Arabella
4 Fugir?
Notas iniciais
Arabella desenhava formas repetitivas, labirintos, o suor escorria pelo seu rosto. Sentia-se pressionada, precisava sair dali. As visão das grades perturbava-a, arrancando-lhe a preciosa paciência. Arabella estava gritando, irada. A voz da Rainha Branca martelava a sua cabeça “E nós resolvemos dar-lhe a chance de escolher...”. E se Arabella não escolhesse nenhum dos dois reinos?... e se ela escolhesse a escuridão?... e se ela escolhesse... a terceira opção?
Arabella acordou esbaforida, suas costas estavam molhadas de suor, e aos poucos sua visão foi ficando mais clara. Ela estava deitada em uma beliche, na parte de cima da cama, o teto à poucos centímetros de seu corpo era mofado e fedia. Ela virou-se para o lado e se deparou com mais uma série de beliches, ocupadas por adolescentes com a média de 16 anos, a idade de Arabella. Uma curiosidade que não poderia ser saciada se ela não descobrisse quem estava na sua beliche, na cama de baixo, cresceu dentro dela. Arabella abaixou a cabeça, que latejava cada vez mais à medida que ela esgueirava-se para descobrir o dono daquele ronco.
– Patrick! – exclamou Arabella e caiu de cabeça no chão de madeira.
– Arabella? – perguntou uma voz feminina.
Arabella girou o corpo e deu de cara com uma menina de olhos azuis cristalinos, cabelos castanhos escuros caindo como cascatas sobre seu ombros e um sorriso provocante que lembrava-a Andrew. Todos ali pareciam ter um tipo de beleza provocante, porém serena.
– Meu nome é Isabel... você deve ser a Arabella, certo? Todos sabem seu nome agora. Atacar a Rainha... você realmente o fez, não? – Arabella balançou a cabeça em concordância enquanto Isabel ajudava-a à se sentar – esse aqui é um dos vários dormitórios, não é o melhor, claro, só os adolescentes “desobedientes” dormem aqui, então eles fizeram questão de escolher o sótão fedido.
– O que você fez pra merecer seu lugar no sótão?
– Chutei um dos treinadores naquele lugar.
– E o que ele fez pra merecer seu pé nas partes íntimas dele? – perguntou Arabella, em meio à uma risada.
– Por que tudo tem que ter um motivo? Ele é um treinador, Arabella, isso já compensa metade do golpe.
Ambas riram. Então a realidade voltou à martelar a cabeça de Arabella. Patrick. Patrick no dormitório. Roncando. Respirando.
– Patrick? – ela ajoelhou-se perto de sua cama.
– Hm?
– O que aconteceu? Você...
– A Rainha Branca me deu uma poção, ela disse alguma coisa do tipo “Morte Temporária para a minha isca”. Eu estava incomodando ela com perguntas e ela... ela ficou brava e então aconteceu isso, mas antes...
– Graças a deus você está vivo, eu achei que você...
– Morte Temporária, Arabella, eles fazem um negócio chamado magia negra sabia?
– Sim, eu sabia.
– E sua mãe...
– Eu não quero falar sobre isso.
– Tudo bem, desculpe.
– Acho que eu piorei as coisas não foi? – disse Arabella, mas o sorriso de April não saia de sua cabeça.
– Não foi culpa sua – disse Isabel – tudo deve ter acontecido rápido demais. A maioria dos guerreiros nascem aqui, e os que vem de fora não recebem a carga da verdade assim, tão rapidamente.
– E aquilo que enfiaram no meu braço...
– Uma seringa com sonífero.
– Eu imaginei, quem injetou-o?
– Andrew – respondeu Patrick, com desgosto, provavelmente por causa da privacidade que ele violou tão rapidamente entrando em seu corpo.
– Andrew estava lá? – perguntou Isabel, incrédula.
– Sim, por que? – perguntou Arabella.
– Ele é o treinador que eu ataquei.
– Ele é um tipo de instrutor também, não é?
– Como você sabe? – perguntou Isabel – ele não é o seu instrutor, é?
– Por que? O que Andrew tem de tão...
– Caso algo aconteça os instrutores dos guerreiros em treinamento básico devem ajudar a evacuá-los do Centro ou em outros casos, prepara-los para a guerra. Alguns dos guerreiros em treinamento, assim como eu, só estão aproveitando a oportunidade que o Centro nos oferece para treinar, mas assim que o sino do ataque soar, fugiremos daqui e nos juntaremos à um dos outros dois reinos, a maioria de nós não gosta do Bem. Os reinos na verdade não tem o nome de Bem, Mal e Humanos, soa meio estranho, não é? O “Bem” inventou esses nomes para a imagem do bom ser vista como nossa, apenas pelos nossos guerreiros, claro, uma boa estratégia, ainda mais com o programa de Apagamento de Memória Não Necessária. Ela é feita para os jovens recrutados de outros reinos, que conhecem os verdadeiros nomes dos três. – disse Isabel.
– Então a Rainha Branca não é tão diferente de minha mãe em relação à como lidar com os que sabem demais. Mas eu ainda não entendi o que Andrew...
– Se houver uma guerra, ele nem vai pensar em deixa-la fugir, ele serve fielmente a Rainha Branca, ele não é do tipo amigável que deixa você escolher.
– Então o que você sugere que eu faça?
– Sinceramente?
Arabella balançou a cabeça, afirmando.
– Fuja.
*
O primeiro treinamento de Arabella seria na segunda de manhã e Isabel conseguiu tirá-la pela primeira vez do dormitório. Na verdade Isabel estava ajudando muito com o processo de adaptação de Arabella, ela conseguia comida do refeitório, roubava armazéns cheios de roupas porque Arabella não gostava das que o Centro fornecia para os adolescentes “desobedientes”, às vezes a própria Isabel costurava as blusas. Arabella se sentia um pouco mal pelo tanto de esforço que ela tinha que fazer para arrumar essas coisas mas não conseguia simplesmente dizer não para Isabel, Arabella sabia que ela só queria ajudar.
O Centro estava lotado de pessoas andando pelos corredores, diferentemente do dia em que ela foi visitar April.
– Isabel, eu esqueci de perguntar, com esse tanto de coisa na cabeça... porque nenhum de vocês tem olhos de fendas?
– Olhos de fendas? Ah, sim, a nova moda. Deixe-me adivinhar: você viu pessoas do Bem com olhos de fenda na festa onde você foi convidada certo? Como eu já disse é a nova moda, uma boa parte dos Bens está usando. Nós não ligamos para isso aqui.
Mas Arabella não se convenceu, já estava comprovado que os guerreiros do Bem não sabiam de muita coisa que acontecia lá fora.
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