Aprisionada
9 Capítulo 7
Notas iniciais
Eu me sentia uma verdadeira merda. Lembrar dele me fazia sentir assim. Dela, na verdade. Sempre tive um problema sério com minha autoestima, e sinceramente, estava ainda pior por ter conhecido aquela vaca.
“Ele não é seu.” Avisava meu subconsciente, e por mais que eu quisesse mata-lo e dizer que ele era sim, não podia. Ele definitivamente não era. Portanto, jogada na minha cama, com a porta do meu quarto trancada, no meio de travesseiros, estava eu. Chorando tanto que eu pensava que poderia me afogar com minhas próprias lágrimas a qualquer momento. Não, não estou exagerando pelo simples fato que quando eu choro, eu soluço. Então fica realmente difícil chorar sem se engasgar com sua baba ou com uma lágrima.
–Abre, Jéssica! –Disse, Spencer, do outro lado da porta. Queria me fingir de morta, mas acho que não ia dar certo. –Eu arrombo, te dou dez segundos. 1... 2... 3... –Ele não faria... Faria? -4... 5... 6... 7... –Ok, eu estava me cagando. A porta parecia-me cara. -8... 9...
–Para! Eu abro. –Disse, revirando os olhos, e apesar de eu não o estar vendo, provavelmente havia bufado.
Eu estava um caos. Meus olhos vermelhos e inchados, assim como o resto da minha cara que parecia uma bolacha de morango.
Abri, devagar, dando espaço para ele entrar. Quando me viu, não falou nada. Apenas sentou-se na minha cama. O silêncio estava uma verdadeira merda, e eu estava com o coração na mão.
–Por que você está chorando? –Ele disse, me observando atentamente, indicando com a cabeça minha própria cama, para que me sentasse ao seu lado, e assim eu o fiz.
–Ela é muito linda, já te disseram isso?
–Isso são ciúmes? –Ele disse, com um sorriso debochado na boca.
–Não.
–Certeza?
–Sim.
Eu procurava olhar para qualquer lado, menos para ele. Provavelmente cederia e gritaria com ele caso olhasse para seus olhos.
–Ei, olha para mim. –Ele disse, pegando meu rosto delicadamente e virando-o de encontro ao seu. –Pronto, assim está bem melhor. Adoro seus olhos.
–Para, por favor... –Implorei num fio de voz.
–Por que?
–Por que eu estou apaixonada por você, Spencer! –Eu sussurrei, olhando para o fundo dos seus olhos, procurando alguma resposta não apenas proferida pelos seus lábios. Procurando algum apoio para minhas próprias palavras.
Se antes, seu rosto abrigava um sorriso; ele havia desvanecido.
–Esse não era o combinado. –Ele disse, se levantando, passando as mãos freneticamente pelos seus cabelos.
–É óbvio que não, mas eu não pude evitar! –Eu disse, procurando alguma palavra ou expressão de reciprocidade pela sua parte.
Ele parou na minha frente, pegou meu rosto e beijou meus lábios lentamente, meu coração se apaixonando cada segundo, cada movimento mais por ele. Quando o beijo acabou, ele colou nossas testas e olhou para meus olhos.
–Me desculpa, mas eu não posso... –Apenas se virou e saiu de meu quarto, me deixando lá, parada, vazia.
Foi como se tudo tivesse parado. Como se tudo simplesmente tivesse... Se esvaído. Eu não podia acreditar em suas palavras, ele parecia tão certo que não podia... Aquilo doía mais do que eu podia suportar, suas palavras saíram duras, ele sabia do que estava falando. Ele não iria se apaixonar por mim, aquilo era um fato. Melhor aprender a conviver com um “não”. Apesar de que não estar ao lado dele era contraditório. Eu me sentia bem junto a ele, me sentia segura e viva. Era como se em tão pouco tempo, o “eu” havia se transformado em “nós”.
Eu não sei se tudo o que senti foi bom, mas era tudo tão harmonioso, que não havia dúvidas de que ele era o cara certo. Era pelo seu sorriso, era pela suas mordidas nos lábios, seus olhos que sempre me instigavam, era seu corpo magnífico... Eu não sei o que era, era tudo, mas ao mesmo tempo não era nada. Não havia um motivo específico, eu não sei o que era, apenas sei o que éramos. Não existia mais um sem o outro, por mais difícil que fosse perceber isso, era real. Eu sabia que era! Ele havia me dito noites anteriores, que ele nunca havia sentido nada por alguém como sentia por mim... Eu devo ter interpretado erroneamente, mas sinto que ele quis dizer exatamente o que eu acho. Ele apenas não quer admitir para si mesmo, mas ele tem que sentir algo por mim. Por que se não, do que valeria tudo isso? Seríamos apenas dois amigos coloridos, sem nenhuma conexão? Não era verdade. Não era por que eu sentia. Sentia uma paixão quando ele sorria, sentia o desejo quando ele estava me beijando, sentia o carinho em seus abraços. Era impossível que não existisse nada por que eu sabia que existia, e ele também.
A noite foi passada com potes de sorvete, Diário de Uma Paixão, Querido John, O Melhor de Mim e Agora e Para Sempre. E lágrimas. Muitas. No dia seguinte, eu estava um caco. Não queria ao menos levantar da cama, ela estava acolhedora. Era como o colo de mãe que eu não viria a ter, pois a mesma estava em Los Angeles. Por que? Esse é um assunto que eu nunca gosto de abordar. Meus pais eram separados, meu pai era um ricaço que morava em Londres e minha mãe (que havia “retirado” boa parte do dinheiro de meu pai na separação) estava morando em Los Angeles. Quando era menor, jurei nunca ser como eles, eles brigavam dia e noite e aquilo foi ficando cada vez mais constante até a separação. Portanto estava há mais de 16 horas de distância da minha mãe e, basicamente um oceano de distância de meu pai.
Levantei-me da cama, após muito esforço de minha parte, e me olhei no espelho. Haviam olheiras, uma dobrinha na minha barriga, culote... Não era perfeita. Se não era perfeita externamente, como poderia ser perfeita internamente? Spencer poderia não me querer por causa disso? Minha deprê superava a de todo o mês. Ela estava insuportável a ponto de eu querer desmarcar tudo, mas como nem tudo são rosas... Tinha que ir para a Starbucks trabalhar.
Ao chegar em meu respectivo lugar de trabalho, estacionei nos fundos e coloquei meu uniforme no escritório. Já eram 8:20, precisava ir atender os clientes, mas o que me faltava era vontade. Coloquei meu melhor sorriso no rosto e atendi-os da melhor forma que pude. Ao final do expediente, estava exausta. Sábado a noite não era meu dia preferido na semana, mas ao menos eu esqueci de Spencer por um longo período de tempo. E ao mesmo tempo, pensei sobre o que iria fazer em relação a tudo isso.
Eu não poderia me desapaixonar por ele tão facilmente, então optei por fingir que eu não sinto. Eu sei que Megan e Jason vão continuar falando com ele, convidando-o para nossas reuniões e tudo mais... Mas eu supero.
Eu espero.
–Onde raios você estava, Jessica?! – Gritou Megan, ao me ver entrando pela porta. –Você sabia que todos estávamos te procurando como loucos?!
Eu assenti com minha cabeça e segui em direção a cozinha, eu estava brava. E para além disso, eu ainda estava triste. Estava a mistura perfeita para um desastre. Me alimentei com minha amiga ali, atrás de mim. Observando meus movimentos, com uma expressão de reprovação em seu rosto. Segui para meu quarto e antes de entrar no mesmo, disse:
–Sabe, às vezes nós não queremos falar, nem ser reprimidos. Apenas queremos ficar sozinhos.
Infelizmente, aquela foi a afirmação mais verdadeira que havia feito, e após fechar a porta na cara de Megan, voltei aos meus antigos hábitos.
Algo que não me orgulho é que eu me mutilo. Acho uma palavra forte, e apesar de algumas pessoas pensarem que quem faz apenas quer atenção, é mentira. Eu faço por que quero uma dor externa maior que a interna. Por que a tristeza toma uma proporção tão grande, que a única maneira de botá-la para fora é a dor. É ver o nosso próprio sofrimento. É sentir.
A automutilação é a mesma coisa que o amor. Nós nos achamos tão merecedores que procuramos e fazemos. Precisamos sentir.
Peguei a caixa que se encontrava debaixo de minha cama e retirei de lá, minha lâmina. Não a usava desde que havia conhecido Spencer, desde o dia em que eu o vi, sentado na sombra de uma árvore. Não sei o motivo de ter parado de me cortar naquele dia, apenas senti que precisava. Olhei para o lugar em que me costumava me cortar, meu peito. Havia começado quando era pequena, achei muito óbvio os pulsos. Portanto... Era meu peito.
Não no seio, mas em meu peito. Na minha barriga também... Os lugares em que eu sabia que poderia esconder. Até mesmo nas minhas costas quando podia, e após ter conferido se a porta estava trancada, eu o fiz.
Liguei a torneira da banheira e comecei a me despir. Quando a banheira se encontrava cheia, entrei, com a lâmina na mão. Cortei meu corpo em todos os lugares que eu sabia que poderia esconder depois. Via a coloração da água mudar de transparente para vermelha. Sabia que estava sangrando bastante, mas não me importava. E além de não me importar, eu sabia que não iria morrer por causa daquilo. Para que parar, então?
O último corte foi o mais profundo, as lágrimas, que corriam desde o momento em que pegara a lâmina; estavam agora fluindo freneticamente. Repousei minha cabeça na banheira e lá permaneci.
Pela primeira vez desde que me cortara, a dor interna ainda era mais forte que a externa.
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