Notas iniciais
Bloqueio. A minha pessoa estava bloqueada, mas felizmente, não estou mais! Aproveitem!

Incrível como tudo o que sempre pedimos para não acontecer, acontece de uma hora para outra. Incrível também como as pessoas simplesmente podem nos decepcionar facilmente, e como por mais que tentemos não o fazer, nós confiamos nelas. Acho extraordinário a facilidade que temos em apenas acreditar nas pessoas, em cada palavra e promessa que são proferidas por seus lábios.

Spencer me levou para a parte de trás da faculdade, puxando minha mão, impulsionando-me para frente. Eu queria saber o motivo, realmente gostaria de saber o que merda aconteceu para que ele me deixasse desta maneira, mudada. Não que eu não goste de como eu sou, creio que mudei rapidamente e também amadureci na mesma intensidade; apenas gostaria que as coisas fossem mais... Lentas. Gostaria que tudo tivesse acontecido de maneira mais lenta, mas fui obrigada a dançar de acordo com a música.

–Mas que porra...?! –Fui surpreendida novamente pelos seus lábios nos meus, mas parei de imediato; poderia aceitar muita coisa, mas nunca seria sua segunda opção, sua amante. –Para! Que merda, Spencer?!

–Me desculpa. É só isso o que eu peço. –Ele pediu, com olhar suplicante. Felizmente, não seria tola o suficiente para acreditar novamente em uma mentira.

–Não. Spencer, escuta bem o que eu vou te falar agora, porque eu não vou repetir: Eu não vou te perdoar. Você teve chance de não me machucar, e você simplesmente escolheu fazer daquele jeito mesmo sabendo quem eu realmente era. Você pode ter mudado, eu sinceramente não sei. Mas do mesmo jeito que você mudou, eu também o fiz. E me recuso, repito: me recuso a cair nas suas mentiras novamente. –Seu olhar se tornou triste e frustrado em uma fração de segundo, mas eu prossegui. –Se quiser se explicar, você tem todo o direito, mas não espere que eu volte para seus braços. Isso não vai acontecer.

Era incrível como seu olhar me desarmava, como seu corpo me derretia e me deixava com aquelas “borboletas no estômago”, eu não queria saber de amar Spencer, não sabia se ao menos aquilo era amor! Sabia apenas que o que eu sentia por ele era mais que atração, mas o pensamento de que eu poderia continuar amando-o mesmo após o que ele fez comigo era amedrontador demais para que eu insistisse na ideia.

Spencer me olhava de uma maneira que eu nunca havia visto na vida, seus olhos eram uma mistura de tristeza, frustração e angustia. Pareciam verdadeiramente abalados e infelizmente, doía vê-lo daquele jeito sendo que eu era a causa desse olhar que tanto me magoava.

–Escuta Jess, isso pode parecer idiotice, você pode realmente me querer fora da sua vida depois dessa e eu sinceramente entenderia se essa fosse sua escolha, só gostaria que ela fosse diferente. –Ele suspirou antes de continuar- Não sei o quanto você sabe sobre mim, mas eu sempre contei a todos que meus pais haviam falecido e eu havia ficado apenas com meus avós; o problema é que isso aconteceu. Mais ou menos, na verdade. –Eu me encontrava chocada, nem mesmo por um segundo poderia cogitar a ideia de Spencer falar sobre os pais dele, muito menos para me explicar que eles haviam morrido.- Meu pai ele é um bêbado, minha mãe sempre soube mas fazer o quê, nós não escolhemos quem amamos. Meus pais viviam brigando por isso, e eu cresci na casa dos meus avós, ouvindo minha mãe sendo chamada de vadia e meu pai de dependente. Podemos dizer que minha infância não foi das melhores. –Ele deu um riso sem graça- Houve um dia em que eles foram viajar e antes de irem, meu pai prometeu à minha mãe que não beberia. Ele não bebeu na ida, quando foi dirigindo, mas na volta... –Ele parou, desviou se olhar do meu e continuou- Na volta ele descumpriu a promessa. Meu pai simplesmente bateu de frente com uma árvore por estar louco demais para levar sua esposa grávida de 5 meses... –Sua voz falhou e eu reparei na lágrima sorrateira que caiu de seus olhos- Eu poderia ter mandado meu pai se fuder, poderia e sinceramente, era o que eu queria. Mas eu sei que não seria capaz, sei que eu não sou capaz disso. Desde então eu venho tentado ganhar dinheiro para conseguir pagar a Clínica de Reabilitação.

Eu não poderia estar mais perplexa. Ele havia sido uma criança infeliz, que não foi criada com os próprios pais e quando ele vai ganhar um irmãozinho... Ele perde. Ele perdeu tudo. E isso doía até mesmo em mim. Nem mesmo reparei nas minhas ações, meus braços imediatamente rodearam sua cintura, minha cabeça descansou no seu ombro. E eu chorei.

–Ei, minha pequena, por que você está chorando? –Ele perguntou, tirando o cabelo de meu rosto e limpando algumas lágrimas. E era disso que eu tinha saudade.

Eu poderia ser a pessoas mais teimosa do mundo, mas eu reconheço quando eu tenho algo que quero esconder e esse era o exemplo perfeito. Eu poderia negar para todas as pessoas que me perguntassem, mas eu sentia saudade. Lá no fundo, eu só queria o abraço dele pra me dizer que ficaria tudo bem; queria apenas ouvir a voz dele dizendo que me amava. Lá no fundo, o que me matou era minha cura.

–Você não merecia sofrer, você era apenas uma criança! Eu sinto tanto, Spents...

–Você não tem ideia de como eu sentia falta da minha garota.

Nesse momento nossos olhares se cruzaram e nos beijamos mais uma vez, tentando, apesar de ser de uma maneira falhada e por um motivo triste, recuperar todas as pecinhas que havíamos derrubado no chão.

E confie em mim, nós pegaríamos todas.