Arcanum

12 Bem-Vindo a Cinderhelm


A primeira coisa que Adam percebe é o silêncio.


Um silêncio tão absoluto, tão denso, que parece esmagar até mesmo o conceito de som.


Em seguida, vem a ausência de chão, de ar, de matéria, de tudo. Ele flutua num vácuo sem forma, sem cor, um cosmos imóvel e opaco. Seu corpo não responde como de costume; não há peso, não há músculos. Quando tenta se olhar, vê apenas os contornos tênues da própria alma, cintilando em azul muito pálido, quase invisível.


Ele franze o queixo e murmura, instintivamente:


— Onde... eu tô?


Sua voz ecoa como um sussurro em uma catedral infinita, reverberando por direções impossíveis, ondulando pelo vazio. E então, quase imediatamente, vem a resposta. Uma voz. Não uma, mas dezenas, centenas, mescladas num uníssono metálico, um coral de tormento e intelecto.


— Finalmente, acordou.


Adam gira o corpo espectral com brutalidade instintiva, o olhar determinado antes mesmo de ver de onde veio a fala. E ali está ele.


Adrian Paxton.


Ou, pelo menos, o que restou dele, sua forma espectral do futuro, a mesma que Adam viu segundos antes de impedir a fusão final com o Núcleo Arcanum. Mas aqui, nesse plano superior, Adrian estava quase completo. Sua silhueta ondulava como energia contida à força, com feições distorcidas e olhos que brilhavam como sóis moribundos. Um espectro de um deus não-nascido ainda.


Sem pensar duas vezes, Adam avançou.


O punho espectral dele veio rápido, certeiro, mas é parado bruscamente. A palma de Adrian intercepta com uma tranquilidade absurda, como se segurasse uma pétala ao vento.


— Tão previsível. — murmura Adrian, com escárnio, antes de girar o pulso e projetar Adam com um tapa leve.


O impacto rasga o espaço abstrato, e Adam voa como se tivesse sido atingido por um trem invisível, sendo arremessado pelo vácuo existencial e girando no nada até recuperar o equilíbrio com esforço. Ele aterrissa no nada, ofegante mesmo sem precisar respirar.


— Vamos lá, Adam. — a voz de Adrian ecoa próxima ao seu ouvido. — Esperava mais de você.


Adam gira em choque. Adrian estava ali atrás dele. Sem som, sem deslocamento, sem lógica. Apenas estava ali.


Mais uma vez, Adam parte para cima, e seus ataques são implacáveis: cotoveladas, chutes, cruzados giratórios, tudo o que podia usar. Mas cada investida é facilmente desviada, como se Adrian lesse seus pensamentos antes mesmo de eles tomarem forma. Como se lutasse contra um reflexo treinado em milhões de batalhas futuras.


No instante seguinte, Adam se vê erguido do chão pela mão de Adrian em seu pescoço, a pressão não física o suficiente para sufocar mesmo no plano da alma. O brilho nos olhos de Adrian é frio, como se o visse como menos do que absoluto nada.


— Você não faz ideia do quanto esperei por esse momento, Altharion… — ele diz, voz ressoando em todas as direções ao mesmo tempo. — Eu não esperava que esse encontro acontecesse tão cedo. Mas, ah... que presente você me deu. — ele aperta, fazendo Adam engasgar — Usar a energia do martelo nesse estágio do tempo... você abriu uma brecha entre os planos, Adam. Você criou uma conexão entre mim e você. — O sorriso dele era maníaco e luminoso. — E agora, como você mesmo gostava de dizer: é hora de terminar o serviço.


Adam tenta puxar o braço livremente, seu corpo espiritual vibrando com esforço, mas é inútil. Adrian continua:


— Milena falhou. Minha criação foi desintegrada... mas não importa. Porque agora, eu posso cuidar disso pessoalmente.


A mão de Adrian começa a brilhar em energia opaca, negra como a ausência do próprio tempo.


E então, ela colidiu contra o tórax do homem, atravessando sua alma como um todo


O impacto arremessa Adam contra o nada com uma rajada de energia negra comprimida, o suficiente para obliterar até o mais indestrutível dos seres. Mas no instante em que o golpe atinge Adam, algo impossível acontece.


Adrian engasga. Sua expressão se contorce como se estivesse sendo queimado de dentro para fora. Ele recua com um berro gutural, cambaleando no ar abstrato, segurando a própria mão, agora tremendo, manchada por uma mancha etérea em tons opacos, como um espectro sofrendo um colapso interno.


Adam é lançado para longe, gemendo enquanto tenta recuperar o equilíbrio da alma. Seu corpo espiritual ondula, mas permanece. Assim como a dor, intensa, crua, mas suportável. Diferente de qualquer ataque que já sofreu, porque não era apenas físico. Era existencial.


Mas então, seus olhos se arregalam.


Adrian, cambaleando, ainda se contorce. Pela primeira vez desde que concluiu sua fusão, ele sente dor.


— Não... Não... NÃO! — ruge Adrian, girando o corpo e encarando Adam, os olhos em frenesi. — O que foi isso?! O que você fez comigo?!


Adam, ainda de joelhos, inspirando fundo no plano onde o ar não existe, compreende. Ele sente. Sente algo dentro de si. Um calor, uma vibração que não é apenas sua. Ele abre os olhos devagar, encarando Adrian, e murmura com voz rouca:


— ...O último 0,1%.


Adrian o encara, paralisado.


Adam continua, reunindo forças para se levantar, com as mãos trêmulas e os olhos fixos no inimigo.


— A fusão com o Núcleo Arcanum. Você conseguiu 99,9%... mas não completou. Eu impedi. Eu quebrei a máquina com o martelo. E agora entendo... aquele 0,1% que restou... não foi simplesmente dissipado. — seus olhos brilham em azul etéreo, em sintonia com suas palavras. — Ele foi absorvido. Primeiro pelo martelo... e agora por mim.


Adrian finalmente compreende, recuando um passo, horrorizado, observando as rachaduras que ainda permanecem vibrando em sua mão — a mesma que tentou esmagar a alma de Adam.


— Não... isso não é possível... Você... está sincronizado comigo?! — Sua voz já não carregava só raiva, mas também uma fagulha de desespero — Isso é ridículo! Eu sou um com o Arcanum! Eu sou o futuro deste mundo! Como você ousa-...?!


Adam força um sorriso, mesmo sofrendo.


— Então imagina a ironia disso tudo... o fato de você não poder me matar. Não conseguir. — Adam diz, com um riso breve e dolorido de escárnio. — Porque se minha alma morre… — Adam diz, avançando um passo — … A sua vem junto.


Adrian se mantém imóvel, olhando para ele como se visse uma aberração diante de si.


Pela primeira vez, a inevitabilidade do que é, do que pode ser, escapa por entre seus dedos. E a raiva, sempre tão controlada, explode no vácuo.


— VOCÊ VAI SE ARREPENDER POR TER FEITO ISSO, ALTHARION!!!!! — berra Adrian, o plano estremecendo ao redor deles com sua fúria.


O mundo de vidro escuro começa a rachar em um som agudo, como uma porcelana se partindo em câmera lenta. Cada fenda ecoa uma lembrança, uma distorção de tempo e espaço, até que uma luz cálida e firme atravessa as fissuras, tão forte quanto real, como se o universo estivesse finalmente cansado daquela ilusão.


Adam sente a luz o envolver, o puxar para longe de Adrian, longe do vazio, e ele acorda.


A respiração retorna com um suspiro denso, e os olhos de Adam se abrem diante do dourado suave da manhã. A cabine do navio cinderhelmiano, uma estrutura de metal industrial, agora parece tranquila, silenciosa, com o leve balanço das ondas embalando o retorno à realidade. O cheiro de maresia ainda invade os sentidos, mas há algo novo: o cheiro de comida quente. E mais que isso, a sensação de que, pela primeira vez em horas, talvez até dias, seu corpo e sua alma estejam em sincronia.


Ele está deitado, torso nu, repleto de faixas que cobrem os músculos que parecem ter resistido a uma tempestade. Mas ele não sente fraqueza. Muito pelo contrário. Cada célula pulsa energia, como se tivesse renascido. Como se aquele encontro com Adrian tivesse redefinido os limites do que significa estar vivo.


Sem hesitar, ele começa a remover as faixas com firmeza, puxando-as de modo controlado. O tecido desvela lentamente os contornos de seu abdômen definido, os ombros largos e as cicatrizes que pareciam recentes, agora desvanecidas. Quando está prestes a se erguer por completo da cama estreita, a porta se abre com um rangido súbito.


Alexandros entra. Nos braços, uma bandeja de madeira com uma caneca de chá fumegante, pão fresco, ovos e frutas, e um sorriso discreto, mas esperançoso no rosto. Esse sorriso, porém, se despedaça no instante em que seus olhos pousam sobre Adam, que está de pé.


— Pelo amor do Éter…!!! — murmura Alexandros, engasgando no próprio choque. — Adam?!


Ele quase deixa a bandeja cair, conseguindo colocá-la sobre uma mesa próxima por puro reflexo. Em segundos, está ao lado de Adam, as mãos já prontas para ampará-lo, ou tentar impedi-lo de fazer mais besteiras.


— Você não devia estar de pé! Você nem devia conseguir abrir os olhos ainda, quanto mais arrancar essas faixas! — exclama, tenso. — Senta. Agora. Eu… E-Eu tenho que dizer aos outros que você acordou antes de mais nada…!


Adam, calmo, mas faminto, responde com um meio sorriso.


— Eu estou bem, Alex. Realmente. Não é força de vontade. Meu corpo está... diferente. Ele se adaptou. Algo aconteceu… — Ele põe a mão no peito, sentindo o leve pulsar de energia que ainda residia ali. — E eu preciso manter a cabeça erguida.


— Você tem noção do quanto nos assustou? — Alexandros rebate, a voz mais baixa, mas com os olhos marejando raiva e alívio. — Do quanto eu-...


Adam o interrompe com um gesto gentil, estendendo a mão para a bandeja.


— … E também tô morrendo de fome. Me dá isso aqui antes que eu coma o travesseiro.


Alexandros bufou, entre a frustração e o alívio, e lhe entregou a bandeja. Adam já começava a devorar o pão e os ovos com voracidade quase primitiva. Alexandros o observa, piscando surpreso com a velocidade. Adam percebe e engole, tossindo levemente de vergonha, antes de se recompor.


— Desculpa. Força do hábito... — limpa a boca com as costas da mão e depois com o guardanapo. — Costume de laboratório. A comida desaparecia se você demorasse muito em uma invenção.


Alexandros senta-se na cadeira ao lado, cruzando os braços, observando.


— Ainda não entendo como você consegue estar assim... depois daquilo. Do vórtice e tudo…


Adam mastiga com mais calma agora, olhando para a janela que dava vista para o mar já mais calmo.


— Porque a gente ainda não acabou, Alex. Tem muita coisa pra consertar.


Adam repousa o último talher vazio na bandeja, exalando um suspiro pesado e profundo, agora não de cansaço, mas de saciedade. Seus olhos percorrem o teto metálico da cabine, ainda pingando levemente com a umidade da chuva da noite anterior, antes de se voltarem para Alexandros.


— Quanto tempo até chegarmos a Cinderhelm? — perguntou, rompendo o breve silêncio entre ambos com a voz mais firme e centrada.


Alexandros se ajeitou na cadeira, ainda um pouco espantado com o estado vigoroso de Adam, mas já se acostumando ao novo padrão de imprevisibilidade daquele homem.


— Porto estima cerca de seis a sete horas, se as correntes não mudarem e ninguém resolver conjurar outro monstro dimensional no nosso caminho. — comentou, com um sorrisinho irônico no canto da boca. — Devemos ancorar no cais sigiloso que usei para conseguir o navio por volta das cinco e meia da tarde.


Adam assentiu, absorvendo a informação com os braços cruzados por alguns segundos. Seus olhos se perderam momentaneamente no nada, processando os passos seguintes, antes de se levantar com lentidão proposital, mais pela solenidade do momento do que por cautela.


— Ótimo. Então temos tempo o suficiente pra nos prepararmos com cuidado... — murmurou enquanto puxava uma camisa de tecido escuro, ajustando-a ao corpo com precisão. Os músculos bem definidos ainda marcavam o tecido mesmo sob a roupa. — Chame os outros pra me encontrarem na cabine do capitão. Agora.


Alexandros ergueu levemente uma sobrancelha.


— Alguma razão específica?


— Preciso colocar todos na mesma página.


A resposta de Adam foi firme. Havia uma certeza inflexível em suas palavras, uma urgência que não exigia explicação. Alexandros captou a seriedade no tom e se levantou logo em seguida, saindo da cabine com pressa controlada para reunir o restante do grupo.


Enquanto isso, Adam ajustava o colarinho da camisa e se preparava mentalmente.


[.]


Um silêncio tenso pairava na cabine do capitão enquanto todos se reuniam.


Os pingos tímidos da chuva diurna que escorriam pelas janelas de vidro reforçavam a densidade do momento. Adam estava encostado na parede de frente à entrada, de braços cruzados, encarando o chão como quem buscava organizar cada palavra.


O restante do grupo entrou um a um, ainda processando os eventos da noite anterior.


Porto foi o primeiro a quebrar o silêncio:


— Ok, me perdoa se isso parece óbvio demais... mas você não devia estar, sei lá, em coma? Ou morto? Ou no mínimo com uns ossos quebrados?


Alstro, com os olhos arregalados e as mãos juntas diante do peito, concordou imediatamente:


— Você está andando... normalmente! Quer dizer, depois daquilo tudo... você deveria estar mais tempo deitado! Tem certeza que não está se forçando demais…?


Koryu, encostado em um dos painéis de controle com os braços cruzados e seu sobretudo pingando pelas bordas, bufou de leve:


— Se fosse pra morrer, já teria morrido. Ele está de pé, está falando, está com os olhos abertos. Isso é mais do que eu posso dizer de muita gente depois de enfrentar uma entidade espectral de três cabeças. E nunca vi isso antes.


Astrid não disse nada. Apenas tirou A.G.U.A. do ombro e lançou o pequeno caranguejo cibernético na direção de Adam. A criaturinha metálica pousou com leveza em seu ombro e imediatamente iniciou um escaneamento completo com suas patinhas-escâner, percorrendo o torso de Adam com precisão absoluta.


Em poucos segundos, A.G.U.A. emitiu um sinal azul e saltou de volta para Astrid, com o visor indicando: "Todos os sistemas vitais em plena estabilidade."


— Está tudo dentro dos parâmetros. Nenhuma lesão interna, nenhuma falha de sistema... sinceramente, é anormal até para um organismo humano reforçado.


Alexandros então se adiantou, os olhos ainda atentos a Adam, e disse em voz firme:


— Ele tem algo pra nos contar. Algo importante.


Todos voltaram os olhares para Adam.


Ele ergueu o queixo, inspirou fundo e se afastou da parede, caminhando lentamente até o centro da cabine.


— Eu vi Adrian. — a frase caiu como um raio. Todos ficaram em silêncio absoluto. — O Adrian do futuro. O mesmo que causou tudo o que eu contei a vocês. Ele tentou me matar enquanto eu estava inconsciente, em algum plano entre este mundo e o que resta da dimensão da qual ele veio.


— Mas não conseguiu. — completou Astrid, quase como constatação. — Por quê?


Adam assentiu.


— Porque ele e eu estamos... conectados. Sincronizados.


Koryu franziu o cenho.


— Então o que houve ontem, aquele vórtice, a criatura... tinha a ver com isso?


— Exatamente. — Adam confirmou. — Enquanto eu usava o martelo, a energia do 0,1% da fusão original com o Arcanum se ativou. O mesmo fragmento que impediu Adrian de se tornar completo. Eu absorvi aquilo quando impedi a fusão no último instante. E agora... essa conexão impede que ele me destrua. Se ele tentar, ele também sente. Estamos presos um ao outro. E foi por isso que até agora ele não nos atacou diretamente com sua própria força. Ele não pode nos apagar ou controlar.


Alexandros arregalou os olhos.


— Então é por isso que ele usou os piratas. Porque eles não entraram em contato com você como nós fizemos.


— E agora que o martelo está comigo e carregado dessa energia... — Adam continuou — … Enquanto eu estiver com vocês, Adrian não poderá nos ferir diretamente. Isso não significa que ele não vai tentar outras formas... mas ele perdeu a arma mais perigosa de todas: a capacidade de alterar a realidade por completo.


Porto deixou escapar um longo assobio, passando a mão pelos cabelos molhados.


— Então agora você é... uma espécie de escudo humano contra um semideus que quer matar todo mundo. Legal. Isso explica bastante coisa. Na verdade, é a coisa mais absurda que já ouvi. Mas acho que já está virando hábito me traumatizar.


Alstro ainda parecia digerir tudo com dificuldade, mas sua expressão começava a mostrar algo novo: determinação.


— Então precisamos nos manter juntos. Proteger você... e impedir ele. Antes que ele ache outro jeito.


Adam assentiu.


O som da chuva do lado de fora ainda persistia, mas agora misturado ao zumbido constante dos motores do navio remendado e ao ocasional estalo das placas metálicas sendo tensionadas pelas ondas.


Adam passou os olhos pelo painel de controle da cabine de comando, as luzes piscando em uma cadência que apenas quem conhecia aquela tecnologia entenderia.


Ele girou uma válvula, conferiu o nível de pressão no motor principal, e se voltou para Porto.


— Com tudo isso... acha que aguenta até Cinderhelm?


Porto, ainda ajustando manualmente os botões do leme com a lateral do punho e soltando um suspiro, respondeu:


— Vai ser como pilotar um pato com motor de foguete. Mas chega lá. Só não espera conforto ou silêncio, e talvez o banheiro pare de funcionar. De novo.


Adam esboçou um meio sorriso.


— Conforto nunca foi meu foco. — ele então se virou para o restante do grupo. — Certo. Separem o que for essencial. Assim que atracarmos, não vamos parar. Conheço alguém de confiança em Cinderhelm, e vamos direto pra casa dessa pessoa. É alguém que eu confio mais do que em qualquer político daquela cidade. Vai nos manter fora dos holofotes e longe das autoridades.


— Mesmo com você desaparecido? — perguntou Alexandros, franzindo o cenho.


— Principalmente por isso. — Adam respondeu, com firmeza. — Quanto menos gente souber que estou de volta, melhor. Se o Adrian desta linha do tempo descobrir que estou em Cinderhelm agora, as coisas vão escalar mais rápido do que podemos conter.


Sem mais perguntas, os membros do grupo começaram a sair da cabine para suas respectivas preparações. Koryu foi o primeiro a desaparecer nas sombras do corredor. Astrid seguiu com passos silenciosos, A.G.U.A pulando em seu ombro como um relógio de prontidão. Alexandros ainda lançou um último olhar para Adam, hesitando por um instante, mas então acenando com a cabeça e partindo também. Até Alstro, mesmo hesitante e trêmulo, arrastou sua pequena bolsa com itens mágicos e roupas cuidadosamente dobradas.


Adam ficou para trás. O silêncio agora parecia ecoar ao redor dele. Ele virou-se de volta para o painel, observando a trajetória no radar e o traço oscilante do percurso até o cais clandestino de Cinderhelm. Ainda faltavam algumas horas, mas não era isso que o incomodava.


A lembrança veio com a nitidez de um nome sussurrado no ouvido.


Milena.


Adrian o havia mencionado. De todos os aliados de Paxton que ele conhecia do futuro, e que o infernizaram durante a queda de Runeforge, Milena não estava entre eles. Nunca tinha visto esse nome. Nunca a enfrentou diretamente. Mas era ela quem havia invocado o dragão. Ele tinha certeza disso agora.


Adam passou os dedos pelo queixo, pensativo, os olhos fixos na neblina além do vidro da cabine. Essa mulher, essa Milena, havia se mantido fora do radar até mesmo quando tudo foi pelos ares originalmente. Seja lá quem fosse, era uma ameaça que ele não sabia como lidar. Diferente dos demais.


A garganta de Adam secou por um segundo. Ele fechou os olhos por um momento e então girou os ombros, voltando a si. Precisava guardar aquela dúvida para mais tarde. Ainda havia muito a fazer.


Virando-se por fim, com a decisão gravada no olhar, deixou a cabine e seguiu pelos corredores de metal em direção à sua cabine.


[.]


A respiração de Milena era controlada, contida em longas sequências de meditação profunda. Ao redor dela, as velas flutuavam em suspensão mágica, com as chamas imóveis, sem tremores. Seu corpo permanecia estático no centro do círculo místico de runas pintadas à mão.


E então, no vazio mental de sua consciência, ele voltou.


A presença de Adrian Paxton, vindo do futuro, se manifestou como um eco de multidões dentro de uma única voz.


— Você falhou.


O olho direito de Milena se abriu de forma abrupta. A íris girou rapidamente até se estabilizar.


— Impossível. — disse ela em tom grave. — A criatura era intangível. Nada que exista neste plano físico deveria ser capaz de erradicá-la. Como ele... conseguiu?


A resposta veio com o peso de um sussurro.


— O martelo. Ele continha o 0,1% que faltava de mim... do Arcanum. E agora, esse fragmento, esse ponto de convergência, está fundido a ele. Ao Adam.


Um silêncio sepulcral seguiu.


— A imunidade dele... — murmurou Milena, mais para si mesma do que para Adrian. — Ela se espalha?


— Sim. — respondeu Adrian, quase com um toque de irritação sob controle. — Qualquer um que esteja diretamente ao lado dele no plano mortal, qualquer que tenha sido tocado pela mesma linha energética, compartilha essa proteção. Meus poderes não podem afetá-los diretamente.


Ela se levantou do círculo mágico, as velas se extinguindo em uma sequência sincronizada. Seus pés descalços tocaram o chão metálico com leveza, mas seus passos estavam carregados de propósito.


— Então o que deseja que eu faça?


A resposta foi afiada como uma lâmina:


— Mate-o. Com suas próprias mãos.


Milena parou, a escuridão projetando sua silhueta contra a janela coberta.


— A energia não pode ser apagada. Só transferida… — murmurou ela, com um fio de admiração. — … Então, se eu o matar fisicamente, a fração retorna a você... e estará completo.


— Exatamente. — disse Adrian. — Se ele morrer pelas mãos de alguém que ainda pertence ao ciclo mortal... a barreira se rompe. Eu não precisarei sequer concluir o Núcleo Neural Arcaico desta linha do tempo. Tudo será resolvido com a morte dele. A morte de Adam é a chave final para a perfeição do meu ser.


Milena girou lentamente o pescoço, estalando-o com um estalo seco.


— Considere isso feito. — disse ela em um tom gélido.


O quarto ficou em silêncio absoluto mais uma vez.


As batidas na porta soaram secas e ritmadas — toc, toc, toc — e o silêncio denso dentro da cabine foi cortado como por uma faca. O olho direito de Milena se abriu devagar, voltando à tonalidade fria e apática de sempre. Ela piscou uma vez, como quem finaliza um comando interno, e a escuridão da cabine pareceu voltar a respirar.


Do outro lado da porta, a voz de Freya surgiu com seu sotaque arrogante típico, quase arrastado:


— Milenaaa? A gente tá te esperando pra reunião. O Adrian disse que é importante. Tipo... muito importante. Estamos a duas horinhas de Cinderhelm, então ele quer alinhar tudo de novo.


Houve um breve silêncio, mas antes que Milena respondesse, Freya não resistiu a comentar:


— Aliás... você tava falando com alguém aí dentro? Achei que tivesse escutado um sussurro ou sei lá. Esses teus rituais são... medonhos.


Do lado de dentro, Milena estava sentada de pernas cruzadas sobre um lençol negro, as unhas descansando sobre os joelhos. O calor de Adrian ainda parecia vibrar no ar, como se sua presença tivesse deixado cicatrizes invisíveis no tecido do mundo.


Sem alterar o tom, ela respondeu:


— Já estou indo.


A pausa antes da resposta foi curta o suficiente para soar civilizada, mas longa o bastante para deixar Freya desconfortável. Do outro lado, a influencer deu um passo para trás, engolindo em seco.


— Tá... beleza. Vou indo então. — disse ela, dando um leve riso nervoso, antes de sair pelo corredor com pressa visível nos saltos altos batendo contra o chão metálico.


Dentro da cabine, Milena se levantou com a mesma elegância letal de sempre, os cabelos caindo sobre os ombros suavemente.


Passou os dedos pelas vestes para ajustá-las sem sequer olhar, e então se dirigiu à porta.


[.]


Na sala de reuniões, os membros da equipe de Adrian estavam reunidos em silêncio absoluto.


As paredes, ainda com marcas discretas de rachaduras e imperfeições deixadas pelo surto violento do dia anterior, haviam sido restauradas visualmente, mas a atmosfera carregada entregava que algo grande havia acontecido ali. A mesa central de aço negro reluzia sob a iluminação fria, com os rostos dos membros da equipe refletindo-se nela de forma turva e distorcida.


Adrian Paxton, com a compostura impecável de sempre, postura ereta, mãos cruzadas nas costas e olhar clínico, começou a reunião:


— Atracaremos do lado mais miserável de Cinderhelm: as docas do Submundo. Discrição será prioridade máxima.


Todos se entreolharam. O local mencionado era notoriamente hostil, onde a criminalidade ultrapassava a indigência, e as autoridades evitavam pôr os pés. Antes que alguém pudesse comentar, Adrian continuou, o tom neutro, mas assertivo:


— De lá, moveremos nossa força principal para o Distrito das Sucatas. Cipher localizou uma facção específica nessa zona decadente: os Ponteiros. Eles serão essenciais para as ações em terra.


Nesse instante, Celindra, a única do grupo com origem cinderhelmiana, arregalou seus olhos verde-esmeralda com visível repulsa, quase se levantando da cadeira:


— Você só pode estar brincando. Os Ponteiros?! Eles são uma seita de fanáticos! Supremacistas de máquina! Eles mutilam inocentes, transformam em ciborgues como se fossem oferendas ao deus-dado a vapor que veneram! Eles são sub-humanos, Adrian!


Adrian se virou lentamente, encarando Celindra com a calma perturbadora de quem já previu a reação:


— Entendo a sua indignação. De fato, para alguém que já serviu à Cinderhelm, a ideia de se aliar a esses degenerados deve ser difícil de engolir. — Ele então ajustou uma mecha de cabelo de maneira quase meticulosa. — Mas serão peças cruciais no nosso plano. Com os Ponteiros nos bastidores, causando uma distração tão repulsiva quanto eficiente, teremos o caos necessário para avançar com a operação sem resistência centralizada.


Ashka, apoiada com as costas na parede ao fundo, os braços cruzados, arqueou uma sobrancelha sob o capuz e perguntou com voz desinteressada, mas curiosa:


— E o que exatamente são esses “Ponteiros”? Uns carniceiros com próteses só?


Antes que Adrian respondesse, Celindra virou-se para ela, com asco visível:


— Eles são monstros. Não apenas carniceiros. Eles acreditam que carne é um erro da criação. Que máquinas são divinas. Pegam crianças, refugiados, cidadãos comuns... e fazem cirurgias neles enquanto estão conscientes, pedaço por pedaço. Você acha que os assassinos do Norte de Zaratharn são perigosos? Os Ponteiros não têm ideologia, são maníacos incontroláveis!


Ashka não demonstrou reação, apenas assentiu, como quem já viu insanidades piores.


Adrian então retomou:


— Justamente por isso, vamos usá-los. Eles não nos questionarão. Não se importam com a política, a moral ou os custos colaterais. Tudo o que querem é carne fresca e circuitos. E nós daremos isso a eles.


Um silêncio incômodo caiu por alguns segundos.


Adrian então prosseguiu, com frieza clínica:


— Quando Freya, Miló e Fjorn causarem o caos nos Distritos centrais e capturarem as unidades das Forças de Defesa, iremos entregá-los. Vivos. Os Ponteiros os aceitarão como oferenda, e em troca, nos darão acesso irrestrito às passagens subterrâneas das Sucatas. Por lá, teremos nossa rota de fuga de volta ao navio sem criar suspeitas.


Miló deu um sorriso cínico, balançando o pé sob a mesa:


— Apesar de eu não gostar de deixar oponentes vivos, pelo menos vai ser um bom exercício.


Adrian o ignorou e concluiu:


— Nenhuma aliança é limpa. Mas essa é necessária. Vocês têm duas horas para preparar-se. Se tudo for executado com perfeição, essa cidade se tornará apenas o primeiro pilar da nossa ascensão… Estão dispensados.


Ninguém disse nada. Mas os olhos nos rostos ali presentes, alguns hesitantes, outros ansiosos, e outros francamente sedentos.


A sala de reuniões havia se esvaziado em poucos segundos, os passos de cada membro da equipe ecoando pelo corredor metálico do navio conforme se dispersavam para os últimos preparativos.


Mas Celindra ficou para trás, os olhos esmeralda fixos em Adrian, que permanecia com as mãos calmamente cruzadas atrás das costas, observando a cidade distante de Cinderhelm se formar no horizonte enevoado através da janela panorâmica do navio..


— Eu não aprovo isso. — disse ela enfim, a voz firme, mas carregada de um ressentimento antigo que nem ela própria conseguia disfarçar. — Vamos entregar os poucos oficiais decentes daquele lugar... como gado? Eu treinei com eles, Adrian. Eu sei quem são. Nós não podemos-…!


Adrian se virou devagar, o semblante tão calmo quanto uma pintura morta, os olhos cravando nos dela com um peso psicológico que não precisava de um decibel sequer para esmagar a convicção de qualquer um.


— Celindra… — ele começou, sua voz aveludada e fria como metal de bisturi — Você não deixou seu posto nos Vigias à toa. Não esqueça, você foi expulsa da corporação. Humilhada publicamente. E por quem?


Ela apertou os punhos.


— Draeven, — Adrian respondeu pela própria — Sua própria mãe. Comandante de Ferro da Força de Cinderhelm. A mulher que não hesitou em te prender por fazer o que ela mesma nunca teve coragem. Você acreditava que ainda existia justiça naquele sistema. Eu sei. Eu li todos os seus arquivos antes de te recrutar. Você era uma idealista.


Celindra desviou o olhar, mordendo o lábio inferior em silêncio.


— Quantos você prendeu? Quantos treinou? Quantas vidas você protegeu? E no fim... — Adrian deu um pequeno passo adiante — Bastou um erro. Uma única dissonância de protocolo, e todos os seus anos de serviço foram cuspidos no chão como se não valessem nada. Como se você não valesse nada.


Ela estava prestes a retrucar, mas ele a interrompeu:


— E agora... você quer ter pena dessas pessoas? Dos mesmos que assistiram calados enquanto você era algemada e levada como uma criminosa por fazer o que era certo?


Adrian deu a volta na mesa devagar, até parar diante dela, a poucos centímetros de distância.


— A verdade, Celindra... é que você já tentou salvar esse mundo. E ele cuspiu na sua cara por isso. Talvez agora seja hora de parar de tentar salvá-lo. E começar a reescrevê-lo.


O silêncio que se seguiu era denso como concreto.


Celindra respirava com o peito inflado, o coração batendo em fúria contida e, pela primeira vez, dúvida. Não da decisão dele, mas da pureza de sua própria causa. Talvez ele estivesse certo.


Adrian então passou por ela sem dizer mais nada, sabendo que a semente já estava plantada.


E como todas as sementes lançadas por ele, essa também iria germinar e florescer. Como planejado.


[.]


O cheiro salgado e enferrujado do mar impregnava o ar pesado das docas industriais enquanto o navio cinderhelmiano finalmente ancorava com um som cavernoso, o vapor suspirando pelos tubos enferrujados como se a embarcação própria estivesse aliviada por ter sobrevivido à última tormenta.


A plataforma frontal do navio se abriu com lentidão deliberada, rangendo como um aviso ancestral, até bater contra o concreto rachado do cais, espantando uma nuvem de pombos do outro lado. Suas asas batiam forte contra o silêncio do lugar, preenchendo o ar com ecos.


Adam foi o primeiro a pisar no solo, seu martelo firmemente preso à lateral do corpo, os passos pesados. Parou por um momento ao fim da rampa, erguendo os olhos para o céu cinzento acima de Cinderhelm, encoberto por uma névoa urbana que nunca parecia se dissipar. Era o céu da sua cidade natal. E mesmo que essa não fosse a parte mais bonita dela, havia algo de familiar naquele cenário decadente.


Os demais membros da equipe o seguiram, carregando suas respectivas bolsas, mochilas e armamentos. Alguns cansados, outros apenas cautelosos.


Alstroemeria, agarrado a um cachecol maior do que precisava, olhou ao redor com visível desconforto.


— Por que essas docas parecem tão... velhas? Quebradiças? — ele perguntou, franzindo o nariz diante de um monte de redes podres penduradas em estacas abandonadas.


Alexandros, os cabelos azuis ainda molhados dos respingos do mar anterior, respondeu sem tirar os olhos das estruturas ferrugentas ao redor.


— Porque elas são. Desde que a pesca deixou de ser vital pra economia local, durante o período de colonização e avanço industrial, essas docas viraram relíquia podre do passado. Um patrimônio cultural... largado pra morrer. Irônico, não?


Porto, logo atrás, assobiou baixo.


— Mas às vezes ainda tem vida por aqui. Principalmente no inverno, quando os cardumes sobem... Alguns pescadores independentes fazem bico por essas bandas. Vende bem no centro. Quem entende do mercado de frutos do mar ainda tira uns trocados disso.


Koryu, com seus seis olhos discretamente atentos ao movimento do grupo, cortou o silêncio seguinte:


— E esse seu contatop, Adam. Quem é? Esse que vai nos esconder. Ainda não disse o nome.


A pergunta quebrou os devaneios de Adam como um estalo seco de chicote. Ele piscou lentamente, voltando à realidade diante das pilastras desgastadas de um passado que o conhecia bem demais.


— Um velho conhecido, — respondeu por fim. — Um que sabe muito bem como funciona o Submundo de Cinderhelm. E se ainda for o mesmo de antes... também vai nos ajudar a atravessar ele.


O grupo assentiu em silêncio, e Adam retomou a liderança, subindo pelas escadas de concreto desgastado das docas, atravessando as vielas mergulhadas em névoa espessa, por entre bairros abandonados, cascas ocas de casas de pescadores que há muito deixaram de ser habitadas por qualquer coisa além de ecos.


O brilho dourado cortando a névoa anunciou o fim da travessia.


O martelo de Adam, mesmo balançado com parcimônia por seu dono, rasgou o véu da névoa densa que cobria o horizonte e revelou o coração de Cinderhelm.


A metrópole se abriu diante deles como um mural vívido de outro tempo, grandiosa, caótica, brilhante.


Torres de aço e cobre recortavam o céu carregado de fumaça e vapor, dirigíveis zumbiam em rotas circulares no alto como baleias mecânicas em um oceano urbano, trilhos suspensos cortavam edifícios em várias direções, e o som da vida preenchia o ar.


Carruagens com propulsores a vapor zuniam nas avenidas largas e molhadas. Damas em vestidos rodados com engrenagens ornamentais e cavalheiros de cartola tecnológica se cruzavam com mercadores, autômatos mensageiros, mecânicos cobertos de graxa e guardas reais de farda longa. Era um delírio vitoriano em plena expansão, vivo e orgulhoso, inalcançável por quem nunca o conhecera.


Adam parou. O martelo descansou contra o chão, como se também contemplasse. Seus olhos ficaram vidrados. Um calor inesperado subiu pelo peito até que ele sentiu algo descer por sua bochecha. Eram lágrimas.


A visão de Cinderhelm intacta, depois de tanto tempo convivendo apenas com a lembrança do apocalipse que a destruiu, era demais. Ele se perdeu no passado e no agora ao mesmo tempo, entre o que foi e o que podia ainda proteger.


Alexandros se aproximou sem dizer muito, apenas tocando o ombro dele de leve.


— Adam...?


Ele limpou as lágrimas discretamente, forçando um meio sorriso.


— Não é nada... vamos andando.


E com isso, deu o primeiro passo sobre a Ponte de Columbia, que ligava o bairro costeiro ao início da metrópole de fato. Ao atravessar, era como entrar em outro mundo.


Alstroemeria ficou com os olhos arregalados, girando a cabeça para todos os lados com uma expressão de puro deslumbramento infantil.


— Isso... isso é real? Eu achei que a Costa Sul era avançada... Mas isso aqui? Isso aqui é incrível!


Porto soltou uma risada baixa, já habituado com a empolgação de quem via Cinderhelm pela primeira vez.


— Calma aí, moleque. Isso aqui é só o quintal. Espera até ver o centro. Vai parecer que tua cabeça vai querer sair do lugar de tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo.


Astrid, por sua vez, não dizia nada. Mas seus olhos cibernéticos estavam em frenesi. Linhas de dados e varreduras apareciam em suas íris amarelas enquanto observava tudo com precisão cirúrgica. Vitrines com mecanismos estranhos, dobradiças automatizadas, postes que usavam vapores aromatizados, roupas com microcircuitos têxteis, sinalizadores de trânsito aéreo, placas de runa-mecânica... tudo era registrado. Ela criou uma nova pasta de aprendizado em seu sistema interno para isso.


Finalmente, Koryu se recolheu no próprio manto, ajustando o capuz até cobrir por completo os seis olhos. A movimentação constante da cidade era um espetáculo alienígena demais, mesmo para um nocthyriano. A sensação de não pertencer era inevitável. A maioria das nações tolerava sua espécie, mas a tolerância não significava aceitação, e em cidades de egos inflados como Cinderhelm, ser diferente era o mesmo que ser alvo. Mesmo assim, ele seguia atento a cada passo e olhar.


Os passos se tornaram mais cautelosos ao avançarem pelas ruas limítrofes da metrópole, com o vapor das grelhas subterrâneas aquecendo o ar ao redor e a umidade se fundindo à névoa baixa, que tornava os paralelepípedos encharcados ainda mais escorregadios.


Foi ali, entre o piscar irregular de um poste e o som distante de sirenes a vapor, que Alexandros parou subitamente.


O som sutil de papel grudado na sola ecoou com o seu próximo passo.


— ... Hã? — murmurou, arqueando uma sobrancelha enquanto colocava uma mecha dos cabelos azulados atrás da orelha e se abaixava, puxando o papel da sola com os dedos finos.


Ele o virou na altura dos olhos e o amassou levemente com os dois lados, olhos se estreitando com um brilho gelado de indignação.


— Adam… — chamou, com a voz tensa, controlada, mas nitidamente contendo algo mais profundo.


Adam parou imediatamente, girando o corpo. O restante do grupo também estacou, se aproximando instintivamente.


O papel era um cartaz de desaparecimento. E ali, no centro, estava a imagem de Adam Altharion.


Um pouco mais jovem. Menos marcado pelas cicatrizes do que viria depois. Mas ainda inconfundivelmente ele. Vestido de forma formal, como se ainda pertencesse à alta sociedade de Cinderhelm. Era ele antes de tudo ter desmoronado.


Porto foi o primeiro a reagir, arregalando os olhos.


— Tá de brincadeira comigo... Isso é tu?! — apontou, olhando de Adam pro cartaz e de volta pra Adam — Mas como que-...?! Tu era igual um engomadinho, e agora é um lobisomem-...!


Astrid revirou os olhos e estendeu o braço mecânico, tapando a boca de Porto com firmeza.


— Cala. A. Boca. — disse, séria. — Se alguém ouvir isso, estamos ferrados. Imbecil.


Alexandros ainda olhava fixamente para o cartaz antes de virar o rosto lentamente na direção de Adam.


— Esses cartazes... estavam espalhados por toda Cinderhelm antes da visita de Blackwell a EosMist. — Sua voz era baixa, firme. — E então... todos sumiram. Como se nunca tivessem existido. Como se tivessem desistido de você.


O silêncio que seguiu foi espesso como chumbo. Até Adam se aproximar, pegando o cartaz das mãos de Alexandros. Seus olhos o encararam por dois longos segundos, dois segundos eternos, onde nada mais existia além daquela imagem. Daquele fantasma do que ele foi.


E então ele fechou a mão com força, amassando o cartaz até virar uma bola esmagada, os músculos do antebraço se tensionando visivelmente. Em seguida, o atirou sem cerimônia dentro de uma lixeira enferrujada próxima.


— Ele tá morto agora. — disse, seco. Quase indiferente. — Não importa mais. A gente tem coisas mais importantes pra se preocupar.


Mas a voz dele, ainda que firme, não estava fria. Estava ferida.


Alstro, quieto, observava de cabeça baixa. Seus olhos baixos brilharam por um segundo, e então murmurou como se ninguém fosse ouvir:


— … Ele tá magoado. Muito mais do que quer mostrar.


Alexandros ouviu. Mas não comentou. Apenas fez um breve gesto com a cabeça, sinalizando para que continuassem. Ele sabia. E respeitaria o silêncio de Adam por enquanto.


Adam seguiu em frente. Mas o passo, mesmo se mantendo estável, carregava um peso novo. Como se uma parte dele tivesse sido deixada naquela lixeira junto com o cartaz amassado.


[.]


Em questão de alguns minutos, estavam diante da plataforma expressa dos bondes de Cinderhelm. Teriam de usar um para chegar onde queriam.


Alexandros fez questão de pagar o ticket de todos ao colocar uma moeda de ouro no dispenser da plataforma, assim com mais do que tickets suficientes saltando pra fora e sendo pegos para se usar por cada um.


O bonde de propulsão a vapor chiou ao se conectar com o tubo de subida vertical, atendendo ao protocolo de pagamento da passagem para já ficar em posição e abrir a porta para os passageiros, que entraram logo em seguida.


Um zunido crescente cortou o silêncio da estação elevada antes que o compartimento disparasse como um tiro, alçado por correntes magnéticas alimentadas por vapor comprimido. A arrancada foi tão brutal quanto sempre.


Astrid segurou firme nas barras laterais, seus dedos mecânicos rangendo contra o aço com o impacto inicial. Ao seu lado, Koryu apenas arqueou levemente uma sobrancelha, suas seis pupilas se retraindo por um instante em resposta à pressão da velocidade, mas manteve-se equilibrado, mesmo sem se prender em nada, apenas com o controle absoluto do próprio centro de gravidade.


Alstro, no entanto, soltou um gritinho abafado e se agarrou imediatamente na manga de Porto, que quase caiu com o tranco.


— ISSO É RÁPIDO DEMAIS!!!!!!! — exclamou, os olhos arregalados e os cabelos esvoaçando em todas as direções.


Porto, tentando parecer calmo, riu de nervoso.


— Heh... nada que eu não aguente! Só tô... me preparando pra vomitar estilo elegante, só isso!


Adam e Alexandros, porém, sequer se mexeram. Os dois estavam plantados como pilares no centro do bonde, absolutamente acostumados com aquela ascensão. Era como se fizessem aquilo todos os dias e, de fato, costumavam fazer.


Em questão de segundos, as nuvens ficaram para trás. O vidro do bonde tremeu ao atravessar a barreira de condensação, e o céu acima ficou limpo e azul, como um quadro pintado à mão. E então, a cidade surgiu.


A zona nobre de Cinderhelm. Uma segunda camada. A extensão elevada da metrópole, construída com engenharia absurda sobre as nuvens. A arquitetura era uma mistura entre luxo imperial e mecânica industrial.


Os trilhos dos bondes flutuavam por colunas em zigue-zague, como raízes metálicas. Havia fontes imensas, despejando águas cristalinas por aquedutos que caíam em cascata em direção aos bairros inferiores, águas que seriam reutilizadas nas fontes de lá, em um sistema fechado de ostentação e eficiência.


As estruturas das construções eram feitas de mármore branco polido e adornadas com relevos em ouro, refletindo o sol em rajadas cegantes. Torres com relógios dourados, vitrais coloridos, andares com sacadas de ferro rendado, e uma população de nobres que transitava em carruagens a vapor com cavalos de ferro.


Porto, com olhos faiscando de cobiça, passou a lamber os beiços discretamente e esfregar as mãos.


— Isso aqui... Isso aqui é o céu, rapaziada! Eu tô no paraíso! Vocês tão vendo aquelas fontes?! Se eu cuspir ali dentro, provavelmente vou dever 15 mil moedas em multa!


Alstro ainda parecia tonto pela subida, mas abriu os olhos, surpreso com tamanha beleza. Era como olhar para uma pintura viva. Ele nunca imaginou que um lugar como aquele pudesse existir.


Alexandros cruzou os braços, firme.


— Fiquem próximos de mim a partir daqui. Eu sou o único entre nós com identificação registrada no sistema nobre, e tenho influência suficiente para afastar qualquer autoridade que tente nos barrar.


Adam permanecia calado, mas com o olhar fixo em um ponto adiante. Seus olhos pareciam buscar algo, ou alguém, entre as estruturas monumentais. E então, finalmente, disse:


— Subindo as escadarias até a praça principal. Mais três quarteirões e chegaremos ao lugar que quero.


Ele não esperou resposta. Simplesmente seguiu em frente, e os outros o seguiram.


E por fim, acabavam chegando na frente de um estabelecimento em específico. O que confundiu a muitos do grupo.


A porta da barbearia “Bellamy’s Finest” se abre com um discreto tilintar de sineta metálica.


O interior cheira a bálsamo de pinho com uma leve nota de couro polido, e os painéis de mogno das paredes brilham sob o reflexo da luz amarelada dos lampiões a gás.


Adam entra primeiro, seguido de Alexandros, Porto, Alstroemeria, Koryu e Astrid, que de imediato passa a gravar visualmente cada centímetro do salão para referência futura. O lugar é clássico, luxuoso, mas também funcional, cada poltrona é conectada a um tubo de vapor ajustável, com gavetas rotatórias embutidas e suportes articuláveis para navalhas, secadores e escovas.


Alexandros reconhece na hora.


— Claro… Bertram. Agora tudo faz sentido. — diz com um sorriso quase nostálgico.


Porto, mais confuso que nunca, franze a testa.


— Mas quem é esse tal Bertram, afinal?


Alexandros ri baixo.


— O único homem autorizado pela aristocracia cinderhelmiana a tocar em seus preciosos cabelos. Uma lenda viva.


Mais adiante dentro do estabelecimento, Bertram Bellamy finaliza um corte milimetricamente perfeito em um jovem nobre de terno engomado. Seu braço esquerdo segura o espelho com firmeza, enquanto o braço direito, uma prótese de precisão, ainda zune levemente com o calor residual dos motores internos, os dedos adaptados girando a navalha com elegância mortal.


Ele era alto, musculoso, com a pele branca salpicada por sardas no rosto e nos ombros expostos, cabelos ruivos vibrantes cuidadosamente penteados para trás com volume, um bigode e barba perfeitamente bem penteados de mesma cor, e olhos azuis cristalinos que parecem cortar o ambiente tanto quanto sua lâmina. Seu colete escuro sem mangas deixa à mostra um tórax largo e definido, com uma leve abertura em V revelando os pelos do peito perfeitamente aparados.


O cliente se despede satisfeito e Bertram gira lentamente a cadeira, limpando a navalha com uma passada fluida de pano de algodão branco. Seus olhos caem imediatamente sobre Adam, mas ele não demonstra reconhecimento algum.


— Você. — diz, apontando com a navalha em punho, sem parecer ameaçador. — Venha aqui.


Adam pisca algumas vezes.


— Hã… O quê?


— Agora. — Bertram já está vindo em sua direção. — Esse cabelo está implorando por misericórdia. Você foi atacado por um cortador de grama enquanto estava bêbado?


Adam recua um passo.


— Espera aí, Bertram. A gente se conhece. É o Adam-...!


Bertram o ignora completamente, já agarrando Adam pelo ombro e o guiando com uma força surpreendente até a cadeira central do salão. Ele gira a poltrona com um estalo técnico, joga uma toalha sobre os ombros do rapaz e começa a preparar o vapor de abertura de poros.


— Você não fala até eu terminar a análise. Fique quieto. Respire fundo. Pense em coisas bonitas. Um campo de flores, talvez.


— Bertram! — Adam insiste, enquanto é inclinado para trás com delicadeza brutal.


— Esse corte é um crime de guerra. Me dê dois minutos e eu te transformo num príncipe. Conseguirá muitas bundas da nobreza quando eu terminar. — Ele diz enquanto gira um suporte de navalhas automáticas, escolhe uma, aquece com uma tocha a gás embutida no braço e aplica espuma espessa no queixo de Adam com pinceladas de precisão cirúrgica.


Alexandros já está rindo ao fundo.


— Ele realmente não reconheceu o Adam.


Alstro cochicha para Koryu:


— Isso é o que chamam de atendimento VIP?


Koryu apenas observa em silêncio, intrigado com o funcionamento da prótese no braço de Bertram.


— Braço funcional… mas com capacidade ofensiva. Isso… é uma arma disfarçada.


Astrid grava tudo discretamente, já nomeando a pasta: “BERTRAM-BLADE-MASTER-VISUALLOG”


Porto comenta ao lado:


— Eu quero um desses braços. Ou pelo menos um desses penteados. Acho que tô muito vagabundo.


Bertram finalmente limpa o rosto de Adam, passa uma toalha quente e solta um último sopro de vapor sobre os poros antes de girar novamente a cadeira, agora cara a cara com seu “cliente”. Seus olhos focam com mais atenção no rosto dele.


Um segundo. Dois. Três.


Bertram pisca. Seu semblante endurece, e o silêncio cresce entre ambos. Ele enfim estreita os olhos.


— … Espera aí. Adam? Adam Altharion?!


Adam finalmente respira, aliviado.


— Sim! Era isso que eu tentava te dizer! Finalmente!


Bertram recua um passo, boquiaberto. Olha para os demais atrás dele. Depois de volta para Adam.


— Santificada seja Maria…! O moleque que salvou minha sobrinha? Aquele Adam?!


Adam apenas assente. Um sorriso leve no rosto.


Bertram então dá uma risada poderosa, aquele tipo de gargalhada que preenche o salão.


— E você teve coragem de sumir e aparecer aqui com o cabelo assim?! Que vergonha, homem!


Ele se inclina e dá um forte tapa amigável no peito de Adam, quase o derrubando da cadeira, e então se vira para os demais.


— Fechem as cortinas e virem a placa da porta! Tem muita história pra contar!


O grupo sorri, em maioria, aliviado.


Adam, apesar da humilhação inicial, não consegue evitar de rir um pouco também.


Estavam oficialmente sob os cuidados do Rei dos Ringues.

[.]

Na sala ampla e elegante que se escondia atrás da barbearia, decorada com bom gosto e sofisticação à moda antiga, cheia de móveis de mogno, poltronas de couro e quadros de estilo vitoriano misturados a peças tecnológicas de refinamento, o grupo de Adam se espalhava pela grande mesa de café de Bertram Bellamy.


Whiskey rodopiava em um copo grosso entre os dedos robustos de Bertram, que encarava Adam com as sobrancelhas cerradas, a expressão num misto de incredulidade e pragmatismo. O cheiro de tabaco, graxa e café recém-passado pairava no ar.


— Bom... Se fosse ontem, eu ia te mandar tomar um banho frio e te recomendar meia dúzia de remédios pra enxaqueca. — resmunga ele, dando um gole generoso no copo. — Mas depois do teu sumiço, da transferência do Núcleo praqueles seus pais e do Blackwell comprando metade da indústria... É. Agora tudo faz sentido. Merda…


Ele se recosta na cadeira, a prótese mecânica soltando um chiado hidráulico discreto.


— Tu precisa fazer alguma coisa com o Blackwell, Adam. — Bertram o encara com seriedade. — O Conselho das Máquinas vai simplesmente varrer isso pra debaixo do tapete e deixar com que aquele rato faça o que quiser com Cinderhelm contanto que ele lucre com tua criação. Tu sabe disso melhor do que ninguém.


Adam, de braços cruzados, responde com firmeza:


— Eu não posso ser visto. Ainda não. — ele ajeita o martelo encostado ao seu lado e continua — É por isso que recusei o corte de cabelo e a barba. Preciso ficar incógnito se quiser ter a menor chance de surpreender o Adrian... e o próprio Blackwell. Mesmo que isso custe a minha vaidade.


Porto assobia em tom de aprovação e murmura para Astrid:


— Respeito.


Adam continua:


— Não importa se estamos lidando com o fim do mundo. Eu não vou deixar Blackwell botar as mãos no que restou do Núcleo. Se ele tiver acesso aos planos... Adrian pode terminar o que começou. E não vai sobrar nada do que conhecemos.


Koryu, em pé, com os braços cruzados e seu sobretudo ainda pingando da chuva que os surpreendeu durante a travessia do mar, ergue uma sobrancelha.


— Então isso é uma sabotagem?


Adam afirma com um leve aceno de cabeça:


— É exatamente isso. — ele se inclina sobre a mesa, olhando para cada um de seus aliados. — Vamos encontrar todas as fábricas envolvidas na produção dos protótipos do Núcleo Arcanum e destruí-las, uma por uma.


Alstro engasga com o café.


— Todas???


— Todas — repete Adam, sem hesitação. — Mas antes disso, precisamos de algo crucial: o plano original do Núcleo Arcanum. A blueprint completa. Sem ela, os engenheiros e investidores não terão alternativas para reconstruir tudo depois que sabotarmos as fábricas. Só há uma pessoa que tem acesso direto a esse projeto original.


Bertram já sabia onde isso ia dar.


— Você tá falando da Clarinha, né? A garota da torre do relógio.


Adam confirma, e o rosto de Bertram se suaviza brevemente com o nome.


— Clara Gildspring é a única ali dentro em quem eu confio. Ela era uma das poucas engenheiras de linha de frente que não foi comprada por Blackwell, ela nunca se permitiria. E é uma das únicas com acesso aos andares superiores da torre, onde ficam os arquivos originais do projeto.


Astrid, que permanecia de pé, processando as informações com seus olhos piscando em sobrecarga leve de dados, cruza os braços.


— Você quer que invadamos o Big Bang... durante o período de vigilância máxima... com o risco da nossa cara ser estampada como suspeitos de terrorismo industrial se nos virem?


Adam balança a cabeça.


— Não vamos invadir. Vamos entrar. Clara pode nos colocar lá dentro. Precisamos apenas chegar até ela sem levantar suspeitas. Bertram pode nos ajudar com isso.


Bertram bufa uma risada seca.


— É, né... Aquele lugar tem mais câmeras, guardas e sensores mágicos do que a porra de um cofre real. Mas se a Clarinha abrir uma brecha por dentro... talvez, só talvez... dê pra brincar com os protocolos de entrada. Ainda vou ter que falsificar umas identidades que até o Conselho engula.


Ele estala os dedos mecânicos com um estalo afiado.


— Mas vou precisar de tempo. E roupas. Documentos, acima de tudo. E talvez umas perucas muito boas. — Ele olha para o cabelo bagunçado de Porto. — Talvez especialmente pra esse aí.


Porto mostra o dedo do meio, mas sorri.


— Ah, e se preparem. Assim que detonarem a primeira fábrica, o inferno vai romper em Cinderhelm. — Bertram aponta o copo na direção de Adam. — A elite vai surtar. O Conselho vai retaliar e querer respostas sobre o atentado. E a Guarda de Ferro vai revirar tudo de cabeça pra baixo por pressão do Blackwell com a mídia.


— É por isso que temos que começar por baixo — diz Adam. — Vamos entrar, pegar o plano, sair, e só então começaremos a eliminar as fábricas com estratégia. Sem plano, não há réplica. Sem réplica, não há Adrian.


Todos se entreolham. A tensão era palpável.


Adam então se recosta na cadeira, o olhar fixo na janela da barbearia, onde a silhueta da Torre do Relógio se recortava contra o céu alaranjado do fim de tarde, extremamente distante dali.


— Amanhã, vamos começar a primeira fase do plano.


E, com sorte, sair com a única arma que ainda podia impedir o fim de tudo.

Notas finais
<3