Aquele último ano
23 Capítulo 23
Notas iniciais
Estava tudo maravilhosamente incrível! Tanto que ainda não havia caído a ficha completamente.
Renan e eu ficamos naquela praia até tarde aquele dia, apenas conversando, sobre coisas não muito importantes. Ficamos deitados olhando para o céu e a aquela infinidade de estrelas, nós não sabíamos o nome delas e nem das constelações, mas gostávamos de observa-las. Não me sentia inferior a Renan mais, estava me sentindo completa, entende? Como se ele estivesse ali para mim mesmo, moldando minhas partes ruins e ajudando a deixar transparecer as partes boas. Não é por nada não, mas éramos um casal sensacional. Apesar de não termos falado nada sobre namoro eu não me importava, estávamos juntos, e isso bastava, pensei que nem tudo tinha que acontecer de acordo com os “roteiros” da sociedade. Estávamos juntos e bem, ponto.
Ainda ecoava na minha cabeça a frase que ele havia dito para mim: “Eu amo você”. Vocês têm noção do que é isso? Eu esperava que ele dissesse que havia pelo menos começado a se apaixonar por mim, mas foi muito além disso! Alguém disse que me amava, alguém que não meus pais ou meu irmão, alguém que queria passar anos da sua vida comigo, que me conhecia e me aceitava do jeito que era, com todos os erros e qualidades. Ele disse que amava a “Eloisa”, não certas ações da “Eloisa”. Vocês não têm noção de como isso pode fazer sua cabeça virar uma nuvem de leveza. Fiquei um pouco mal porque eu nunca havia dito a ele que o amava, nunca cheguei a pensar que estava nesse ponto, percebi então que não seria algo tão fácil de se dizer assim. Apesar de realmente sentir isso dentro de mim.
Ele me levou até em casa naquela noite, me deu um beijo de despedida e pediu que eu fosse paciente até o dia da formatura. Obviamente não questionei.
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Marie e eu estávamos em uma escola vizinha, não muito longe da nossa, a semifinal do campeonato de futebol aconteceria ali. Marie estava uma pilha de nervos como nunca vi antes, ela sempre ficava ansiosa nos jogos de futebol, mas hoje estava demais. Havia dito a ela sobre mim e Renan, assim que cheguei em casa na noite anterior, liguei para ela e contei tudo. Ela chorou de felicidade, por mim, percebi então que eu estava rodeada de pessoas que realmente se importavam comigo. Ainda não havia falado com Ethan, não enquanto ele estivesse tão inquieto com a partida. Eu estava inquieta também, mas com outra coisa. Marie havia me dito algo interessante, disse que Ethan havia se declarado para ela ontem. Perguntei desesperada qual tinha sido a resposta dela e ela disse que ainda não havia dito nada, e que Ethan também não tinha pressa. Porém eu estava me remoendo por dentro para saber o que Marie diria a ele! Se ela não sentisse nada teria dado um fora nele imediatamente, né? Torcia muito por isso.
A arquibancada dessa escola vizinha estava cheia também, muito, ainda mais por ser uma semifinal, eu torcia muito para isso não colocar uma pressão a mais no nosso time.
Ambos os times estavam no campo já, todos uniformizados. Ethan estava concentrado ao extremo, vestia seu uniforme e exibia a braceleira de capitão, mais uma vez ele cumprimentou o capitão do time adversário para decidirem quem começava com a posse de bola. A torcida já começava a gritar o nome da escola deles, estava me irritando muito.
A bola rolou e o jogo começou. Estava um jogo muito difícil, o time adversário começou pressionando muito, não deram nem tempo do Ethan começar saindo com a bola, provavelmente estavam de olho nele, porque toda vez que ele tocava na bola sofria uma falta, fiquei com vontade de dar uma cadeirada na cabeça de cada um deles. No meio do primeiro tempo o time adversário abriu o placar, 1x0 para eles, Marie estava em desespero e eu não ousei falar com ela. Parecia que o dia não estava a nosso favor, a bola não entrava no gol de jeito nenhum! Como se uma mão invisível tirasse ela sempre da direção do gol. O primeiro tempo havia terminado e estávamos perdendo.
Os jogadores se reuniram para conversar ficamos sentados esperando o segundo tempo começar. Ethan fez uma roda com os jogadores e começou a dar algum tipo de instrução, ou só discurso motivacional mesmo, os jogadores olhavam atentos para ele, como se fosse o técnico deles. Olhei para Marie e ela observava Ethan vidrada, dei um pequeno sorriso, sentia que as coisas terminariam bem para eles também. Apesar de desconfiar que brigariam sempre, mesmo depois de 10 anos juntos.
O segundo tempo começou e nosso time estava melhor, o adversário estava mais recuado e atacamos mais. Ethan estava no ataque quanto recebeu uma bola do meio de campo, ele dominou a bola e correu em direção ao gol, Marie segurou meu braço com força nessa hora, sempre se empolgava vendo futebol. Pouco antes de Ethan conseguir entrar na área sofreu uma falta, uma falta feia por trás. As poucas pessoas que estavam torcendo para nossa escola começaram a reclamar, muito! O jogador que fez a falta recebeu cartão amarelo, todos queriam ele expulso, especialmente porque Ethan ficou no chão segurando o pé e se retorcendo de dor. Marie levantou na hora desesperada, mas não se moveu, afinal não podia fazer nada. Algumas poucas pessoas da torcida começaram a discutir, a torcida adversário dizendo que Ethan estava exagerando e nossa torcida defendendo ele. Os médicos haviam tirado Ethan de campo para tratar ele, ainda não sabíamos se precisaria ser substituído, o problema foi que o jogo voltou a rolar e Ethan estava fora de campo ainda.
O jogo ficou mais tenso ainda, os jogadores do nosso time ficaram bravos pela falta desnecessária e o time adversário começou a provocar. No meio de toda essa tensão nossa escola fez um gol, empatando o jogo. A torcida vibrou e nosso time comemorou provocando o time adversário. Ethan voltou depois de alguns minutos, não havia sido substituído e tenho certeza de que ele havia feito um escândalo para poder continuar jogando. Ele entrou em campo novamente deixando o time completo, estava mancando um pouco mas voltou a jogar. O segundo tempo estava acabando e se continuasse empatado seria decidido nos pênaltis, eu odiava decisão por pênaltis porque era sempre muito tensão.
Faltava cinco minutos para o jogo acabar, nenhum dos dois times arriscava atacar muito mais. Um jogador da nossa equipe sofreu uma falta, os jogadores adversários começaram a reclamar com o juiz, enquanto isso cobramos a falta rapidamente, ninguém prestava atenção, a bola foi lançada para Ethan no ataque, ele recebeu a bola e driblou alguém que havia aparecido para marcar, o mesmo que havia feito a falta nele. Ethan driblou ele e seguiu com a bola, abriu espaço e chutou. A bola estufou a rede e Marie pulou do meu lado gritando desesperada. Nosso time inteiro começou a comemorar e o time adversário foi todo reclamar com o juiz, então o clima começou a esquentar e os jogadores começaram a querer brigar entre si. O juiz saiu distribuindo cartão amarelo para todo mundo e mandou o jogo seguir. O jogo acabou três minutos depois. 0x2 para nós.
Fiquei com vontade de rir porque a torcida adversário ficou reclamando depois, xingando o juiz. Os jogadores pareciam conformados e nossa equipe comemorava. Estávamos em mais um final. Marie pulava do meu lado e antes que eu pudesse ver ela saiu correndo de lá em direção ao campo, pensei em ir atrás dela mas não conseguiria, havia muita gente, Marie era pequena então conseguiu passar pelas pessoas facilmente. Fiquei onde estava então, observando ela. Coloquei a mão na boca surpresa com a cena que vi. Marie correu até o campo acenando para Ethan, ele viu e foi até ela, Marie pulou e o abraçou, depois, ali mesmo, deu um beijo nele, era tão pequena que seus pés quase não encostavam no chão, isso porque Ethan havia abaixado um pouco ainda. Dessa vez eu comemorei ali de onde estava mesmo, como se fosse um gol. Essa era a resposta de Marie. Eu estava satisfeita e Ethan mais ainda. Vi depois então algo que me deixou mais feliz ainda, uma garota olhando para os dois, depois saiu apressada nervosa. Era Amy, a ex do Ethan, provavelmente estudava nessa escola. Eu ri, Ethan e Marie haviam se vingado e nem sabiam disso, apesar de que seria melhor ainda se Charlie estivesse ali também.
As pessoas começaram a se dispersar e os jogadores já estavam trocados, apenas conversando uns com os outros. Conversavam até mesmo com os jogadores adversário, a clima ruim havia ficado no campo, fora dele eram apenas estudantes se conhecendo.
— Seu pé está doendo? Consegue andar? – Perguntava Marie para Ethan parecendo uma mãe.
— Está doendo um pouco, mas consigo andar sim. – Respondeu ele. O jogador que o havia machucado veio se desculpar depois, Ethan disse que estava tudo bem e que fazia parte do jogo. Já Marie olhava para ele tentando quebrar as pernas dele com os olhos. Eu também não havia simpatizado muito com ele.
— Sabe quem estava aqui e viu a ceninha de vocês depois do jogo? – Perguntei para eles.
— Quem? – Os dois perguntaram.
— Amy. Ela viu tudo e saiu toda nervosinha daqui. – Eles olharam um para o outro e riram depois deram um tapa na mão do outro como se tivessem cumprido um dever. Esse seria um casal engraçado, em todos os sentidos possíveis.
Estávamos indo embora juntos, completamente felizes. Havia marcado de encontrar Renan em frente a uma loja, Marco e Sasha marcaram um almoço em um restaurante para comemorar o noivado com alguns amigos, como estava junto de Renan agora estava mais do que convidada. Além de eu ser a irmã do cara que estava noivo.
— Ethan saiba que nossa amiga Eloisa está em um relacionamento sério? – Disse Marie, andava de mão dada com Ethan, ele olhou para mim surpreso.
— É com quem estou pensando que é? – Perguntou ele.
— Bem, se está pensando em Renan sim, se não pode esquecer. – Respondi.
— Finalmente estão namorando! – Disse Ethan para mim.
— Bem, não diria namorando ainda... apesar de nos tratarmos assim, mas não falamos nada sobre isso exatamente ainda, e acho que não há necessidade. – Ethan me olhou como se não concordasse nem um pouco comigo. Mas deu de ombros.
— Se você está feliz assim então tudo bem. – Ele disse.
— Estou muito feliz. – Respondi. Não só eu, mas todos estávamos felizes agora, de alguma forma deu tudo certo para todos, pelo menos por enquanto, e torcia para que fosse assim durante muitos anos. Ouvi alguém me chamar de longe então olhei para trás, assim como Marie e Ethan.
— Eloisa! – Disse Davi tentando nos alcançar, parei de andar e esperei que ele chegasse até mim.
— O que foi? – Perguntei, ele ofegava.
— Posso falar com você um instante? – Ele perguntou, olhei para Marie e Ethan e ele deram de ombros, como se não vissem problema.
— Claro. – Respondi, me virei e acompanhei ele.
— Ah! Parabéns pela vitória. – Ele disse para Ethan.
— Obrigado. – Respondeu Ethan sorrindo.
Segui com Davi para onde quer que ele estivesse me levando. Chegamos até uma simples praça que havia ali perto, sentamos em um banco em baixo de uma árvore para nos protegermos do sol.
— Queria me desculpar com você, pelo modo como agi aquele dia quando Alissa fez tudo aquilo. – Ele disse. – Eu disse que precisaria de um tempo então pensei em evitar muito contato contigo.
— Não tem que se desculpar, você me ajudou e eu deveria agradecer na verdade. – Respondi, ele sorriu. Fiquei um pouco aliviada, estava voltando a sorrir como sempre fazia.
— E queria te agradecer também. – Ele disse. – Alissa veio conversar comigo ontem, pediu perdão por tudo o que havia feito e disse que fez tudo o que fez por se importar comigo, eu sempre soube disso, mas dessa ultima vez fiquei bravo de verdade com ela. Mas ela nunca havia feito isso, no meio das suas desculpas ela disse que você havia dado uma “bronca” nela. Obrigado por ter ajudado ela, mesmo que essa não fosse realmente sua intenção. – Ele disse.
— Realmente não era minha intenção. – Respondi rindo e ele riu também. – Mas ao mesmo tempo sabia que ela precisava ouvir aquilo.
— Eu sei que isso que vou dizer não justifica nenhumas das coisas que Alissa te fez, mas quero que você pelo menos tente entender o porquê de que estar sempre com ela apesar de tudo. – Ele começou a dizer. – Cresci com Alissa, literalmente, nossas famílias eram próximas há muitos anos. Quando tínhamos cinco anos a mãe dela abandonou ela e Cloe, nunca soubemos o motivo, e acho que nem havia um motivo, apenas não queria criar as filhas. Alissa ficou arrasada depois disso, era apegada a mãe dela de certa forma, o pai delas durante alguns anos teve certa dificuldade em criar as filhas sozinhas, mas sempre fez o que pode, não tem do que elas possam reclamar em relação a ele. De qualquer forma, tudo isso teve um impacto negativo nela, Alissa sempre teve medo de ser rejeitada novamente e passou a se esconder atrás dessa personalidade fraca, que passou a fazer parte dela com o tempo. Como eu disse, sei que isso não justifica tudo o que ela fez, mas eu sei que Alissa não é só isso, assim como Cloe como irmã dela também sabe. Por isso não fique brava quando eu ou qualquer pessoa que a conheça tente defende-la. – Ele disse. Eu realmente não sabia nada disso sobre Alissa,e foi um baque descobrir tudo isso, ainda que, como Davi disse, não justificasse as ações dela, mas de alguma forma meu ódio diminuiu consideravelmente.
— Eu entendo. – Respondi. – Não se preocupe, nunca pretendi fazer mal a ela de qualquer forma, já tive vontade, muitas vezes, mas nunca tive coragem. Sei que uma hora ou outra ela vai entender tudo o que aconteceu a ela e tentar mudar, mesmo que seja difícil.
— Obrigado, sabia que você ia entender. – Ele disse sorrindo, parecia aliviado. – Não acho que Alissa pretende continuar a te perturbar, não depois da conversa que tiveram, mas também não espere um comportamento amigável e aconselharia você a ficar longe dela. – Ele disse rindo e eu ri também.
— Pode apostar que vou manter distância, bastante. Mas... – Hesitei um pouco em perguntar. – Como você está? – Ele me olhou e pareceu pensar um pouco.
— Acho que estou bem, não queria ter sido eliminado do campeonato, nem brigado com Alissa e ficar distante de você. – Ele disse rindo. – Mas superei tudo já, estou bem. As coisas não deram muito certo para mim no fim, mas estou bem. – Fiquei aliviada em ver isso.
— Davi, me descul... – Comecei a dizer mas ele me cortou.
— Nem comece a pedir desculpa, sei que deve se culpar mas você não tem culpa de nada, apenas estava envolvida em tudo o que me aconteceu, como muitas pessoas estavam. Somo amigos agora e isso é mais do que o suficiente pra mim. – Ele disse, Davi era incrível, esperava que a vida dele fosse para sempre tão incrível quanto ele merecia.
Nos despedimos e segui meu caminho, estava um pouco atrasada para encontrar Renan. Marcamos de sempre nos encontrarmos em frente a uma loja mais afastada da escola para irmos embora juntos.
Era um pouco difícil ficar ne escola e vê-lo passar direto por mim as vezes, não conversar muito e as vezes falar apenas o necessário. Eu não conseguia aguentar isso. Queria abraçar ele quando o via e dizer para aquelas alunas assanhadas que ele estava comigo, queria conversar com ele normalmente. Diversas vezes pensei seriamente em tacar fogo no diretor por essa regra idiota, ou bater muito no casalzinho de merda que fez com que o diretor colocasse essa regra na escola. Mas ao mesmo tempo ele cuidava de mim na medida do possível, e descobri uma coisa: Ele conseguia ser ciumento tanto quanto eu. Diversas vezes, quando eu conversava com algum aluno, que não fosse Ethan, ele arranjava um jeito de me tirar de perto dele, dizendo que a coordenadora estava me procurando, que precisava da minha ajuda para uma coisa ou que outro professor estava me procurando. De todas as vezes que ele disse isso, nenhuma delas realmente tinha alguém me procurando, e fui descobrir isso mais ou menos na quarta vez que ele fez isso. Achei muito engraçado. Depois que descobri isso, estava falando sobre um trabalho com um colega da minha classe no corredor, ele passou por nós e chamou esse aluno, dizendo que precisava de ajuda com alguma coisa, o menino ia sair para ajuda-lo mas não deixei, disse que o assunto era importante e perguntei se o professor Renan poderia procurar por outra pessoa.
— Claro. – Disse Renan me acusando com os olhos.
— Obrigada. – Agradeci devolvendo o olhar como resposta, uma comunicação visual perfeita que meu colega nem havia percebido, tive uma leve impressão de que Renan havia ficado um pouco ressentido.
Porém eu também sentia meu ciúme, Renan podia conversar mais abertamente com outras alunas do que comigo, e isso me irritava porque toda vez que Renan e eu conversávamos, coisas comuns sobre a aula, sentia que as pessoas nos observavam. Não podíamos fazer nenhum movimento falso. Logicamente Renan lidava com isso melhor que eu, ficava emburrada e com a cara fechada, nem preciso dizer que ele achava isso engraçado.
Cheguei até nosso ponto de encontro e ele já estava lá me esperando, a moto estacionada e ele encostado nela. Ele era lindo, pelo menos para mim, tinha vontade de pegar ele e apertar até virar suco. Corri até ele e lhe dei um abraço, um abraço que segurei o dia inteiro na escola.
— Já estava achando que havia levado um bolo. – Ele disse.
— Desculpa, tive que resolver algumas coisas. – Respondi.
— Aconteceu alguma coisa?
— Na verdade não, Davi apenas me chamou para conversar e resolvermos algumas coisas. – Eu disse e ele me olhou um pouco ressentido, pensei que já havia sentido ciúme dele por muitos anos, então ele poderia aguentar um pouco por enquanto também.
— E resolveram as coisas? – Ele perguntou.
— Sim. – Respondi. – Ele está bem agora, e eu também. – Falei e dei um pequeno selinho nele, pareceu satisfeito e eu ri.
— Vamos? Estamos um pouco atrasados já. – Ele disse.
— Vamos, mas... aonde está se seu capacete? – Perguntei olhando em volta da moto, quando estava comigo ele nunca trazia o capacete porque sabia que eu não usaria se ele não usasse um também.
— Esqueci em casa. – Ele disse, olhei brava para ele.
— Qual o seu problema, Renan? – Perguntei já cansada de discutir sobre isso com ele.
— Relaxa, não vamos andar muito, vai ficar tudo bem. – Ele disse, também já cansado e de responder a mesma coisa sempre.
— Vamos fazer um acordo. – Eu disse para ele. – Toda vez que lembrar de trazer o capacete e usar ele, vai ganhar um beijo de brinde. – Ele riu.
— Você joga sujo, não vale.
— Você que sabe, aceita ou não? – Perguntei.
— Aceito. – Ele disse satisfeito e subimos na moto.
Renan era normalmente muito cuidadoso com tudo, mas quando andava de moto tinha impressão de que ele sentia liberdade demais, não confiava muito, apesar dele sempre ser mais cuidadoso quando estava comigo. Ainda assim, sentia um frio na barriga não muito agradável.
Chegamos em frente a um restaurante simples que havia por ali. Senti a sensação de isso já ter acontecido antes, quando Renan havia acabado de voltar e meu deu uma carona até um restaurante que meu irmão estava com alguns amigos. Só havia uma pequena diferença: Eu podia beijar Renan agora e andar de mãos dadas. Se eu estava satisfeita? Imagina.
Entramos no restaurante e já ouvimos a barulheira, se eu fechasse os olhos conseguiria ir até onde Marco e Sasha estavam com os amigos. Seguimos até lá e fui ficando um pouco sem graça, não tinha afinidade com ninguém ali, é um pouco constrangedor.
— Sempre atrasado, não é? – Disse um amigo de Marco para Renan, o Victor, aquele garoto barulhento que dizia a primeira coisa que aparecia na cabeça.
— A culpa foi dela dessa vez. – Disse Renan rindo e apontando pra mim.
— Desculpa. – Respondi sorrindo, mas um pouco sem graça.
— Não larga da irmã do Marco, não é? – Disse Victor rindo e segurando um copo com alguma bebida na mão.
— É claro, ela é minha namorada agora. – Disse Renan e vi todos na mesa quase engasgarem com o que quer que estivessem comendo ou bebendo, eu também teria engasgado se estivesse com alguma coisa na boca, mas apenas tentei agir com naturalidade. Então, Renan e eu realmente estávamos namorando, ouvir ele dizer isso me deixou mais segura por alguma razão. Levantei a minha mão que Renan segurava e mostrei a todos. Aparentemente foi um choque para todo mundo. Menos para Marco e Sasha, obviamente. Sasha riu, estava feliz por suas ações discretas terem resultado nisso.
— Não é possível! – Disse Victor. – Marco não matou você ainda?
— Pode apostar que estou de olho. – Disse Marco, não liguei, sabia que ele confiava em Renan, Já Renan... sinto que ele sentiu um pouco o significado dessas palavras.
Por fim, todos nos parabenizaram e me deram conselhos, Renan começou a ficar bravo (não de verdade), dizendo para pararem de colocar coisa na minha cabeça.
Marco e Sasha estavam se divertindo, e isso me deixava feliz. Aparentemente eles estavam nessa de ter interesse um no outro há muito tempo e não resultava em nada, todos pareciam aliviados por finalmente estarem juntos de verdade.
O almoço foi divertido e rápido, havia sido simplesmente para anunciar o noivado, ainda fariam a famosa despedida de solteiro quando estivesse perto da data de casamento. Depois de umas duas horas os amigos de Marco foram embora, e ficou somente Renan, Marco , Sasha e eu.
— Bom, preciso te mostrar uma coisa, Eloisa. – Disse Sasha. – Ia te mostrar ontem, mas né... Depois de ouvir a discussão de vocês achei melhor deixar para lá. – Ri um pouco mas fiquei um pouco envergonhada e acho que Renan também, havíamos passado um pouco dos limites, mas não importava mais. Sasha pegou um envelope na bolsa e abriu, havia uma infinidade de fotos ali dentro, do dia da inauguração da hospedaria.
— Sasha colocou essas fotos no catalogo dela, no site profissional dela. – Disse Marco. – Isso ajudou a divulgar a hospedaria.
— Espera! Você é fotografa? – Perguntei, realmente não sabia. – Desde quando.
— Desde sempre. – Disse Sasha rindo. – Cursei fotografia por quatro anos, trabalho disso. – Ela disse. Peguei as fotos e vi que ela não mentia, as fotos eram lindas, naquele dia achei que ela estava apenas registrando o momento, mas era mais que isso, as fotos eram uma verdadeira obra de arte! Fiquei impressionada.
— São lindas! Todas elas! – Sasha sorriu orgulhosa.
— Gosto da fotografia por isso, essa arte de registrar um momento e até sentimentos em uma foto é linda. – Ela disse olhando carinhosamente para suas fotos. Nesse momento, como um clique, decidi o que queria ser depois que terminasse a escola. Aquelas fotos transmitiam todo o sentimento daquele dia, como se me levasse de novo para aquele momento.
— Está decidido, é isso o que quero fazer também! – Respondi segurando uma foto, Marco me olhou surpresa e Sasha sorria como se já soubesse que eu iria escolher isso. – Quero ser fotografa!
— Será excelente! – Disse Sasha.
— Aonde você fez a faculdade? – Perguntei.
— Bem, esse é o lado ruim, por essa região a universidade mais perto fica a duas horas daqui. – Ela disse e Renan engasgou na agora com o suco.
— Duas horas? – Disse ele e olhou para mim, senti vontade de desistir na hora, mas sabia que não importava o que eu resolvesse cursar, ficaria longe de casa por quatro anos, nenhuma universidade era perto.
— Bem, então vocês ficarão sem Eloisa por quatro anos. – Respondi um pouco triste, olhei para Renan e percebi que ele sentia o mesmo.
— Esse é o preço. – Disse Marco. – Sasha e Renan ficaram longe por quatro anos também, não temos muitas opções por aqui além disso.
— Mas não se preocupe, não é tão complicado de viajar para lá, poderá nos visitar sempre que quiser e poderemos ter ver também quando pudermos. – Sasha disse isso mais para Renan do que para mim.
— Espero que sim. – Foi tudo o que Renan disse.
Pagamos a conta e fomos embora, Marco e Sasha foram juntos na frente e fui com Renan de moto. Paramos em uma rua que dava uma vista vasta do mar, queríamos um tempo sozinhos antes de voltarmos e ir trabalhar. Ficamos em pé ao lado do outro, em silêncio por algum tempo.
— Não havia parado para pensar que você teria que ir para a faculdade depois de se formar. – Disse Renan, olhava para um ponto qualquer no mar.
— Eu havia pensado nisso, só não pensei que fosse tudo tão longe... – Respondi. – Ficaremos quatro anos longe! Depois de todo nosso esforço até aqui. – Eu terminei de dizer e ele suspirou.
— Não vai ser muito fácil. – Ele disse. – Mas ainda vamos poder nos ver, sempre. São apenas duas horas e eu tenho uma moto, não será o fim do mundo. – Ele terminou de dizer e senti as lágrimas descerem pelo meu rosto, não queria ficar longe dele! Quanta coisa poderia mudar em quatro anos? Sem podermos nos ver com frequência? Me senti insegura novamente.
— Não quero ficar longe de você. – Eu disse, odiando a tremedeira na minha voz, não queria estar chorando. Renan me olhou e vi que seu coração partiu na hora quando me viu chorar. Ele me abraçou, bem forte, como se dissesse que estava ali e que ainda estaria, mesmo depois de quatro anos.
— Está tudo bem, vai dar tudo certo. Ainda temos alguns meses aqui pela frente, vamos pensar nisso quando chegar a hora. – Ele disse, mas não queria pensar nisso depois, queria me sentir segura agora, mas não disse nada, apenas o abracei mais forte. – De qualquer forma, não precisa se preocupar, nada vai mudar entre nós, absolutamente nada, foi um pouco complicado chegar até aqui, não foi atoa nossos esforços.
— Espero que não. – Eu disse com a voz um pouco abafada encostada no peito dele. Ele se afastou um pouco e me olhou nos olhos.
— Veja pelo lado positivo, será um bom tempo para nos estabilizarmos, colocarmos nossa vida em ordem para aproveitar depois todo nosso tempo junto. – Ele disse, depois segurou meu rosto firmemente mas com delicadeza. – Eu te prometo, que nada irá mudar entro nós, confio no que sinto e confio no que você sente também, estarei aqui esperando você voltar e claro, te visitarei tanto quanto for possível, não vou deixar que vá embora tão facilmente. – Ele disse e riu, eu também ri, foi como se ele tivesse lido meus pensamentos, disse tudo o que eu precisava.
— Amo você, Renan. – Eu disse pela primeira vez, a frase simplesmente saiu, apesar de eu ter sentido o peso dela, mas ainda depois de dizer isso, senti como se não tivesse transmitido nada do que sentia, mas ele ficou feliz, sorriu igual uma criança e me beijou, senti nesse momento meus sentimentos crescerem ainda mais, um sentimento que só cresceu desde que eu tinha 13 anos de idade. Era incrível como Renan conseguia transmitir diferentes sensações, eu já havia me relacionado com outros meninos, mas tudo com ele era diferente, como se simplesmente fosse real, quase palpável. E nesse momento tive a certeza de que eu poderia ficar 10 anos fora e ele continuaria ali, esperando que eu voltasse, assim como eu sempre voltaria para ele, não importa a distância e nem aonde estivéssemos no mundo. Éramos nós, e apenas nós.
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