Frank: Will para essa merda! – gritou Frank, com os olhos arregalados.

Will (que provavelmente era o único cara sóbrio da festa que dirigia tinha se oferecido pra nos levar até o hospital mais próximo) deu uma freada tão brusca que o carro deu vários giros de trezentos e sessenta graus na pista. Eu já tava muito assustada e suando muito. Mas tipo, PRA CARALHO. Então notei que Jane tinha começado a se balançar descontroladamente: ela estava tendo convulsões. Me desesperei.

Eu: Caralho o que a gente faz agora?!!! – eu gritei, segurando Jane com força.

Frank: WILL, LARGA O PÉ NESSE ACELERADOR!

▪▪▪

Uma e vinte e sete da madrugada.

Depois que chegamos lá e Jane foi atendida com urgência, nos perguntaram se sabíamos o motivo das convulsões. É óbvio que mentimos, ninguém podia saber disso. Muito menos o pai de Jane. Não demorou muito para que dessem conta do recado, e quase uma hora depois, pudemos visitar Jane.

Frank: Tá me vendo, loira azeda? – disse ele, um pouco eufórico, balançando os braços.

Jane: Claro, não sou cega – disse Jane, fazendo uma cara de tédio e rindo logo depois.

Eu: Achei que iríamos perder você.

Jane: Não vai ser dessa vez que o Frank vai ser só seu – ela disse brincando, me dando uma piscadela.

Então um médico entrou na sala, dizendo que Jane já podia ser liberada assim que eles conseguissem falar com seus responsáveis. A cara dela gelou.

Demos um telefone de um amigo que se fingiu passar pelo pai de Jane, o que não convenceu muito os médicos. Dissemos que ele estava viajando e que não poderia ir buscar Jane e então conseguimos deixar aquele hospital. Foi mais simples do que eu pensava, tão simples que chega a ser ridículo. Eu tava com um puta cagaço. Poderia ter sido o Frank. Poderia ter sido eu. Mal cheguei naquele lugar e já estava fazendo merda e me metendo em encrenca. Eu não sabia direito o que sentir, minha vida sempre foi bem sem sal na verdade.

Jane: Alguém aí tem um cigarro? – disse ela, se apoiando em Frank.

Frank: Mas já? Nada disso mocinha – disse ele, em tom de preocupação.

Eu: Ela não pode mas eu posso, me passa um aí. – eu disse, em tom de brincadeira.

O senso de humor da Jane era algo sensacional. Mesmo estando na merda, ela conseguia fazer piadinhas. E Frank sempre mantia a calma em qualquer circunstância e eu não sabia se isso era bom ou ruim. De qualquer jeito, a festa tinha acabado um pouco mais cedo pra nós três. Então caminhamos até um pub chamado West Coast, e ficamos bebendo e conversando noite adentro. Will tinha ido embora. Meu celular tocou.

Mãe: ZOE! EU TE LIGUEI MILHÕES DE VEZES PASSEI NA CASA DO HUNTER E ME DISSERAM QUE VOCÊ NÃO ESTAVA MAIS LÁ ONDE VOCÊ ESTÁ?! – gritou ela, sem nem dar espaço pras vírgulas.

Eu: Oi mãe.

Mãe: ZOE CADÊ VOCÊ?!

Eu: Então mãe… – eu disse lentamente, muito lentamente – a Jane passou mal e tivemos que ir pro hospital. Mas tá tudo bem agora. A gente tá num pub, perto de casa. Tá tudo bem, eles estão comigo. Te amo – e desliguei o celular.

Frank: Por que desligou o celular, cara? Ficou maluca? — ele disse, gargalhando mais alto que o normal.

Jane: Não se esquece de nos chamar pro seu funeral amanhã, tá? — gritou ela.

Eu: Puta que pariu, vocês estão altos demais — e ri escandalosamente.

Estávamos bêbados demais, que merda. Não sei bem o porquê de eu ter desligado o celular, mas foda-se. Também não sei a quantidade de cerveja que nós tomamos e nem a quantidade de merda que nós dissemos enquanto Jane e Frank me levavam até em casa. Fomos sutilmente varridos do WC. Frank tinha dito ao pai de Jane que ela dormiria em sua casa, então tava tudo bem. Pelo menos alguém não levaria esporro naquela madrugada.

Quando cheguei em casa, minha mãe já tinha ido dormir. Tentei não fazer barulho mas derrubei uma panela no meu pé (sou desastrada pra caralho), comi alguma coisa e caí na cama.

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Meu celular tocou. Uma luz fraca entrava por entre as cortinas da minha janela. Caralho, que dor de cabeça alienígena. Eu não conseguia abrir os olhos. Pisquei com força e esfreguei o rosto. Era o Frank.

Eu: Fala, narigudo.

Frank: Bom dia pra você também, acordou de bom humor hoje? – disse ele, gargalhando.

Olhei pro relógio do despertador em cima da cômoda. Eram oito e dezessete da manhã. O que esse puto queria comigo ás oito e dezessete da manhã?!

Eu: Oito e dezessete.

Frank: O quê?

Eu: São oito e dezessete da manhã. O que você quer?

Frank: Ah, eu só ia te convidar pra tomar café da manhã aqui em casa.

Eu: E eu posso saber onde fica sua casa?

Frank: Vira a esquina, no final da rua vai ter uma casa azul claro, com uma porta branca. É a minha.

Eu: Beleza, já tô aí.

Deixei um recado numa folha de caderno pra minha mãe, e prendi com um ímã na geladeira. Espero que ela não fique brava.

Tomei um banho gelado pra tentar despertar. Não funcionou muito. Abri meu armário, peguei um shorts, regata preta e minhas sapatilhas de balé cor de rosa e surradas. Amarrei uma bandana no cabelo e peguei meu maço de cigarros. Eu estava pronta.

No percurso até a rua do Frank, percebi o quanto o caminho era bonito e agradável. Passarinhos cantarolavam, estava fresco e havia muitas árvores. Traguei um cigarro. Cheguei. Toquei a campainha. Uma mulher alta, magrela e ruiva de cabelos encaracolados me atendeu.

Ruiva magrela: Oi, flor de lótus! Você deve ser a Zoe, não é? — falou ela, com uma voz suave e um sorriso simpático.

Eu: Sou eu mesma — e sorri, tentando parecer simpática.

Frank: Mãe, deixa a maluca entrar! — ele gritou ao fundo.

Gargalhamos juntas. Será que eu tava com cheiro de cigarro? Putz, agora já era.

Notas finais
Juro que estou tentando deixar os capítulos mais longos sem ficar cansativo. Mas se por acaso isso ocorrer, me digam por favor.