Aqueles seis meses
1 1- A volta
Nathalia entrou na sala um pouco receosa. Era seu primeiro dia de aula após um semestre sem ir a aquela escola. Parou diante da imensidão de carteiras da sala e olhou ao redor. Foi nesse momento que seus olhos se encontraram. Fazia tempo, e o garoto esboçou um sorriso saudoso para ela e fez gesto de levantar. Ela, com vergonha, mas feliz por vê-lo novamente colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha e esperou-o chegar. Ele abriu os braços e eles se abraçaram. O primeiro abraço em seis meses. Se afastaram e ele pousou uma das mãos no cabelo dela.
—Eu senti sua falta- Disse ele com um sorriso de canto de boca.
—Eu também senti a sua- Disse a garota ficando um pouco corada.
—Já tem alguma ideia de onde vai sentar?- Ele perguntou.
Ela suspirou e olhou para a sala. Não haviam sobrado muitas opções. A mochila do garoto estava no mesmo lugar em que ele sentava desde a 8ª série: última carteira da segunda fileira perto da janela.
Nathalia sem saber o que responder, só levantou os ombros.
—Tem um lugar ali do meu lado, quer sentar lá?- O garoto perguntou se oferecendo para pegar a mochila dela.
—Ah, você sabe que nunca me deixaram sentar no fundo. – Disse ela dando uma risadinha.
—Talvez você precise de algumas mudanças- Disse ele pegando a mochila dela e levando para a carteira.
Ela sabia que era verdade. Não podia começar o ano sendo quem ela era no outro. Nesse ponto ele tinha razão e ela não podia negar, então simplesmente concordou com a cabeça.
Eles sempre foram muito amigos, desde que as salas dos dois se juntaram eles conversavam e sempre achavam um no outro um porto seguro. Mas, para a tristeza de Nathalia, era só isso: amizade. Ela ainda se lembrava da primeira vez que viu ele.
Era o primeiro dia do primeiro ano do ensino médio. Ele e uns amigos estavam conversando em um canto da sala e ela entrou. Os amigos que tinha no nono ano haviam mudado de escola então ela estava sozinha naquele momento, sem conhecer ninguém de lá. Passando os olhos pela sala, a garota procurava algum conforto, talvez um rosto amigo e foi aí que ele olhou pra ela e tudo mudou.
Os olhos castanhos de Nathalia se encontraram com os olhos mel de Carlos e então ela percebeu. Percebeu que ele ainda ia fazê-la sofrer. Aquele sorriso que era capaz de acabar com uma guerra estava lá, iluminando a sala inteira enquanto ela assistia como mera espectadora ele começando a atrapalhar o mundo dela.
Só havia um lugar vago e era na fileira ao lado da dele. Ela foi se sentar em um desespero silencioso. Ela queria que ele viesse falar com ela, mas no fundo sabia que se ele viesse seria o início de seu fim.
As aulas passaram e de tempo em tempo a garota se levantava sob algum pretexto furado só para poder olhar para trás e ver ele concentrado em algum exercício ou rindo de alguma piada meio idiota. Foi só na quinta aula que as coisas realmente começaram a traçar seu caminho.
A professora da aula disse que os lugares estavam todos errados e que precisavam de alteração. Mudou, mudou e mudou até que decidiu colocar Carlos em uma das diagonais de Nathalia. Ele argumentou e disse que era muito alto para sentar na quarta carteira e não na última, mas a professora estava irredutível. Ela queria porque queria ele exatamente lá.
Na última aula, quando Nathalia já estava se acostumando com a ideia de que Carlos não falaria com ela, ele começou a fazer um barulho e ela estranhou, mas não virou. Depois de um tempo, ele começou a falar baixo:
—Nathalia, Nathalia.
A garota se virou, desconfiada por ele ter chamado seu nome e com uma cara de desconfiança encarou o garoto esperando para ouvir o que ele queria.
—Seu nome é Nathalia não?- Carlos perguntou aproximando a cabeça para a garota ouvi-lo melhor.
—Sim... Você é o.... Carlos né?- Perguntou a garota fingindo que sequer sabia o nome dele.
—Sim. Minha borracha está em baixo da sua carteira, você pega pra mim?- Ele disse apontando para a borracha no chão
—Ah... claro- Disse ela pegando a borracha meio decepcionada.
—Obrigada- Disse Carlos sorrindo- Ah, aliás, fiquei feliz de estar na sua sala, sempre te achei simpática.
Simpática? Ela se perguntou virando para frente.
E foi aí que a amizade deles começou. Ás vezes ele a chamava para fazer alguma pergunta pessoal e aleatória e com o tempo ela começou a fazer o mesmo. Eles riam das coisas juntos e até cantavam juntos nas aulas umas musicas que só os dois conheciam e assim, pouco a pouco iam conhecendo um o mundo do outro e simultaneamente criando um só deles. Mesmo quando ele mudou de lugar de volta para o fundo, eles mantiveram a amizade, porque para Nathalia, ele sempre teria um lugar ali, do lado dela.
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