Arcanum

11 Guerra em Alto Mar


A sala de treinamento principal do navio era imensa, com piso antiderrapante de ferro, paredes reforçadas e barras transversais no teto, claramente preparada para o uso intenso de exercícios militares e duelos simulados.


Naquele momento, no centro da sala, Ravyn se movia como uma extensão da própria lâmina. Seu corpo realizava uma dança de precisão absoluta.


Estocadas, giros, saltos, defesas, feintes e contra-ataques. Cada movimento era calculado com exatidão cirúrgica, como se o erro fosse uma impossibilidade física para ela. A menina girava em rotação controlada, cravando sua lâmina no alvo final, sem sequer errar o centro do ponto marcado. Era a quinquagésima primeira vez consecutiva que executava aquela mesma série de movimentos, sem a menor falha.


Do lado, observando como um escultor analisa sua obra-prima, estava Nerion. De braços cruzados e expressão ereta, os olhos azuis cravados na filha como se visse ali não uma jovem em formação, mas um espelho perfeito de suas próprias glórias passadas. Cada passo da garota era uma reafirmação de sua própria excelência como patriarca e mentor. Quando Ravyn finalizou o último movimento com um giro que ressoou no chão metálico, Nerion ergueu a mão e, pela primeira vez em duas horas, permitiu-lhe descansar.


— Pode parar. — disse ele, em tom firme. — Cinqüenta e um. Sem falhas. Aceitável.


Ravyn, mesmo com o corpo clamando por descanso, se recompôs com perfeição. A respiração foi controlada, o suor ignorado, e a exaustão varrida do rosto como poeira sob um tapete. Para ela, mostrar cansaço seria desonrar o pai, e isso era pior do que qualquer dor. Ainda assim, por dentro, os músculos latejavam, e a garganta queimava de sede.


O som lento e espaçado de palmas ecoou pela sala, interrompendo o silêncio após o treino. Um som zombeteiro, quase cínico.


— Uhm. Impressionante... — disse Ashka, recostada contra a parede lateral, os braços cruzados e um sorriso de canto nos lábios rosados — … Para uma criança.


O olhar de Nerion se estreitou como navalhas.


— O que você está insinuando? — questionou, o tom cortante.


Ashka deu um passo adiante, sem nunca perder o sorriso. A luz fria da sala refletia sutilmente nas lâminas escondidas sob seu sobretudo.


— Insinuando? Ora, Nerion, não estou insinuando nada. Apenas me pergunto se essa é mesmo a prodígio que vai ser minha dupla no roubo do Núcleo Arcanum, eu esperava algo mais. Menos coreografia, mais instinto. Ela parece boa, mas não boa o suficiente.


Nerion cerrou os punhos. Ofensa contra Ravyn era ofensa contra si, e ele jamais tolerava isso sem resposta. Não importava se Ashka era uma das poucas ali que ele reconhecia como útil, isso não lhe dava o direito de falar daquela forma.


— A minha filha foi treinada para ser o ápice do que Dinoville tem a oferecer. Ela é uma lâmina perfeita, forjada por mim. Se eu ordenasse agora, ela enterraria essa espada em qualquer um aqui. Inclusive você. — respondeu com veneno controlado na voz. — E não, ela ainda não demonstrou magia. Mas não se preocupe, Ashka. Você pode ter o privilégio de vê-la em ação.


Ashka soltou uma breve risada nasal. Ela então puxou ambas as mangas de sua blusa, revelando suas luvas de lâminas trigêmeas por fim. Seu olhar caiu sobre Ravyn, que permanecia parada, sem reagir, como uma arma engatilhada esperando o gatilho certo. Não mostrava medo, nem raiva. Só esperava a decisão de seu pai.


— Que tal um desafio, então? Só pra vermos se ela é tão boa quanto você afirma. Não vou matar ninguém, prometo. — ela disse com escárnio.


Ravyn girou o rosto para Nerion, como se ele fosse o próprio comandante divino, em busca da autorização. Ela não agia por vontade, mas por ordem. O pai a observou por um instante e então assentiu, com um gesto de queixo.


— Tome posição e lute.


Ravyn deu um passo à frente. E tudo dentro dela se calou.


A tensão que precedeu o primeiro golpe foi como o esticar de um arco invisível. Ravyn assumiu sua postura: pernas afastadas na medida precisa, ambas as espadas baixas, levemente inclinadas para trás, com os olhos fixos em Ashka como um felino atento ao menor sinal de movimento. Ashka, por sua vez, avançou lentamente, com os ombros relaxados, a postura negligente de quem sabe que pode matar sem esforço — como se a própria morte caminhasse com pés leves.


E então, como um relâmpago partindo o céu, Ashka atacou primeiro.


Num único passo, cruzou a distância entre ambas, suas luvas douradas riscando o ar com um zumbido fino e cortante, como lâminas afinadas em fúria. As garras triplas de adamantina brilharam ao serem lançadas num arco baixo, mirando as pernas de Ravyn, que recuou num salto curto, desviando com perfeição. Mas Ashka era rápida. Rápida demais.


O segundo golpe veio na diagonal, de cima para baixo, e Ravyn cruzou suas espadas em um “X” para absorver o impacto, sendo empurrada para trás como se tivesse bloqueado o ataque de um canhão.


Ashka não parava. Estava testando sua adversária, deslizando ao redor com giros fluídos e quase graciosos, suas garras perfurando o ar com precisão absoluta. Cada passo era uma dança de morte. Ravyn defendeu, bloqueou, girou, se abaixou, mas a pressão era constante, sufocante. Um pequeno corte surgiu em seu ombro esquerdo, a ponta de uma das garras quase a atingira por completo.


Mas o olhar de Ravyn não era de medo. Era de familiaridade.


Ela começou a entender.


Notou o padrão cíclico dos ataques de Ashka, os falsos recuos, os saltos curtos para reengajar, a tendência de atacar primeiro com a mão direita antes da esquerda rodopiar em gancho. Aprendeu tudo isso em segundos. E quando a assassina tentou repetir o mesmo combo lateral, Ravyn girou o corpo para dentro, surpreendendo Ashka ao inverter sua guarda com uma das espadas no alto e a outra rente ao chão.


A lâmina da mão direita de Ravyn colidiu com as garras de Ashka e prendeu o movimento. Era uma armadilha.


Com a esquerda, Ravyn deslizou pela lateral, passando rente ao rosto da inimiga e cortando com precisão absoluta uma mecha espessa dos cabelos rosados de Ashka, que tombou suavemente ao chão metálico.


Por um instante, o tempo pareceu congelar.


Ashka recuou com uma expressão rara: surpresa genuína. Os olhos azulados semicerrados brilharam com algo entre irritação e excitação. Ela ergueu a mão até os cabelos, encarando os fios cortados entre seus dedos.


Ravyn, firme, retomou sua guarda. O sangue em seu ombro já começava a escorrer pela roupa de treino, mas ela não pareceu sentir. A postura dela não era apenas de defesa agora, mas sim de pura concentração.


Ashka sorriu.


— Talvez você não seja só uma criança bem treinada, afinal.


Ashka se impulsionou em um salto quase felino, o corpo arqueando no ar antes de descer novamente sobre Ravyn com uma chuva de cortes rápidos e sucessivos. As garras triplas de adamantina cintilavam como uma série de relâmpagos, colidindo contra as espadas da jovem em uma dança de puro atrito e selvageria.


Cada golpe fazia faíscas saltarem no ar e o som metálico ecoar pela sala como sinos de batalha. O vento gerado pelo confronto era tão forte e impetuoso que os longos cabelos castanhos de Nerion foram empurrados para trás. Ele, contudo, se mantinha estático, observando com olhos frios e críticos.


E então, no ápice de um novo embate, o inevitável aconteceu.


Com um movimento brutal e certeiro, Ashka cruzou ambas as mãos numa tesoura descendente, suas lâminas douradas chocando-se contra as espadas de Ravyn com força descomunal. O som seco e áspero de metal partindo cortou o silêncio seguinte como um trovão.


As espadas de Ravyn se partiram. Os pedaços voaram no ar como cacos de vidro. Ashka, pronta para finalizar a ofensiva, avançou num impulso.


Mas Ravyn não hesitou.


Com mãos protegidas por luvas negras e reflexos forjados no inferno da expectativa paterna, ela agarrou os estilhaços ainda no ar, girou para fora do campo de ataque como se deslizasse pelo próprio vento, e, com precisão letal, lançou os pedaços como se fossem shurikens ou cartas de baralho.


Um deles cortou de raspão a bochecha esquerda de Ashka, deixando um risco fino e escuro que sangrava discretamente, o fragmento cravando-se com força absurda na parede metálica do outro lado da sala, tremendo com o impacto. As outras lâminas vieram em seguida, velozes e traiçoeiras, mas Ashka as ricocheteou com o movimento rápido de suas garras, como se estivesse desviando de pedras no vento.


Mas naquele breve instante de desvio, Ravyn já havia se reposicionado. Quando Ashka avançou, seus golpes começaram a atingir nada além de ar e parede. Ravyn não estava mais lutando com armas, mas com o próprio corpo. Ombro após ombro, quadril após quadril, ela se movia como um espectro intangível, deslizando pelos ataques, girando, recuando e redirecionando cada impulso da inimiga contra ela mesma.


Ashka rugiu em frustração, tentando rasgar a parede ao redor quando seus golpes falharam, e então Ravyn saltou.


Ela girou no ar, apoiando um pé no antebraço direito de Ashka, o outro em seu ombro, e girou como uma serpente em torno da assassina, prendendo os braços de Ashka com as pernas por trás. Num segundo, estava em sua nuca, puxando seu corpo para baixo com o peso inteiro e aplicando um mata-leão cirurgicamente ajustado, os bíceps pressionando a artéria carótida e a traqueia com precisão treinada.


Ashka caiu de joelhos.


Mas ela não era o tipo de mulher que aceitava a derrota.


Mesmo com o sangue diminuindo a oxigenação do cérebro, mesmo com os pulmões começando a clamar por ar, ela cravou os joelhos no chão e se impulsionou para trás com todo o peso do corpo, tentando esmagar Ravyn contra o metal da parede. E mesmo assim, a garota manteve o bloqueio, ajustando a pegada, respirando de forma controlada, implacável.


Os olhos de Ashka começaram a oscilar. Mas a assassina ainda não cederia. Ainda não.


Ravyn ainda pressionava o estrangulamento com firmeza, suas pernas cruzadas com precisão ao redor dos braços de Ashka, sentindo a força da adversária começar a ceder. O calor da vitória pairava em sua pele, a respiração ritmada, o olhar firme.


Foi então que Ashka, com a frieza esperada de uma assassina, ergueu com perfeição a perna direita, dobrando-a em um ângulo quase impossível e aplicando um golpe veloz com a ponta do pé no ponto cego do rosto de Ravyn, mirando o olho esquerdo com assustadora exatidão.


Ravyn largou o mata-leão no mesmo instante e ergueu o antebraço em reflexo, bloqueando o impacto, mas o golpe havia feito seu corpo perder o eixo por frações de segundo, tempo suficiente para que Ashka escapasse do agarre. Ravyn, mesmo desequilibrada, impulsionou os dois pés nas costas da oponente, empurrando-a com brutalidade. Ashka deslizou pelo piso metálico como um vulto, girando sobre um dos pés com maestria e cravando as garras no chão, riscando o metal como papel sob faca, até parar com o corpo curvado e as lâminas ainda expostas.


Ravyn respirou fundo. Estava ofegante, mas centrada. Ela ergueu as mãos, agora desarmadas, em posição de combate. Seu olhar era cristalino. Nenhuma hesitação.


Ashka deu um meio sorriso. Aquela garota era boa. Melhor do que esperava.


Mas antes que pudessem retomar o confronto, a porta da sala se abriu com um estrondo, e Raizo entrou com passos largos e furiosos.


— O que diabos tá acontecendo aqui?! — a voz dele cortou o ar como um chicote.


Ambas as lutadoras mantiveram suas posições por um segundo, ainda tensas. O olhar de Raizo percorreu o salão e os estragos visíveis nas paredes, no chão arranhado, nas rachaduras dos pilares de metal.


— O navio inteiro tá balançando pra um lado só por causa da luta de vocês! — rosnou.


Nerion, impassível em sua pose arrogante perto do canto da sala, cruzou os braços.


— Não se intrometa, Raizo. Isso é uma questão de honra. Uma lição que a sua irmã precisa aprender.


Raizo virou-se lentamente para o pai, o olhar fuzilante.


— Cala. A. Boca. — disse em tom grave, e os olhos de Ravyn se arregalaram por um instante, surpresa com a ousadia. — Isso aqui não é Dinoville, e eu não sou mais uma criança.


Ele então se postou entre Ravyn e Ashka, os braços abertos levemente em sinal de bloqueio.


— Ravyn, pare com isso. Agora. — ordenou, firme, mas com um tom protetor e sério.


Ravyn hesitou. Queria continuar. Queria provar que podia. Mas o comando do irmão, o único, além de seu pai, cuja palavra ela respeitava de fato, calou seu instinto. Lentamente, ela baixou as mãos.


Ashka, por sua vez, ainda com as garras triplas em punho, reconheceu o momento e retraiu as lâminas, que deslizaram para dentro das luvas douradas com um som seco e metálico.


— Já tirei a prova. — disse, virando-se. — A garotinha é boa. Vai dar conta do recado… por enquanto. — sua voz arranhava o sarcasmo como se fosse veludo sujo. — Já estou de saída.


Raizo a observou atentamente enquanto ela passava por ele e deixava o recinto com passos silenciosos e controlados.


Assim que Ashka sumiu pela porta, Raizo virou-se lentamente para Nerion, agora com o semblante ainda mais sombrio do que antes. O pai apenas o encarava, como se não visse problema algum.


Mas a tensão entre os dois era palpável. Quase cortante.


Raizo então foi até ele, empurrando Nerion dois passos para trás, o bastante para que seus pés firmes no chão tremessem brevemente. O olhar do patriarca se incendiou de fúria no mesmo instante, como se não acreditasse na audácia do próprio filho. Num piscar de olhos, ele avançou e agarrou Raizo pelo colarinho com força, puxando-o para perto com uma expressão sombria, quase bestial.


Mas Raizo, muito diferente do jovem obediente e silencioso que Nerion moldou anos atrás, segurou o pai pelo pescoço com uma das mãos, firme, implacável, e ergueu o dedo indicador da outra mão até o rosto dele, quase tocando-lhe o nariz. A tensão era sufocante, como duas feras ancestrais prestes a se devorarem.


— Já estou farto disso, Nerion. — disse entre os dentes, sua voz afiada como uma lâmina. — De você colocar a Ravyn em risco por causa dessas rixas doentias que só existem dentro do seu ego podre. Da próxima vez que você fizer isso, pode ter certeza de que vai se arrepender. Amargamente.


Nerion rosnou, empurrando Raizo para longe com força, endireitando as vestes como se limpasse a ofensa do toque. Seus olhos, vermelhos de raiva, estreitaram-se em puro desprezo.


— Você ousa me ameaçar? Aquele que te deu a vida? Que moldou o poder que você carrega? — cuspiu as palavras. — Ravyn entende o lugar dela. Ela sabe o que significa ser o verdadeiro nome da nossa linhagem. Não um fracassado que fugiu do seu papel.


Raizo cerrou os punhos, o rosto queimando de fúria, mas antes que pudesse avançar para cima do pai de novo, Ravyn se colocou entre eles, uma das mãos pressionando discretamente o ombro ferido.


— Basta! — sua voz não era alta, mas cortava como gelo. — Ele não fez nada de errado. Eu aceitei o desafio. Porque eu devia. Porque é isso que se espera de mim.


A dor em sua voz era oculta sob o orgulho. Mas Raizo a via. Sempre viu.


Ele passou uma das mãos pelo rosto, cansado, indignado, amargurado.


— Essa não é a sua obrigação, Ravyn. — disse mais baixo, mas ainda carregado de tensão. — E também não é a minha. Nós não precisamos provar nada pra eles! Nem pra essa... essa maldita matadora de aluguel, nem pro Nerion. E se ela fosse mais forte que você? E se tivesse te matado ali mesmo?! Num duelo que nem sequer tinha regras claras?


Foi só então que seus olhos pousaram sobre a mancha escura no uniforme da irmã, e por um instante, o mundo parou.


Raizo congelou. Um corte no ombro de Ravyn, agora visível sob a luz da sala, sangrando lentamente, mas de forma constante. Seus olhos se arregalaram, e a ira explodiu como um trovão dentro de si.


— Você... — murmurou, os olhos arregalados para Nerion, depois voltando à irmã. — Ela te feriu. Você tava sangrando esse tempo todo e não falou nada?!


Ravyn desviou o olhar, apertando os lábios com força.


— É só um corte.


Mas para Raizo, aquilo foi o estopim. Ele foi tomado por uma raiva tão crua, tão pura, que mal se ouviu o baque de seus próprios pés correndo até erguer Nerion nos ombros e cravá-lo com brutalidade contra a parede metálica da sala de treino, como se ele não pesasse mais que um saco de mantimentos. O impacto ressoou como um trovão oco pelo convés do navio, e sem sequer dar espaço para um único suspiro, Raizo começou a socá-lo desenfreadamente, como se seus punhos fossem martelos, suas veias pulsando eletricidade.


A magia de raio percorreu seu corpo como um rio de trovões, suas pupilas eletrificadas, cada soco como o rasgar de uma tempestade. Um, dois, três, cinco, oito golpes em questão de segundos, rápidos demais para olhos humanos acompanharem, a parede já se deformando sob o corpo de Nerion.


Mas então, tudo parou.


Raizo congelou. Seus braços travaram no ar, as faíscas se apagaram. Seus músculos não mais obedeciam sua vontade. Era como estar trancado dentro do próprio corpo.


E então ele sentiu.


A familiar sensação fria e opressora do controle de sangue de Ravyn fluindo em seu interior como uma maré densa. Seu corpo tremia, mas não se movia. Sua respiração, pesada. O choque de perceber que ela havia feito isso.


— Irmão… Por favor. Para. — a voz dela veio baixa, trêmula, mas firme. Dolorosa.


Ela o paralisava por amor, medo e necessidade mistos.


Nerion, mesmo arfando com o rosto ensanguentado, não desperdiçou a oportunidade. Com a precisão de um predador, acertou um soco direto no maxilar de Raizo, que, ainda sob os efeitos do controle de Ravyn, tombou de lado. Ela imediatamente desfez o domínio, e Raizo caiu de joelhos, cambaleando para se levantar.


Nerion cuspiu sangue para o chão, limpando o canto da boca com as costas da mão, e riu com um misto de escárnio e decepção:


— Isso é tudo? Esse é o limite do filho que eu gerei? Patético. Mais decepcionante do que imaginei.


Raizo cerrava os punhos de novo, mas antes que pudesse se lançar, a voz da irmã o cortou como uma lâmina fina:


— Raizo... vá embora.


Ele congelou.


Virou o rosto para ela. Havia algo quebrado em sua expressão. Não era tristeza. Era rendição. Um pedido mudo.


Ravyn fechou os olhos, fazendo selos delicados com as mãos, e quando os abriu novamente, o corte em seu ombro já estava desaparecendo. O sangue refluía, os tecidos se costuravam, as veias se reconectavam. E em segundos, o ferimento que tanto o enfureceu, não existia mais.


— Estou bem. — disse, com uma calma que não soava natural. — De verdade.


Nerion sorriu satisfeito. Como um escultor admirando sua obra.


— Excelente. Uma aplicação impecável. — O tom era orgulhoso, frio. Como se tudo aquilo fosse apenas um treino eficaz. Nada mais.


Raizo encarava o chão. Seus dedos tremiam. Mas ele não disse nada. Apenas caminhou para fora da sala, sem olhar para trás.


E Ravyn permaneceu, sem ter coragem de o ver sair da sala de treinamento, enquanto seu pai segurava seus ombros por trás com as duas mãos, um sorriso satisfeito em seus lábios.


[.]


A luz do quarto estava completamente vedada. Nenhum raio solar ousava atravessar as cortinas espessas e densas que cobriam cada fresta da janela. O ar era pesado, carregado com o cheiro doce e obscuro de incenso de resina negra, queimando suavemente em um pequeno braseiro rúnico ao centro do piso. Milena sentava-se diante dele, perfeitamente imóvel, como uma estátua de porcelana moldada pela escuridão.


Seu corpo estava envolto por um manto ritualístico de seda, e ao seu redor, símbolos antigos traçados com pó de osso formavam um círculo de conjuração com padrões simétricos e ameaçadores. Seu rosto, sereno e glacial, escondia o foco absoluto que mantinha em sua meditação. Milena não era uma maga comum, tal qual Adrian sempre dissera. Ela estava além de um mero título como esse.


Os minutos passavam, e sua mente vasculhava o tecido da existência com uma precisão cirúrgica. Ela estendia seus sentidos não apenas pelo oceano, mas por todo o planeta de Runeforge. Contornava continentes, cruzava cordilheiras, atravessava mares, até que uma única fagulha energética reverberou em sua consciência. Um pulso denso, firme, inconfundível.


Adam Altharion...


Ela o sentiu. Estava vivo. Estava a bordo de um navio cinderhelmiano, a caminho de Cinderhelm, mesmo destino que eles. Mas ainda estavam um dia adiantados. Tempo mais do que suficiente para agir.


Seu olho direito, antes cerrado, se abriu lentamente, revelando um brilho fantasmagórico e branco. Ela não faria isso diretamente. Não desperdiçaria energia que poderia ser usada na missão principal. Ela havia prometido a Adrian que garantiria que Adam não chegaria até lá.


— Tua vontade será feita, Mestre… — sussurrou, com voz baixa e etérea.


E então começou.


A língua que recitava não tinha tradução conhecida. Era primitiva, anterior às raízes da linguagem humana. Cada sílaba parecia dobrar o ar ao redor dela, os objetos tremendo com vibrações invisíveis. As palavras fluíam em uníssono com os batimentos do planeta, chamando algo em específico.


Os círculos mágicos ao seu redor começaram a brilhar com intensidade crescente, e no centro do braseiro, as chamas se tornaram negras, erguendo-se como uma torre de sombras retorcidas. Um vórtice se formava ali, como uma fenda na realidade, um canal entre mundos.


Milena fechou os olhos novamente, com os braços erguidos, entregando sua energia à conjuração.


— Thāyxar, sombrius et sentinellum... ad me. Exspectat praedam tuam!


Seu olho então voltava a ter sua íris de cor castanha, o brilho intenso se esvaindo totalmente.


— Vá. Mata-o.


A sala mergulhou em silêncio absoluto, exceto pelo rugido abafado que escapou do braseiro, um rugido que não pertencia a nenhum ser vivo desse mundo.


[.]


O som metálico ecoava pela sala de bagagens como um tambor abafado, a cada golpe ensaiado que Adam desferia com o martelo monstruoso em mãos.


Suas passadas eram firmes, e o suor escorria por seu pescoço, encharcando a regata branca colada ao corpo musculoso como uma segunda pele. O martelo, outrora extensão natural de seus braços, pesava mais que o usual. Muito mais.


Ele notava o atraso no tempo de resposta de seus próprios músculos, mesmo sob um regime de treino intenso e constante desde que zarparam de Eldorwyn. Era sutil, mas perceptível. Cada golpe exigia um pouco mais de esforço, como se o martelo tivesse absorvido um fardo invisível que o dobrava em peso. Aquilo o intrigava.


Respirando fundo, Adam baixou a arma lentamente, os ombros tensos e os olhos fixos no martelo como se este pudesse responder ao que estava acontecendo. Caminhou até um caixote onde repousava sua garrafa de água. Ao erguê-la, virou um longo gole garganta abaixo, sentindo o líquido frio deslizar pelo corpo quente, oferecendo algum alívio temporário à exaustão.


Ele respingou parte da água no rosto e, com a mão livre, espalhou-a para se refrescar. A temperatura interna daquele setor do navio não era baixa, mas não era isso que o incomodava. Era o instinto. Algo lá no fundo de sua mente, se agitava como um cão nervoso e alerta.


Foi então que o chiado leve dos auto falantes se fez ouvir nas paredes de latão. A voz ligeiramente preguiçosa de Porto, com um fundo de urgência que Adam não ignorou, soou:


“Adam? É, então… se puder vir até a cabine do capitão pra ontem, seria uma boa. Se possível, né.”


Adam permaneceu imóvel por dois segundos. Seu olhar passeou pela porta de aço da sala de bagagens e, então, de volta para o martelo encostado contra a parede.


Algo o fez parar. O chamado de Porto não parecia suspeito em si, mas a sensação de que não estaria seguro sem aquele martelo era avassaladora. Seus olhos estreitaram. Respirou fundo.


Silenciosamente, deu meia-volta, caminhou até a arma, envolveu seus dedos com firmeza no cabo e a puxou com um único movimento, o som do ferro pesado vibrando no ar.


— Só por precaução — murmurou para si mesmo, como quem tenta convencer a própria consciência de que não está paranoico.


Martelo em punho, Adam subiu as escadas de ferro com passos rápidos, sentindo o tremor rítmico do motor do navio debaixo dos pés, em direção à cabine do capitão. Algo estava errado.


Em pouco menos de 40 segundos, o som pesado dos passos de Adam ecoaram pela cabine de comando, o martelo firmemente apoiado em suas costas enquanto os olhos varriam o ambiente.


A tensão era palpável, Astrid estava parada diante dos painéis de controle, o semblante tão rígido quanto o aço que compunha seu corpo, enquanto Porto gesticulava com frustração e andava de um lado para o outro como um cão cercado.


— Finalmente! — exclamou Porto, correndo até Adam como se este fosse sua tábua de salvação. — Ajuda aqui, por favor! A lata velha surtou! Tá tentando assumir o timão, mexendo onde não devia! Vai acabar detonando o meu bebê!


Adam arqueou uma sobrancelha, mas seu olhar se fixou logo em Astrid. Ela nem piscava. Seus olhos estavam semicerrados e dourados como sensores vivos, fixos na linha do horizonte.


— Não é isso. — disse ela, sua voz monótona, mas com um leve ruído de estática perceptível ao ouvido treinado de Adam. — Estou tentando decifrar uma frequência que venho captando há três minutos. Ela está piorando. Está afetando o meu chip neural.


A afirmação a fez virar levemente para encará-los, mas seus olhos, agora vibrando em uma intensidade incomum, ainda estavam sintonizados para muito além das paredes da cabine.


— Frequência? — Adam perguntou, já sentindo o calafrio subir por sua espinha. — Que tipo?


Astrid não hesitou.


— Alta densidade, padrão de pulso intermitente. Só um hacker com conhecimento em protocolos de código-primitivo poderia reproduzi-la com essa precisão. Mas não tem nada nos nossos radares. Nenhuma embarcação, sinal ou fonte em alcance físico que possa estar causando isso. Isso significa apenas uma coisa:


Ela pausou. E então, lá fora, ao longe, muito além da extensão do mar calmo, o céu foi rasgado.


Um portal negro esférico, girando em rotação inversa às nuvens que o cercavam, emergiu do nada como um buraco no próprio tecido da realidade.


Ao seu redor, nuvens negras foram sendo tragadas e cuspidas violentamente, como se a própria atmosfera estivesse se revoltando contra a presença daquilo. Um vórtice de sombras, pulsante, vivo, crescente.


Astrid deu zoom em 300%, seus olhos tornando-se dois focos de precisão dourada. O chip em sua mente tilintava como um alarme silencioso. O padrão da frequência agora era ensurdecedor dentro de si.


— É aquilo... — sussurrou Astrid, mais para si do que para os outros.


— Mas o que caralhos é isso?! — murmurou Porto, a boca seca e a mão tremendo sobre a alavanca de velocidade.


Adam não tirava os olhos do vórtice. Era como olhar para o próprio abismo, e saber que ele devolvia o olhar.


— Adrian… — respondeu ele, com a voz baixa e dura como aço dobrado.


Porto engoliu em seco.


Adam agarrou o microfone do painel de controle com força e apertou o botão com o polegar.


— Alexandros, Koryu, Alstro, em alerta agora mesmo! Temos companhia, vindo diretamente em nossa direção! Reúnam-se imediatamente no convés, sem exceções! — sua voz retumbou por toda a embarcação. — Porto, você permanece na cabine. Leve esse navio o mais longe possível do epicentro do vórtice! Mantenha distância a qualquer custo.


— Você nem precisa repetir duas vezes! — resmungou Porto no fundo, já ajustando as alavancas e girando as engrenagens com uma velocidade notável. — Vou acelerar essa belezinha até os parafusos gritarem!


Adam largou o comunicador e girou sobre os calcanhares, seus passos firmes acompanhados pelo som quase imperceptível de Astrid atrás dele. Ela caminhava em silêncio, os olhos ainda analisando a distorção energética em tempo real, diversas linhas de dados percorrendo sua visão aumentada.


No corredor que dava acesso ao convés, Alexandros surgiu da ala dos aposentos já correndo, o rabo de cavalo recém amarrado dançando atrás da cabeça. Ele travava sua pistola rúnica no coldre lateral enquanto se aproximava do grupo, o olhar afiado buscando explicações.


— Mas o que está acontecendo, Adam? — ele perguntou, a voz carregada de tensão.


— Você já vai entender… — respondeu Adam com firmeza, sem sequer desacelerar o passo.


Ele chegou até a porta de acesso ao convés e a arrombou com um chute seco e potente. A estrutura de metal se abriu com violência, e uma rajada de vento úmido e gélido invadiu o interior do navio, misturada à presença densa de algo nada natural.


No convés, Koryu estava imóvel como uma estátua, o sobretudo negro chicoteando com o vento, seus seis olhos vermelhos todos focalizados em um único ponto no céu: o vórtice negro que pulsava como se respirasse. Ao seu lado, Alstroemeria se agarrava às vestes do soldado, quase se enterrando nelas, olhos arregalados e boca tremendo.


Koryu não olhou para o grupo que se aproximava, mas falou com voz fria:


— Ele parou de se expandir.


Adam seguiu o olhar de Koryu e confirmou.


O vórtice, agora com o diâmetro de uma pequena cidade, flutuava no horizonte como uma ferida aberta no tecido do mundo, o interior negro girando em espiral, como se o próprio tempo estivesse sendo torcido em seu centro.


Alstro olhou de lado, olhos marejados, e murmurou com um fio de voz:


— O que é aquela coisa...?!


Adam apertou os punhos. Um calafrio subiu por sua espinha. Ele já tinha visto aquilo antes. Sabia o que podia sair dali.


— Mais uma cortesia de Adrian. — respondeu com uma gravidade que pesou no ar como ferro. — Preparem-se para o pior.


Do centro do vórtice negro, como um pesadelo arrancado das lendas mais antigas e proibidas, emergia a criatura.


Três cabeças serpentinas, cada uma com olhos dourados como estrelas extintas, giravam em harmonia cruel, seus corpos etéreos contorcendo-se como fios de luz viva. O dragão, se é que aquele nome era suficiente para descrever o terror que agora cruzava os céus, parecia não obedecer às leis físicas, sua forma cintilando entre o tangível e o incorpóreo, puro poder condensado na forma de um monstro ancestral.


Alstroemeria soltou um grito engasgado, o corpo vacilando como se todo o seu sistema nervoso tivesse se desligado por um segundo. Ele teria desabado, não fosse por Astrid, que o segurou com firmeza e o levou até uma zona mais protegida próxima da estrutura do convés, mantendo-o a salvo com o braço esquerdo enquanto ativava o campo de energia de A.G.U.A com o direito.


— Ele vai queimar esse navio inteiro em segundos! — Porto vociferava pelo comunicador, a voz abafada pela vibração crescente dos motores, que ele forçava ao limite.


A espuma do mar se agitava debaixo do vórtice, formando um redemoinho que ameaçava puxar o casco cinderhelmiano para o abismo.


Relâmpagos estouraram no céu como chicotes de luz. A tempestade começava a se formar com fúria elementar.


E então o dragão mergulhou.


As três cabeças ergueram-se ao mesmo tempo e cuspiram rajadas de energia dourada e abrasiva, como lanças solares, puras e destrutivas. O convés tremeu violentamente quando a primeira delas atravessou a estrutura metálica como se fosse feita de papel molhado, derretendo a borda do casco e estourando as paredes da cabine lateral.


Adam rolou pelo chão a tempo de escapar de uma das rajadas, se erguendo com a mandíbula cerrada e as veias do pescoço saltadas, os olhos fixos naquela monstruosidade.


— ASTRID, ALEXANDROS! FOGO! ATIREM NELE COM TUDO QUE TÊM! — gritou ele.


Alexandros já se posicionava, a pistola rúnica carregando energia azul em seu núcleo. Seus dedos se moveram com precisão sobre o tambor do carregador especial, e ele disparou uma sequência de tiros encantados diretamente na cabeça mais baixa da criatura.


Ao lado dele, Astrid recolheu as lâminas gêmeas e modificou o braço em tempo real, transformando-o em um canhão de plasma, as luzes vermelhas do núcleo pulsando como um coração nervoso antes de soltar uma rajada sônica explosiva que cruzou os céus.


Porto, indignado ao ver cada centímetro do navio sofrendo dano, rangeu os dentes e murmurou algo ininteligível. Então, girou os controles de artilharia superior, ativando as torretas ocultas no teto e flancos do navio.


— TOMA, SUA LAGARTIXA BRILHANTE! — rugiu ele, disparando com tudo, os projéteis de aço carbonizado cruzando os céus em rajadas flamejantes.


Entretanto, o resultado não foi como o esperado.


Os disparos atravessaram o corpo do dragão como se este fosse feito de fumaça sólida. Sem impacto, sem resistência. As explosões ocorriam no ar, sem ao menos arrancarem faíscas. A criatura era intangível, ou pior, era feita de uma substância que transcendia matéria física.


— As armas não funcionam...! — gritou Alexandros, recuando um passo ao ver suas balas rúnicas perfurarem o nada.


— Não é uma criatura física... — murmurou Astrid, o scanner dela vibrando em tons vermelhos. — Está fora de fase. É energia pura. Alguma projeção dimensional. Não podemos matá-lo com meios normais!


Outra rajada veio, obrigando todos a se separarem de novo. Um feixe dourado quase acertou Adam, que se jogou sobre Alstro para protegê-lo, levando parte da queimadura na lateral do braço.


Ele não gritou. Apenas cerrou os dentes, se levantou de novo, os olhos cravados no vórtice onde as cabeças do dragão se contorciam, como serpentes em júbilo.


Mas mesmo no meio da destruição, ele não hesitou.


— Se não podemos vencê-lo com força bruta, vamos ter que encontrar outro jeito. Koryu, venha comigo. Astrid, análise total. Alexandros, cobertura. Porto, mantenha esse navio à tona!


E todos obedeceram.


— Rostos de Pedra! — Alexandros recitou, estendendo uma das mãos adiante, seus olhos brilhando em tom prateado, fazendo o ar vibrar ao redor.


Um clarão etéreo se ergueu no convés do navio como uma aurora invertida, e das entranhas desse clarão, surgiu o "Tanque". Um colosso espectral de armadura grossa e uma máscara pétrea sem traços humanos, um guardião que carregava um escudo imenso como um portão de muralha, e uma presença tão sólida quanto uma fortaleza.


O espírito irrompeu da invocação com um rugido, deixando rastros de faíscas rúnicas no ar. Alexandros o apontou como um general diante de uma horda.


— Na linha de frente. Segure as cabeças!


E o Tanque avançou.


Cada passo fazia o convés do navio estremecer com energia espectral. Ele ergueu o escudo diante de si e saltou como um cometa de pedra viva, bloqueando simultaneamente duas das três rajadas escaldantes das cabeças do dragão com um estalo seco de impacto mágico.


As ondas de energia explodiram contra o escudo, se dissipando com um silvo ensurdecedor, como se luz colidisse com luz.


Enquanto isso, a terceira cabeça do dragão desceu como uma guilhotina dourada, mirando Adam e Koryu com precisão assassina. A boca abriu-se, cobrindo os dois com sua sombra incandescente, os olhos reluzindo com um calor que poderia rasgar a alma.


— Koryu! — Adam rugiu, correndo em zigue-zague sobre o convés, desviando por um triz de uma rajada que deixou o metal fervente.


— Estou vendo... — murmurou o nocthyriano, seus seis olhos tremeluzindo em uníssono, sintonizados com o caos do campo de batalha.


Koryu então se concentrou, canalizando o poder da noite que sempre fora sua morada. Ele abriu as mãos e murmurou um feitiço próprio, seus dedos descrevendo arcos com precisão sobrenatural. As sombras em torno dos mastros, do casco, dos corpos caídos e até da fumaça das explosões começaram a ondular e se desprender.


Animação das Sombras!


Em segundos, uma centena de corvos negros como breu emergiram das trevas como se nascessem da própria ausência de luz. Um enxame infernal que se lançou em espiral ao redor da terceira cabeça do dragão, cegando sua visão, estraçalhando sua percepção com gritos umbrais e bicos etéreos.


O dragão hesitou. Ele se contorceu em pleno ar, suas cabeças se cruzando numa tentativa frenética de afastar os invasores. E então, o Tanque viu a brecha.


A criatura espectral não hesitou: girou o corpo inteiro, cravou os pés etéreos no convés e lançou seu escudo como uma catapulta viva, direto contra a lateral de uma das cabeças do dragão. O impacto ecoou como um trovão seco no meio da tempestade crescente, lançando labaredas douradas para os lados.


A cabeça atingida cambaleou no ar, perdendo altitude. A criatura emitiu um som que nenhum ser deveria ser capaz de ouvir, um rugido de agonia pura e desafinada, como se a própria realidade estivesse gritando.


Na parte traseira do convés, Alstro, já meio recomposto, assistia à cena com a boca entreaberta, olhos arregalados.


— Mas... se essa coisa é intangível... como é que aquilo o acertou?!


Astrid, atrás de uma das torretas automáticas danificadas, respondeu com precisão matemática.


— Porque ele também é espectral. Ambos compartilham o mesmo plano dimensional. São corpos de energia densa, eles colidem por existirem na mesma frequência.


Alstro piscou, ainda atordoado, mas um pequeno lampejo de entendimento brilhou em seu rosto.


O céu parecia ter se rasgado em fúria enquanto o dragão, agora totalmente materializado no convés, fincava suas três imensas cabeças contra a estrutura metálica com um rugido que fez os tímpanos de todos vibrarem.


As escamas etéreas da criatura se ondulavam como ondas douradas, as três bocas entreabertas cuspindo energia em ziguezague enquanto nuvens negras se acumulavam acima, girando com violência, forçando o oceano a dançar ao redor deles como se estivessem à beira de um dilúvio sem fim.


E diante dele, imóvel como uma muralha, estava o Tanque.


O espírito de pedra ergueu o escudo diante do peito e, com o punho esquerdo, golpeou o próprio escudo com força sobrenatural.


CLANG!


O som reverberou no ar como um sino de guerra sendo tocado. Era o chamado. Um gesto simples, mas carregado de significado ancestral: “VEM!”.


O dragão respondeu ao chamado da única forma que saberia: avançando. As três cabeças se moveram com sincronia perfeita, como serpentes famintas, uma vindo de cima, outra da lateral, e a terceira por baixo, mordendo o chão para tentar arrancar o Tanque pela base.


O Tanque girou o corpo, usando o escudo para aparar os golpes com técnica refinada, e então investiu. O escudo se transformou em um aríete ambulante. A colisão entre as duas entidades espectrais produziu uma onda de choque mágica que fez o convés inteiro estremecer como se fosse colapsar.


A energia disparada da batalha dos colossos arremessou faíscas arcanas e ondas gravitacionais em todas as direções.


O impacto era tão brutal que Adam e os demais foram obrigados a se firmar como podiam.


Adam se agarrou a uma das vigas da lateral; Koryu se cravou no convés com sua espada; Alexandros se apoiou na lateral do convés com as duas mãos, e os pés firmes como se estivesse sobre uma prancha em tempestade. Astrid se ancorou em um dos pilares com o apoio de A.G.U.A, o escudo de energia do caranguejo amortecendo fragmentos de metal arrancados com a pressão.


Porto, por outro lado, estava à beira de um colapso nervoso. Seus dedos voavam pelo painel de controle da cabine, tentando desesperadamente manter o equilíbrio da embarcação, mas os alarmes piscavam em vermelho vivo, e um ponteiro no painel mostrava a inclinação fatal do casco.


— A GENTE TÁ SENDO PUXADO!!! EU TÔ FAZENDO O POSSÍVEL MAS O MAR VIROU UM RALO ENORME, CARALHO!!! — ele berrava pelo megafone, quase engolido pelos sons apocalípticos ao seu redor.


Alstro, agarrado à base da metralhadora danificada, gritava mais pelo susto do que pela utilidade:


— MEU DEUS, EU VOU MORRER NUMA CHALEIRA FLUTUANTE!!!


Astrid, mesmo ancorada, forçou o corpo contra a tempestade de energia e virou-se para Adam, gritando com toda a força que os pulmões lhe permitiam:


— PRECISAMOS FECHAR O PORTAL, AGORA! OU ISSO VAI VIRAR NOSSA TUMBA!


Ao mesmo tempo, relâmpagos de cor violeta cortaram o céu com selvageria, explodindo no convés em estalos ensurdecedores. Um deles caiu a menos de um metro de Koryu, que desviou em um giro que se transformou em uma estocada com a espada para manter as sombras à sua volta em controle. Outro atingiu a torre lateral do navio, arrancando parte da estrutura metálica como se fosse papel.


Mas nada, absolutamente nada, parecia surtir efeito sobre o Dragão, que continuava lutando com o Tanque como se fossem deuses primordiais duelando no plano mortal.


Adam, por fim, rangeu os dentes, observando a distorção do céu onde o vórtice negro girava feito um furacão dimensional, agora pulsando com o mesmo brilho etéreo do dragão.


— Ele está ancorado ao portal, — disse Adam, baixo para si mesmo. — É a fonte da manifestação. Precisamos cortar a âncora.


A força do redemoinho era absoluta. As ondas colossais colidiam contra o casco do navio como se quisessem retorcer ferro puro, o céu era uma boca aberta em fúria, girando com o vórtice sobrenatural que não apenas ameaçava engolir a embarcação, mas distorcer a própria realidade à sua volta.


Os relâmpagos explodiam como chicotes divinos, e o rugido do dragão, mesmo encoberto pelas sombras de Koryu, fazia o ar vibrar em agonia.


No meio daquele caos cósmico, Alexandros se ajoelhava, apoiado em uma das estruturas do convés, seu corpo tremendo e os olhos brilhando fracamente, estava claramente nos limites.


O feitiço de invocação do Tanque drenava seu foco, sua energia vital, seu fôlego. Ele cerrava os dentes enquanto o guerreiro espectral era empurrado contra o vidro da cabine do capitão com um impacto tão feroz que rachou a estrutura inteira, fazendo Porto se abaixar no exato segundo em que os cacos estouraram para todos os lados.


— AAAAAI, MEU VIDRO, BUCETA!!! — Porto gritou de dentro, protegendo a cabeça com as mãos, enquanto tentava manter o navio minimamente estável mesmo girando como um brinquedo num ralo de banheira dos infernos.


Do lado de fora, Koryu mantinha os braços abertos e as mãos em concha, manipulando a escuridão ao redor do dragão com precisão cruel.


As três cabeças da fera serpenteavam no ar como cordas de energia viva, disparando rajadas de luz dourada contra a escuridão que envolvia seus olhos. Cada explosão dissipava parte da sombra, mas Koryu regenerava logo em seguida, cerrando os dentes, os olhos pulsando em vermelho profundo.


— Mantenha-o assim, Koryu! — Adam gritou.


E então aconteceu.


O martelo em suas mãos pulsou. Não com fúria. Com instabilidade. Como se estivesse desmanchando, não na forma, mas no que era. A estrutura tremia entre os dedos de Adam, pequenos fragmentos azulados se soltando do cabo como areia se esfarelando contra o tempo. Aquilo era exatamente como o momento em que havia acordado na praia. Era o martelo no ponto entre existência e colapso.


E ali, em meio à confusão, nasceu uma ideia absurda.


Adam olhou para o vórtice acima, o epicentro. A âncora do dragão, a fresta na realidade que Adrian abrira para mandar aquela coisa. E então olhou para o Tanque, que se esforçava para se reerguer mesmo cambaleante.


— Alexandros... — Adam disse, com voz firme. — Arremesse-me até o vórtice!


— VOCÊ TÁ MALUCO?! — o elfo gritou, se virando para ele com incredulidade nos olhos. — VOCÊ VAI MORRER!


— Confia em mim! — Adam rugiu, o martelo agora vibrando como se prestes a explodir em suas mãos. — É a única chance!


Alexandros hesitou. Por um segundo, viu novamente o Adam que havia conhecido nos bailes de gala de Cinderhelm: gentil, meticuloso, racional, e agora, diante dele, estava um titã.


Com um grito, Alexandros ordenou ao Tanque:


— ERGA-O! ARREMESSE-O COM TUDO QUE TEM!


Mesmo à beira do colapso, a criatura espectral obedeceu. Ele se firmou em uma base mais larga no convés, girando o corpo e estendendo a gigantesca mão aberta.


Adam correu por cima dos escombros, ignorando a dor em seu ombro queimado. Pulou sobre a palma do Tanque e a usou como trampolim. A criatura girou o corpo com potência absurda e lançou Adam como uma flecha viva, como um míssil de carne.


No ar, tudo ficou em silêncio por um instante. Nem o trovão conseguia competir.


O martelo brilhou em suas mãos. Adam o segurou com toda a força, girando o corpo em pleno ar, preparando o impacto.


E então, como um cometa azul prateado, ele cravou o martelo no centro do vórtice.


A explosão foi sem som.


E então, apenas luz.


Uma onda de choque em anéis concêntricos se expandiu do ponto do impacto. O vórtice tremeu, como se resistisse. Mas o martelo não era uma simples arma. A sua energia era a mesma que destruiu um universo inteiro. Era a memória do fim do mundo, condensada em uma criação que não obedecia mais às regras da física convencional.


O vórtice foi cortado, dividido em fissuras douradas, e então, com um rugido inverso, implodiu sobre si mesmo.


O dragão espectral parou no ato. Suas três cabeças se retorceram no ar, e o corpo começou a brilhar, desfazer-se como partículas de luz solar sob água.


O redemoinho perdeu força. As nuvens começaram a se dissipar e acalmar a tempestade, cessando os relâmpagos.


O Tanque caiu de joelhos, e então se desfez em poeira mágica.


E Adam caiu. Um ponto escuro contra o céu se aproximando do navio.


— ADAM!!! — Alstro gritou.


— MERDA! — Astrid ativou os propulsores nos calcanhares para o pegar.


Mas foi Koryu quem o fez.


Deu um salto elevado com as sombras, esticou os braços, e Adam caiu pesadamente em seu abraço, com os dois rolando pelo convés até pararem juntos.


O martelo caiu das mãos de Adam, afundando através do convés com seu peso, como se o aço não fosse nada.


O som da chuva era constante, um tamborilar suave que contrastava cruelmente com o caos que havia tomado o convés momentos atrás.


A batalha épica deixara não apenas o navio, mas também cada alma ali presente, à beira da exaustão. As águas antes engolidas pelo vórtice se derramavam agora do céu em cascatas calmas, como se o próprio mar chorasse o esforço que foi necessário para conter o desastre.


Alstroemeria deslizou pelo piso molhado, os braços finos se esticando com urgência ao ver Alexandros cambaleante, as pernas já falhando. Ele o segurou, o amparou com um cuidado surpreendente para alguém tão pequeno e fragilizado, os olhos brilhando em preocupação legítima.


— Você está bem?! — perguntou com a voz trêmula, o vento sacudindo seus cabelos.


Alexandros assentiu devagar, tentando recuperar o fôlego, o rosto pálido, sem cor, seus dedos ainda vibrando da descarga de mana.


— Só… exausto…


Astrid, por sua vez, já se aproximava de Adam e Koryu. Seus passos eram controlados, os implantes magnéticos em seus pés se fixando ao piso metálico do convés mesmo com a água escorrendo por toda parte. A.G.U.A se mantinha em seu ombro, com as luzes piscando em vermelho, indicando alerta médico.


Ela se ajoelhou imediatamente ao lado de Adam, enquanto Koryu, ainda mantendo-se firme apesar da visível exaustão, fazia o possível para sustentar a escuridão ao redor do navio. Seus dedos tremiam, os olhos quase fechados de puro esforço, até que, por fim, completou o feitiço.


As sombras ao redor da embarcação se solidificaram como uma bolha de matéria viva, se estendendo em um anel até formar uma plataforma flutuante que ergueu o navio do abismo como um santuário espectral.


A água caiu pelas bordas, escorrendo da esfera de trevas, até que, com um suave estalo, os flocos da sombra sólida se desfizeram em poeira escura, e o navio voltou à superfície.


Koryu caiu para trás de imediato, o corpo atingindo o chão com um som surdo. Respirava com dificuldade, os seis olhos se fechando um a um, deixando-o entregue aos pingos da chuva que se derramavam sobre seu rosto e duas vestes, cada gota marcando sua pele como açoite.


Astrid ativou o protocolo de emergência em suas pupilas e escaneou Adam da cabeça aos pés. Seu coração estava desacelerado, mas regular. As funções respiratórias, prejudicadas pela força gravitacional e má condução de mana, estavam se reequilibrando aos poucos. Algumas microfissuras ósseas pelo impacto do lançamento, e lesões musculares leves. Nada fatal, mas certamente não algo do qual ele se recuperaria em poucos minutos.


Ela olhou para Alexandros, que se aproximava com Alstro, agora o apoiando enquanto caminhava. O elfo tinha o olhar tomado por uma angústia, ajoelhando-se ao lado de Adam, e com delicadeza, envolveu a cabeça dele entre os joelhos, depositando com cuidado o rosto dele sobre seu colo.


— Adam... — sussurrou. — Fala comigo, por favor...


Seus dedos correram pelas mechas úmidas de cabelo escuro que cobriam o rosto do humano. Os olhos de Alexandros estavam cheios de urgência, mas também de uma ternura vulnerável que ele raramente deixava escapar. Astrid permaneceu em silêncio, respeitando o momento, monitorando os sinais vitais, mas não interferindo.


Adam soltou um gemido fraco.


— Lex... — murmurou, mal abrindo os olhos.


Alexandros sorriu com alívio, as lágrimas se misturando à chuva.


— Você está bem... você conseguiu...


Adam apenas assentiu, os músculos incapazes de fazer mais do que isso. E então, fechou os olhos novamente, não de dor, mas de alívio.


Até que, em poucos segundos, sua consciência se esvaiu.

Notas finais
<3