Aqueles seis meses

3 3- A garota do prédio


Carlos tinha esse jeito estranho, ao mesmo tempo que era simpático e tinha esse dom de fazer todos gostarem dele, não tinha tanta empatia e, por algumas vezes, tinha dificuldade de se colocar no lugar do outro. Nathalia, que lia Carlos como um livro aberto sabia disso e por isso que quando começou a se sentir mal nunca mencionou nada. Ela sabia o que ele pensava sobre o assunto e sabia que se ela dissesse o que estava sentindo ele talvez não entendesse, porque apesar de entender quase tudo sobre ela, nem ela mesma entendia essa dor que a assombrava. No dia do telefonema, Nathalia queria já ter contado para ele sobre o que estava acontecendo muito antes, mas nunca havia conseguido por medo. Medo de que ele achasse ela fraca como ela se achava fraca. Medo de como ele olharia para ela a partir de então. No entanto, quando ele ligou e insistiu, ela pensou que talvez fosse a hora de ser tanto um livro aberto para ele como ele era para ela, e no final ela descobriu que apesar de tudo, ele podia sim ter empatia.

De todas as conversas que haviam tido, aquela não foi a mais longa, nem a mais profunda, mas foi de longe a mais sincera. Apesar de serem francos, ambos escondiam suas dores com medo do olhar alheio e no final acabavam se afogando mais e mais na própria mentira. Aquela ligação foi o ponto chave para Nathalia notar que na verdade não havia nada a temer e que na verdade, Carlos lhe dava segurança.

Nathalia desligou o telefone e faltava somente meia hora para sua consulta. Ela ainda não tinha tomado banho então se apressou. Colocou qualquer roupa e esperou a mãe ligar para ela descer até a portaria e ir. Mexendo no celular enquanto esperava a mãe, Nathalia nem viu que uma garota de sua escola tinha começado a morar ali. Num tom que não se dava para distinguir a falsidade da simpatia, a garota chegou mais perto e disse:

—Nathalia! Você mora aqui?

Era Luana. Antiga amiga de Nathalia. Amizade complicada aquela. Eram grandes amigas até o sétimo ano quando Nathalia teve um desentendimento com alguns colegas e Luana se afastou e se virou contra ela. A garota, com seus cabelos longos e loiros escuros, sempre teve o holofote comparado á antiga amiga, mas Nathalia nunca se importou, até que no primeiro ano Luana começou a namorar com Carlos.

Nathalia, perplexa, cumprimentou a garota e disse que morava sim ali. Por sorte, a mãe ligou e ela pôde sair da situação.

Chegou e durante a sessão contou sobre o primeiro dia: sobre Carlos, Luana, Alice e sobre como havia contado tudo para Carlos. Quando a sessão terminou, a psicóloga chamou a mãe e deu boas notícias, dizendo que as consultas poderiam diminuir para duas por semana já que a garota apresentava um progresso constante e aparentemente duradouro.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.