Aprendemos a viver sem vocês
4 Uma fagulha de esperança - Gildarts Clive
Notas iniciais
Fazia uma semana que Gildarts havia deixado a guilda para realizar a sua missão, e agora que, finalmente, estava chegando ao local sentia medo. E se eles não estivessem ali? E se eles estivessem mesmo mortos? Tinha certeza que não teria coragem de retornar a guilda. Ver o rosto de seus companheiros não seria fácil, ele teria que assumir que a loira estava certa, e ele não faria isso nem em seus piores sonhos.
Ele pensou em retornar, assumir que estava errado, mas não conseguia, em hipótese alguma daria esse gosto para a loira, e muito menos se daria por vencido. Sentiu seu corpo tremer, o que sentira era magia? É claro que era, mas por que essa magia lhe era tão acolhedora? Não sabia responder, mas de algo tinha certeza, não podia recuar agora.
E naquele instante lembrou. Ele se lembrou de uma promessa feita nove anos antes, para um senhor de idade, o mesmo senhor que lhe ajudara por anos de sua vida.
Flashback on
O homem chegara correndo na guilda, depois de uma mensagem urgente de Lisanna ele não podia demorar a chegar ao local, ainda mais arriscar não chegar a tempo para se despedir. Ele não falou com ninguém, apenas correu até o segundo andar da guilda, e avistou a loira sair da enfermaria, ela com o rosto levemente inchado, provavelmente ela acabara de falar com seu mestre.
Entrou sem cerimonias na enfermaria e se encaminhou até a cama ocupada, o homem estava realmente debilitado, e mesmo que Gildarts não fosse medico poderia ver que ele não duraria muito. Podia ver que o senhor também sabia disso, e não era para menos que o chamara tão urgentemente.
Eles se olharam por alguns segundos, tempo o suficiente para que o mais novo visse o outro respirar pesadamente – Gildarts, que bom que veio – falou ele sério, não tinha muito tempo, teria de aproveitar bem – Não temos tempo, então vou ser breve – ele falou enquanto fazia sinal para que o outro se sentasse ao seu lado – De hoje em diante você será o novo mestre da guilda.
Gildarts nem conseguiu se sentar de tamanho choque, o outro sabia muito bem que o mais novo não queria aquilo, se prender a guilda não era satisfatória, não que estivesse insatisfeito com aquilo, sentia orgulho por ter sido escolhido, mas também sabia que havia pessoas melhores.
– Mestre – ele falou bravo – Tem pessoas melhores, como por exemplo: a Lucy, ela é forte, e conhece tão bem a guilda, tenho certeza que ela não recusaria – ele disse tentando argumentar, mas o velho era duro na queda.
– Ela é nova de mais, tem muito que viver ainda, e ela irá te ajudar em tudo, não se preocupe – Makarov não abriria mão – Seu moleque, obedeça pelo menos essa minha ultima ordem – e no mesmo instante que aquelas palavras foram proferidas um clima estranho se instalou na sala, lágrimas ameaçaram escorrer pelos olhos de Gildarts, mas as segurou.
– Por favor – pediu o velho senhor um pouco mais baixo – Você é o que eles precisam agora, será um bom mestre – as palavras afetaram o mais novo, ver seu mestre em um estado tão deplorável e quase lhe implorando para que se tornasse aquilo que jamais desejara, porém não seria capaz de dizer não. Não para o ultimo pedido daquele velho para si, um velho que tinha orgulho em chamar de pai.
– Como quiser Ji-chan – pronunciou-se o ruivo e no mesmo momento sentiu as mãos suarem e o corpo tremer, viu o velho senhor a sua frente sorrir satisfeito com as palavras dele.
– Maldito moleque, não tem ideia do quão me deixa orgulhoso – as palavras soaram como sinfonia aos ouvidos de Gildarts, será que era pelo fato de aquele maldito velho raramente o elogiar? – Por favor, Gildarts, coloque juízo na cabeça daqueles pirralhos – um último apelo escapou dos lábios do velho antes de lagrimas escorrer pelos olhos de Gildarts, que abaixou a cabeça tentando esconder – Não tenha vergonha de chorar meu filho, as pessoas vem e vão o tempo inteiro, faz parte da vida.
– Mestre, diga-me – pediu o homem com a voz chorosa – O que eu vou fazer agora? Mal sei cuidar de mim, deixei minha única filha escapar por entre meus dedos. Como vou cuidar da guilda? – medo estava estampado na voz do homem, provando assim suas palavras “Até mesmo o mais poderoso dos homens tem medo” – Quando estou em duvida sobre algo peço conselhos ao senhor, ainda não estou pronto para tamanho cargo.
– Meu filho, quando nos tornamos mestres de uma guilda, tem que abrir mão de muitas coisas, vai entender um dia. Hoje você precisa ser forte, levantar o rosto e levar seus irmãos em frente – o velho estendeu a mão para o ruivo que não tardou a pega-la – Quando tiver duvidas quero que imagine o que eu faria no seu lugar.
O mais novo não respondeu, deixou-se levar pelas grossas lágrimas que escoriam de seus olhos castanhos. Sentiu-se seguro com as palavras do homem de cabelos grisalhos e se perguntou: Algum dia serei capaz de transmitir tamanha segurança?
– Não lhe chamei aqui apenas para isso – disse o velho senhor. Mesma com a cabeça abaixada Gildarts estava atento a todas as palavras de seu mestre, afinal de contas, aqueles seriam os últimos conselhos que receberia do mesmo – Você sabe que eu ainda acredito no retorno deles e quero que você acredite também.
O mais novo não deixou de se surpreender perante as palavras de seu mestre, fazia sete anos que todos tinham desaparecido e ele mesmo instalara os boatos de que os magos da guilda estavam mortos, então por que agora ele lhe dizia que acreditava no contrario? – Mas...
– Sei o que falei moleque, porém omiti algo de vocês, pela segurança da guilda – as palavras fizeram com que o mais novo levantasse a cabeça e olhasse para seu mestre – Vá ao meu escritório e lá encontrara na ultima gaveta uma carta, aqui está à chave, não conte a ninguém – advertiu o velho enquanto entregava a chave – Adeus meu filho – essas foram as ultimas palavras que Gildarts ouviu de seu pai.
Andou pelo vasto corredor até parar na sala do mestre, adentrou com cuidado e foi até a última gaveta e de lá retirou uma carta já aberta e levemente amaçada, estava velha, porém ainda se podia ler.
Makarov Dreyar é um prazer finalmente nos falarmos, mesmo que seja através de uma carta. Venho através desta, lhe informar que tenho em minhas posses seus magos tão preciosos. Sim, os magos que você mandou para exterminar a minha guilda foram completos fracassos e não chegaram a divertir os meus magos de elite.
E neste exato momento escrevo está carta ouvindo a doce melodia dos gritos de seus “filhos” sendo torturados pelos meus. Você não tem ideia do quão prazeroso é ver aqueles vermes inúteis implorando para por um fim em sua dor, implorando para ver o seu filho mais uma vez. Como é o nome da garota mesmo? Se me lembro bem ela se chama Levy Mcgarden Redfox. Sim, esse é o nome dela, ela está implorando há horas para poder se despedir do filho, até já fez uma carta para o marido, palavras tocantes devo dizer, pena que ele jamais vai lê-las.
Mas devo dizer que você tem um filho bem escandaloso. Natsu Dragneel, maldito garoto irritante, até agora eu não o ouvi soltar um grito de dor, bem forte o rapaz, mas irritantemente calado. Qual a graça em torturar uma pessoa se ela não grita? Mas insultar os outros é com ele mesmo, já gritou até para o inferno o quanto nós somos monstros, se bem que não me importo muito.
Voltando ao assunto se quer esses pentelhos de volta venha busca-los, minha sede fica no topo da montanha Sasayaki (montanha dos sussurros). Existe um premio muito maior que a cabeça dos seus filhos e só você pode me entregar, quero a Lumen Histoire.
Me entregue ela quando estiver pronto, até lá, seus filhos continuaram sendo torturados.
Gildarts sentiu o corpo tremer diante as palavras escritas na carta, podia se ver que já fora amassada antes, provavelmente pelo terceiro mestre e agora tornava a se repetir pelo quinto mestre. Ele não entendia o motivo de seu mestre ter omitido aquilo dele, ainda mais algo tão importante, podia ter sua filha ao seu lado há tantos anos, mas por causa do velho ele não pode estar ao lado dela.
Foi então que pela primeira vez sua cabeça começou a raciocinar como a do velho homem, se nem mesmo a maior parte dos seus magos de elite foram pareôs para aquela guilda o que a Fairy Tail de sete anos antes, sem nem um terço de seus magos presente seria capaz de fazer? Seu corpo tremeu, e ele finalmente entendeu os motivos do velho senhor.
Naquele dia jurou não contar a ninguém sobre aquela carta, nem mesmo a Lucy e Laxus, dois magos os quais aprendeu a confiar sua vida e segredos. Não podia negar que eram grandes amigos, ás vezes passavam horas bebendo e falando sobre seus problemas e casos da vida, porém era algo que não podia confiar nem mesmo a eles, conhecia os gênios de ambos e mesmo que não fosse familiarizado com a guilda como desejaria, entendia aqueles dois como se fossem uma parte de si.
Trancou novamente a carta na ultima gaveta e se retirou do lugar, tinha muito que pensar. Algumas horas depois, recebeu a noticia do falecimento de seu mestre.
Flashback off
Andou por mais alguns metros em meio à floresta, parando apenas quando teve a visão de um gigantesco castelo rustico no topo da montanha, suas pernas tremeram, as mãos começaram a suar e seus lábios se tencionaram, se tudo desse certo, hoje veria sua filha pela primeira vez em anos.
Ouviu barulhos vindos de trás de si e não tardou a subir em uma arvore e se esconder entre os galhos. O barulho foi se tornando mais altos e segundos depois dois homens entraram em seu campo de visão. O primeiro homem era alto e musculoso, deveria ter o dobro de tamanho de Gildarts, parecia uma aberração, carregava em sua cintura duas espadas pressas a um calção largo que deveria ser muito maior que o homem.
A camiseta bege estava aberta revelando um peito cheio de cicatrizes horríveis. O rosto do homem era completamente desfigurado, mal podia se identificar o que era o que na imagem do homem, se bem que com um corpo tão gigantesco a cara deformada não chamava tanta atenção.
Já o outro era menor, muito mais sutil e caminhava a passos leves ao lado do outro. Comparado ao colega ele era deveras mais bonito, porém Gildarts não se iludiu perante a forma esbelta do rapaz e nem por seu sorriso doce, ele viu naqueles olhos carmesim um ódio tão súbito e assustador que chegou a lhe arrepiar a espinha.
O já velho mestre da Fairy Tail apurou os ouvidos para ouvir a conversa de ambos os homens, o que não lhe custou muito, já que ambos eram espalhafatosos enquanto falavam.
– Oe Doro, cuidado com essa caixa, tem coisas muito delicadas ai dentro – falou o homem menor enquanto olhava para uma caixa que o outro carregava, ouviu-se o maior resmungar algo incompreensível aos ouvidos humanos – É isso que dá ser parceiro de um homem meio Vulcan, sua mãe teve muito azar em ser estuprada por um Vulcan tarado – ele disse as palavras com nojo e logo ouviu protestos do outro.
Pela primeira vez Gildarts notou que a pele do homem não era realmente pele, e sim pelos brancos, suas pernas eram finas demais em relação ao resto do corpo assombrosamente anormal e as orelhas maiores que o habitual. Nascer de algo tão impuro como um estupro já era horrível, imagine se o feitor de tal ação for um Vulcan? O homem teve calafrios só de imaginar.
– Vamos logo, o mestre quer muito esses artefatos, mesmo que ele esteja muito longe daqui neste momento – disse o menor com ódio – Além do mais, não podemos arriscar que o nosso querido amigo ouvindo nossa conversa descubra o que tem aqui dentro – disse ele calmo.
Antes que Gildarts compreendesse o significado das palavras do homem de cabelos negros e olhar tenebroso, ele sentiu algo chocar contra sua cabeça e caiu da arvore desmaiado. Sobre a arvore podia se ver o vulto de uma mulher de cabelos loiros claros e sorriso convencido – Deveria ser mais educado e não ouvir as conversas dos outros – disse ela com a voz fria enquanto olhava com curiosidade para o velho caído – A Fairy Tail está realmente no fundo do poço – disse ela entre risadas – Pegue ele, será um ótimo troféu para o nosso mestre quando ele voltar de sua missão com os prodígios, quem sabe eu não receba até uma promoção? – disse ela sorridente enquanto via um filete de sangue escorrer pela nuca do homem.
Sua risada preencheu a noite e logo depois a figura das três pessoas desapareceu por entre as arvores. Pelo menos, Gildarts estava certo quando pensou que veria sua filha ainda nesta noite, porém não imaginava que seria em tais circunstancias. 
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