Aprisionada
17 Capítulo 14
Os meses foram passando, minha amizade foi voltando ao normal e assim como todas as coisas, meu vexame foi esquecido. A aposta foi esquecida. Eu, graças a Deus, fui esquecida. Hoje eu já não culpava Spencer, seu pai continuava na Clínica e só irá sair em pelo menos, 3 anos. Foi isso, a vida foi passando...
Spencer e eu nunca mais nos beijamos, nunca mais nos olhamos daquele jeito malicioso que costumávamos nos olhar, Spencer e eu não éramos mais um casal. E apesar de já terem se passado 4 meses, isso ainda doía. Ainda era estranho olhar para ele com Emmy, ainda era estranho pensar que ela que o tocava todas as noites.
Ainda era estranho pensar que ela havia roubado meu lugar.
A vida estava passando e eu não sei exatamente o motivo de estar incomodada com isso. Eu sabia que não havia esquecido Spencer, sabia que ainda o amava e seria dessa maneira até que simplesmente o esquecesse, do mesmo modo que ele me esqueceu. Era estranho e não haviam motivos aparentes para eu me incomodar tanto com isso.
Megan tinha um namorado novo, que ela não quis me apresentar. Seu nome era John, e segundo ela, era um “gostoso de primeira”. O engraçado era que sim, eu estava feliz. Estava extremamente feliz por Megan estar namorando, já que ela tinha namorado apenas um cara na sétima série, apelidado de Bob Espinha. Mas ao mesmo tempo que eu estava vendo sua felicidade e me sentia feliz por ela, também sentia inveja. O que de fato era bizarro até para mim, Megan era completamente diferente de mim em tudo! Por que raios estava me sentindo com inveja? Um dos pontos ruins de se estudar psicologia é que esse é o ponto ruim: você estuda psicologia. Portanto o motivo de estar com inveja dela, temos inveja de tudo o que queremos não é mesmo? Não tinha inveja de quem Megan era como pessoa, mas tinha inveja do relacionamento de Megan. Fazia dois meses que ela estava namorando com esse John e apesar de eu nunca o ter visto, ele estava fazendo um bem muito grande para ela.
O mesmo bem que Spencer me fazia.
E isso tudo, toda minha dor, minha raiva e minha confusão levava ao Spencer. Era ele. Ele era o motivo de todas minhas perguntas e também era a resposta para todas elas. Ele era um motivo e doía saber que eu já não era mais o motivo dele. Às vezes me pegava pensando se de fato ele amava Emmy. Para mim, não parecia amor. Parecia atração sexual e olha lá. Não que eles não ficavam bem juntos, pois sejamos sinceros, eles ficavam; a menina mais linda com o mais lindo e popular. Fodam-se esses dois. Tomara que batam o dedinho na quina da cama enquanto transam como dois coelhos raivosos.
Eu sinceramente não estava mais me encontrando e isso me deixava angustiada. Eu sempre tinha sido tão sociável, adorava as pessoas... E não que eu tenha parado de gostar! Mas apenas... Onde eu estava? Onde estava a verdadeira Jess?
A resposta eu sabia: claro que estava ainda presa ao Spencer.
–Heu, Jessica! Vamos no Lambstern? –Perguntou Jason, me olhando com aquela cara de “Onde raios você estava enquanto eu tagarelava com o grupo?” –Eles estão fazendo self-service de comida oriental! –Ele bateu palmas, extremamente engayzado. Vê-lo daquela forma, feliz pela comida oriental me fez abrir um sorriso.
–Aham, vou apenas pegar minha bolsa, ok? –Eu falei, com meu material na mão. A minha bolsa havia sido deixada em casa, podemos dizer que eu era saideira mas na verdade, extremamente preguiçosa depois de ouvir por seis horas e meia a Dra. Petterson falando e falando... Misturando Freud com suas próprias experiências amargas e desagradáveis de vida. Por Deus, mulher! Se Freud fosse seu terapeuta ele teria desistido no primeiro momento, enterraria sua cabeça no divã e faria tentativa de suicídio psicanalítico logo após!
Segui para meu apartamento e de Megan depois de ter combinado com eles que em pelo menos 20 minutos eu estaria com eles no Lambstern. Droga de comida oriental, iria me fazer sair correndo depois de uma dose excessiva de preguiça.
Peguei a bolsa e ao estar saindo, me choquei ao ver Spencer e Emmy se beijando de uma forma estranhamente selvagem, puramente carnal. Fazíamos isso.
Olhei atônita para a cena na minha frente e quando Spents me olhou, se afastou dela, me olhando com um olhar de cumplicidade. Ela apenas olhou para mim e começou a rir. Senti minha camisa molhada.
–Você está realmente chorando, Jessica!? Quão ridícula... –E ela gargalhava mais e mais. Eu não havia percebido que estava chorando até o momento que senti minha camisa extremamente molhada. Depois da humilhação, lágrimas corriam livremente pela minha bochecha...
–Me desculpem, foi um acidente que não se repetirá...–Disse com a voz fraca, soluçando. E de repente, de uma hora para outra mesmo, um ódio cresceu dentro de mim. Algo que eu nunca tinha sentido antes.
Uma parte de mim queria sentar no chão e chorar pelas próximas três horas, mas a maior parte... Desistiu. Desistiu de aguentar. Desistiu de engolir tudo e apenas assentir com qualquer coisa que qualquer pessoa falava. Meus olhos azuis rapidamente endureceram e minhas lágrimas pararam abruptamente.
–Sabe, você deve se achar muito necessária, muito única Jess... Saiba que não é, o Spencer te trocou por mim depois daquela aposta e você foi burra o suficiente para acreditar nele... Você foi burra o suficiente para acreditar em você. Você sabia lá no fundo que na verdade, ele só queria seu corpo. E nossa, reparando agora em você –Ela para com sua voz esganiçada e me olha de cima a baixo, tentando e falhando ao me intimidar- ele poderia ter escolhido melhor.
Ela esperou que eu desabasse, Spencer simplesmente não sabia o que fazer, estava do outro lado do corredor praticamente, não sabendo se escolhia seu coração ou sua cabeça. Ambos olhavam para mim esperando por uma reação frágil da minha parte, mas ela simplesmente não veio. Ao invés disso, apenas sorri. Meus olhos entregando toda a fúria contida.
–Sabe o que eu acho, Emmy? Acho que tenho dó de vocês dois. Por se merecerem tanto. Eu fui enganada, mas pelo menos meu coração é puro, meu coração foi ingênuo o bastante, puro o bastante para acreditar no Spencer. Mas aí que está: eu cresci com isso. Aprendi com isso, principalmente que há pessoas confiáveis e pessoas não tão confiáveis assim. –Olhei para Spencer, ele estava vermelho e com um olhar de extrema angústia. –Sabe o que acho, querida Emmy? Acho que você é nojenta o bastante para precisar de outra pessoa para tentar mostrar que você não tem falhas, sinto muito, mas você falha nisso. –Sua guarda tinha abaixado, ela procurava o tempo todo desviar o olhar, recuava a cada passo que eu dava em sua direção.- Você falha por que em cada sorriso que você dá, libera um pouco de veneno me todos a sua volta. Você falha tentando tanto ser perfeita que não entende que a perfeição simplesmente não tem graça. Você não tem graça. Tomara que sua tentativa inútil, falhada e nojenta como você de me derrubar tenha te ensinado a lição. Nunca mexa comigo.
Ambos olhavam para mim, boquiabertos. Eu estava ofegante, um grande peso havia saído de meus ombros. Hora de resolver as coisas com Spencer.
–E você... –Apontei para ele e segui em sua direção –Você... Eu pensei que você tinha mudado, pelo visto me enganei. Na verdade eu sempre pensei que você pudesse mudar, e que desse a mínima para alguma coisa que a gente tinha... Mas não. Você está acomodado com ela e sinceramente, acho que os dois se merecem. Os dois me causam repulsa. –Ele tentou me alcançar porém eu me esquivei, queria manter o máximo de distância dele e daquela garota- O problema de vocês é que simplesmente acham que as pessoas não são verdadeiramente pessoas. Vocês se merecem, sejam felizes.
Dei um sorriso ao casal e saí, segurando minha bolsa, de cabeça erguida e pensamentos nebulosos.
Por que tudo me levava de volta para ele? Por que eu sempre encontrava minhas respostas nele? O que ele tinha que me fascinava tanto? Por que eu continuo amando-o mesmo depois de tudo? Será que eu tinha algum problema?
Acho que percebemos após um tempo que o que nos prendem ao mundos, aos objetos... São as pessoas. Nós nos prendemos tanto a ideais e até mesmo nem isso, nos prendemos tanto no que acreditamos precisar que tudo nos dói em dobro. Lembro-me de pensar pela primeira vez que estava liberta, mas aí que está. A liberdade nunca de fato acontece até que libertemos a última corda, a última jaula que nos prende. Na verdade, por vezes penso que nós mudamos de corda quando a que estamos fica gasta, mas nunca deixamos de ficar presos.
Assim como ele é minhas perguntas e também minhas respostas, ele foi o único que me libertou, mas que por sua vez, me prendeu completamente a si.
Me tornei aprisionada ao Spencer.
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