Apocratia - Dogma
1 Prólogo
Eu estava estirado no chão. Incapacitado de me mover por conta da artrose no meu joelho esquerdo. Já havia perdido totalmente a capacidade de enxergar com meu olho direito, devido a catarata em estado avançado. Enquanto isso a metástase já se espalhara por grande parte dos meus órgãos internos. Eu estava próximo a base dos Carniçais. Meu sangue continuava a jorrar pela boca. Entre minhas mãos, lá estava, o livro em branco. Eu realmente queria preenche-lo com algo antes de morrer.
Eu escutava gritos e pessoas desesperadas correndo. Eu já sabia o que estava acontecendo. Calamidade havia finalmente chegado.
Não conseguia lidar com o fato de que toda minha família seria aniquilada. Tudo o que já vivi, todos os meus sonhos, tudo o que eu já fui, tudo seria destruído.
Durante uma época eu realmente pensei que poderia parar calamidade. Acabar com toda essa matança e carnificina. E se tivesse ajuda, eu talvez pudesse fazer algo. Sim... se eu tivesse ajuda...
Enquanto refletia sobre meu fracasso, senti braços me cercando, e um calor imenso se espalhando pelo meu corpo. Eu sabia que era Helena. Mesmo não vendo seu rosto, eu podia sentir sua pele macia e seios se contraindo contra meu corpo. Sonhei durante anos por um abraço como aquele. Senti algo molhando meu rosto, certamente eram lagrimas.
— Sinto muito, não era para ser assim. Tudo vai acabar logo agora Ev... — Com meus olhos cheios de lagrimas de sangue eu disse:
— Eu não quer... morrer... Helena... —
— Shiii, tudo vai ficar bem logo, eu estou com você, apenas feche os olhos. — Enquanto elas falava palavras de ternura, cada vez mais eu sentia suas lagrimas saindo sobre meu rosto.
Logo em seguida alguém levou Helena. Provavelmente alguém do instituto. Fui deixado para morrer sozinho.
Tudo o que eu conhecia seria apagado em breve. A padaria em que costumava tomar café da manhã, minha escola, minha loja de livros favorita. Tudo apagado de uma única vez. Os desgraçados não perdoaram nem a própria família de suas cascas.
De repente o chão começou a tremer, o céu começou a rugir. O fim chegou.
Foi então que dentro de um grande clarão púrpura, eu... morri...
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