Aquele último ano
24 Capítulo 24
Notas iniciais
Para a minha sorte, aconteceu tudo muito rápido, não foi tão complicado quanto pensei. Isso porque Eloisa deixou tudo mais leve, abriu seu coração facilmente para mim e me acolheu, com todas as minhas dúvidas, receios e falhas. Me senti o maior otário da história quando comecei a evitar ela depois de beija-la pela primeira vez, beija-la pela primeira vez... Não sei o que pensei nesse dia, realmente não sei, depois que ouvi a mãe dela dizer que ela era apaixonada por mim quando era menor foi como se tudo na minha cabeça apagasse, senti que eu poderia agir e que poderia cuidar dela, apenas eu. Ela não quis me dizer naquela noite o que sentia por mim, e entendi o medo dela, estava pensando em mim e em como isso poderia me afetar, provavelmente achou que se dissesse a verdade seria um problema para mim. Mas ela não poderia estar mais enganada. Ouvir ela dizer que ainda estava apaixonada por mim era tudo o que eu queria, era tudo o que eu precisava. Ela não disse diretamente aquele dia, mas entendi tudo, entendi sua mensagem silenciosa. “Não vou criar problemas para você e nem quero me magoar”, foi o que ela disse nas entrelinhas, mas não liguei, quando entendi que ela ainda estava apaixonada por mim uma faísca acendeu na minha cabeça e tudo o que eu queria naquele momento era estar mais próximo dela, o mais próximo possível.
Depois que todo aquele momento passou senti o peso do que havia feito, não havia me arrependido de beijar ela, nem um pouco! Mas talvez pudesse evitar fazer de novo. Não me sentia pronto para cuidar dela, não ainda, não estava conseguindo colocar minha própria vida nos eixos, quanto mais poder faze-la feliz! Isso me destruiu por dentro, eu queria dizer a todos que ela era minha namorada, e queria me casar com ela, era isso o que eu queria. É um pensamento idiota, eu sei! Sei disso! Com certeza sei! Mas ela foi a única que conseguiu me fazer ter esse tipo de pensamento, quase não me reconheci e foi incrível a rapidez com que esse sentimento foi crescendo e crescendo, como se não houvesse nenhum tipo de barreira para bloquear isso, ela chegou a me dar medo por ter tanto controle emocional sobre mim. Foi desesperador evita-la na escola depois, foi frustrante não conseguir dizer a verdade a ela e foi um horror vê-la olhar para mim e tentar entender o que se passava na minha cabeça. E como se não bastasse tudo isso fui absolutamente grosseiro com ela na hospedaria quando ela simplesmente tentou me beijar, mas senti toda a minha estrutura se desmoronar quando ela deu as costas para mim e disse que eu não precisava procura-la mais, me desesperei em pensar que ela havia desistido de mim ali naquele momento, eu a chamei diversas e diversas vezes mas ela me ignorava completamente! Não se importando nada comigo. Falamos alto um com o outro aquele dia, falamos coisas que não deveríamos (eu disse coisas que não deveria). Ainda assim depois disso tudo ela me abraçou e me escutou, acolheu minhas inseguranças e disse que estaria comigo. Nesse momento mesmo que eu tentasse muito não conseguiria negar que a amei ali pela primeira vez, a paixão havia ido embora e agora eu a amava! Isso me assustou completamente, mas estava completamente feliz! Eu iria, não importa como, faze-la feliz. Estávamos juntos agora, ela era minha e eu era dela, e era apenas isso que queríamos, era apenas isso que importava.
Bem, os meses seguintes que se seguiram na escola não foram fáceis, nem para mim e nem para ela, a cada dia que passava tinha vontade de mandar ir para o inferno as regras da escola e abraça-la quando quisesse, na frente de quem fosse. Os amigos dela nos davam cobertura vez ou outra, mas ainda assim não podíamos nos dar o luxo de levantar qualquer tipo de suspeita. Me sentia um estudante do colegial novamente quando achávamos um tempo e encontrávamos um lugar escondido na escola para passarmos o tempo juntos, talvez estivesse arriscando demais, mas por ela... por ela nada mais importava. Certo dia senti que a coordenadora estava nos vigiando mais do que o normal, ela percebeu isso então quase não nos falamos aquele dia. Certo horário vi todos da sala dela no intervalo mas não a encontrei.
— Aonde Eloisa está? – Perguntei para Marie, se alguém saberia aonde ela estava era Marie.
— Foi para a biblioteca. – Ela disse e pareceu pensar um pouco se diria a frase seguinte. – Ela está bem para baixo, disse que queria um pouco de silêncio. – Entendi na hora o que Marie queria dizer.
— Obrigado. – Eu disse mas não arrisquei seguir para a biblioteca, não sabia a intensidade com que a coordenadora me observava. Mas os amigos dela podem ser mais espertos do que imaginei. Ouvi Ethan dizer para Marie, mais alto do que o necessário levando em conta que estavam sentados um ao lado do outro.
— Marie! Fiquei sabendo que a coordenadora está em uma reunião com alguns pais agora, precisava bater um papo com ela.
— É uma pena então que ela não esteja por perto, precisava tirar uma dúvida com ela. – Respondeu Marie ao comentário de Ethan. Entendi na hora o recado e dei meia volta, indo para a biblioteca. Se ela tinha o dom de fazer os piores inimigos também tinha o de fazer os melhores amigos.
Como era horário de intervalo o corredor na biblioteca estava confortavelmente vazio. Abri a porta devagar e o silêncio inundou meus ouvidos, se ela queria silêncio certamente estava no lugar perfeito. Olhei ao redor mas não a vi, caminhei distraidamente como se procurasse um livro, afinal pelo que eu havia visto havia uns três alunos ali dentro além dela, não a encontrei e pensei que ela pudesse ter ido embora já, mas lembrei do dia em que a vi conversando com Ethan ali, última mesa no final da sala, entre duas estantes de livros, uma mesa praticamente escondida de tão no final da sala que ficava. Discreta e escondida. Segui para lá.
Cheguei tão silencioso que ela não chegou a me ver, mas eu a vi, perto da janela, um livro estava na mesa a sua frente, “Crepúsculo”, eu detestava esse livro e os filmes, mas aparentemente ela gostava, mais uma coisa que havia descoberto sobre ela. Mas não foi com isso que me importei muito, ela olhava para a janela, não havia nada para ver do lado de fora, no que estava pensando então? Fiz um pequeno barulho para indicar que estava ali, ainda assim ela tomou um susto e olhou para mim, seu corpo relaxou um pouco depois que viu que era apenas eu.
— O que faz aqui? – Perguntei e me sentei ao lado dela.
— Nada, na verdade, apenas passando o tempo. – Ela respondeu e me deu um sorriso, um sorriso triste.
— O que houve? – Perguntei acariciando seus cabelos, ela soltou um suspiro cansado.
— É difícil. – Foi só o que ela disse, mas eu entendi tudo.
— Eu sei. – Respondi e ela se inclinou para me abraçar, era tão miúda para mim, retribui o abraço. – Só por mais alguns meses. – Disse baixinho para ela e ela concordou com a cabeça encostada em meu peito.
— Como sabia que eu estava aqui?
— Você tem amigos muito bons. – Respondi e ela sorriu, de verdade dessa vez.
— Eu sei. – Respondeu sem nem tentar esconder o orgulho.
— Você sabe, não é? Que as vezes te evito porque sei que estão de olho em nós. – Perguntei receoso, ela se afastou de mim e abriu um sorriso.
— Sei disso.
— E sabe também que a coordenadora está isolada agora em uma sala lidando com alguns pais? – Perguntei.
— Isso eu não sabia. – Ela disse e sorriu novamente entendendo o que eu queria dizer, sorri também, nossas testas coladas uma na outra já. Nos beijamos calmamente, aproveitando o momento e o silêncio. A melhor parte era quando nos distanciávamos, olhávamos nos olhos um do outro como se nossos sentimentos se comunicassem por si só através do olhar, depois nos beijávamos novamente. Ela era tudo o que eu precisava.
Havia momentos em que as coisas eram mais complicadas e outros em que tínhamos mais liberdade, mas no geral começamos a lidar bem com a situação. Sempre podíamos esperar pelo fim das aulas, quando íamos embora juntos, nunca mais esqueci meu capacete depois da nossa última conversa, ela havia me prometido um beijo toda vez que eu lembrasse de levar o capacete, magicamente nunca mais esqueci o capacete depois disso, mas ainda brigávamos sobre quem iria usar ele, até que nos fiz o favor de comprar um segundo capacete, assim eu ganhava um beijo por lembrar de leva-lo e ficávamos os dois em segurança (segundo ela).
Depois que começamos a namorar comecei a reparar que ela não chamava apenas minha atenção, mas de outros caras também. Ela era linda, isso é fato, mas descobri que posso ser muito ciumento também, tinha que melhorar isso porque não achava ciúmes algo bom, nunca achei. De qualquer forma era maravilhoso ver aqueles “garotos” ficarem sem reação quando eu discretamente mostrava que ela estava comigo, sempre gostava dessa parte e ela parecia nunca perceber, totalmente alheia aos olhares deles.
Os meses passaram, rapidamente em alguns momentos e lentos em outros, de qualquer forma quando reparei os campeonatos esportivos já haviam sido todos finalizados. Nosso time de futebol havia ganhado mais uma vez e comemoramos muito. As provas finais chegaram e lamentavelmente Eloisa teve de ter aulas extras a parte, ela era inteligente, isso é fato, mas parecia que havia um bloqueio na cabeça dela na escola; porém deu tudo certo, as notas dela foram mais altas que da última vez, havia passado de ano com folga. Achei muito engraçado ela ter chorado por não ter tirado nenhuma nota vermelha.
A formatura foi no fim do ano, nada de especial, houve a colação e depois um pequeno baile, na própria escola mesmo, apesar de a quadra interior ter servido bem pelo seu espaço amplo e bem conservado. Marco e Sasha haviam ido, pareciam que estavam casados já, não andavam mais sem o outro, há um tempo atrás eu achara isso muito desnecessário, mas agora não mais, porque não via a hora de poder andar tranquilamente assim com Eloisa também.
Ela estava simplesmente linda no baile da formatura, um vestido azul contrastando perfeitamente com seus cabelos e sua pele, nem em dez anos alguém estaria mais bonita que ela. Houve algumas valsas, aquelas que sempre tem nas formaturas, nunca entendi realmente como funcionava, mas ela dançou com o pai dela uma vez e depois dançou com Marco, Sasha fotografando tudo. Depois da parte mais formal o baile seguiu, em algumas outras músicas lentas ela dançou com Ethan e chegou até mesmo a dançar uma vez com Davi, parecia extremamente confortável ao lado dele, conversavam e riam, incrivelmente isso não me incomodou nada. Como havia virado costume, durante as primeiras horas do baile evitávamos ficar muito tempo juntos, mas depois me toquei que ela já estava formada! Não precisávamos nos esconder mais, ela não era necessariamente minha aluna mais, e percebi isso de verdade quando a vi andando na minha direção, o vestido azul balançando a sua volta e suas bochechas rosadas de calor. Ela parou a minha frente e estendeu sua mão para mim, eu a segurei e ela me guiou pelo salão, até o centro do baile, como se quisesse mostrar a todos que estávamos juntos e ninguém podia fazer nada em relação a isso agora. Ela colocou suas mãos ao redor do meu pescoço e eu segurei sua cintura com as duas mãos e ficamos ali, dançando juntos, seguindo o ritmo lento e calmo da música, nossos olhos vidrados um no outro o tempo inteiro. Sentia que Sasha capturava cada momento com sua câmera, como uma mãe que não quer perder nenhum momento de sua filha; senti também os olhares de outros estudantes, como se quisessem entender o que realmente acontecia ali, resolvi lhes dar uma explicação rápida e direta, inclinei minha cabeça e dei um selinho um pouco mais demorado nela, ouvi algumas vozes surpresas e sorri, Eloisa sorriu também, agora todos sabiam o que havia entre nós, podiam ver a energia que circulava ao nosso redor, como se uma força invisível mas perceptível aos olhos de todos, atraísse nós dois um para o outro.
Tocou uma música lenta atrás da outra, os pares foram trocando e casais novos foram sendo formados, mas nosso par não havia mudado. Música atrás de música nós dançamos juntos, sem dar nenhuma brecha de que pretendíamos nos separar. Depois de alguns minutos nos afastamos do amontoado de pessoas e fomos para um lugar mais tranquilo, aproveitar alguns minutos sozinhos, o primeiro momento sem que fossemos professor e aluna, apenas Renan e Eloisa.
Ela havia se formado e as férias haviam chegado, mas ainda havia muito a ser feito, ela ainda tinha que fazer a prova para entrar na universidade que queria. Um pouco a contra gosto dela reservamos algumas horas todos os dias para estudar, ela ainda precisava ser lapidada em algumas matérias, não só eu como todos que tinham conhecimento a mais ajudaram com algumas aulas ou resumos de temas. Como nunca vi antes ela estudou, realmente focada.
— Você está se esforçando bastante para ficar longe de mim por 4 anos. – Eu disse brincando a ela.
— Não começa. – Ela respondeu, não gostava desse tipo de brincadeira, por isso mesmo eu fazia, ela era linda brava também e esse era um rosto dela que não aparecia muito então eu aproveitava.
Foi um nervosismo só no dia da prova, ela quase não falou uma palavra naquele dia todo, como se qualquer coisa que dissesse desse azar na prova. Marie havia ido fazer a prova junto com ela, aparentemente iria cursar turismo e ficariam juntas na mesma universidade. Fui para a casa dos pais dela e todos pareciam igualmente ansiosos, não havia muita conversa, cada um fazia sua tarefa quieto e concentrado. Quando ela chegou em casa não disse nada e ninguém perguntou nada também. Nesse dia, de noite fui com ela até a praia e deitamos um pouco lá para relaxar, observávamos as estrelas como fazíamos logo no começo do namoro, não perguntei sobre a prova e ela não disse nada, aguardaria ela estar mais calma para contar como foi.
Antes do resultado da prova, havia o casamento de Marco e Sasha, haveria um momento para todos nós relaxarmos. Ela e eu havíamos sido convidados para sermos padrinhos no casamento, e percebi nesse dia que é muito mais complicado para uma madrinha se vestir do que um padrinho, muitos dias antes eu já estava com a roupa pronta, já ela... ficou desesperada atrás de um vestido, no dia do casamento não a vi o dia inteiro, parecia que na verdade ela era a noiva, e gostei um pouco dessa ideia. Eu já estava no salão, os convidados já haviam chegado e alguns padrinhos também, vi de longe o carro de Marco chegando. Desceu primeiramente a mãe dela (que por sinal fazia jus como mãe dela, estava linda), depois o pai dela e Marco, depois vi Marco ajudando-a descer do carro, meu coração parou por um momento. Estava deslumbrante. O vestido era verde mar, o cabelo dela ainda estava azul deixando ela com as cores do mar no seu dia mais lindo. O vestido era longo e destacava suas curvas, o cabelo meio preso e meio solto, com alguns cabelos dançando em seu pescoço e rosto. Demorei um bom tempo para conseguir dar um passo na direção dela. Era incrível como ela me deixava todo bobo, parecia um garotinho de 15 anos que não sabe como chegar em uma menina. Fui até ela e quando me ela viu, abriu um enorme sorriso meio envergonhado.
— Você está linda. – Eu disse tocando em uma mecha de seu cabelo que pousava na lateral de seu rosto.
— Você está lindo! – Ela disse me olhando, não estava tão elegante quanto ela, mas estava com meu paletó e vestido socialmente, achava que era comum para ela ver os homens vestidos assim, mas seus olhos brilhavam olhando para mim. Pensei então que seria legal me vestir assim mais vezes.
Marco estava uma pilha de nervos, andava de um lado para o outro e cumprimentava todos que via pela frente tentando passar o tempo, olhava para o relógio a cada cinco minutos, nunca o tinha visto assim antes.
— Será que vou ser um bom marido? – Marco me perguntou depois de parecer refletir muito sozinho. – Quero dizer, Sasha é maravilhosa mas sou tão atrapalhado! – Eu ri, parecia que eu ouvia Eloisa falar.
— Bem... realmente. – Respondi e ele me olhou assustado. – Mas ela te escolheu, não é? Isso já não basta? – Ele pareceu refletir um pouco.
— Tem razão. – Ele disse e pareceu mais calmo, tanto quanto um noivo pode estar no casamento.
Sasha não se atrasou muito, apenas o suficiente para Marco quase ter um ataque do coração, ficou repetindo para mim diversas vezes: “E se ela desistir? ”. A calma que ele havia conseguido alguns minutos antes tinha ido embora, mas foi mais engraçado ainda quando disseram que Sasha tinha chegado, ele olhou para mim desesperadamente feliz. Fomos todos para nossas posições e os padrinhos começaram a entrar. Eloisa segurou delicadamente meu braço e desfilamos juntos, tenho certeza de que éramos o casal mais bonito ali.
Chegou o momento de Sasha entrar e ela estava incrivelmente linda, o sorriso largo e assim que começou a entrar já chorava, nunca pensei que a veria se casar e estava feliz por essa oportunidade. Marco parecia que via um ser mágico, não tirou os olhos dela nem por um minuto e seu sorriso era maior do que poderia caber no rosto. Completamente bobo, fiquei feliz de perceber que eu não era o único que ficava igual idiota quando via a garota que amava. Ainda não acreditava que estava vendo meus melhores amigos da escola se casando, e um com o outro ainda! Eloisa chorou tanto quanto a noiva eu acho, toda vez que olhava para Marco começava a chorar. Assim que a parte formal do casamento havia terminado Marco segurou a mão de Sasha e saíram andando pelo salão, estavam tão felizes que pareciam notar apenas a presença um do outro. O casal mais complicado que já vi, mas que havia dado certo.
A noite foi cansativa, mas muito boa, depois que falavam com os noivos a maioria das pessoas vinha perguntar sobre mim e Eloisa, aparentemente ninguém acreditava que estávamos realmente namorando. Mal sabiam eles que um dia iriamos até mesmo nos casar.
Eu ficava desnorteado toda vez que Eloisa caminhava até mim, o vestido balançava formando ondas e ela andava como se fosse uma modelo. Eu era sortudo até demais.
Após o casamento seguia o dia do resultado da prova da universidade. Marco e Sasha até adiaram a lua de mel para poderem se despedir de Eloisa, eles tinham certeza de que ela havia passado, de certa forma eu também tinha, porque sentia uma tristeza enorme crescer dentro de mim, como se algo me avisasse que chegou a hora de nos separarmos. E estávamos todos certos.
Marie e Eloisa viram o resultado juntas, ambas havia conseguido a vaga que queriam, não na melhor das posições mas também não nas piores, apenas o suficiente para conseguirem entrar no curso. O que essas duas choraram depois de verem que haviam passado foi assustador, como se tivessem deixado sair delas toda a insegurança que tiveram até esse dia. Comemoraram juntas e com alguns outros amigos também, e vi que não era apenas eu e Eloisa que iriamos ter que sofrer com a distância nesses quatro anos, Ethan havia conseguido uma bolsa de estudos por conta do seu desempenho no campeonato esportivo, uma universidade ficou de olho nele e deu uma proposta, ele aceitou, porém era uma universidade que ficava a três horas de distância da universidade de Marie. Seriam quatro anos difíceis para todos, suponho.
Marco se despediu antecipadamente de Eloisa assim como Sasha, tinham uma lua de mel marcada e teriam que ir viajar antes.
Os dias seguintes foram agitados, Eloisa comprava coisas e mais coisas para levar para a universidade, malas e se preparava para partir, estava aliviado por Marie estar junto com ela, teria alguém para apoia-la, e ela precisaria.
Chegou em fim, nosso último dia juntos e na mesma cidade. Estávamos mais quietos que o normal no começo, mas faria disso um dia divertido. Levei ela até um peque de diversões que tinha em uma cidade vizinha, queria aproveitar ao máximo esse dia. Fiquei surpreso em como ela era medrosa para ir nos brinquedos, mas não recusava nenhum também, depois começou a se acostumar um pouco e a se divertir mais. Nos divertimos até não conseguirmos mais.
— Está cansada? – Perguntei a ela.
— Sim e não. – Ela respondeu, seu rosto transbordava alegria, isso era tudo o que importava.
— Tenho algo para te mostrar ainda. – Eu disse a ela. – Está disposta?
— Com certeza! – Ela disse e me deu um beijo rápido.
Coloquei ela na moto e voltamos para nossa cidade, adorava a sensação dela segurando minha cintura quando andávamos de moto. Não andei muito rápido dessa vez para podermos curtir o caminho, era incrivelmente bom estar com ela.
Chegamos na cidade e fui para o centro da cidade, parei em frente um prédio de apartamentos que ficava de frente para o mar.
— Queria te fazer uma surpresa por isso não contei antes. – Eu disse e ela me olhou sem entender muito, segurei a mão dela e a guiei até o o interior do prédio, parei em frente a uma porta e tirei uma chave do bolso, mostrando a ela.
— Não acredito! – Ela disse com a mão na boca. – É seu? – Perguntou olhando para a chave em minha mão e para a porta.
— É sim! – Respondi e ela sorriu absurdamente feliz.
— Por que não me disse antes?! – Ela perguntou feliz, mas um pouco brava.
— Você tinha coisas mais importantes para se preocupar, o casamento de Marco, a formatura, a prova da universidade... – Ela negou com a cabeça e colocou a mão em meu rosto.
— Você está acima de tudo isso. – Ela disse com um sorriso meigo mas firme, como se não quisesse deixar dúvidas do que dizia. Ela levantou os pés até alcançar o meu rosto o suficiente para me beijar, aproveitamos o beijo sabendo que era um dos últimos durante algum tempo.
— Vem, quero te mostrar como é por dentro. – Eu disse me separando um pouco dela.
Peguei a chave e destranquei a porta. Não era um apartamento luxuoso, mas era novo, com uma boa cozinha, uma sala relativamente espaçosa, um banheiro, dois quartos e uma sacada. Era mais do que o suficiente para mim na verdade.
— Renan, é lindo!! – Ela dizia pulando de alegria e olhando cada cômodo.
— Não é nada de mais, mas é bom.
— O que? É lindo! Não diga bobagens. – Ela disse, havia realmente gostado. Estava olhando algumas coisas quando a vi dar um gritinho dentro do quarto, depois veio correndo na minha direção.
— Vem aqui, rápido! – Ela disse me puxando pelo braço. – Pulava de felicidade parecendo uma criança. – Olha isso! – Ela disse entrando na sacada, a visão dava de frente para o mar, o sol estava se pondo deixando tudo alaranjado. Ela olhava vidrada para a cena que parecia um quadro, eu sinceramente não estava muito preocupado com a vista de fora, estava mais interessado em observar ela. Ela estava de costas para mim, pensei por um momento em pedir que ela não fosse para a universidade e ficasse ali, comigo, mas esse pensamento logo passou, era egoísta demais e eu queria que ela se formasse no que queria e se tornasse a melhor fotografa da região. Sorri ao observar ela e ver o quão sortudo eu era. Fui até ela e a abracei pelas costas, ela se encolheu um pouco se aconchegando em mim.
— Apenas quatro anos. – Ela disse baixo, quase um cochicho, mas pude ouvir, era mais uma pergunta do que uma afirmação, como se me questionasse algo.
— Apenas quatro anos. – Repeti para ela firmemente. Ela se soltou de mim e virou de frente, ficando cara a cara comigo.
Puxei-a para mais perto de mim e ela segurou meus ombros firmemente, por alguns segundos ficamos apenas com as testas coladas uma na outra, apenas sentindo a presença um do outro. Depois nos beijamos, um beijo que fez o chão embaixo de meus pés desabarem, e que durou até o sol de pôr e o céu ganhar uma tonalidade escura e cheio de estrelas.
Mais rápido do que eu gostaria o dia dela ir chegou. Estava eufórica e falava sobre várias coisas com Marie, Ethan estava comigo e eu via que estava tão chateado quanto eu, afinal nossas meninas estavam indo embora. O ano havia passado mais rápido do que imaginei, e muita coisa havia acontecido, primeiro que nunca pensei que seria professor em uma escola, segundo que nunca imaginei ser professor de Eloisa e terceiro, nunca pensei que me apaixonaria por ela e começaríamos a ter um namoro um pouco complicado por causa do diretor da escola. Mas eu estava feliz, e satisfeito, havia sido um bom ano, melhor do que imaginei. Quando tudo começou a acontecer pensei comigo mesmo se era destino ou azar. Hoje tenho certeza, era destino.
— O que foi? – Perguntou Eloisa me olhando.
— Não é nada. – Respondi sorrindo. – Estava apenas pensando que você deveria tomar cuidado para não se apaixonar por algum professor da universidade. – Ela riu.
— Bem, digo o mesmo, terá uma nova turma de terceiro ano neste ano, se controle. – Ela me disse e rimos.
— Irei te visitar. – Eu disse a ela fazendo um leve carinho com o polegar em seu rosto.
— Eu sei. – Ela disse sorrindo. Demos nosso último beijo, mais rápido do que gostaríamos, se demorasse mais sabíamos que ficaríamos ali mais tempo do que o aceitável.
Ela se despediu dos pais, de Ethan e entrou no carro do pai de Marie para ir embora. Ethan ficou desolado quando se separou de Marie e a viu entrar no carro também, coloquei uma mão no ombro dele e ele deu um sorriso para mim, um sorriso que eu entendia perfeitamente pois tenho certeza que estava igual ao meu. Ficamos ali até perdermos o carro de vista e até mais um pouco. Então caiu a ficha, ela realmente havia ido embora. Senti meus olhos depois de muito tempo arderem pelas lágrimas, mas não deixei que caíssem, logo já haviam sumido.
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O novo ano letivo começou e foi absurdamente estranho encarar a nova classe, olhar para a mesa em que ela sentava e não a ver ali, ir embora sem ter ela comigo sentada na moto, entrar na hospedaria de Marco e não a ver trabalhando, ir até sua casa passar um tempo com seus pais e não a ver em canto nenhum da casa. Não é como se ela tivesse morrido, mas faltava um pedaço dela em cada lugar que eu ia. Não era sempre que eu podia visita-la por conta do trabalho, ela também não tinha tempo sempre, afinal a faculdade não era algo muito leve. Mas ela estava firme, me ligava sempre que tinha tempo e ficávamos conversando no celular até adormecermos, mandava sempre os seus progressos para mim e eu ficava absurdamente orgulhoso, estava se tornando uma profissional incrível. Passei a achar que eu era meio fissurado demais nela, Sasha havia me entregado algumas fotos tiradas na formatura dela e eu havia colocado em quadros pela minha casa, fotos de nós dois juntos, mas não era apenas eu, Sasha havia levado algumas para ela também e ela me mandou fotos, de dois quadros em pé em sua peque escrivaninha, nós dois. Estávamos juntos e aguentando a saudade da melhor forma possível.
Os quatro anos se passaram relativamente rápido, ela agora tinha 21 anos e eu 25, não parecíamos ter tanta diferença de idade mais, ela havia amadurecido e crescido, apesar de fisicamente não termos mudado muita coisa. Ela havia me mandado mensagem feliz da vida dizendo que Ethan havia pedido Marie em casamento e ela havia aceitado, fiquei verdadeiramente feliz, mas pensei que não podia ficar para trás, afinal, já estávamos namorando há praticamente cinco anos, talvez já estivesse na hora.
Não pude ir na sua colação da universidade porque tinha que trabalhar e dar aula, ela havia ficado um pouco chateada mas entendia, não haveria uma festa de formatura mesmo então assim que saí da escola subi na moto e fui para lá o mais rápido que conseguia, já não tínhamos visto um ao outro por dois meses, havia sido corrido para nós dois, ela não pôde me visitar e eu não pude ir visita-la, precisava vê-la, era tudo o que minha mente pedia, um vislumbre dela.
Estacionei a moto em qualquer lugar e segui para o grande prédio da universidade, estava relativamente cheio, passei pelo portão e meus olhos passaram desesperados pelo rosto de cada pessoa, até que a vi. Eu sabia como ela havia mudado, mas esses dois meses sem vê-la haviam me dado sede de olhar para ela pessoalmente. Havia emagrecido um pouco, provavelmente por conta da correria nesse último semestre, seus cabelos já não estava mais azuis, haviam voltado para a cor original, castanho escuro, suponho que ela não tinha muito tempo para cuidar deles coloridos como gostaria, havia ficado um pouco mais alta. Era realmente uma mulher, muito elegante aliás. Coloquei nervosamente a mão no bolso da calça e tomei coragem de ir até ela.
Assim que me viu ela paralisou por um momento, depois parou de conversar com quem quer que estivesse conversando e correu até mim, correu como uma criança e pulou nos meus braços, sorria feliz.
— Você chegou! – Ela dizia enquanto me apertava com força.
— Cheguei. – Respondi abraçando ela pela cintura. Ela continuava rindo, depois segurou firmemente minha mão e me beijou, percebi que ela sentia necessidade disso tanto quanto eu, dois meses sem nos ver, fora os quatro anos em que nos víamos esporadicamente, havíamos conversado mais por mensagem do que nos visto pessoalmente.
— Tenho um presente de parabéns para você. – Eu disse e sentia meu coração bombardear meu peito, nunca havia ficado tão nervoso e ansioso. Vi que Sasha já havia se posicionado assim como que havia pedido e Marco filmava, olhei para Eloisa e ela me olhava ansiosa e com curiosidade. Coloquei a mão no bolso e tirei uma pequena caixinha de veludo preta. Abri calmamente e ela já estava com a mão na boca paralisada.
— Não acredito!! – Disse ela, os olhos enchendo de lágrimas.
— Então... você quer casar comigo? – Perguntei meio que por roteiro. Ela passava os olhos do anel a mostra para mim, as lágrimas caindo livremente pelo seu rosto corado.
— Claro que sim!! Ainda pergunta? – Ela disse feliz e indignada ao mesmo tempo, eu ri e ela também. Coloquei delicadamente o anel em seu dedo, ficou lindo nela. Ela começou a pular e a olhar o anel em seu dedo totalmente atordoada, depois virou para Marie que chorava por ela e mostrou o anel para a amiga, Marie mostrou o anel de noivado dela também e as duas choravam. Depois ela veio até mim e me abraçou, como se não fosse soltar nunca mais, e eu não ligava caso ela realmente fizesse isso. Nos beijamos novamente, e dessa vez aproveitamos mais, as pessoas até nos dando um pouco mais de espaço. Lá estávamos nós agora, ela com 21 e eu com 25, noivos. Literalmente passando nossas vidas juntos, afinal, nos conhecemos desde muito novos. Eu realmente a amo, do fundo do meu coração.
O que pareceu azar no início do terceiro ano do ensino médio dela, se mostrou uma perfeita obra do destino. Ás vezes, podemos achar que está dando tudo errado e que não há chances de podermos ficar com quem amamos, mas, as vezes, algumas coisas tem que dar errado mesmo e serem difíceis, para depois, ficarem leves e darem mais certo do que um dia poderíamos pedir.
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