Pessoas normais, acomodadas com suas vidas, costumam dizer que nunca, independentemente do que façam, as pessoas podem vir a mudar. Todos sempre serão quem um dia já foram. Acho, hoje, esse ponto de vista uma verdadeira merda.

Comecei a semana seguinte (não me julguem, eu fiquei meio que na fossa e pensei em como poderia dar a volta por cima) muito bem. Primeiro, resolvi mudar. Porque eu precisava começar com algo diferente. Nem que se fosse alguns pensamentos, apenas que fossem diferentes. Mas o que me deixava surpresa e assustada ao mesmo tempo, é que eu de fato me sentia diferente. Hoje não sei se foi apenas uma maneira do meu inconsciente escapar da relação conturbada e de seus fatores, ou se foi algo real. Eu simplesmente mudei.

Foi algo incrível e um tanto quanto repentino, eu apenas refleti.

Como as pessoas poderiam me deixar tão mal? Como eu pude me enganar tanto quanto à elas? E o pior, como eu me deixava ir tão abaixo por elas? Foi aí que eu me liguei, foi aí que eu descobri que as pessoas iriam fazer o que quisessem comigo, se elas tivessem a satisfação de me ver destruída. Foi aí que eu resolvi ser outra pessoa, resolvi ser diferente, pensar de uma maneira diferente e ser da maneira que eu gostaria de ser. Apenas pensei, para que apenas querer ser diferente? As coisas só vão mudar quando você mudar.

Cortei meu cabelo, minhas recém-feitas mechas claras, foram para o chão. Deixando apenas um leve rastro da pessoa que eu havia sido. Não queria ser a mesma pessoa, não me importaria em passar a dor que eu provavelmente passaria. Essa dor criaria a casca para a cicatriz aberta. Meu cabelo mudou, ao invés de comprido, moreno e com mechas claras, ele agora estava curto, loiro e com mechas azuis.

No salão, as pessoas me olhavam como se fosse um alienígena, apenas por eu querer ser diferente. Parei de me importar se no final, as pessoas gostariam de mim ou não, resolvi ser eu, fiquei muito tempo sendo alguém que os outros gostariam que eu fosse.

A tatuagem que agora encontrava no meu pulso, me impedia de desistir. A frase “I refuse to sink.” com uma âncora ao lado, me impediam de querer afundar. Afinal, como diz a própria frase, eu me recuso a afundar.

No caminho para a faculdade, com meu novo look e nova maneira de agir, atraí muitos olhares. Pela primeira vez, não me importei. Não pensem que eu havia virado uma rebelde, que não liga para os sentimentos dos outros e que pensa apenas em sexo, drogas e rock n’ roll.

Não, eu ainda era apaixonada por animais, amava o amor, e respirava otimismo. Apenas havia resgatado uma parte de mim que pensava que não tinha mais. Esperança.

A esperança de que a minha fortaleza está em mim mesma, que me porto seguro, é exclusivamente eu.

–Ai. Meu. Deus. –Disse Megan, com uma expressão de horror e espanto no rosto. –O que raios você fez com seu cabelo? E que merda é essa no seu pulso?

–Bom, meu cabelo está endereçado para um hospital de câncer e no pulso... –Pensei por um momento antes de responder. –No meu pulso está a frase que me define.

Megan prestava atenção em todos os detalhes minuciosamente, como se tentasse achar algo que não via a muito tempo. Até que ela parou.

Acho que esse momento, nunca esquecerei. Ela olhou para mim, com os olhos cheios de lágrimas, sorriu e falou: “Aí está você!” .

E essa foi a gota d’água, foi aí que eu decidi ser essa pessoa, aquela parte que haviam retirado de mim. Foi aí que eu decidi ser a mulher que eu nunca tive coragem de ser. Fui aí que decidi ser eu mesma.

–Meu Deus, mas que poderosa! Que isso, hein? Deu a louca e resolveu parecer a Avril Lavigne de cabelo curto?! –Jason apareceu, rindo, se divertindo com minha aparência. –Você está absolutamente linda.

Sorri, eu me sentia daquela maneira. Estava linda, porém, principalmente por dentro. Onde não havia mais vestígio de ingenuidade. Apenas uma vontade enorme de fazer justiça. Mas fazer o que, não é da minha índole a vingança. Apenas seguirei minha vida, com um coração quebrado, cabeça nas nuvens, uma bela história para contar, lembranças que provavelmente doerão, um sorriso verdadeiro e bom... Uma experiência de amor verdadeiro.

Por que sim, é o que eu sentia por ele. Amor verdadeiro. Era aquele sentimento louco, que te conforta e te deixa simplesmente bem com tudo e consigo mesmo; é quando você se importa tanto com a pessoa que você não consegue mais viver sem ela, por mais que tente; é quando você tem vários motivos, mas ao mesmo tempo não tem nem um para justificar o porquê de amar tal pessoa.

Se eu amei Spencer? Sim, sem sombra de dúvida. Eu sinceramente ainda amo Spencer, porém sinto que ele não merece meu amor. E por Deus, como isso dói. Parece que dilacera o sentimento de ter sido feita de idiota, de ter se dado quando alguém simplesmente brincou com você. Não há pior coisa do mundo do que ter sido enganada. Sei isso por experiência própria.

–Obrigada! –Sorri, curvando meus lábios em um sorriso terno.

–Spencer não vai acreditar quando te ver desse jeito! Ele ou vai surtar, ou vai descobrir o que ele perdeu. É agora que a máscara daqueles dois vai cair! –Disse Jason, de um jeito extremamente gay. Meio pulando e batendo palminhas. Simplesmente ele havia saído do armário nessa última semana e eu não havia conversado com ninguém. Apenas saía a noite, não deixava ninguém me ver, e quando me viam, minhas respostas eram curtas e diretas.

Meus amigos entendiam que aquela semana tinha sido importante para mim, uma semana dedicada apenas à mim. Foi importante, e eles respeitaram isso. Aquele também era um tipo de amor. Um tipo de amor que poderia durar para sempre, apesar de ser um amor fraterno.

–Ele ai ficar maluco! Meu Deus, você está tão diferente... –Disse Megan, ainda chocada. Porém agora ela estava mais conformada, seu olhar ainda transmitia surpresa.

–Falando no capeta... –Disse meu amigo, olhando para um ponto atrás de mim. –Ele parece ainda mais gato do que uma semana atrás. Filho de uma puta.

Me virei, querendo saber de quem ele estava falando. Lá estava Spencer e sua bela namorada Emmy. Tomara que aqueles dois se comam, dois idiotas. Afinal, se merecem. São dois idiotas que adoram fazer os outros de idiota.

Estava tão absorta em meus pensamentos que só percebi que os estava encarando quando Emmy acenou. Vadia. Spencer me viu naquele momento e sua reação foi a mais inesperada: ele franziu a testa, sua expressão se tornou raivosa e ele trincou o maxilar. Aquela fora a primeira vez que eu o havia visto bravo. Mas não era pouco bravo, vi o momento em que os nós de seus dedos se tornaram brancos de tanto apertar a mão de Emmy e ela soltou um gritinho agudo e nojento. Típico de vaca.

Quando acabou de acudir sua namovaca, seu olhar encontrou novamente o meu e ele se tornou totalmente inexpressivo. Arqueou as sobrancelhas e continuou seu caminho. Não queria que aquilo o tivesse atingido, a velha Jéssica até faria isso para ver se o atingiria. Mas a nova Jéssica, não. Inicialmente eu fiz por mim, toda a minha mudança foi apenas para mim. Mas se o atingiu, eu estava muito bem.

Fiquei assustada com a quantidade de matéria que eu havia perdido durante essa semana. E em todas as aulas foi difícil para eu me concentrar com Spencer me encarando. Na última aula, eu não consegui mais aguentar, por alguma infelicidade do destino, Spencer sentou ao meu lado. Deve ter sido por que ele estava engolindo sua namovaca, mas optei por ignorar esse fato.

–Você pode por favor, parar de me encarar como se eu fosse um alienígena? –Perguntei, olhando nos seus olhos. Confrontando-o de uma maneira que eu nunca cogitaria fazer.

–Você mudou, Jessie. –Ele disse, ignorando minha pergunta. Seus olhos cravados nos meus. Ele prosseguiu –Você está tão diferente, que se não fosse por esses olhos e pela voz, eu não acharia que é a mesma pessoa. Mas tenho que admitir, você está linda. –Nos seus olhos eu realmente via reconhecimento, um pouco de carência e uma coisa, que realmente me tocou: orgulho.

–Você viu como eu mudei né? É, algumas mudanças fazem parte da vida. A gente tem que saber abrir mão de algumas coisas quando não somos bons o suficiente para elas. –Disse, fugindo completamente do assunto, mas indiretamente, explicando o motivo da mudança. Após alguns momentos de tensão e olhares trocados, eu continuei –Às vezes, Spencer, as únicas pessoas que merecem alguma mudança somos nós, mais ninguém. Há pessoas que conseguem quebrar nossas barreiras, e depois, nos fazem construí-las uma por uma... E é por isso que eu mudei. Se as pessoas vão quebrar minhas barreiras de qualquer maneira, para que eu vou teimar em reconstruí-las? –Ele olhava com tristeza, abrindo e fechando a boca vezes sem conta. Meus olhos possuíam algumas lágrimas, mas elas apenas não caíram. –Eu recusei por muito tempo ser feita de idiota novamente, mas eu fui. E sei lá... Se doeu? Foi horroroso. Mas eu aprendi que ninguém merece mais amor que eu mesma, eu nunca mais vou deixar que me roubem o pouco que eu sou. Não vou permitir que me humilhem novamente, pois dessa vez –Eu enxuguei o canto dos meus olhos, impedindo as lágrimas de caírem- eles vão se deparar com uma pessoa que eles nunca viram antes. –Dei um sorriso, que até mesmo me arrepiou.

Seu olhar se acendeu, ele ficou rígido, mas de uma maneira estranhamente positiva. Como se ele estivesse finalmente entendendo que eu havia me transformado em uma mulher forte. Seus olhos, em nenhum momento de nossa conversa, desencontraram os meus. Ele sorriu.

–Você é melhor que eu pensava. Você... –Ele rompeu essa conexão, já instalada quando o sinal tocou. Me levantei, enquanto sua namorada vinha em nossa direção.

–Então eu estou indo, hm, passe bem. –Dei um sorriso irônico e me virei. Caminhei até a porta, quando senti uma mão me parar.

Olhei para trás e lá estava ele.

–Eu seria muito idiota se falasse que posso ter me apaixonado por você? –Ele disse, quebrando um pouco a tensão que preenchia o ambiente há poucos momentos. Nem mesmo pensei na resposta, apenas a disse me voz alta.

–Não, eu seria idiota se acreditasse nessas palavras.