Aprisionada
8 Capítulo 6
Acho que quando nós nos apaixonamos, realmente vamos caindo, até a hora em que nós percebemos que estamos lá, deitados; estirados no chão. E quando nós nos damos conta que estamos lá, simplesmente não temos força para sair. Não importa o quão fácil seja, estamos tão presos ao sentimento que todos nossos esforços são inúteis. Todas as tentativas tornam-se falhas, qualquer sombra de dúvida, de certeza simplesmente se esvai; assim como nossos princípios. Por que afinal, qual é o objetivo disso tudo? Às vezes a gente pensa que tudo tem um propósito, mas... Às vezes não tem. Às vezes, é apenas para viver. Até mesmo quando a pessoa simplesmente te faz querer matá-la. Viva, portanto, a mate. Sem piedade. Confuso? Sim, eu sei.
É o que quis fazer com Spencer no dia em que conheci Emmy.
A faculdade corria bem, minhas notas eram médias e sinceramente, não estava mais me preocupando loucamente com os estudos, portanto, eu e meu amigo com benefícios estávamos aproveitando nosso tempo juntos. Desde o dia em que eu havia apresentado Megan, Jason e Spencer, eles não haviam se desgrudado. Megan contava tudo para Spencer e Jason vivia estudando com ele... O meu grupo estava basicamente selecionado, não precisava de mais ninguém para ser realizada. As pessoas que eu havia aprendido a amar estavam comigo, e por ora, isso já era o bastante.
As coisas comigo e com Spencer estavam correndo muito bem, não havia ciúmes entre nós, não andávamos de mãos dadas nem nada do gênero, mas sabíamos que podíamos contar um com o outro. Se nós transávamos? Bom, disso você já sabe, mas ultimamente, as coisas haviam ficado calmas, entende? Nós não tínhamos mais aquela pressa de fazer tudo, nós simplesmente curtíamos. Ele me proporcionava tudo aquilo que queria, ainda com o bônus de ser um ótimo amigo. E, incrivelmente, tudo havia se tornado melhor. Eu havia aprendido que se estava com ele, tudo iria ficar melhor ainda. Ele estava me tratando com carinho, era um sentimento reconfortante e ao mesmo tempo, intimidador. Mas eu gostava.
Ciúmes é algo que Deus podia não ter criado, pois foi naquele dia, naquela merda de dia em que eu percebi que estava me sentido parcialmente afetada em relação ao Spencer.
Estávamos na faculdade, Megan, Jason e eu íamos nos encontrar com Spencer em uma praça perto de nosso Campus. O lugar era simplesmente maravilhoso, o verde das árvores contrastava com todas as pedras que formavam as calçadas e todas as flores espalhadas pelo local. A brisa balançava levemente as copas e o cheiro maravilhoso de grama molhada inundava nossos sentidos. Era, definitivamente, um local que eu passaria a frequentar mais. E lá estava ele, sentado, desenhando. Ele parecia um verdadeiro anjo, estava com uma camisa branca, um jeans escuro pouco apertado e tênis. Seu cabelo escuro contrastava com sua pele e olhos claros. Tudo parecia em perfeita harmonia, tudo parecia em seu lugar, e me aterrorizou pensar que talvez; ali, com ele, fosse meu verdadeiro lugar.
Chegamos perto o bastante para eu perceber o que ele estava desenhando, nunca tinha percebido seu dom para aquilo, talvez quisesse manter aquilo em segredo. Na folha de papel A4, em carvão, estava desenhado meus olhos, minha boca e meu cabelo. Era tudo tão semelhante, que eu até mesmo assustei. Não sabia desde quando ele estava fazendo, mas me parecia quase pronto.
–Meu Deus, Spents! Que dom, garoto! –Jason estava como eu, ou até mesmo mais. Num pulo, Spencer se levantou e ajeitou suas coisas em sua mochila, me impedindo de dar mais uma olhadela em seu desenho.
–Hm, não tinha visto vocês aí... É... Como vocês estão? –Ele perguntou, ainda ofegante e agora, constrangido. Pela primeira vez desde que o conheci, há três meses atrás, ele estava corado.
–Hm, bem e você? Estávamos pensando em ir no Nando’s... –Eu disse, tentando quebrar o clima tenso que havia se formado.
–Sim, sim... Vamos. –Ele disse, mexendo no seu cabelo, coisa que eu havia percebido que era uma mania de quando estava nervoso.
–Hey, Spencer! –Ouvimos uma voz gritar. Viramo-nos e nos deparamos com uma visão deprimente.
Uma garota, seus cabelos longos e escuros desciam pelas suas costas em camadas, seus olhos claros contrastavam perfeitamente com sua pele clara. Não preciso nem mesmo falar sobre o corpo dela, ela era magra, esbelta e alta. Que coisa mais horrorosa, os olhares acompanhavam seus movimentos. De tanta perfeição era até mesmo... Estranha. E pior, era uma vista ainda mais depressiva, por que queria algo com Spencer.
“Ele não é seu, meu amor.” –Disse meu subconsciente e eu desejei mata-lo
“Me matar não fará que ele seja seu, Jessie.” –Eis algo sobre mim: odeio que me chamem de Jessie. Apenas uma pessoa me chamava por esse nome, e depois que a pessoa foi embora, eu extingui-o de meu vocabulário frequente. Nossa, como estou culta.
Voltando:
Ela chegou bem perto de nós e cumprimentou-nos, sua voz, sinto dizer, era uma melodia tão boa para os ouvidos... Mas ela parecia uma verdadeira vadia.
–Oi, gente! Eu sou Emmy, uma amiga de Spencer. –Disse, piscando quando falou “amiga”. Eu juro que apenas me deu vontade de sentar no chão, chorar e depreciar. Ela, aquela vaca, era uma amiga. E o pior, eu acho que era o mesmo tipo que eu.
Meus olhos encheram-se de lágrimas, mas me controlei o máximo para não chorar na frente de todos, afinal, ele não era nada meu. Afinal, o que raios estava pensando? Ele deveria ser dela, eles são simplesmente maravilhosos, deveriam ser um casal, de certo.
–O-oi E-Emmy... –Disse, seus olhos pareciam saltar das órbitas, ele estava pior que todos nós. Spencer não estava apenas chocado, mas amedrontado. E via seus olhares passarem de mim, para ela e assim consecutivamente. Ele parecia querer se explicar com apenas olhares, coitadinho, precisaria de muitas palavras para poder me explicar quem raios era aquela mulher.
Aquela sonsa, estava basicamente debruçada sobre ele. Filha duma bela merda, idiota, recalcada, biscate... Foi apenas os palavrões mais fracos que eu pude pensar no momento. Estava atônita, o que eu poderia fazer além de xingá-la e procurar defeitos inexistentes?
–Bom, como você está, eu não deveria estar interrompendo esse momento de amizade de vocês... –Ela deu uma pequena gargalhada esganiçada, tão fina que eu jurava que iria rasgar meus tímpanos. –Mas vocês sabem, alguns ex-namorados ficam para sempre nas nossas vidas. –Ela olhou nos olhos dele e piscou. FUCKING PISCOU! Meu cérebro havia parado de raciocinar no momento em que ela disse ex-namorado. O Spencer já havia namorado? É óbvio, com uma garota daquela... Quem não iria? De repente, todos estavam olhando para mim e eu juro que não sabia o porquê.
–Do que está rindo, amorzinho? –Mais uma, mais um diminutivo na minha vida. Ai que mania de merda. Eu havia rido? Para tudo! Valeu inconsciente por menosprezar a situação assim como o consciente. Comecei a rir de verdade, eles me olhando atônitos e ela, friamente, me analisava.
–Bom, digamos que eu nunca imaginei o Spencer com uma namorada. –Eu disse, sem um pingo de rancor na voz. Apenas uma observação mesmo. Todos suavizaram a expressão, menos ele. Aquele garoto lindo que eu tinha uma relação de prazer mútuo. Ele apenas olhou para o chão e lançou um sorriso irônico ao vento.
–“Bom”, -Ela disse, imitando minha voz. Ai que garota irritante. Acho que ela quer morrer. –ele nunca namoraria com uma garota como você, disso pode ter certeza. –Ela disse, dando um sorriso no final.
Gostaria de dizer que eu não havia me importado nem um pouquinho com tudo o que ela havia proferido. Mas feriu, aquilo (de alguma forma), me atingiu de uma maneira bruta. Seus olhos claros apenas me olhavam, parecia que eles reconheciam que haviam ganhado.
Todos me olhavam, sabendo do que viria a seguir. Eu quis mata-la, mas quis me matar por não ter sido defendida por Spencer. Ele apenas me olhava, de alguma maneira, parecia que ele havia consentido com suas palavras.
Por que isso está me afetando tanto? Por que eu senti que algo dentro de mim estava se quebrando enquanto ela falava e ele observava?
Apenas saí o mais rápido que pude de onde estava. Não olhei para trás, ignorei os gritos. Apenas corri, para onde? Nem mesmo pensava nisso.
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