela girou os ombros com leveza, preparando os braços. O implante cervical piscou discretamente. Internamente, as rotinas de combate estavam sendo ajustadas. Ela precisava do anel, não da cabeça dele. Mas se fosse necessário, uma coisa a mais para devolver era um detalhe técnico.


A multidão dançava. Vibrações percorriam o piso de vidro. Ninguém notava a mulher de 1,57m atravessando o salão com o foco de um bisturi. Seus olhos ajustaram automaticamente o foco, escaneando a posição dos capangas, as armas ocultas nos coldres embutidos nos quadris, os padrões de movimento.


Dorian a viu só quando ela já estava a menos de dois metros. E riu de forma debochada devido a sua aparência.


— HAHAHA! Ai, caralho... quem convidou essa latinha toda pintada pra minha farra, hein? Já vou avisando que meu negócio são as peitudas, não as chupadoras de mamadeira.


As dançarinas riram com ele, sem entenderem. Os seguranças também olharam, mas não se moveram de imediato.


Astrid apenas parou. Suas pupilas reduziram-se a um ponto amarelo. Nenhuma expressão.


— Você está usando algo que não te pertence. — disse, em tom baixo, quase suave, mas com um peso que atravessava o som da música exageradamente alta.


Dorian piscou, confuso.


— Hein?


Ela deu um passo à frente. O ar ficou mais denso. A música, de repente, pareceu estar em segundo plano.


— O anel. — disse ela, olhando diretamente para a mão esquerda dele. — Entregue-o. Agora.


Dorian olhou para os próprios dedos, depois para os capangas.


— Ah. Deixa eu adivinhar. Aquele velhote te mandou pra compensar as lágrimas da filhinha dele, não é? — Ele estalou a língua, recostando-se com uma falsa tranquilidade. — Aquilo nem chegou a ser um casamento, falar a real. Foi um investimento que eu descartei. Não foi um negócio tão ruim. Mas nem pra me dar um tempinho de diversão aquela vadia me serviu. E eu que pensava que as virgens fossem mais ousadas.


A tensão foi palpável. Os capangas se mexeram.


Astrid nem piscou. Seus dedos se mexeram levemente dentro dos bolsos. O couro rangeu com a fricção.


— Se você resistir... — ela disse, ainda com aquela tranquilidade mortal — ... Eu não vou só tirar o anel. Vou arrancar o dedo, se necessário.


E então a sala congelou. Os olhos dos capangas piscaram em alerta. A taça de cristal tilintou suavemente contra a bandeja cromada, onde um dos autômatos de serviço repousava imóvel, paralisado pela sub-rede que congelava todo o sistema da boate.


Dorian Vox deu um gole lento em seu licor âmbar envelhecido, girando o gelo no copo com os dedos anelados. Um sorriso escorreu pelo canto da boca.


— Matem ela.


A ordem não precisou ser repetida.


Os três capangas se moveram como pistões liberados: um avanço sincronizado, sem hesitação. Todos eram ciborgues de combate, com membros reforçados, reforços de titânio sob a pele e programação neural de agressão ativa.


Astrid deu um passo para o lado, apenas um, e então o caos se instalou.


O primeiro golpe veio de um dos brutos pela esquerda, um gancho largo com o braço transformado em marreta hidráulica. Ela se abaixou, girando o corpo por baixo do impacto, sentindo o deslocamento de ar passar por cima da cabeça. O piso afundou levemente onde o golpe atingiu.


O segundo capanga tentou agarrá-la por trás, braços alongáveis e revestidos em metal escuro. Astrid acionou suas pernas cibernéticas, saltando com impulso vertical enquanto ativava o modo de aderência magnética das mãos para se prender a uma das luminárias superiores.


A multidão explodiu em gritos. A música cessou com um ruído abrupto, e os holofotes giraram em confusão.


— CÓDIGO VERMELHO, EVACUAÇÃO IMEDIATA! — ecoou a voz dos sistemas automatizados do clube.


Enquanto os convidados se empurravam em pânico para fora, o terceiro capanga, mais esguio, com lâminas rotatórias nas mãos, saltou sobre uma das mesas, arremessando uma sequência de golpes cortantes.


Astrid caiu de cima da luminária como um projétil, acionando a troca para as garras mecânicas em pleno ar. Suas mãos se expandiram com estalos metálicos e interceptaram a lâmina giratórias, faíscas voando para todos os lados.


Ela rodou o corpo no chão, usando o impulso para projetar o atacante para trás, colidindo-o contra uma coluna de vidro reforçado que estalou sob o impacto.


O primeiro capanga avançou novamente. Dessa vez ela não conseguiu esquivar totalmente. O soco acertou sua lateral, arremessando-a contra o chão.


Ela rolou. Rápido. Quase como um animal em defesa. Os sensores internos apitaram com alertas: costela parcialmente rachada. Dispositivo de estabilidade cervical afetado. Temporariamente instável.


Astrid se ergueu com um estalo da coluna vertebral artificial, respirando pesado. Seus olhos reconfiguraram-se para modo térmico. O suor dos inimigos, o calor dos servomecanismos. Tudo ali, mapeado em vermelho.


— Você ainda está de pé? — um dos capangas zombou.


Ela respondeu com um impulso brutal, avançando como um borrão, e acionou um modo de contra-força nos pés, deslizando entre os dois primeiros inimigos e cravando uma das garras embaixo do queixo de um deles, perfurando o sistema vocal antes de girar o pulso e desativar seu processador espinhal com um único movimento.


O corpo caiu, desligado.


— Um. — murmurou.


Mas foi atingida em cheio logo em seguida por um chute giratório, lançado pelo mais esguio dos capangas, que ativou uma lâmina lateral escondida na coxa. O impacto rasgou parte da pele sintética de Astrid no ombro, jogando-a contra o balcão do bar.


Vidro estourou. Garrafas voaram. Líquido escorria. Fumaça de circuitos queimando encheu o ambiente.


Dorian, ainda no sofá, recostou-se mais confortavelmente. Serviu mais uma dose.


— Eu adoro quando eles tentam fazer parecer que têm chance.


Astrid cuspiu um filete de sangue misturado com óleo sintético. Os alertas internos piscavam. Sistema instável. Capacidade de resposta reduzida em 14%.


Ela olhou para A.G.U.A., seu pequeno escudeiro, que havia se escondido sob um pilar metálico, tendo saído de uma de suas mangas durante a batalha. O pequeno caranguejo sintético estendeu levemente uma de suas patas, como em apoio moral silencioso.


Ela sorriu. Quase imperceptível.


— Tá bom. Sem mais economia de energia.


Ativou o modo de aceleração cinética, que sobrecarregava suas articulações com o excedente acumulado dos minutos anteriores. O som foi como um rugido surdo dentro dos próprios ossos.


Ela avançou como um míssil contra o segundo inimigo, explodindo o peito dele contra o chão, pressionando-o até a estrutura metálica ceder e parte do piso ruir. O restante da boate se encheu de alarme vermelho.


O último, o espadachim esguio, vinha com as lâminas girando em rotação máxima, prontos para despedaçá-la. Mas Astrid desativou suas mãos humanas, trocando para os exoesqueletos reforçados, agora com impulso gravitacional interno.


Ela bloqueou o ataque com os dois braços cruzados, as faíscas dançaram, e então ela girou o pulso de forma antagônica à rotação das lâminas, travando o sistema com um estalo violento. Com a outra mão, cravou os dedos no crânio metálico do inimigo, puxando os fios e o circuito primário do cérebro para fora como uma raiz arrancada à força.


O corpo caiu com um som pesado de metal contra o piso.


Astrid caminhou lentamente até Dorian Vox, sangue artificial escorrendo do corte no ombro, respiração ofegante, expressão inalterada.


Ele segurava o copo com a mão trêmula agora.


— I-Isso foi... desnecessário, sabe? Eu podia ter entregado o anel...


Astrid não respondeu. Apenas estendeu a mão.


Ele retirou o anel do dedo, com relutância, e colocou-o sobre a palma dela.


Ela o analisou por um instante. Confirmou o núcleo safira, as gravações internas.


— Autenticidade confirmada. — murmurou.


Então, antes de se virar para sair, olhou uma última vez por cima do ombro. Mas não para Dorian.


— Vamos, A.G.U.A.


A.G.U.A então se apressou indo lateralmente em passos apressados até a sua mestra, pulando alto até o ombro dela e entrando pelo capuz de seu casaco novamente, e assim ambos desapareceram pelas luzes quebradas da boate enquanto as sirenes da segurança local começavam a se aproximar tanto pelos ares quanto pelas ruas do distrito.


[.]


O Distrito 20, popularmente conhecido como Distrito das Nuvens, era uma favela flutuante suspensa por torres hidropneumáticas que oscilavam sobre uma camada de gás ionizado, um erro de projeto que se transformou em lar. Seus corredores suspensos rangiam com o peso de centenas de barracos interconectados por pontes metálicas improvisadas, luzes piscando em intervalos irregulares.


Astrid atravessou as passarelas sem pressa, as botas sujas de fuligem metálica e o corpo ainda sentindo os impactos da luta na boate do Distrito 25. A névoa eletromagnética que cobria os cabos ao redor do caminho brilhava suavemente em tons violeta, cobrindo sua figura com reflexos inconstantes.


Seu esconderijo ficava em um antigo contêiner adaptado, por fora, indistinto de tantos outros. Mas por dentro, era um santuário de manutenção pessoal: paredes cheias de painéis táticos, racks com ferramentas cirúrgicas cibernéticas, ganchos com membros sobressalentes, e uma estação de imersão neural ao centro, onde o corpo e a mente de Astrid podiam ser recalibrados.


Assim que entrou, a porta se fechou automaticamente atrás dela, lacrando o som e o mundo exterior.


— Iniciar sequência de manutenção. — murmurou, com voz rouca.


A.G.U.A. saiu de seu capuz, seus olhinhos brancos brilhando em reconhecimento. O caranguejo sintético moveu-se com precisão, subindo pelas bancadas e puxando as ferramentas com suas garras. Usava seus minúsculos conectores traseiros para se conectar aos braços robóticos suspensos no teto, ativando os braços cirúrgicos.


Astrid sentou-se na cadeira central. Retirou o casaco e, com um clique suave, liberou o mecanismo torácico da lateral do corpo. Uma fenda surgiu abaixo das costelas, revelando fios desgastados, placas rachadas e fluido ressecado.


— Modo de diagnóstico. — ordenou.


A.G.U.A. projetou um pequeno holograma em sua carapaça, com leitura em tempo real. As estatísticas de integridade surgiram diante dos olhos de Astrid:


Braço Esquerdo: 73% funcionalidade – conexão servomotora instável.


Coluna Vertebral Secundária: 58% – atraso de resposta neural.


Pele Sintética – ombro direito: dano estrutural médio.


Sistema energético auxiliar: 24% – recomendada substituição.


— Eu sei, eu sei... — ela murmurou.


A.G.U.A. soltou um bipe suave e estendeu as ferramentas apropriadas.


Os braços mecânicos desceram, e o som de metal sendo desparafusado, fibras sendo desconectadas e microimplantes sendo recalibrados preencheu o cômodo.


Astrid se recostou. Seus olhos se fecharam.


Por alguns minutos, não havia som algum além do leve zumbido dos instrumentos de reparo. Nenhuma notificação. Nenhum alarme. Nenhuma ameaça.


Ela respirava fundo, como quem se forçava a lembrar que ainda precisava de ar. E então, pôs-se a pensar acerca de sua condição atual.


Créditos? Estavam estáveis. A transferência do pagamento do anel já havia sido confirmada e criptografada, quantia mais do que suficiente para semanas de manutenção, e até mesmo upgrades se desejasse.


Autoridades? Ainda não sabiam onde encontrá-la, a polícia local não havia cruzado suas trilhas digitais graças às rotas de escape que ela mesma havia programado nos becos de dados do Panóptico.


Mafiosos? Alguns lhe queriam longe, outros lhe queriam por perto, equilíbrio habitual.


Na lógica de Neonith, isso era o mais próximo de dizer que as coisas estavam... bem.


Mas ainda assim, o vazio permanecia. O tipo de vazio que nenhuma manutenção preenchia. Nenhuma quantia de créditos selava. Nenhuma vitória em combate silenciava.


E, como em tantas noites anteriores, Astrid estendeu a mão até A.G.U.A., que descansava sobre a bancada, assistindo silenciosamente. Com a ponta dos dedos, ela tocou levemente sua carapaça translúcida, como se confirmasse que algo, alguém, ainda estava ali. O núcleo interno de A.G.U.A. brilhou em um tom tênue de azul.


Ela não disse nada. Mas também não precisou dizer. Porque naquele gesto, naquela pausa, naquele instante sem violência, sem missão, sem tarefa... Havia apenas ela.


E mesmo assim, ela não conseguia entender por quê todo esse esforço ainda não bastava. Por que, mesmo tendo deixado para trás tudo o que a tornava humana, algo ainda doía lá dentro. Ou talvez... faltava.


Sua voz surgiu baixinha, como uma falha, enquanto olhava para o próprio corpo cibernético, agora totalmente reparado, fechando-se lentamente de forma automática ao identificar a restauração completa.


— ... Será que ainda resta algo meu nisso...?


A refeição de Astrid consistia em três ampolas: uma de sangue sintético enriquecido, outra de catalisador energético de baixo impacto, e a última de fluido ionizado com nutrientes para os tecidos neurais.


Ela as conectou diretamente ao porto digestivo localizado sob a clavícula esquerda. Cada substância era absorvida em sequência automatizada, um processo sem sabor, sem prazer. Apenas função.


Depois, caminhou até o painel lateral do esconderijo, desativando as luzes com um simples gesto. O espaço mergulhou em tons azulados e sombras longas, interrompidas apenas pelo brilho suave de A.G.U.A., que se recolheu para seu ninho sob a estação de ferramentas, retraindo as patas como um animal obediente.


Astrid sentou-se sobre o colchão fino, encostada à parede metálica do contêiner. Seus olhos cibernéticos diminuíram a luminosidade. A exaustão, mesmo que reprimida, ainda se manifestava em forma de atraso neural e carga sobre os núcleos motores.


— Play: arquivo DreamNoise—Old.LoFi_Batch04. — murmurou.


A playlist se iniciou dentro do chip neural, ressoando em sua mente com batidas suaves, distorcidas pelo tempo. Uma mistura de vinis antigos, estalos elétricos, melodias repetitivas e vozes sem palavras. As notas eram familiares. Reconfortantes. Um resíduo de humanidade, repetido em looping para simular calma.


Ela se permitiu deitar, os braços cruzados sobre o peito, os olhos se fechando enquanto o som ecoava apenas dentro da própria mente. Pela primeira vez em dias, havia silêncio interno.


E então, algo mudou.


No instante em que um fragmento de melodia cessou, o som sumiu por completo. Não houve transição. Nem aviso. A música simplesmente... desligou. E em seu lugar, surgiu uma imagem.


Não no visor. Não na rede. Mas dentro da mente dela.


A realidade se desfez em uma luz dourada ofuscante. Tudo à sua volta desapareceu, teto, paredes, chão. Havia apenas um espaço vazio, um horizonte de névoa branca e dourada, pulsando com energia viva, que não vinha de cabos nem placas de circuito.


No centro desse espaço, um homem aparecia. Longa barba branca. Olhos brilhando como estrelas. Um manto que flutuava como se o próprio ar o reverenciasse.


Merlin.


E então, a mensagem ecoou, diretamente dentro de seu ser, como um código que atravessava alma e máquina:


"Se você está recebendo esta visão, é porque foi escolhido pelo próprio Arcanum. Seu destino foi decidido. A existência está em perigo, e seu papel será crucial para salvá-la. Venham para o Sul de Eldorwyn. O tempo é curto!"


A luz cresceu como uma explosão silenciosa.


E então, tudo sumiu.


Astrid sentou-se no colchão com um movimento abrupto. Suada, mesmo com os reguladores térmicos em pleno funcionamento. A playlist reiniciava em segundo plano, como se nada tivesse acontecido.


Ela reexaminou os logs cerebrais. Nenhuma anomalia. Nenhum vírus. Nenhuma projeção neural externa identificável.


— Não tem fonte... — murmurou para si mesma.


A mensagem ainda ecoava em sua mente, com uma clareza absurda.


Astrid franziu o cenho.


— Arcanum...? — repetiu em voz baixa, como quem ouve uma palavra inventada.


Fechou os olhos por um momento e respirou fundo. O mais perto de um suspiro que conseguia fazer sem parecer falha hidráulica. E por dentro, seus pensamentos conflitavam como um tornado de perguntas e afirmações sem certeza nenhuma:


“Foi uma alucinação...! Ou alguém criou um ataque psíquico com um propósito... ainda não mapeado...”


“Talvez um experimento da Força Zero... Ou um vírus implantado via onda de baixa frequência...?"


“... Ou talvez eu esteja finalmente bugando..."


Mas quanto mais tentava racionalizar, mais perfeita parecia a mensagem. Orgânica demais. Sem falhas de compressão. Sem delay, nem ruído de codificação, tão pouco assinatura digital.


Ela odiava admitir, mas... não havia explicação lógica.


A.G.U.A., no canto, observava em silêncio. Seus olhos-LEDs brilharam em azul-claro, como se sentisse a inquietação da dona.


Astrid levantou-se, dando passos lentos até a bancada.


Ela ativou o painel holográfico via Panóptico. Um mapa de Runeforge surgiu, fragmentado, dividido em três continentes, mas com praticamente nenhuma informação que não fosse superficial ao extremo, devido a falta de reconhecimento no continente Queen e King, com apenas mapeamento detalhado de estados e zonas de Neonith.


Ela olhou fixamente para a porção ao sul de Eldorwyn.


— Magia não existe. — disse, mais como afirmação obstinada do que crença verdadeira. — Mas... eu vi aquilo... E se for um experimento mental? Um comando embutido? Um glitch?


Ela estava tentando com todas as forças se convencer de que era loucura. Mas algo na voz daquele homem, na presença que a envolveu, não se encaixava em nenhuma categoria conhecida. Era como se algo destravasse por dentro. Como se alguma parte esquecida, enferrujada, acreditasse.


— ... E se não for?


Essa última frase soou diferente. Mais baixa, e com medo.


Ela permaneceu parada por alguns segundos. E então, sem cerimônia, marcou um ponto no mapa: Sul de Eldorwyn.


O caminho era muito longo. As autoridades já a procuravam dentro de Neonith, tentar sair do continente Prince era uma sentença de morte, poucos eram aqueles capazes de enganar a Marinha. A travessia entre as zonas vermelhas do mar era arriscada demais, e era um lugar que Astrid não tinha absolutamente nenhuma informação a respeito.


Astrid fechou o mapa, e então olhou para A.G.U.A.


— Espero que você esteja com os sistemas atualizados... vamos ter uma longa viagem.


O pequeno caranguejo mecânico soltou um bipe sutil e se recolheu em modo de transporte, prendendo-se à lateral da perna cibernética dela.


Astrid rapidamente começou a encher uma mochila grande e reforçada com tudo aquilo que fosse matematicamente essencial para que pudesse sobreviver até chegar no destino, tal qual quaisquer outros tipos de precauções, só conseguindo carregar todo aquele peso graças aos seus membros cibernéticos.


Ela então pegou seu casaco, travou os implantes com sua rotina de segurança e abriu a porta do contêiner. Do lado de fora, o Distrito das Nuvens dormia sob o ronco das torres de propulsão e a chuva morna de vapor.


Ela não fazia ideia do que a esperava. Mas era um caminho novo. E o novo, talvez, fosse justamente do que precisava agora.


— Vamos ver até onde essa loucura vai.


E assim ela partiu, com o contêiner se fechando automaticamente atrás de si.

Notas finais
<3