Aprendemos a viver sem vocês
11 Tornar-se forte - Lucy Heartfilia - Especial - Segunda parte
Notas iniciais
A missão fora bem sucedida para a equipe, que sairá de sua guilda na semana passada e agora estavam acampados em uma floresta ao norte de Fiore, esperando que o dia amanhecesse para que pudesse retornar a sua casa.
Lucy estava escorada a uma árvore, mirando as estrelas. Em seu pescoço o cachecol de Natsu era segurado firmemente pelas mãos fracas dela, e um mero sorriso estampava seu rosto.
Ela estava definitivamente melhor, andava perfeitamente bem, como se os dois últimos meses deitada em uma cama nunca tivessem existido e já não deixava de comer. Porém, ela ainda não havia melhorado muito mais que em alguns aspectos. Todas as noites ela tinha pesadelos, que a feriam cada vez mais.
Via Natsu partir de diversas maneiras, cada uma pior que a outra. Seu coração ia se partindo a cada “Adeus” que não podia colocar em palavras, a cada imagem de Natsu partindo para o mais longe possível dela. Tanto desespero, tanta dor, era muito para que apenas Lucy suportasse, e por isso ela dividia sua dor com Gajeel, que todos os dias à noite a reconfortava em seus braços musculosos e lhe dizia que tudo acabaria bem.
Só que naquela noite em especial ele estava muito ocupado, enquanto uma prazerosa conversa se desenrolava com os colegas de guilda. Ela tentou entender que ele também tinha uma vida, e que estava sofrendo tanto quanto ela, mas o ver rindo e conversando animado com Laxus não era uma boa prova disso.
Ela sabia, ou pelo menos tentava saber, que ele só fazia isso para diminuir a dor, e por esse mesmo motivo ela tomou a decisão de se juntar ao grupo, e tentou conversar com eles de forma civilizada.
Eles riam animadamente, como se a morte dos colegas não tivesse os afetado – Vocês viram a cara daquele mago quando eu o encurralei? – perguntei Gajeel enquanto ria descontroladamente diante a lembrança – Foi realmente hilário.
Os risos sessaram-se no instante em que Lucy sentou-se junto ao grupo. E todos os velhos amigos abriram sorrisos encorajadores na direção da loirinha que sorriu feliz, pelo menos ainda tinha seus amigos com quem contar. Amigos, Lucy não podia chamar a maioria deles dessa forma, afinal de contas, raramente trocaram mais que algumas palavras.
– Lucy-san – exclamou feliz a pequena Wendy – Você sente-se melhor? Seu machucado não está incomodando mais? – os olhos da pequena miraram um leve corte no braço direito, algo que acontecera em sua missão, mas não era nada com o que tinha de se preocupar tanto.
– Estou bem Wendy, não foi nada muito grave – ela sorriu para a pequena, que quase não se conteve ao ver aquele sorriso tão conhecido. Estava sentada uma ao lado da outra, os outros formavam um circulo em torno de uma leve fogueira ali – Sobre o que estavam conversando? – a moça perguntou curiosa enquanto mirava Gajeel.
Eles soltaram leves risadas ao se lembrar – Gajeel estava nos contando como acabou com os dois magos que tentaram fugir – disse Lisanna, a albina se encontrava sentada do outro lado da fogueira enquanto comia um sanduiche – Aceita? – ela perguntou enquanto mostrava outro sanduiche para Lucy, que apenas estendeu a mão, vendo a outra jogar a comida para si, porém quase caiu ao chão, se não fosse por Laxus o pegar rapidamente, o que arrancou mais risos de todos.
– E você Lucy, foi fácil pegar o vendedor disfarçado? – perguntou o loiro que até então estava quieto – Você só machucou o braço, acredito que não foi tão difícil.
– Sobre isso... – Lucy virou o rosto constrangida, buscando encontrar algum lugar onde fixar o olhar, qualquer lugar menos o rosto dos colegas curiosos – É constrangedor, eu não vou contar – exclamou a loira enquanto erubescia e tapava os peitos de forma protetora.
– Lucy estranha – exclamou certo gatinho azul, que a muito não se pronunciava – Quantas safadezas você aprontou? – ele perguntou enquanto virava o rosto completamente indignado.
– Lucy-san – exclamou Wendy completamente corada de vergonha – Eu não sabia que você lutava dessa maneira – disse a menina completamente constrangida.
– Francamente – falou Charles enquanto colocava uma mão na cabeça e entrava na frente de Wendy – Eu só podia esperar por algo assim vindo dessa guilda – ela falou aquilo como se estivesse decepcionada – Não olhe para essa loira Wendy, talvez seja contagioso.
– Eh? – Lucy ficou perdida por alguns instantes, até que percebeu ao que elas se referiam – Não é nada disso seu gato estúpido – disse ela enquanto corria atrás de Happy por fazer todos pensaram coisas inapropriadas dela. Depois de alguns minutos onde foi declarada a caça aos gatos azuis voadores, Lucy se acalmou.
– Como eu estava tentando dizer... – ela parou alguns instantes e mirou o gatinho azul com um roxo no olho esquerdo – O homem era um completo tarado, tentou me assediar, e quando ele tentou apertar meus peitos eu dei meu famoso Lucy Kick – a moça fingiu alguns golpes toscos de luta enquanto uma leve gota escorria na testa de seus amigos – Só que eu não vi a faca em sua mão, e quando eu menos esperava, ele me atacou, deixando para trás esse corte – exclamou a moça – Por sorte Leo estava lá para me ajudar.
Por alguns instantes todos ficaram quietos, mas a advertência veio de Gajeel, que estava levemente irritado – É melhor tomar cuidado da próxima vez – exclamou o moreno irritado – Já pensou no que poderia ter acontecido se não fosse por Leo? – Lucy surpreendeu-se, não esperava tal reação do homem.
– Do que você está falando Gajeel? – perguntou curiosa Lisanna, já que ninguém entendeu a reação repentina dele – Lucy é uma maga, ela tem de estar preparada para correr qualquer tipo de perigo – a albina disse ainda surpresa – Acalme-se – porém, nem mesmo as palavras doces de Lisanna puderam conter a raiva de Gajeel, e nem mesmo ele conseguia entender o que se passava consigo.
– Não Lisanna – falou o moreno bravo – Ela tem que entender que tem um filho para criar, não pode se expor a tamanho risco – Lucy pensou em argumentar a seu favor, mas as próximas palavras de Gajeel tiraram todas as palavras da boca de Lucy – Natsu iria brigar muito mais com você e... – o homem interrompido bruscamente.
– Cala a boca – gritou Lucy tão forte que chegou a ensurdecer os colegas – Você não tem direito algum para falar o que Natsu pensaria ou falaria – as palavras foram ditas enquanto a mulher levantava-se, todos se surpreenderam com a reação – Ninguém pode – ela disse um pouco mais baixa, e todos seus companheiros viram lágrimas escorrerem pelas bochechas da jovem – Porque o Natsu está morto.
Sem tempo para os outros reagirem à mulher virou-se e correu desesperada, tentando fugir dos colegas que começaram a gritar por seu nome desesperados. Isso não podia ter acontecido, logo agora que ela estava melhor, agora que finalmente começava a superar a dor em seu coração.
Pela visão embaçada a jovem não viu um enorme foço, e quando se deu conta estava caindo em direção a uma caverna. Ela não gritou, não pediu por ajuda enquanto caia, já que tudo o que ela queria naquele momento era um tempo sozinho, um tempo para clarear seus pensamentos.
Lucy caiu no chão com um baque mudo, ela reprimiu a vontade de gritar desesperada quando sua perna direita acertou uma pedra. A loirinha pode até ouvir quando a perna quebrou com o impacto.
Lágrimas escorreram pelo rosto da mulher, mostrando a fragilidade com a qual ela estava, toda a dor e sofrimento estavam expressos em lágrimas. Tantos sonhos destruídos tornavam-se palpáveis.
Ela sabia que tinha de sair de perto da abertura, caso contrario seus amigos a veriam em tal estado e viriam resgata-la, e isso era a única coisa que Lucy não desejava. Forçou os braços para a puxarem em uma direção aonde a luz da lua e das estrelas não chegaria perto, com auxilio da perna boa chegou longe o suficiente para que ninguém a avistasse de onde estivesse. Tudo isso a tempo de seus amigos chegarem perto do foço e não avistarem nada.
Ela suspirou pesadamente, pelo menos estaria livre dos amigos por alguns minutos, até que algum deles colocasse o faro de Dragon Slayer em ação, e então não demoraria muito a encontrarem ela. Ela tinha de organizar seus pensamentos.
Mais uma vez Lucy teve certeza de que isso não deveria estar acontecendo, sabia que Gajeel não falara por mal, porém, a moça ainda não era forte o suficiente para aguentar tudo que vinha sofrendo. Só que diferente de antes, agora Lucy tinha o cachecol de Natsu para reconforta-la, ó sim, aquele cachecol tão macio e fofinho, bem a cara do rosado.
Agarrada ao tecido a mulher tentou se levantar, arranjando forças sabe se lá de onde, ela colocou-se de pé, com o suor escorrendo pela testa e as mãos tremendo pelo enorme esforço. Avistou vários pedaços de madeira espalhados pelo chão, e acreditou que deviam ter caído ali. Por sorte havia um que serviria para uma bengala, e que ajudaria a suportar o peso do corpo da jovem e diminuir a força utilizada na perna quebrada.
Com toda certeza não era o meio mais pratico de se andar, mas em tais circunstancia serviria. Lucy vasculhou o lugar em que estava com os olhos, e mesmo com o pouco de luz, ela percebeu que estava em um corredor longo, idêntico ao de varias cavernas às quais já havia entrado.
Respirou pesadamente mais duas vezes antes de dar o primeiro passo sôfrego, que jamais teria acontecido se não fosse pela bengala improvisada. E um passo atrás do outro a levaram até o fim da caverna, onde ela se abria revelando uma enorme sala disforme. A frente de Lucy algo estranho lhe chamou a atenção, um altar se postava impetuoso em relação a tudo a sua volta, e até mesmo Lucy sentiu vontade de recuar com tamanho poder saindo do altar.
Só que de alguma forma ela deu dois passos em direção ao altar, indo contra todos os seus sentidos internos que lhe informavam loucamente para se afastar. Ela tentou ver o que estava sobre o altar, mas a distancia impossibilitava a visão perfeita. E quando ela menos esperava, ao redor do altar varias tochas se ascenderam, dando um clima ainda mais estranho ao local.
Os pés de Lucy a traíram mais uma vez, e novamente ela começou a caminhar na direção do altar, enquanto ambas as pernas tremiam, e desta vez não pela dor, mas sim pelo medo do desconhecido. Ela estendeu a mão quando pensou estar perto, mas algo a fez recuar, uma dor lancinante tomou conta de sua mão.
A moça olhou preocupada para onde instantes antes ela erguera a mão, e avistou algo que teria passado despercebido por si, se não fosse pela dor. Algo translucida tremeluzia em volta do altar, em varias camadas ele protegia o local, como se apenas aquilo pudesse parar qualquer um, e Lucy começou a entender o porquê disso.
“Seja forte”, uma voz distante exclamou baixo. A moça assustou-se e procurou pelo dono da voz “Já chega de dor”, mas uma vez a voz se fez presente, e o coração de Lucy acelerou com medo do desconhecido. Ao redor do altar dez imagens apareceram, porém pareciam apenas breve fantasmas, que apareciam e desapareciam a todo instante.
– Estamos te esperando Lucy – exclamou uma voz masculina, dando visão para um homem alto e robusto, com cabelos negros compridos e bagunçados, olhos azuis celestes tão infinitos quanto o brilho do céu – Venha até nós – ele disse enquanto estendia a mão na direção da loira.
– Você quer ser forte Lucy? – a voz de uma mulher surgiu ao lado do homem, e no local uma bela jovem de cabelos verde escuro apareceu, seus olhos violeta cintilavam na direção da outra – Venha até nós, e lhe daremos o poder necessário – as palavras eram tão tentadoras para Lucy, que ela não aguentou, moveu os pés na direção dos fantasmas.
Com os olhos Lucy fez uma conta singela de quantas camadas de proteção havia no local, e acreditou ver quatro delas. A moça não tinha ideia de como passaria pela proteção, mas tinha certeza de que chegaria ao altar, e não apenas para se tornar forte, mas também para superar os medos que lhe assombravam. Passou pela primeira camada de defesa, e seu corpo inteiro protestou em dor, seus olhos lacrimejaram e a perna quebrada pareceu ainda mais dolorosa.
Forçou os pés em frente, não podia desistir. Lucy já estava cansada de ouvir todos a chamarem de fraca, estava cansada de nunca poder ajudar os amigos, de sempre estar correndo risco, e todos precisarem ajudar. Ela queria deixar de ser um fardo para a sua guilda, queria ser um membro valioso.
Lágrimas caíram com maior velocidade. Ela fora tão fraca nos últimos meses, tão inútil, até mesmo a pequena Wendy havia aceitado mais rapidamente a morte dos colegas, todos haviam seguido em frente, mas não ela, não Lucy. Ela simplesmente fugiu do mundo e tentou se esconder dentro dos seus próprios sonhos e desejos.
Ela havia feito Gajeel sofrer, havia feito todos se preocuparem com ela. Lucy estava cansada de sempre precisar de todos. Atravessou mais uma camada de defesa e dor em seu corpo duplicou, e pelo esforço Lucy começou a inclinar o tronco para frente, tentando chegar o mais rápido ao final daquilo.
As imagens a sua frente sorriam, porém Lucy não conseguia dar forma a nenhuma delas, sabia que estavam lá, mas não podia dizer como eram – Você consegue Lucy – um misto de vozes diferentes ecoou na caverna, dando força para que a jovem movesse os pés na direção do altar.
– Estou cansada de ser fraca – ela gritou – Eu consigo chegar lá — suas próprias palavras de motivação a inspiraram para seguir em frente. Um passo depois do outro, ela sabia que conseguiria, sabia que chegaria ao final.
Ela atravessou a terceira camada e um grito estridente escapou dos lábios de Lucy. A bengala que vinha lhe ajudando a chegar até ali foi despedaçada pela força que lhe era infligida, e a jovem foi ao chão sem ter como levantar. A pressão aumentou e jovem mal conseguia levantar o rosto.
Ela começou a chorar de vergonha, não podia desistir tão fácil assim de seu objetivo, não queria continuar a ser fraca, ela não podia continuar a ser fraca, tinha seu filho para criar, tinha que o ajudar a se tornar forte, tinha que o proteger.
– Vamos Lucy, você consegue – uma voz ecoou na mente da loira, que procurou por todos os lados em busca do dono desta voz – Só mais um pouco – Lucy procurou em todos os lugares, mas nada viu, até que em frente ao altar a figura de Natsu surgiu estendendo o braço na direção da moça.
– Natsu – mais lágrimas tomaram conta do rosto da jovem, mas desta vez não eram de tristeza, mas sim de felicidade diante a imagem do homem que ama. Ela começou a se arrastar em direção ao altar – Por que você me abandonou? – ela perguntou triste tentando chegar até o homem que tanto ama, porém, pode perceber que ele começava a desaparecer tão rápido quanto aparecera.
– Você tem de ser forte Lucy – ele disse enquanto se agachava e estendia os braços na direção da mulher que chorava cada vez mais, mas ela em nenhum momento parou de se arrastar, indo de pouco a pouco para perto do homem – Eu não posso mais lhe proteger, você tem de ser forte por si mesma, tem que proteger nosso filho – ele estava sério como Lucy jamais o vira – Pode me fazer um favor? – ele perguntou. A moça já estava perto da ultima camada, e a imagem dele começava a desaparecer por completo. Ela concordou com a cabeça.
– Viva por nós dois – dito ela desapareceu por completo, mas uma ultima frase escapou dos lábios do rosado, a ultima frase que Lucy ouvira de Natsu por 16 anos – Eu te amo Luce – lágrimas e lágrimas caiam dos olhos castanhos de Lucy. Atrás de si seus amigos finalmente tinham lhe encontrado, e gritavam desesperados para que ela saísse de lá.
Ela fechou os olhos, e quando os abriu novamente uma determinação jamais vista surgiu. Com um grito para arrancar forças ela se mexeu novamente, passando pela quarta camada e quebrando todas as outras. Ao redor do altar todos os espíritos sorriram e desapareceram, deixando nas mãos de Lucy um pequeno molho de chaves negras.
A última coisa que ela viu antes de perder a consciência, foi o sorriso de Natsu em aprovação a sua mais nova conquista.
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