Aqueles seis meses
2 2- A ligação
Nathalia sentou-se na cadeira ao lado de Carlos no fundo da sala e os dois conversavam sobre tudo e nada como nos velhos tempos. Entre os risos deles, entrou uma voz feminina conhecida que sentou-se na frente de Nathalia e falou, com a maior intimidade:
—Meu Deus, mal voltou e já tá falando que nem uma matraca.
Nathalia deu risada, ela sentiu falta daquele tipo de comentário em sua vida, mesmo que na época ela não desse valor.
—Poxa, seis meses é muita conversa pra por em dia, Alice- Disse Nathalia com um sorriso no rosto feliz por encontrar a antiga amiga.
E então, Alice começou a participar do assunto com o mesmo bom humor que ela havia começado no primeiro ano. Infelizmente, o bom humor foi se perdendo e se perdendo e se perdendo, até que tanto Nathalia quanto Alice começaram a achar os dias muito difíceis de serem levados e pouco a pouco foram não só se afastando entre elas mas se afastando de quem costumavam ser. No entanto, naquele momento, o mundo parecia parado e elas estavam de volta. De volta á época em que foram, se não completamente, pelo menos parcialmente felizes.
Pouco a pouco foram chegando outras pessoas e as que já haviam chegado vinham dar boas vindas á Nathalia. Ela havia feito mais falta do que pensou que faria e lá no fundo isso aumentava um pouco sua auto-estima. Ela ria das piadas e conversava, mas se recusava a entrar em detalhes sobre os seis meses em que esteve fora. Há dois meses atrás, depois de quatro sem responder mensagens nem atender ligações, Nathalia decidiu retomar o contato e tentar recuperar as coisas que havia perdido e desde então, evitava ao máximo dizer o que havia acontecido. Para todos foi um mistério, mas a saudade da antiga colega era maior do que a curiosidade, e se falar sobre aquilo fosse feri-la, eles preferiam evitar o assunto.
As aulas passaram rápido, e a garota estava feliz de estar de volta. Ela sempre havia gostado de estudar e de ir para a escola para encontrar os amigos, embora no começo do segundo ano ela tenha perdido esse jeito. Ela estava não só pronta, mas também com vontade de recuperar todo o tempo perdido.
Voltou para casa numa felicidade que não tinha desde sua formatura do nono ano. Sua mãe perguntou como havia sido e a garota respondia com entusiasmo. Agora sim ela voltou a ser o que era, pensou a mão lembrando de como o ano passado havia sido difícil não só para ela, mas principalmente para a filha. Com um sorriso no rosto, se despediu da garota e disse que qualquer problema que tivesse era só ligar. Também lembrou que estaria em casa por volta das 17h para leva-la ao compromisso. A garota trancou a porta e passou cerca de 40 minutos olhando para o teto deitada no sofá pensando.
Como ela havia se perdido tanto de quem ela realmente era? Quem era a pessoa que ela havia se tornado e porque foi tão difícil voltar a ser o que sempre havia sido?
As perguntas ecoavam e então o telefone tocou.
A garota atendeu e era Carlos do outro lado da linha ligando para perguntar se ela queria sair para comer alguma coisa a noite com o pessoal do grupo deles. A garota passou a mão pelos cabelos castanhos e suspirou lembrando-se que já tinha compromisso.
Carlos insistiu e insistiu dizendo que nenhum compromisso era mais importe naquele momento do que comemorar sua volta com os amigos. Nathalia tentava contornar a situação e mudar de assunto, mas ele não desistia.
E então ela decidiu que era hora de contar para ele porque ela havia ficado afastada por seis meses.
Após ouvir, o garoto entrou em choque. Ele imaginou que ela talvez pudesse estar com algum tipo de problema, mas não imaginou que teria chego tão longe.
Ele disse em tom protetor que não ia deixar ninguém saber daquilo até ela se sentir segura para contar.
Foi no dia da ultima prova do primeiro bimestre. Nathalia precisava fazê-la até para ter um encerramento. Aquele primeiro semestre do segundo ano havia sido tenso: Além da pressão habitual, o pai dela havia sido preso por violência doméstica contra a mãe. Voltou para casa naquela terça feira chuvosa sabendo muito bem o que ia fazer. Almoçou com a mãe e antes dela sair disse um eu te amo. Assim que a mãe saiu, a garota entrou no banheiro e abriu a porta do espelho. Pegou diversas embalagens de remédios e colocou todos em uma mão. Sem deixar bilhete nem aviso, tomou todos de uma vez e encostou-se no chão do banheiro esperando não ver mais nada para sempre.
A mãe, havia esquecido uma pasta importante e, cerca de 35 minutos depois estava em casa de novo. Chamou a filha e chamou e chamou sem resposta. Poderia ter pensado que ela havia saído, mas sua chave estava em cima da mesa. A mãe já com um mau pressentimento abriu a porta do banheiro e por sorte Nathalia ainda viva. Convulsionando, mas viva.
A mãe chamou uma ambulância e daí em diante a vida das duas virou um inferno. Parentes perguntavam, a filha começou a ir em um psicólogo e pouco a pouco as coisas iam melhorando em ritmo lento. Após cinco meses de tratamento, a garota pode diminuir as sessões de terapia e a partir daí decidiu começar a retomar sua vida.
Haviam sido meses obscuros aqueles, mas como costumam dizer, só conhece a luz quem conhece a escuridão.
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