Aprendemos a viver sem vocês
12 O valor de uma vida - Lucy Heartfilia
Notas iniciais
O corpo de Lucy enrijeceu imediatamente. Seu coração batia acelerado enquanto mirava os orbes de Natsu, que depois de 16 longos anos, ainda os mantinha brilhando intensamente.
E a reação do rosado não foi muito diferente da de Lucy. Ele a mirava minuciosamente com o único olho que lhe sobrara. Aquele rosto tão belo como sempre fora, estava mais maduro, mais sério. Porém, aqueles olhos castanhos ainda tinham o enorme brilho pelo qual Natsu havia se apaixonado.
O homem desceu os olhos em direção ao pescoço da loira, e avistou, dentre aquelas roupas chamativas, o seu cachecol, aquele que um dia recebera de seu pai, mas que hoje vivia com a mulher que amava.
Um barulho os despertou de seus sonhos, fazendo com que a troca de olhares se encerrasse. Ambos olharam para a pessoa que fizera o barulho – Olha só, que cena mais linda – falou a mulher de cabelos loiros e de olhos azuis que sorria travessamente – Pela primeira vez em 16 anos, esses casaizinhos fofos trocam olhares de completo amor – ela juntou ambas as mãos e riu levemente – Não é lindo Gildarts-kun?
A mulher sentou-se em uma cadeira qualquer ao lado do homem caído, enquanto soltava leves risadas. Lucy fechou os olhos por alguns segundos, tentando acalmar-se. Ela sabia que seus inimigos deviam ter armado algum plano para iludi-los.
A mulher voltou a abrir os olhos e tentou assimilar tudo que estava acontecendo ao seu redor. Na sala havia três inimigos que deveriam ter um poder de nível médio, e havia outro que se escondia o mais afastado possível dela. Porém, ele era fraco, seria facilmente derrotado.
Ao lado dos três inimigos, Gildarts estava caído no chão, completamente machucado, sangrando consideravelmente e em estado grave.
Logo atrás dos inimigos estava uma cela, onde seus antigos companheiros de guilda se encontravam. Quase se distraiu novamente ao ver os olhos avelã de Levy, que pareciam mais opacos que anos antes.
Mas algo muito, muito peculiar chamou a atenção da loira para algo ao redor da cela. Parecia haver uma fina camada transparente de um escudo na forma de um circulo em torno da cela. Lucy pode perceber que sempre que o sol, que adentrava por uma pequena janela, acertava a parede, o escudo brilhava levemente.
– Lucy-chan, como é rever o homem que você um dia amou? – a pergunta da inimiga fez Lucy engolir em seco, e sem nem pensar os olhos de Lucy procuraram pelos de Natsu. Porém a loira arrependeu-se. Dor, raiva e magoa tudo estampado naqueles orbes ônix que Lucy tanto amava, e nesse instante, o primeiro passo para a ruina da mulher foi dado.
– Já contou a ele como seu filho chama o seu grande colega? Gajeel. Ou devo dize, o seu marido – disse a inimiga ainda mais contente com o sofrimento alheio. E esta teria continuado a falar, se não fosse por Gajeel a interromper, dando alguns passos para frente e pegando no pescoço dela, segundos depois a prensando contra a parede.
– Não ouse falar mais nada – exclamou o moreno com raiva. Uma onda negra de magia foi liberada do corpo de Gajeel, raiva e ódio escapavam por seu corpo já tensionado devido à própria pressão que estava exercendo no recinto. Todos deram um passo em direção contraria a dela, tentando escapar da magia que escapava.
Só que uma pessoa não deu importância a tal acontecimento, e fora justamente à pessoa que devia estar com maior medo dele. A inimiga teve a ousadia de rir estridentemente diante a isso, sendo um completo insulto para os magos da Fairy Tail.
– Então esses são os instintos de um Dragon Slayer? – perguntou outro dos inimigos, um dos menores e que aparentava nada ter a acrescentar ao grupo – Isso é realmente interessante – ele sorriu macabramente.
Lucy arrepiou-se por completo ao ouvir aquilo, obviamente aqueles eram os instintos mais primitivos de um dragão sendo despertados no corpo de Gajeel. O instinto mais primitivo de tudo e todos, proteger aquilo que mais se ama, aquilo que não podemos viver sem.
Ela nunca havia visto com seus próprios olhos os instintos de um Dragon Slayer, e já estava assustada com uma pequena demonstração de tamanho poder. Como seria em um caso mais grave? Gajeel olhou de relance para Levy, e Lucy de longe pode ver todo o arrependimento de anos.
Ele iria proteger a sua baixinha, não importa do que fosse e sem remediar as consequências de seus atos. Um amor assim era tão puro, tão verdadeiro, que fez Lucy sentir falta do seu amor para com Natsu, sentir uma falta imensa de estar ao lado dele todos os dias, falta de o ver sacrificando tudo para protegê-la, e todos os dias provar que a amava um pouquinho mais que no dia anterior.
– Gajeel – uma voz baixa chamou a atenção de todos, fazendo com que o mago de cabelos negros se virasse em direção ao seu mestre caído no chão – Já chega disso – o velho exclamou enquanto tentava levantar-se – Matem todos eles, depois tiramos nossos amigos daqui – a ordem foi clara.
O outro ficou pronto para acatar a ordem, mas antes que pudesse virar-se viu que Natsu iria protestar que ele precisava dizer algo importante, e por esse motivo continuou a olhar para o rosado na cela, sem perceber o que isso iria acarretar. Só que Natsu nunca pode terminar a sua frase, pois Lucy o interrompeu bruscamente.
– Cuidado, Gajeel – o grito desesperado escapou dos lábios carnudos da loira, que em uma tentativa falha, correu na direção do marido, tentando chegar a tempo de impedir a próxima cena. A inimiga pegou uma adaga que estava em seu cinto e a cravou nas costas do moreno, que urrou de dor e caiu no chão aturdido.
Lucy chegou ao seu socorro, mas já era tarde. A mulher colocou-se a frente do marido em uma pose defensiva, obviamente protegendo o moreno de um próximo ataque, que jamais iria vir – Gajeel – Lily exclamou preocupado enquanto parava ao seu lado tentando estancar o sangue.
Laxus juntou-se a Lucy, ambos preparando-se para a batalha, mas eles sabiam que em tais circunstancias estavam em desvantagem. Um de seus melhores lutadores estava caído no chão com um grave ferimento nas costas. Seu mestre estava em um estado ainda mais debilitado. Seus inimigos estavam dentro da sua casa, em maior numero e com uma provável estratégia em mente.
O inimigo grande e de traços estranhos jogou Gildarts na direção de Lucy e seus amigos. Lily o pegou habilmente, tentando ser cuidadoso o suficiente para não piorar o estado de seu mestre. Laxus franziu as sobrancelhas em questionamento a tal ação, e seus olhos curiosos fitaram os inimigos.
– Eu vou explicar como as coisas funcionam aqui – disse a mulher pausadamente, enquanto ria diante a surpresa de seus “visitantes” – Seu tão amado mestre está sendo torturado por mim e por meus colegas há dois dias, e durante esse período, em certo momento eu mesma o envenenei – as palavras calmas surtiram efeito nos presentes, que se seguraram para não atacar a mulher.
– Sua... – Laxus tentou lhe ofender de nomes nenhum pouco discreto, o ódio atravessando seu corpo, a ira tomando conta do corpo dos magos da Fairy Tail.
– Calado – a voz da mulher repercutiu por toda a guilda, fazendo com que Lucy sentisse ainda mais ódio dela. Como alguém podia ser tão fria, diante a vida de uma pessoa? – Vocês têm duas escolhas – ela chegou perto de Lucy, ignorando Laxus. Olhou para a mulher com arrogância, superioridade – Ou salva seu mestre, ou aqueles que um dia chamou de família.
Parecia ser uma decisão tão simples, uma decisão fácil. Olhou para Natsu de relance e viu nos olhos do rosado a certeza da qual precisava, a certeza de que ele, assim como todos os outros, continuaria esperando por ela. Esperando o dia em que poderiam ver o sol e as estrelas com os próprios olhos.
Laxus olhou para ela e então os dois tomaram a decisão por aquela simples troca de olhares. Eles entendiam as circunstancias em que se encontravam, não tinham muito tempo para levar seu mestre até um lugar em que pudesse ser tratado. Salvar seus amigos presos na cela seria lento e demorado. Primeiro teriam de passar pelos inimigos, depois quebrar o escudo que protegia a cela e por ultimo arranjar uma forma de abrir a cela, tirando o fato de que um grupo com tantos feridos teria uma locomoção lenta.
A decisão era obvia, mas não era fácil. A loira virou de costas para a inimiga, traindo seus instintos, e mandou com as mãos que Laxus e os exceeds levassem Gildarts e Gajeel para casa. Apenas Happy ficou ali junto da loira.
O que você pensa que está fazendo? – perguntou à inimiga debochadamente – Espero que não ache ser possível nos derrotar sozinha – ela riu como se a ideia fosse completamente ridícula.
– Não vou derrota-la – respondeu Lucy enquanto pegava em algo de seu cinto, ela estava de cabeça baixa, e algo negro saia do seu corpo, extremamente parecido com momentos antes, onde Gajeel teve seus instintos primitivos liberados – Em tais circunstancias, eu estou em completa desvantagem – Lucy levantou o rosto. Seu sorriso adquiriu uma forma macabra, seus olhos tornaram-se negros, uma forte onda de poder magico atravessou o salão. Os cabelos de Lucy começaram a balançar, o vento tornou-se forte, e os inimigos assim como seus colegas na cela tiveram de segurar-se pela intensidade do vento – Vou lhe mostrar que mexer com a Fairy Tail – uma pequena pausa foi feita, enquanto a loira levantava sua mão, onde uma chave negra brilhava – É a mesma coisa que mexer com a morte.
A chave nas mãos da loira brilhou e dela um circulo magico surgiu, tão profundo quanto à noite – Eu, aquela que anda pelos vivos, abro os portões para o inferno. Espectro da névoa venha ao meu mundo, julgue os impuros e lhes castigo com o poder da ilusão. Eu o invoco, Riki-kun – o som de duas enormes portas se abrindo ecoou pela sala, o chão tremeu e imagens negras tomaram o lugar.
Névoa surgiu por todo o salão, e uma voz doce e melodiosa se fez ouvida – Eu ouvi seu chamado Lucy – falou uma voz masculina. A loira sorriu contagiada, o cheiro da névoa chegou até si, um leve cheiro doce e amadeirado, só um pouco já começava a deixa-la tonta – Seu pedido é uma ordem.
A menina deixou o lugar junto do gatinho azul, enquanto algumas lágrimas caiam de seus olhos. Sabia perfeitamente que seus inimigos não morreriam, mas seria uma lição a eles, por ousarem insultar sua guilda e, em um futuro próximo, eles teriam sua verdadeira punição.
A mulher voou com Happy atrás de seus amigos, sem nem imaginar o que lhe aguardava. Horas depois ela os encontrou, mas eles não estavam voando a toda velocidade para a guilda, e sim parados no meio da floresta.
Lucy pousou ao lado deles e perguntou desesperado, o que eles estavam fazendo, sem quase perceber que Laxus, Gajeel e os exceeds choravam. Algo lhe chamou a atenção, um corpo. O corpo de Gildarts estava deitado imóvel no chão, o peito não se movia mais e o coração já não batia.
Só podia ser uma peça do destino, um sonho, uma alucinação. Talvez ela ainda estivesse em sua casa dormindo e sonhando com tamanho pesadelo. Lucy havia se tornado forte, tinha havia treinado e se esforçado, mas agora, mesmo depois de tantos anos, ela via um companheiro seu morrer diante de seus olhos e não pode fazer nada.
Ela já havia sofrido muito, não conseguia acreditar que ainda podia doer tanto, que alguém podia machuca-la tanto. Só que, lá no fundo, Lucy sempre soube que sofreria, porque por mais que uma família seja aquelas pessoas que sempre vão estar lá quando precisar, que vão rir ao seu lado, vão se divertir. Mesmo com tantas coisas boas, sempre há algo ruim, sempre vai haver o lado oposto da moeda. Sempre que se tem uma família, você estará fadado a sofrer pela perda dela.
Como se pode descrever a perda de alguém tão único e real na sua vida? Família é tudo isso, não só pessoas que possuem laços entre si, família é uma linha que nos une a vida. Vida, algo tão complexo, mas tão curto. Lucy pela primeira vez em anos começou a entender o valor de uma vida. E o valor do vazio dela.
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