Aprisionada
11 Capítulo 8
Notas iniciais
Meu alarme começou a apitar, alertando-me do começo do meu dia. Abri meus olhos e confirmei minhas suspeitas, havia dormido em meu próprio sangue, na banheira. Com dores em todos os lugares, me levantei e a esvaziei. Olhei-me no espelho e me assustei com o que vi. Meu corpo estava retaliado. As marcas eram recentes, obviamente; mas parecia que meu corpo ficaria marcado dessa vez. E sinceramente? Eu não dava a mínima. Sabe quando a gente pensa em algum tipo de ajuda? Alguém para nos guiar quando estamos cegos por algo? Balancei minha cabeça em negação ao ver o que tinha feito. Havia jurado que não o voltaria a fazer, e lá estava eu. Toda dolorida, com sangue espalhado pelo corpo, olheiras enormes evidenciando minha falta de sono, olhos inchados de tanto derramar lágrimas... Quem pensou que algum dia eu voltaria a fazer isso por alguém, não?
A última vez em que eu havia me cortado, fora quando mudei-me para cá, logo antes de conhecer Spents. Ou melhor, no dia em que o conheci. Eu me cortava sempre que pensava em Clark, sempre que pensava em meus pais, sempre que pensava em mim. Tudo era dor, e de alguma maneira, eu não sentia isso quando estava com ele. Era como se tudo cessasse pelo simples fato de ele estar ali. E pode me chamar de idiota, de clichê... Mas eu nunca havia me apaixonado tão rapidamente. Nunca havia sofrido tanto por isso, muito menos com Clark. Eu acho que o motivo de tudo isso, era por que eu conhecia Spencer ou pelo menos, era o que eu achava. O que mais doía era, de fato, ter deixado com que ele me conhecesse. Eu deixei, ele me deu uma brecha e eu me contentei com aquilo. Foi tão rápido, mas tão intenso. Demorou menos de um ano, 5 meses e 10 dias, para ser exata. Lembrava-me ainda da madrugada do dia 13. Quando eu achei ele e senti “Poxa, esse cara parece-me confiável, apesar de ser um convencido de merda.” E entreguei-me para ele. Sem simbolismo, sem romance, apesar de seus cuidados.
Liguei a torneira, fazendo com que o resto do sangue alojado na mesma, fosse embora com a água. Depois de mais alguns minutos, desliguei a torneira e resolvi tomar uma ducha, não havia chance de ir para a escola com aquela aparência.
Dizem que no chuveiro é quando pensamos em tudo, temos as melhores ideias e as piores lembranças. Eu sempre vivi assim, quando eu chegava no chuveiro, pensava em tudo o que estava se passando na minha vida. E muitas dessas vezes, a água levou não apenas a sujeira, mas minhas lágrimas. A água levara minhas dores consigo, para onde quer que ela fosse. Nesse dia, eu me recusei a pensar. Resolvi apenas relaxar, minha mente estava vazia.
Ao sair do banheiro, onde já tinha feito minha higiene, me troquei e segui meu caminho. Para onde quer que ele fosse.
O dia estava nublado, portanto não havia problemas em usar minhas roupas largas e compridas para não mostrar meus cortes. Esse tipo de dor já era conhecida por mim. Ao chegar, percebia que todos os olhares pousavam-se em mim. Parecia que todos sabiam o que estava por debaixo da minha camada espessa de roupa, parecia que todos estavam me olhando de maneira cautelosa, como se respirassem “torto”, pudessem me afetar. Aquilo estava me tirando do sério, eu respirava aceleradamente, meu coração queria saltar de meu peito. Não estava apenas assustada, com medo do que estavam pensando ao me ver, estava irritada por todos estarem me olhando como numa exposição de artes. Quando consegui avistar Megan, ela estava me olhando da mesma maneira que todos os outros.
–Por que todos estão me olhando desse jeito? –Eu perguntei, ao mesmo tempo que cheguei ao seu encalço. Ela me olhou de cima abaixo.
–Antes de tudo, eu e acho que toda escola sabemos que você se corta. Aliás, você está sangrando um pouco ali atrás... –Ela disse, com a coisa que eu mais abominava na vida: pena. Afastei-me e a olhei perplexa. Ela deu um passo para frente e eu recuei mais um pouco. –Queria que você soubesse por mim, achei que seria melhor. E tem mais uma coisa...
Nesse momento, eu ouvi pessoas batendo palmas, como em uma círculo. Estavam em volta de algo. Aproximei-me, sentindo que isso era o que Meg queria me contar.
E lá estavam os dois: no meio da roda a se beijar. Mas não apenas um beijo qualquer, um beijão. Digno de filme.
Me senti perdida naquele momento, não apenas por gostar dele realmente e ele estar beijando outra na minha frente. Ele havia dito para mim que não conseguia, porém, no dia seguinte, já estava com ela.
Uma lágrima escorreu sem pedir permissão e aí me dei conta do que estava acontecendo. Aquilo tudo, todo aquele “show” era para eu ver. Sabia pelas câmeras, discretamente direcionadas para mim. Quando os olhos de Spencer encontraram os meus eu apenas vi uma coisa: tristeza. Eu vi aquilo estampado em seu rosto, vi aquilo em todo o seu corpo.
Sem demorar mais um instante, eu virei-me e saí correndo de onde estava. Novamente.
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