Aquele último ano
16 Capítulo 16
Notas iniciais
Queria ter seguido para o banheiro para lavar o rosto antes de ir para a quadra, mas pra isso teria que passar por Renan novamente, e essa não era uma opção. Então passei a mão no rosto, tomei um poucos de ar (o que foi meio difícil levando em conta o calor que fazia), e fui encontrar Davi, como se nada tivesse acontecido. Meu maior medo era de que alguém pudesse ter visto o que aconteceu, e isso seria absurdamente péssimo, mas ao que parece não havia ninguém por perto.
Eu não entendia qual era o problema dele e porque estava agindo tão estranho esses últimos dias, me tocando e me olhando de uma forma que nunca havia feito. Será que havia acontecido mais coisa e eu não quis dar ouvidos a ele? De qualquer forma coloquei na minha cabeça de que ele era meu professor, eu querendo ou não ele era, e isso tornava as coisas um tanto inapropriadas.
Como em todos os outros treinos que assisti de Davi não havia muitas pessoas, só algumas, principalmente meninas. Mas dava para sentir aquele clima pré campeonato, eles estavam muito mais focados e precisos, deve ter uma grande pressão em volta disso tudo que eu não entendia. De qualquer forma me sentei e observei, como sempre.
Por que Renan havia perguntado se eu iria assistir ao treino? Olhei para Davi e pensei em como foi rápida a nossa aproximação, nos conhecemos tão por acaso e agora estamos nesse relacionamento meio confuso. Ele era tão diferente de mim, era alto, muito bonito, tinha pose, era gentil, engraçado, inteligente. Realmente uma pessoa que se destaca, não era a toa que muitas das meninas que assistiam ao treino me olhavam feio e torciam por Davi, sinceramente não me incomodava com isso, se eu fosse elas e visse alguém como Davi passando tanto tempo com alguém como eu também acharia no mínimo estranho. Mas eu era grata por Davi, ele fez com que todos esses últimos dias agitados para mim ficassem calmos e sob controle. Muito do meu pequeno crescimento recente se deve a ele.
— Ta tudo bem? — Fiquei pensando tanto que nem reparei que Davi havia caminhado e estava agachado na minha frente.
— Ta sim, tudo ótimo. — Respondi com um sorriso.
— Seu rosto está vermelho, por acaso estava chorando? — Ele perguntou cauteloso e olhando meus olhos, certamente estavam vermelhos também.
— Não se preocupe, é só o calor, está muito quente hoje. — Respondi o mais confiante que podia, ele não pareceu acreditar muito mas deixou passar, me deu um selinho discreto e voltou a treinar.
Essa era outra coisa que me deixava a vontade com Davi, ele me dava espaço, mesmo que soubesse que havia algo de errado, ele me dava espaço até que ei estivesse disposta a falar. Fico pensando se não estou sem querer brincando com ele.
O treino de vôlei terminou e fui caminhando até a saída com Davi, fiquei estática quando vi uma certa pessoa parada no portão de entrada da escola. Era Ethan.
— Davi! Me desculpa mas tenho que resolver algo rapidinho! Te mando mensagem depois. — Eu disse a ele. Davi olhou para Ethan no portão e pareceu entender tudo.
— Sem problemas, você vai assistir ao jogo do campeonato amanhã? — Ele perguntou por último ansioso.
— Com toda certeza! — Ele sorriu, me deu um abraço e segui para o portão. Ethan estava parado, como se esperasse por alguém. Fui até ele e seu rosto estava terrível, na melhor das opções.
— Ethan? — Chamei e olhei para ele com cuidado.
— Posso falar com você? — Ele disse e eu concordei.
Ele saiu caminhando e fui atrás, sem saber para onde, resolvi não perguntar nada até que ele estivesse pronto e disposto.
Estava um calor do inferno, meu rosto começava a suar novamente e minha cabeça queimava. Olhei para Ethan e ele parecia do mesmo jeito, mas não pareceu ligar nem um pouco para o calor. Ele me levou até a praia, sentamos ao lado de uma maquina de bebidas e Ethan comprou duas, um suco para mim e uma coca para ele. Então sentamos e ficamos em silêncio por um tempo, foi um grande alívio quando bebi o suco, meu corpo estava tão quente que consegui sentir a bebida deslizando dentro de mim.
— Eu sou um grande fracasso, não sou? — Ele finalmente disse.
— Eu diria que é um idiota, mas isso você já sabe. — Respondi e ele deu uma risada amarga. — Ela estava chorando muito ontem quando foi para minha casa, o rosto quase explodindo de raiva. — Contei a ele e vi a dor nos olhos dele assim que disse isso.
— Eu sou um idiota! — Ele disse.
— Eu sei. — Respondi. — Sinceramente Ethan, o que aconteceu que nem ela soube me explicar? — Perguntei e ele suspirou, tirou o celular do bolso e desbloqueou, abriu na galeria de fotos e me mostrou uma que estava lá. Meu coração travou.
— Reconhece? — Perguntou ele.
— Essa é... — Comecei a dizer com medo.
— Minha ex namorada.
— Com o...
— Com o Charlie. — Ele concluiu meus pensamentos.
— Como? — Perguntei. Ele pensou por um tempo antes de continuar.
— Eu não tinha reconhecido na hora, porque naquele dia não havia ficado muito tempo para reconhecer o garoto. Mas ontem Charlie me enviou essa foto logo depoia de pegar meu número. Era ele que estava com a minha namorada no dia que descobri que ela me traía. Nessa foto eles estão na lanchonete que encontrei eles.
— Então foi isso que fez vocês dois começarem a discutir ontem? — Ele assentiu com a cabeça.
— Perdi completamente a calma quando vi essa foto. Ele se aproximou de mim só pra conseguir meu número e me mandar essa merda. Perdi o controle e fui pra cima dele. E odiei quando Marie veio me parar pra defender ele, então sem pensar acabei segurando ela e a beijei, mais como uma "vingança" pelo que Charlie havia feito. — Eu ainda não acreditava no que estava vendo, mas não tinha como negar, era Charlie quem estava ali com a ex do Ethan. E isso fez meu coração gelar pela marie.
— Será que ele não está de alguma forma usando a Marie? — Perguntei com cuidado.
— Não sei, não tem como eu saber. E certamente ela não quer nem olhar na minha cara agora. Mas Elô... — Ele ia continuar e desistiu, ficou um tempo olhando para o mar que estava afastado de nós por um extenso espaço de areia. Ele suspirou antes de continuar.
— Eu amo ela. — Ele disse por fim, isso me fez perder o próprio fôlego, olhei surpresa para ele que sorriu meigamente. — Sei o que você deve estar pensando, mas acredite não foi fácil para mim chegar a essa conclusão. Mas tudo nela é tão perfeito para mim, até mesmo seus defeitos. Claro que ela nunca vai acreditar em mim se um dia eu contar isso a ela, porque ela me vê como um cara que não sabe ter um relacionamento sério e fica "pegando" meninas aqui e ali. Mas sei que você acredita em mim Elô, e eu estou apaixonado por ela. Não sei o que fazer. — Ele disse e me olhou como se a resposta estivesse estampada na minha cara.
— Ethan, você a conhece, tão bem quanto eu. Ela vai te ouvir. Fale para ela tudo o que disse agora para mim, explique o motivo da sua briga com Charlie e deixe que ela decida no que acreditar, a sua parte é aliviar a sua barra para ela. — Eu disse sem muita convicção.
— Eu nunca fiquei com medo de falar com uma menina, mas ela me deixa apavorado. — Ele disse e riu, era bom vê-lo rir.
— Você é melhor que o Charlie, e ela vai perceber isso, sabe como ela é, eu estou do seu lado. Apenas dê um tempo para tudo se ajeitar. Além disso, você tem um campeonato chegando! Coloque essa cabeça no lugar porque tem que liderar um time! — Ele riu novamente, seu rosto não estava mais tão azedo quanto antes.
Depois de conversar com Ethan fui para casa, era meu dia de folga na hospedaria então queria descansar um pouco. Fiquei pensando muito tempo em minha conversa com Ethan, e ainda agora era difícil de acreditar no que ele havia me mostrado, Charlie parecia tão calmo e gentil, não é possível que fosse tão falso.
Abri o chuveiro pra tomar banho e deixei a água gelada cair, sentia meu corpo inteiro se resfrescando, senti que meu corpo queimava hoje o dia inteiro, por vários motivos, calor, raiva, vergonha... um dia cansativo mentalmente.
Depois de tomar banho fiz um suco bem gelado e fui para o meu quarto, abri as janelas e deixei o ar entrar. Resolvi que hoje era dia de ficar em paz e na minha. Peguei um livro e continuei a ler a saga Crepúsculo que não havia terminado. Por hoje chega de pensar em Davi, Renan, Ethan, Charlie, Marie etc...
Depois de tanto ler comecei a ficar com sono, fechei o livro e fui dar uma última olhada no celular. Mensagem de Davi.
"Você está bem? Estou ansioso para amanhã. Como não irei assistir as aulas amanhã só poderei te ver de tarde. Espero por você no jogo."
Respondi:
"Estou ótima! Também estou ansiosa para amanhã, descanse bem. Com certeza vou estar lá."
Deitei na minha cama e dormi, dormi até o dia seguinte.
Na manhã seguinte acordei assustada com um trovão gritando alto no céu. Logo em seguida vi o clarão de um raio pela janela e, depois, outro barulho que parecia que minha casa inteira estremecia. Levantei e fui olhar pela janela. Aparentemente o calor infernal do dia anterior fez uma tempestade terrível aparecer. Sentei novamente na cama pensando em faltar na escola, a chuva estava forte demais, porém não podia, tinha que ir assistir ao jogo de Davi depois. Pensei que o jogo de hoje seria cancelado pela chuva forte, mas lembrei que Davi jogava vôlei, a quadra era coberta. Desanimei um pouco mas respirei fundo e levantei.
Me arrumei rapidamente e pedi para Marco me dar uma carona de carro. Em cinco minutos ele estava na porta de casa businando. Corri e entrei no carro.
— Por que não falta hoje? — Perguntou Marco.
— Acredite eu queria muito, mas hoje não posso. — Marco me olhou desconfiado. Ele sabia que eu faltava na escola por qualquer coisa, ainda mais se estivesse chovendo, não importa se eu perderia prova ou o que fosse, ele sabia então que havia algo a mais, porém não disse nada.
Ele me deixou na escola, mas não sem me provocar antes:
— Mande um "oi" para o garoto que vai ver! — Ele disse e saiu, nem tive tempo se responder.
As aulas passaram rápido, aparentemente a chuva que caia deixou até os professores mais preguiçosos, fora que alguns até faltaram. O próprio Renan eu não havia visto pela escola.
Ethan e Marie haviam ido, não trocaram uma palavra mas não se mataram também, levei isso como algo positivo. Muitos tinham ido para a escola apesar da chuva, estavam todos ansiosos pelo início dos campeonatos, afinal não era só o de vôlei que começaria hoje, o de basquete e futebol também, apesar de que o jogo de futebol havia sido adiado para o dia seguinte por conta da chuva.
Era estranho ter meus amigos do meu lado sem que trocassem uma palavra com o outro, era difícil dividir a atenção e falar de um assunto que não envolvia os dois. Mas assim que as aulas terminaram fomos para o pátio comprar algo para comer antes de assistir ao jogo.
A quadra estava cheia, o primeiro jogo aconteceria em nossa escola, o próximo na escola adversário, dessa vez então nosso time tinha a vantagem de ter a maior torcida. Era estranho ver a quadra tão cheia, e barulhenta também porque além dos alunos conversando a chuva não dava trégua la fora, era como se a qualquer momento o teto fosse ceder junto com os raios.
Vi Davi de longe, ele estava completamente sério e focado. Sentei junto com Marie e Ethan, entre os dois obviamente.
Os times começaram a ser apresentados, um por um os jogadores foram entrando em quadra e a torcida gritava a cada nome falado dos integrantes da nossa equipe. Comecei a ficar agitada e ansiosa.
Senti meu celular vibrar e olhei para ver, mensagem de um número desconhecido, ignorei, alguns poucos minutos depois chegou mais mensagem e ignorei de novo. Voltei a prestar atenção no jogo.
O juiz apitou e o jogo começou, a torcida já gritava e apoiava sem parar, Marie, Ethan e eu também. Começamos o jogo na frente, abrindo três pontos de vantagem, o time estava confiante, Davi 100% concentrado.
Senti meu celular vibrar novamente mas ignorei, mas dessa vez não parou, uma ligação. Olhei e não tinha o número registrado, a ligação caiu, mas antes que eu pudesse guarda-lo novamente começou a chamar de novo, atendi. Nessa mesma hora nosso time fez mais um ponto e todo mundo comemorou, inclusive eu.
— Eloisa? — Ouvi a mulher dizer do outro lado da linha, o barulho era muito alto e eu não conseguia ouvir muito bem.
— Sou eu, quem está falando? — Perguntei. Tampei um ouvido pra ver se escutava melhor.
— Graças a deus você atendeu! Sou eu a Sasha! — Disse ela parecendo desesperada, meu coração parou.
— Sasha? Precisa de alguma coisa? está meio difícil falar agora.
— Você precisa vir agora para o hospital da cidade! Renan sofreu um acidente de moto. — Dessa vez meu coração parou de verdade, levantei com tudo do meu lugar inconscientemente.
— O que? — Perguntei baixo sem acreditar no que houvia, mas Sasha entendeu a pergunta.
— Renan sofreu um acidente de moto hoje, está inconsciente aqui no hospital! — Só podia ser brincadeira, mas por que Sasha brincaria com isso? Pensando bem Renan não havia aparecido na escola hoje. Olhei desesperada para Marie que me observava, ela viu o desespero nos meus olhos e se levantou também.
Fiquei sem saber o que fazer, havia prometido a Davi que assistiria ao jogo, havia prometido várias vezes. Mas pensando bem esse não seria o último jogo. Sem tirar o celular do ouvido respondi Sasha:
— Estou indo. — Desliguei e saí correndo de onde estava, os pensamentos a mil e imaginando as piores cenas possiveis na minha cabeça. Acidente de moto, fazia sentido, o dia estava péssimo para andar de moto.
Sem ouvir ou esperar nada corri para fora da escola, a chuva pressionando meu corpo, me molhei inteira instantaneamente. Pude ouvir de fundo a voz de Marie e Ethan atrás de mim, mas não parei para olhar eles, apenas corri em direção ao hospital.
A cidade não era muito grande, conseguia ver o grande prédio do hospital longe, e parecia que quanto mais eu corria mais longe ele ficava. De certa forma estava aliviada por não ter acontecido nada com meus pais e Marco, mas ainda assim meu coração batia desesperadamente. Não sei de onde tirei fôlego para correr tanto e devo quase ter sido atropelada no mínimo umas três vezes, mas isso tudo passava despercebido, assim como os gritos de Marie e Ethan para eu me acalmar, eles continuavam me seguindo por todo o caminho.
Cheguei no hospital e entrei correndo pela porta, olhei de um lado para o outro procurando por qualquer informação que me ajudasse.
— Posso ajudar? — Disse uma enfermeira parando em minha frente.
— Eu...
— Eloisa? — Desviei os olhos da enfermeira para Marco, que apareceu atrás dela. — Desculpe, ela está comigo. — Disse Marco para a enfermeira e indo até mim. Eu estava tão cansada que não conseguia dizer nada, todo ar que eu puxava não era suficiente
— Renan, cadê ele? — Perguntei.
— Como sabe o que aconteceu? — Perguntou Marco. — E você está encharcada!
— Eu avisei ela. — Disse Sasha vindo até a gente. Marco olhou para nós sem entender nada.
—Onde ele está? — Perguntei desesperada para Sasha.
— Estão cuidando dele, mas não podemos entrar na sala ainda, temos que aguardar. — Repondeu Sasha, senti Marie e Ethan aparecendo ao meu lado, um de cada lado, como se nem mesmo esse momento pudesse diminuir a distância entre eles.
Apesar de desesperada me acalmei um pouco e respirei, tanto eu quanto Marie e Ethan estávamos pingando. Uma funcionária do hospital trouxe para nós alguns panos finos, só para firar o excesso da água. Sentamos e esperamos. Todos calados. Foi a uma hora mais longa de toda a minha vida.
Depois do que pareceram horas, a porta da sala de Renan abriu e todos nós instintivamente levantamos juntos.
— Podem vê-lo agora. — Disse a médica saindo da sala.
Tomei a frente e andei rápido até a porta, mas assim que cheguei lá parei, com medo do que veria, apertei a blusa de frio que Marco havia me emprestado e fiquei parada alguns segundos, até que senti uma mão gentil em meu ombro, era a médica
— Não se preocupe, ele vai ficar bem. — Ela disse e sorriu gentilmente, após ouvir isso entrei. Todos os outros já haviam entrado.
Assim que entrei na sala meu coração apertou. Renan estava deitado na cama do hospital, seus olhos estavam fechados, ainda não havia acordado. Havia alguns machucados por todo o corpo e um de seus braços estava enfaixado, devia estar quebrado. Senti as lágrimas quentes esquentarem meu rosto e descerem pela minha bochecha. Me arrependendo instantaneamente de todas as vezes que o evitei durante essas últimas semanas.
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