Aprisionada

3 Capítulo 1 Parte 2


Ao chegar na sala procurada, nenhum olhar se desviou para mim e silenciosamente agradeci a Deus por isso. Não, eu não era uma garota propriamente tímida, mas eu era “na minha” (claro que eu ficava “na minha” até alguém me provocar, depois já não era responsável pelos meus atos). Sentei-me na última cadeira da fileira perto das janelas e atentamente observei a paisagem das enormes árvores balançando no ritmo do vento, era como música, era puro e imensamente pacificador. Um garoto de olhos azuis maravilhosos e corpo escultural me observava lá de baixo, quando reparou que também o estava observando, desviou o olhar, levantou do banco em que estava sentado e entrou no Campus.

Sem ao menos perceber, me lembrei do que ocorreu-se à alguns minutos e pelo pouco que conhecia dessa faculdade, eu sabia que aquilo não viraria assunto, eles pareciam se preocupar mais com suas próprias vidas (que eram basicamente festas, unhas, cabelos e garotos) do que com uma briga qualquer, e eu sabia que apesar de não ter ido com a cara da Loira Siliconada eu não teria mais problemas com ela.

Lentamente a classe foi se enchendo, alunos pareciam se conhecer de longas datas e aparentemente, haviam grupos já formados de acordo com os interesses semelhantes. Observei o garoto que eu havia visto pela janela adentrando a classe, cruzando seu olhar com o meu por meros instantes. Sem me aperceber, sinto uma mão me balançando levemente, procurando chamar me atenção de alguma forma, pois eu estava ligeiramente perdida em meus pensamentos e naqueles olhos cor do céu.

–Me desculpe, eu estava procurando te chamar a atenção de alguma maneira, queria saber se esse lugar está vago... –Disse o garoto até então desconhecido para mim.

–Oh, sim, é claro. A propósito, meu nome é Jéssica. –Eu falei, estendendo minha mão em um cumprimento educado.

–Prazer Jéssica, meu nome é Jason. –Ele disse, retribuindo meu aperto de mãos. –Bom, estavam me falando que essa aula é uma verdadeira seca, ela é chatice pura... O professor é um barrigudo, fedido e careca, pelo o que me disseram... –Jason pronunciava tudo com um sorriso tímido, cada palavra num sussurro, como se as pessoas pudessem estar escutando o que estávamos dizendo, ele parecia-me um garoto educado e divertido, mas ainda era cedo para tirar minhas conclusões.

–Bom, se ele for barrigudo e careca está tudo certo, mas se para completar o pacote ele for tarado... Aí fudeu. –Eu sussurrei, entrando na brincadeira, me permitindo dar uma leve gargalhada baixa no final. Ele me acompanhou e de repente estávamos rindo um da gargalhada do outro.

Eu não havia reparado até então, mas ele era muito lindo. Era bastante musculoso, possuía um sorriso grande e branco, covinhas em suas bochechas, olhos verdes quase transparentes de tão cristalinos e cabelos loiros. Tudo contrastava com sua pele macia e clarinha, como neve. Mas apesar de toda a sua beleza, ele ainda não era mais lindo que aquele garoto que vira a minutos atrás sentado num banco de madeira de baixo de uma árvore. Parecia que estávamos nos observando, um reparando nos pormenores do outro. Até que Jason subitamente fala, ainda me olhando:

–Isso poderia ser uma parte lamechas em que eu diria que eu te acho linda, e você realmente é umas das meninas mais lindas daqui, e garota, eu não minto... Mas infelizmente, eu sou gay. –Ele riu no final, pois sabia que ninguém falaria que ele era gay.

Minha boca adquiriu um leve formato de “O” e eu empalideci.

–Eu sei que sou bonito e isso é aparentemente, um desperdício de corpo, mas eu como da mesma fruta que você. –Ele disse, esboçando um sorriso magnificamente sincero.

–Ai. Meu. Deus. Você é gay! Eu não tenho nenhum amigo gay, que demais! Obrigada pelos elogios, mas meu Deus... –Eu falava baixo, enquanto ele ria. Meu cérebro ainda não estava raciocinando muito bem o fato de que aquele semideus era gay.

Começamos a nos soltar a medida que as pessoas entravam na sala, e eu acabei percebendo que ele era um garoto confiável e que ele iria amar a Megan. Combinamos que ele iria dormir em casa hoje, para que pudéssemos nos conhecer melhor. O professor chegou bem na hora em que estávamos discutindo o porquê dos pôneis serem melhores que marshmallows.

–Bom dia classe, eu sou o professor Alfred Carpenter e infelizmente, como é costume em nossa escola, devemos fazer as apresentações, da primeira fileira para a última. Comece, por favor. –Ele disse, apontando para uma garota ruiva na primeira fileira.

O tempo corria e as pessoas iam fazendo suas apresentações e informando a sua idade, nome, onde morava, curso... Coisas do gênero. Eu não tinha prestado atenção em nenhuma delas até que chegou na apresentação do Garoto de Olhos Azuis.

–Hm, -ele clareou a garganta, fazendo um som que me arrepiou- meu nome é Spencer Parker, tenho 20 anos, moro aqui desde sempre, curso Psicologia. –Sua voz era rouca e baixa, todas as pessoas se sentiam, aparentemente, intimidadas com esse garoto. Eu especialmente, pois ele falou tudo olhando para mim, como se estivesse me contando quem ele era.

Nossos olhares se sustentaram por mais 3 apresentações, quando chegou a vez de Jason, esse começou sem pestanejar:

–Meu nome é Jason Bucchianeri, moro aqui desde sempre, tenho 21 anos, curso Nutrição e bem, sou gay. –Ele disse com um sorriso no rosto, todos olharam para ele com um leve olhar de decepção, principalmente as meninas, que estavam se babando até poucos segundos antes de sua “revelação”. Ninguém ficou chocado ou o repreendeu, apenas deram de ombros. Após Jason, era eu, portanto rapidamente comecei.

–Meu nome é Jéssica Starling, nativa de Londres e me mudei para cá esse ano, depois de ter sido aceita com uma amiga para essa faculdade. Curso Psicologia e tenho 19 anos. –Não havia como esconder, meu sotaque era bastante carregado, disse numa voz baixa, pois estava envergonhada e olhando para minhas mãos. Não sou uma pessoa tímida, mas já disse que odeio atenção? Pois...

As apresentações foram passando e logo o sinal bateu, indicando que a aula havia acabado. Uma voz saiu dos autofalantes que se encontravam distribuídos pela sala de aula e pelos corredores, reconheci-a como a voz da diretora:

–Como tradição na nossa escola, nossa primeira aula foram as apresentações e vocês terão o resto da semana de folga, para adiantarem-se e organizarem vossos horários e materiais. Obrigada.

Já tinha ouvido falar dessa tradição e em parte, fiquei grata, pois ainda não havia organizado meus horários, porém meus matérias já se encontravam organizados em meu armário.

Fomos saindo da sala e pelo pouco que pude reparar, Spencer, o garoto de olhos azuis misteriosos, adorava observar-me. Me sentia envergonhada com isso, porém fiquei ainda mais quando restaram só eu e ele na sala, pois Jason ia se encontrar com seu namorado e depois “daria uma passadinha” na minha casa, para que pudesse conhecer Megan.

Fui arrumando meu material e senti-me suar frio quando o garoto começou a falar comigo:

–Pois então, seu nome é Jéssica, não é mesmo? -Ele disse naquela voz rouca e baixa, seu olhar pairava sobre mim, me deixando ansiosa e obrigando meu estômago a dar voltas.

–Sim e você deve ser o Spencer. –Disse, engolindo todo meu nervosismo e encarando-o do mesmo jeito que ele havia feito comigo pelos últimos minutos. Levantei meu queixo de leve, como se estivesse o desafiando. Obviamente eu não esperava que fosse acontecer o que aconteceu, mas aparentemente, ele aceitou o desafio.

Ele começou a se dirigir para perto de mim, agarrou meus pulsos com suas mãos e me encurralou contra a parede, que estava mesmo ao lado da janela e do lugar onde estava sentada anteriormente. Seu rosto chegou perto do meu, apesar de eu ser bastante baixa e ele bastante alto, ele se curvou e eu fiquei encarando-o, enquanto ele fazia o mesmo. Seus lábios chegaram perto do meu ouvido e me arrepiei inteira quando ele falou:

–Se você quer mexer com fogo, melhor se certificar que não vai se queimar, não é?

Reunindo a coragem que eu não sabia que havia em mim eu respondi, sussurrando da mesma maneira que ele havia feito comigo:

–Eu sou bem grandinha, queimaduras fracas para mim não são nada, elas tem que me incendiar. –Terminei mordendo o lóbulo de sua orelha, e fazendo-o dar um leve gemido/suspiro que despertou algo em mim que eu nunca havia tido: desejo.

Saí de seu aperto, deixando-o atônito, peguei minha bolsa e fui me encontrar com Megan no estacionamento. No trajeto de volta para casa eu só pensava nele e no que ele havia feito me sentir, ele me provocou e eu simplesmente perdi meu controle.

Aquela boca pedia para ser beijada, seus lábios rosados e fartos pareciam implorar por ser mordidos, seu corpo másculo e forte, pedia por mordidas, seu cabelo merecia ser puxado para trás, seu bumbum precisava ser apalpado pelas minhas mãos, seus abdomens visíveis apesar de sua camisa larga, precisavam ser explorados... Eu nunca havia sentido isso, era um misto de emoções, eu simplesmente senti que precisava de mais.

–Sonhando com seu príncipe encantado, é? –Megan interrompeu meus pensamentos, e eu sacudi minha cabeça para ver se os pensamentos sumiam, numa tentativa falha de parar de pensar em Spencer.

–Claro, não vê que eu sou o protótipo de princesa da Disney, Meg? –Disse, revirando meus olhos- Ah, tenho novidades, conheci um gay e ele vai vir aqui hoje a noite...

–Ai. Meu. Deus! Um gay! Jess, amanhã tem festa e eu já marquei presença nossa, se você quiser, pode chamar seu amigo gay, mas como eu não sabia... Bem, eu não comprei. –Ela disse e parecia que ela estava se desculpando. Adorava isso na minha amiga, ela sempre queria fazer tudo certo e era uma garota muito justa com tudo e todos, nisso parecíamo-nos bastante.

Chegando em casa fui para meu quarto, levei o colchão para sala, enchi o colchão de ar, pedi para Meg levar o dela e comecei a preparar porcarias para comer enquanto Megan ia escolhendo os filmes e preparando as colchas, lençóis e travesseiros.

A noite seria longa.