Aquele Garoto Idiota e Aquela Garota Idiota
5 Capítulo 5 - Um Susto
Notas iniciais
Ouvi o sinal bater do carro de Jú e já sabia que estaria atrasada se não corresse de novo. Felizmente meu joelho já estava bem, não me incomodava mais; não tropecei em ninguém e cheguei a tempo na sala de teatro. Senti todos se calarem e começar leves murmurinhos entre as garotas que me encaravam surpresas. Sentei em uma das poltronas do fundo – como sempre – e abri meu livro “A Criadora das Borboletas Escarlate” sem me importar com o que eles poderiam estar falando e fofocando ao meu respeito.
Senti a porta abrir e logo em seguida um “bom dia!” do professor Adriano e sua assistente e noiva Bruna. Os dois pareciam mais irmãos do que noivos: eram ambos loiros com olhos verdes e uma pele morena de dar inveja em qualquer uma daquelas meninas que fazem bronzeamento artificial. Eles pararam ao meu lado e o homem com seus trinta e poucos anos foi o primeiro a comentar:
– Você é aluna nova? – ergui a cabeça para ele e logo levou um susto ao me reconhecer. Ele sorriu enquanto Bruna fazia um “joia” com a sua mão como se aprovasse totalmente o meu desastre capilar novo. – acho que alguém decidiu mudar um pouco! – ele disse batendo no meu ombro, seguindo em direção ao palco.
Aquele comentário, por mais neutro que me parecia me fez sentir bem. Tipo, eu não quero chamar a atenção por ter pintado o meu cabelo de azul, na verdade só o fiz pra me sentir bem, e o jeito como Adriano e Bruna agiram mostrou que ambos não se importam com o que fiz ou o que deixei de fazer, e também não me acharam uma ET nesse mundo.
Meus pensamentos voaram longe até as lojas que eu passaria após a aula, mas foram logo interrompidos pelo barulho da porta novamente. Eu chutei quem era, apesar de já ter certeza absoluta. Bruna fez um sinal com a cabeça para que o atrasado entrasse, e logo senti o som de seus passos apertados. Mas, diferente do que eu esperava, a velocidade dos passos foi diminuindo até pararem ao meu lado. Eu já havia retornado à leitura do meu livro quando senti uma mão passando pelo meu cabelo, o que me fez arrepiar.
– Seu cabelo... – Thomas disse sem parar de mexer delicadamente nos meus finos fios.
– É... Meu cabelo. – levantei um pouco a cabeça sem parar de ler.
– É azul. – tirei a mão dele do meu cabelo. Cara, odeio quando uma pessoa fica mexendo e desarrumando o meu cabelo! Olhei para Thomas e o vi sorrir para o meu cabelo feito uma criança que vê algo novo, o que me fez sorrir junto meio sem graça. Acho que ficaríamos um bom tempo nos encarando se não fosse Bruna chamar a nossa atenção. Thomas como sempre – desde que começamos a conversar mais – sentou na poltrona ao meu lado.
– Parece que ama sentar perto de mim! – eu ri, olhando para ele, que já se virava para soltar a famosa frase “não quero perder nota no começo do ano” como sempre, mas dessa vez algo a mais aconteceu.
– Cala a boca, eu não quer... – Thomas congelou. Não entendi o que estava acontecendo até que percebi que ele encarava os meus lábios que estavam vermelhos pelo meu batom que raramente usei. Ele suspirou sem levantar os olhos e disse meio rouco – Amanda, não faz isso comigo...
– Isso o que? – eu disse nervosa. Thomas passou um dedo em meus lábios ainda com cara de surpresa e um pouco de prazer. Senti o seu toque lentamente, abaixando até meu queixo, até que minhas pálpebras ficaram pesadas e cerraram. Não ouvi mais nada, logo deduzi que ele estava sério me encarando, se aproximando lentamente, até poder sentir sua respiração em meu queixo. Ele ia me beijar e eu ia deixar? Mesmo depois de todo aquele discurso sobre pensar mais em mim e em nenhum garoto?
Antes de poder me afastar, senti algo tocar os meus lábios, macio e morno, mas algo estava diferente... Quando tomei coragem de abrir os olhos, dei de cara com um pedaço de papel que tirava todo o meu batom vermelho! Puta da vida, encarei Thomas que estava com um ar de preocupado, até retirar o papel dos meus lábios.
– Você é um idiota. – eu disse imóvel.
– Agora você ficou bem mais bonita. Tá, era mais bonita com o batom. – revirei os olhos bufando. – mas não use ele aqui, me desconcentra. – ele disse se aproximando do meu ouvido e sussurrando sedutoramente – você pode usar ele no cinema hoje, se quiser...
Minha barriga gelou com aquela frase. Mas que menino safado! Soquei o seu estômago, o que o fez encolher na poltrona. Não conseguia falar mais nada de tão cheia de emoções que eu estava. Sua reação me fez rir aos poucos, até me fazer acalmar. Thomas era um palhaço completo e talvez fosse um bom namorado... O que eu disse?!
As aulas passaram rápido, e o intervalo foi devagar. Decidi ficar um pouco sozinha, pensando nas ações de Thomas, mas não funcionou muito. Renan sentou do meu lado passando um dos braços ao meu redor, e encostando a cabeça no meu ombro.
– Agora desabafe. Você e seu bofe já assumiram? – eu bufei. – acho que não. – ele disse rindo da minha cara.
– Renan, eu queria ficar um pouco sozi...
– O Pedro está no fim desse corredor. Você realmente quer que ele venha conversar com você, ou prefere que eu esteja aqui para ser o seu escudo? – agradeci com um suspiro e encostei a minha cabeça na sua. – me agradeça com uma jaqueta nova.
Ficamos conversando sobre coisas aleatórias até o sinal para as ultimas aulas. Agora eu teria mais uma aula de dança. O bom dessa aula é que, apesar de eu não saber dançar absolutamente nada e não ter nenhum ritmo, me acalmava muito. O professor Hideki, um japonês prodígio, tinha apenas vinte anos e ocuparia o lugar do senhor Dallan, que havia torcido o tornozelo. Por ironia do destino, eu amava J-pop e hip hop – o que ele era o melhor – e passaria para a sala tudo o que achava que conseguiríamos aguentar, o que eu tinha certeza que não era lá muita coisa. Eu conhecia Hideki há dois anos, mas por algumas brigas, não nos falávamos como antes apesar de ele sempre agir como se nada houvesse acontecido.
Entrei na sala e encontrei Julia sentada em um dos bancos nas paredes próximas aos espelhos. Ela estava mexendo em seu celular meio entristecida, mas isso não me impediu de sentar ao seu lado. Discretamente guardou o seu celular na bolsa, mas mesmo assim percebi que algo estava diferente.
– Arranjou um namorado, é? – eu disse socando seu ombro de leve.
– Na verdade evitando um. E por falar em namorado, como anda as coisas com o Thomas?
– Ele não é meu namorado! E bom... Vamos ao cinema mais tarde... Acho que tô um pouco nervosa.
– Vocês ainda não ficaram nenhuma vez? – ela disse rindo como se eu fosse inexperiente.
– Não! Sinceramente... Eu não pretendia fazer isso. Eu quero pensar em mim e não nele. – disse passando as mãos nos meus cabelos azuis. Julia me encarou séria.
– Não é o que tá parecendo Amanda. – suavizou sua expressão com um sorriso largo – eu aprovaria o namoro entre vocês dois. Seria bom para ele... – encarei-a.
– Como assim?
Antes que ela pudesse me responder, Hideki entrou na sala já contagiando todos com movimentos dançantes. Levantamos as duas e fomos para o fundo do salão. Não gostávamos de atrapalhar quem sabia dançar de verdade. Porém, ao colocar a música no rádio, notamos uma batida lenta e sedutora: tango. Eu não acredito! Eu amava tango, mas não sabia dançar nada! Suspirei fundo e coloquei minha cara de decepção no rosto e me xinguei mentalmente por não ser capaz de fazer algo que amava tanto.
– Amanda, quando quiser! – a voz de Hideki me atingiu lentamente e então do jeito mais demente possível, respondi com um “hãn?!” o que fez Julia, que estava em posição de dança com um garoto qualquer rir. – eu disse que você pode vir aqui ser o meu par para mostrar para a classe como se faz. Rápido, temos duas aulas, mas pretendo fazer vocês ralarem hoje e sair com algo decente! – corei. Como assim, a pior dançarina da classe com o professor fodão e gostoso? Tá mais para um clichê dos grandes.
Ri sem graça e fui a sua direção. Senti suas mãos descerem até a minha cintura com um movimento gentil e calmo e me puxou com força contra seu peitoral. Hideki tinha mãos fortes, um peitoral duro, que gostaria de um dia poder flagrá-lo sem sua blusa geralmente azul ou preta. Subi meus olhos até seu rosto quadrado com pele perfeita. Seus olhos castanhos estavam virados para o resto da turma, e enquanto falava, observava o movimento dos seus lábios salientes, o suficiente para despertar um desejo insano de beijá-lo sem mesmo uma permissão.
– Então, sejam firmes em seus movimentos, rápidos, mas sem machucar a sua parceira. Sinta-a, seduza-a! – ele disse, puxando sua mão em direção a minha, esticando nossos braços. Com um gesto simples, me jogou para trás e fungou perto do meu pescoço. Senti meu rosto esquentar. O ar quente cessou e quando me dei conta, Hideki havia me jogado para o outro lado, ainda me mantendo firme em seu peito. Decidi seguir a musica. Na minha cabeça éramos apenas eu e ele, a sala havia sumido. Com um movimento razoavelmente sedutor subi a minha perna na sua e desci minha mão apoiada em sua nuca até seus ombros, sincronizando o tempo na música. Senti um sorriso de canto em sua boca, e sabia que ele queria que eu fizesse melhor.
Ele se lançou em minha direção e fui me afastando com os mesmos passos largos que dava, até ser travada e sentir meu corpo ser lançado para trás novamente. Dessa vez fiquei bem próxima ao chão e senti seus olhos penetrantes nos meus. Cara, eu realmente o achava lindo! Os segundos pareceram horas, até sorrir e me levantar. Separou-se de mim e começou a explicar os movimentos que fizera para a turma. Julia me encarou boquiaberta, o que me fez rir de leve. Nesse dia pude dançar pela primeira vez de um jeito que até mesmo eu gostara.
Subi correndo as escadas até o meu quarto e comecei a fuçar o meu armário em busca de roupas descentes. Eram quatro horas e havíamos marcado o filme das cinco. Decidi usar um vestido preto que comprei em uma lojinha voltando para casa. Era fechado até o pescoço, mas algo o fazia ser sensual: suas laterais eram unidas apenas por um pano decorado com algumas flores meio transparentes. Coloquei uma sapatilha prata bem simples e sentei de frente apara o espelho da minha bancada. Passei um pouco de rímel e meu batom vermelho. Me encarei, simplesmente me perguntando onde estava com a cabeça de ter mudado tanto em pouco tempo! Tentei reproduzir expressões que seriam necessárias para a noite, mas me desanimei por saber que fazia careta para tudo.
Finalmente desci e avisei Julia que voltaria e duas horas. A ruiva estava vendo filme com uma colega da aula de redação e não pareceu muito interessada no meu jeito diferente de se vestir. Peguei minhas chaves, saí e andei até o cinema dentro do shopping “enorme” alguns quarteirões de casa. Eu estava muito nervosa. Eu queria algo de Thomas. Ok, eu queria ele todo, queria ficar com ele logo. Eu queria ter mudado por mim, mas na verdade, no fundo de meu coração, eu havia mudado por ele. E consequentemente adorei ter mudado, aquilo me ajudou muito. Thomas me ajudava muito, me deixava bem... Ah droga, eu tenho que parar com isso!
Ele estava parado na frente da bilheteria. Dei alguns passos adiante, mas logo uma figura feminina apareceu, uma garota cheinha e baixinha. Ela correu na direção dele, e deu um abraço comprido, seguido de um beijo na bochecha super-romântico. O garoto sorriu e retribuiu o mesmo abraço só que dessa vez mais comprido e apertado, o que me fez gelar. Meu chão sumiu por alguns instantes quando percebi quem era aquela menina: Yasmin, minha prima de segundo grau! Como ela... Quem... Ahn?!
Senti um braço quente roçar no meu e com muito esforço descolei meus olhos da cena melosa que rolava ali. Hideki também os encarava, mas virou o rosto quando percebeu que eu havia sentido a sua presença. Uma lágrima saiu do meu olhos sem querer, mas deixei que ela caísse para estragar aquela maquiagem idiota que eu tinha feito pensando naquele... Galinha!
Hideki segurou a minha mão e me guiou até a praça e alimentação, sentando em um dos bancos próximos a fonte. Eu não consegui dizer nada por alguns minutos, até que sua voz grossa quebrou meus pensamentos totalmente negativos.
– Você ia sair com ele?
– Sim.
– Aquela era a Yasmin?
– Sim...
– Você gosta dele?
O silêncio me buscou de novo e não quis me largar. Hideki passou as mãos no meu ombro e tentou me consolar. O que havia acontecido ali? Por que... Ele... Me trocou...?
– Ago... – suas mãos apertaram meu ombro. Droga, eu odiava chama-lo assim! Limpei a garganta meio sem graça – Hideki, eu acho que vou para casa.
– Vou com você então! – ele disse já se levantando, estendendo a mão para mim.
– Hum... Eu queria mesmo ir sozinha... Preciso pensar no que houve agora... – eu disse fungando. Ele suspirou, mas entendeu. Infelizmente, quando ele se virou, ouvi-o resmungar algo como “ah não...” e me atrevi a levantar os olhos.
Thomas estava sozinho, procurando algo ou alguém... Tipo eu. E foi o que pensei: quando seus olhos encontraram os meus, ele sorriu feito um pateta e veio em minha direção. Hideki deu uma encarada em mim e andou em sua direção. Quando passou ao seu lado, disse algo que fez seu sorriso sumir e abaixar a cabeça. Quando chegou bem perto de mim, tentou forçar um sorriso, mas não funcionou. Para quebrar toda tensão, decidi falar algo.
– Desculpa, eu passei mal e o Hidek....
– Eu vou embora semana que vem. – me cortou. Levei um susto.
– Wow, que... Surpresa... Tem algo mais a me contar? – ironizei. Thomas bufou, e sentou ao meu lado.
– É sério Amanda. Eu vou embora de Fall semana que vem. Vou para uma cidade quatro horas daqui... Tentei te contar antes de sair da escola, mas não te encontrei... Me perdoa... – eu ri
– Isso não explica a pegação com a Yasmin agora pouco. – senti seus músculos contraírem.
– Quer saber? Não importa no que você vai acreditar. A Yasmin assim como você, soube da minha partida aquela hora e me abraçou. Ela quis me consolar...
– Te consolar?! Era queria era te pegar! – soltei quase em forma de berro, levantando do banco – olha Thomas, não sei se você se lembra, mas eu sou completamente traumatizada com relacionamentos com garotos idiotas, e parece que você tá se tornando um deles!
– Amanda... Nós não temos nenhum relacionamento. – aquilo me fez parar e “resetar”. Sim, não tínhamos nada, então como pude dizer aquilo?! Dei um passo para trás, mas antes que pudesse sair andando, Thomas pegou a minha mão e também se levantou – você quer ter algo comigo, não quer? Amanda, você gosta de mim?
– Thomas, eu não sei, desculpa, eu...
– Eu te amo.
– É o que? – eu disse rápido demais.
– Eu te amo Amanda, sério. Eu... Fiquei com medo de gostar de você por ser amiga da Julia, agi estranho por estar confuso, te chamei de amiga para ver se você demonstrava alguma reação... Agora que você viu a Yasmin, não sabia que ia sentir ciúmes se eu encontrasse ela um pouco antes para contar pra ela... Me desculpa... Sou mais um idiota... – ele soltou a minha mão e voltou a sentar. Eu estava quente. Extremamente quente e nervosa, como nunca estive na minha vida. Não pensei em mais nada, nem no que vim a fazer: me abaixei, passando a minha mão em seu queixo, virando levemente para o lado. Meus lábios tocaram gentilmente sua bochecha, mas o garoto não se mexeu.
– Eu amo esse idiota então. Me faça acreditar que ele é bom, um idiota diferente. – disse sussurrando. Me ajeitei e sai andando, deixando Thomas para trás. Fui forte e permaneci firme até sair do shopping. Meu celular vibrou e li a mensagem, sem ler quem me enviara.
“Obrigado... Eu entendo agora porque eu te amo.”
Várias lágrimas caíram dos meus olhos. Thomas ia embora, eu tinha acabado de me declarar mesmo querendo ser mais independente do amor, fui retribuída, julguei errado minha melhor prima, fora que algo doía no meu peito. Sentindo tantas emoções ao mesmo tempo, eu corri. Corri desesperadamente, atrás de alguma solução invisível, alguma alma a minha espera para um abraço, um consolo. Corri pra casa, sem parar de chorar por um segundo, chorar por Thomas ser idiota, chorar por eu ser mais idiota ainda.
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