Aquele último ano
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Sentamos todos juntos em uma mesa enquanto esperávamos o momento de inaugurar oficialmente. Estava tão feliz que começava a ficar impaciente, mexia os pés, olhava o celular, me arrumava na cadeira e por aí vai...
— Então, como está a escola? – Perguntou meu pai.
— O mesmo de sempre, nada fora do normal. – Respondi.
— Há uma novidade sim! – Disse minha mãe sorrindo para mim, achei estranho. – Sabe, querido, lembra daquele amigo do Marco, Renan? – Meu pai fez um aceno afirmativo com a cabeça. – É professor da Eloisa este ano.
— Isso é surpreendente. – Disse meu pai. – É bom professor? Sempre gostei desse garoto.
— É bom sim. – Respondi o mínimo que podia, sabia que minha mãe estava me provocando, meu pai nunca soube que já gostei do Renan quando pequena, e minha mãe sempre me provocava falando dele como se fosse contar a meu pai.
— Ele é um professor muito bom. – Disse Marie. – Muito responsável, é inteligente e sabe lidar com os alunos. Diga as coisas completas, Elô. – Terminou ela me cutucando discretamente, ao que parece, minha mãe e Marie resolveram me provocar juntas, ainda que uma não soubesse que a outra sabia do assunto.
— Assim que o vir quero dar uma palavrinha com ele. – Disse meu pai, revirei os olhos.
— Não há necessidade, pai, é só como se fosse mais um professor, apenas.
— Ah! Ele está logo ali, com alguns amigos. – Disse Marie, meu corpo gelou um pouco, minha mãe sorriu e levantou para chama-lo. Ela levantou e começou a gesticular para ele, Renan olhou e levantou da onde estava, caminhando até a nossa mesa. Nesse momento, por muito pouco não levantei dali e sai correndo o mais rápido que podia, sabia, tinha certeza absoluta que iria passar vergonha, já faço isso sozinha, acompanhada de meus pais e Marie então...
— Olha só! Faz tanto tempo que não o vejo! – Disse minha mãe indo até Renan e o cumprimentando, apensar de eu já o ter visto tantas vezes esse ano minha mãe não, essa era a primeira vez. – Você não mudou nadinha! – Continuava minha mãe apalpando o rosto de Renan, como se ele fosse uma criança de 10 anos, comecei a achar engraçado.
— É uma prazer revê-la também. – Disse Renan retribuindo o sorriso. Marie chegou perto de mim e cochichou em meu ouvido:
— Olhando assim, nem parece ser nosso professor. – Apenas concordei com a cabeça tentando segurar a risada. Meu pai levantou também e foi até ele, os dois se cumprimentaram e começaram a conversar um pouco, meu medo de passar vergonha diminuiu um pouco.
Meu pai e Renan conversavam completamente amigáveis, era uma visão tão nostálgica, era uma cena tão frequente antes. Neste momento percebi o quão parte da família Renan era, isso me deixou feliz e um pouco triste ao mesmo tempo, afinal, isso só poderia demonstrar o quanto eu poderia ser somente uma irmã mais nova para ele. Estava me sentindo tão estranha, tão diferente do que realmente sou, como se Renan ditasse meus sentimentos dia a dia, todos os tipos, odeio isso, como se eu perdesse a capacidade de lidar comigo mesma e tivesse que fazer mais esforços. Isso é algo tão idiota e ridículo.
— Sim, ouvi agora a pouco alguns elogios de você como professor. – Ouvi meu pai dizer. – Não de Eloisa, claro, disse que era como qualquer outro professor, mas Marie te elogiou bastante. – Senti Renan olhar para nós duas, não acredito que meu pai disse isso.
— É uma experiência boa. – Começou Renan. – Mas é meio complicado ter que lidar com alguns alunos. – Nesse momento ele olhou para mim, percebi na hora que estava me provocando. – Alguns alunos que fazem o favor de chegar atrasados no primeiro dia de aula, desatentos na sala que as vezes nem ouvem a chamada, que ficam matando aula andando pelos corredores com alunos de outras salas. Mas no geral, é algo bom.
— Sim, lidar com jovens todos os dias deve ser algo complicado eu imagino. – Disse meu pai rindo.
— É sim. – Disse Renan ainda me observando pelo canto dos olhos. Já que ele estava provocando resolvi fazer a minha parte também.
— Concordo que há alunos sem responsabilidade, mas tem uns professores também que pelo amor, ficam sem fazer nada na sala de música, provocam seus alunos... – Meus pais me olharam sem entender muito o comentário, só Renan e Marie entenderam tudo o que estava acontecendo, e Marie abaixou a cabeça começando a rir, Renan abriu um discreto sorriso e eu fiquei exatamente como estava. Incrivelmente não consegui ficar apenas quieta.
— De qualquer forma, parabéns pelo seu esforço. – Disse meu pai a ele. – Contamos com você para ajudar Eloisa neste ano.
— Será um prazer, não é? – Disse Renan se dirigindo a mim.
— Com certeza. – Respondi ironicamente. Dei um suspiro e sentei em meu lugar novamente, cutuquei Marie com o braço pra tentar faze-la para de rir, Renan se despediu de meus pais e voltou para a mesa em que estava com seus amigos.
— O que foi aquilo? – Perguntou Marie me olhando, ainda ria um pouco, senti um pouco de vergonha mas não liguei.
— Como assim? Apenas uma indireta, assim como ele fez... – Respondi baixo.
— Poderia apenas ter ficado quieta, não acha? – Continuou ela.
— Acho, acho sim, mas não aconteceu. – Respondi começando a ficar emburrada.
Vi algumas pessoas saindo da hospedaria e indo para o lado de fora, por último, vi Marco, logo após ele sair a porta de entrada foi trancada. Ele se posicionou na frente de todos chamando nossa atenção, uma enorme e grande faixa vermelha foi presa em frente a porta de entrada, a famosa faixa de inauguração. Todos começaram a ficar em silencio e a atenção ficou toda na direção de Marco. Ele pigarreou um pouco para então começar a falar.
— Fico muito feliz de ver a presença de todos vocês aqui neste dia tão especial para mim. Vejo muitos familiares e amigos, mas também pessoas que nunca conheci, sou grato pelo apoio de cada um de vocês hoje. – Marco estava muito bonito hoje, vestido formalmente com um terno e seus cabelos haviam sido ajeitados para trás delicadamente, suspeito que tenha sido coisa da Sasha, porque se fosse por ele, estaria descabelado como sempre. Ele falou mais algumas coisas e depois passou o tempo para algumas outras pessoas importantes falarem algo também, não sabia muito bem quem eram, conhecia apenas o prefeito que estava ali também, com sua pose de autoridade, como sempre. Depois de aquelas pessoas darem seus discursos, o prefeito falou brevemente também, muito educado e gentil, como se desse sua “benção” para a hospedaria e aquela coisa toda. Minha mãe já chorava de felicidade, na verdade acho que orgulho é a palavra certa, imagino que qualquer pessoa que estava ali soubesse sem nem mesmo conhecer, quem era a mãe do dono da hospedaria.
Marco voltou a ficar de frente para público, indicando que falaria novamente:
— Gostaria de agradecer a todos que me deram apoio para que esse dia chegasse, todos os meus familiares, amigos, aqueles que ajudaram direta ou indiretamente. Cada pequena ajuda contribuiu muito para que eu me dedicasse cada vez mais. Então, sem muita enrolação, vamos cortar essa faixa aqui e finalmente abrir essa nova hospedaria em nossa cidade. – Algumas pessoas se remexeram ansiosas nas cadeiras, uma delas foi eu, enquanto algumas outras começaram a bater algumas poucas palmas.
— Há uma pessoa que foi muito importante neste processo todo pra mim, sem ela eu teria desistido muitas vezes, então queria chamar minha irmã Eloisa aqui, para cortar essa faixa junto comigo. – Disse Marco, neste momento algumas pessoas olharam para mim e congelei por um momento na cadeira, mas vi Marco fazendo um sinal com a mão para que eu fosse até ele, apesar de um pouco constrangida, levantei e fui até ele. Senti as pessoas olharem para mim, o que me deixou um pouco mais nervosa. Marco deu um leve sorriso ansioso pra mim e eu retribui, entregaram a ele uma tesoura um pouco grande e Marco pediu que eu segurasse uma parte da tesoura enquanto ele segurava a outra. Ouviu o barulho da câmera de Sasha atrás de nós registrando o momento mas não me importei muito, lembro apenas da tesoura cortando levemente a fita e ela caindo delicadamente no chão, depois disso ouvi pessoas comemorando e vários aplausos, bem mais altos e animados que os outros.
Depois desse momento mais “formal”, todos que estavam presentes começaram a aproveitar e a conhecer o local, Marco havia contratado para o dia de hoje algumas poucas pessoas para servir pequenos pratos para os convidados, nada de tão extraordinário, apenas o suficiente para as pessoas se sentirem bem vindas. Ethan chegou logo depois que acabou a cerimonia e tudo, mas ainda assim passou por lá e sentou em uma mesa junto com Marie e eu. A rua estava bem mais barulhenta e agitada que de costume, algumas pessoas começaram a beber então suas vozes acabavam ficando um pouco mais alteradas que o necessário, mas não me importei muito, queria que as pessoas aproveitassem e se sentissem o mais a vontade possível.
— Veio mais pessoas do que eu esperava. – Comentou Ethan. – Mas sério, é um estabelecimento muito bonito.
— Eu sei. – Eu disse sem nenhuma modéstia, afinal estava muito orgulhosa de Marco.
— Vai trabalhar aqui a partir de agora, Elô? – Perguntou Marie.
— Com certeza! Esperar um pouco até Marco organizar tudo direito mas já estou pronta para começar.
— Queria que Charlie pudesse ter vindo. – Comentou Marie um pouco decepcionada, dei um sorriso satisfeito.
— Você estão começando a ficar sérios, não é? Tem que nos apresentar a ele, não é, Ethan? – Perguntei, mas Ethan apenas concordou com um dar de ombros, como se não ligasse, achei estranho mas deixei pra lá, apesar de ter certeza que senti uma pontada de ciúme vindo dele, mas acho improvável. Enquanto conversava com Marie e Ethan, vi do outro lado da rua um grupo de garotos com o uniforme da escola, meus olhos pousaram lá e ficaram.
— O que foi? – Ouvi Ethan perguntar, logo após ele fazer essa pergunta Marie também olhou, e os garotos do outro lado da rua também olharam para nós.
— Ahhhh! Que momento mágico ein. – Ouvi Marie dizer baixo para me provocar, fiquei um pouco constrangida mas dei um aceno para Davi que estava do outro lado, ele sorriu e acenou de volta, logo em seguida fez um gesto me chamando.
— Ah, ele está te chamando. – Disse Ethan. – Vai logo! – Ele disse e me deu um empurrãozinho nas costas. Fui até ele e no caminho passei pela mesa em que Renan estava, trocamos um olhar brevemente que foi interrompido por Sasha que chegou, estava relativamente alterada pela bebida, colocou um braço ao redor do pescoço de Renan e sorriu para mim, depois olhou para Davi e disse:
— Vai logo, esse garoto parece ser muito bom, não deixe ele escapar. – Depois deu uma piscadinha pra mim e voltou a falar com seus amigos, Renan olhou para o outro lado da rua e viu Davi, depois olhou para mim como se me questionasse, apenas dei um sorriso indicando que estava saindo e fui até onde Davi estava.
Sasha não havia falado comigo com grosseria nem em tom provocativo, apenas um pouco diferente do normal por estar um pouco bêbada, foi mais um conselho de amiga, mas ainda sim sua atitude me deixou desconfortável. Descobri nesse momento que tinha um sentimento ruim que pulsava em mim toda vez que via Sasha, não gostava disso, ela nunca havia me feito nada, muito pelo contrário, mas ainda assim, era algo que eu não conseguia evitar.
Atravessei a rua e vi Davi sorrindo pra mim, seus amigos já haviam andado um pouco mais deixando-o para trás.
— Não sabia que iria vir. – Comentei com ele quando cheguei.
— E eu não sabia que essa era a hospedaria do seu irmão, fiquei surpreso. – Ele disse.
— Estou feliz que muitas pessoas tenham vindo. – Eu disse.
— Então, já que estou aqui poderia me fazer companhia? Acho que vai ser mais divertido se alguém que conhece o lugar me guiar. – Dei um sorriso.
— Não é como se o lugar fosse grande. – Respondi e ele riu. – Estou com alguns amigos, por isso vou falar com eles um instante pra avisar que vou acompanhar você.
— Ah, não precisa, se for atrapalhar eu continuo com meus amigos.
— Não, tudo bem, sem problemas. – Virei para ver onde Marie e Ethan estavam, assim que os achei eles sorriram pra mim, depois viraram de costas e começaram a caminhar saindo do meu campo de visão. Como são idiotas. Entendendo o recado deles, segui com Davi até a hospedaria. Só nós dois.
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