Aprisionada
14 Capítulo 11
Não sei o que me deixava mais propícia ao misto de sensações que estava sentindo, se era o olhar faminto em seus olhos, se era o lugar cercado por uma tensão palpável que se misturava o desejo de ambos, se era meus pensamentos infames e imensuravelmente “certos”.
Ao entrarmos no salão, meu coração começou a palpitar inacreditavelmente rápido. Pensamentos do que viria ocorrer me faziam transpirar, mas estar na sua presença era reconfortante. Ao chegarmos ao tão esperado lugar, me senti tremendamente confiante; o que posso dizer, não estava mais em mim. Se era o jogo que iríamos jogar, por que não ser a ganhadora?
Depois de um olhar avassalador, seu corpo foi de encontro ao meu, e sua boca foi em direção ao meu pescoço. Seus beijos inundaram todos meus pensamentos, e se antes eu estava hesitante em fazer algo, acabara de ter a certeza de que não fazer nada seria errado. As palavras carinhosas que eram sussurradas em meu ouvido só me deixavam sentir ainda mais vontade de tocar sua boca, que nada mais era que uma passagem para sua alma. Ao sentir suas mãos pressionando suavemente minha cintura, afaguei seus cabelos, querendo que nada mais nos separasse. Se era para ser por uma vez, que fosse por muito tempo. Que não parasse nunca mais.
Subitamente, seus beijos cessaram, deixando uma marca visível que mostrava que era apenas dele. E até mesmo que não houvessem marcas, seria dele sem mesmo proferir palavras, meu coração já estava comprometido. Sua boca entreaberta só deixava-me com mais vontade de atacá-la, cessando o espaço que nos separava, mas eu não podia.
Suavemente, minhas mãos foram de encontro à seu tronco, raspando minhas unhas por todos os lugares que me interessavam. Suspiros saíam de seus lábios e o desejo de algo proibido era basicamente incontrolável. Suas mãos me tocavam em lugares que com outros, me sentiria desconfortável e até mesmo com vergonha. Mas com ele isso não existia, só queria sentí-lo e não poder tocar seus lábios era torturante, mas de qualquer forma, era uma tortura magnifica. Suas palavras carinhosas continuaram a ressonar, fazendo-me delirar para tê-lo em meus braços.
Depois de termos explorado nossas curvas, sentei-me em seu colo e pela primeira vez em tempos, senti que se estava feliz. Independentemente de todas as falhas, de todos as promessas desfeitas, seus braços eram minha morada.
Acordei suando, o lençol da cama grudava em meu corpo, me deixando mais irritada ainda. As lembranças voltavam e voltavam cada vez mais, e eu não aguentava. Estava irritada, não queria ter aula com o professor Carpenter e não queria ver Spencer. Queria muito menos ter que aguentar suas indiretas e seus pedidos de desculpa. Juro que não era graça, não era nem mesmo vontade de ser difícil; era cansaço. Estava cansada a ponto de não querer ver a cara dele. Haviam se passado aproximadamente 3 semanas desde que houve o ocorrido da sala de aula. Se eu havia refletido bastante nessas três semanas? Obviamente. Eu havia refletido se era realmente o que eu queria, se era realmente ele que eu tanto queria. É difícil ter que aceitar que por vezes as pessoas erram, e pior: é difícil pensar que as pessoas podem se arrepender. Isso apenas acontece quando temos apenas a visão boa das coisas, por ingenuidade excessiva ou apenas medo. Isso acontece quando nós somos idiotas e escolhemos nos ferir, pensando que será diferente. Mas na verdade, nos deparamos com algo totalmente inesperado.
Não sei se isso é culpa da sociedade ou se veio de nossos primórdios, mas a ideia de ser feliz parece tentadora para todos. Mas aqui quero deixar minha pergunta: o que é a felicidade? A felicidade se baseia numa verdade ou apenas numa ilusão que te traz momentos bons? Me pergunto demais isso, pois eu era feliz com Spencer. Mesmo com todos os erros, todos os xingamentos, todas as brigas e todos os desentendimentos. Aquilo foi o mais perto de felicidade que eu já pude ter.
Mas aí está: eu me sentia feliz, mas era uma felicidade baseada numa mentira, afinal, aquilo era feliz? A história, os momentos... Aquilo era felicidade? A felicidade consiste em apenas sentimentos, ou ela é algo um pouco mais racional e o ser humano é tão romântico que quer apenas fantasia-la?
Pensava em todas essas questões enquanto dirigia para a querida faculdade. Seattle me parecia ainda mais bonita nessa hora do dia, o sol batendo contra as paredes de todas as construções, as nuvens preenchendo o céu, misturando-se com a atmosfera matinal e deliciosa... Percebe agora como o ser humano romantiza as coisas? Sinceramente, sem querer parecer rude: Seattle estava aparentemente normal. O sol estava nascendo o que era realmente bonito, mas... Era tudo extremamente monótono.
Desde o ano anterior eu havia parado de pegar carona com Megan, agora possuía meu próprio carro, assim como meu emprego e horários para estagiar no Hospital Augusteous. Sabia que alguém iria começar a estagiar comigo, cuidando de necessidades básicas de alguns pacientes com dificuldades (especialmente pacientes que possuíam algum tipo de doença e necessitavam de ajuda para a auto-aceitação) e me ajudando a preencher formulários para entregar para Sra. Harbel. A vida estava atribulada, e eu adorava quando chegava em casa cansada, apenas querendo dormir e comer. Parecia que meu dia havia fluído, adorava minhas dores de cabeça de tanto estudar e trabalhar. Minha vida estava uma maravilha do ponto de vista econômico, mas socialmente... Eu estava deixando um pouco a desejar. Havia me afastado generosamente de Meg e Jason desde aquele dia.
Estacionei e caminhei até a sala 27, onde seria a próxima aula. No caminho, observava as pessoas, procurando algum rosto familiar para mim. Até que os encontro. Jason, Megan, Spencer e Emmy. Dando boas risadas, encostados na parede como amigos íntimos, colocando até mesmo a mão em suas barrigas para aliviar o esforço físico que suas gargalhadas estavam causando. Eu fiquei chocada.
O garoto havia feito tudo aquilo comigo, aquela vaca havia ajudado e agora meus dois melhores amigos estavam rindo com eles?! “Uma hora a máscara cai.” Apenas pensava nisso, quem sabe aqueles dois não haviam ajudado? “Pare. Eles não são propriedade sua, eles podem ter os amigos que quiserem. Até mesmo um cafajeste e uma vaca. Eles não são seus.”
Eu me encontrava longe deles, apenas os observando, odiando o fato de estar sentindo inveja. Observei os pormenores de todos, mas passei um tempo a mais analisando os de Spencer. Seus olhos não pareciam acompanhar a felicidade do grupo, ele procurava se esquivar de qualquer proximidade que Emmy tentava alcançar, seus risos eram forçados e todos repararam nisso. Ele definitivamente procurava alguém, olhava sempre para seu lado direito. “Você costumava chegar pelo lado direito.”
Aparentemente, ele lembrou-se que haviam dois lados, pois finalmente olhou para a esquerda e seu olhar prendeu no meu. Ficamos os dois parados, encantados com a proximidade que 6 meses juntos nos havia causado. Nossa conexão ainda permanecia, mas dessa vez eu não queria quebrar o contato. Aquilo me parecia felicidade, me parecia real, independentemente de quantas mentiras tivessem sido contadas, eu tinha certeza que todas as palavras, todos os sentimentos, sorrisos e lágrimas... Tudo havia sido verdade. Inesperadamente, ambos sorrimos juntos.
E nos surpreendemos quando eu dei meu primeiro passo em direção a eles. A atenção de todo o grupo tinha sido voltada para mim, Megan sorria, um sorriso que rasgava sua face e Jason... Bem, Jason se encontrava surpreso. Talvez pela maneira de eu caminhar, como se eu estivesse confiante de cada passo, de cada escolha que eu fosse tomar e que tinha tomado. Mas a melhor das expressões, foi a de Emmy. Ela não estava apenas surpresa, mas estava em choque por eu não estar mais me escondendo de tudo e de todos. Estava em choque pois finalmente ia me conhecer.
Eles não se moviam, Spencer olhava para a minha forma de caminhar, a forma como eu me vestia... Sorria e assentia a cada passo que eu dava, como se ele dissesse “Até que enfim, é aí que você estava!”
E sinceramente, ele estava certo. Finalmente, era lá que eu estava.
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