Apocratia - Dogma
2 Inverno
Era início de agosto. A temperatura da cidade estava descendo, o vento estava ficando mais forte, as camadas extras de roupa aumentando. Porém, nada disso era de muita importância para uma pessoa em especial, que vem vivendo os últimos meses em um hospital localizado na capital do Paraná.
Ele era rechonchudo, usava óculos e já não tinha mais cabelo. Seus braços eram longos, desproporcionais com o resto de seu corpo. Seus olhos carregavam olheiras pesadas, e sua pele antes bronzeada, agora se tornou amarelada. Está não é a descrição de um idoso, mas sim de um garoto de quinze anos.
Desde que foi movido para uma ala diferente no hospital seu maior entretenimento era observar o mundo através de uma grande janela. Entretenimento, que agora, era interrompido pelo ar frio que embaçou grande parte das janelas. Sua solução foi se dedicar aos livros que existiam na pequena biblioteca do hospital.
Ele estava lendo um grosso e pesado livro, cujo qual trazia em sua capa com letras grandes e garrafais o seguinte título “Armas químicas durante as eras”. Foi então que sua porta abriu. Era a enfermeira.
— Bom dia! Como você está hoje E... —
— Quem é você? — O garoto perguntou em um tom rouco. Seus olhos ficaram serrados ao perceber que o enfermeiro que sempre lhe visitava foi substituído por uma enfermeira que ele jamais viu antes.
— Me chamo Beatriz, vou substituir seu enfermeiro por hoje. Ele tinha um compromisso urgente — Beatriz respondeu com o mesmo sorriso que a seguiu desde a porta.
— Me desculpe pela grosseria. As coisas aqui não costumam mudar com frequência. Acho que me apeguei a repetição dos dias. — Respondeu o garoto, agora com suas bochechas rosadas por sua falta de cordialidade.
Depois de manifestar um sorriso de aceitação, a enfermeira começou a olhar ao redor do quarto a procura de algum lugar para colocar sua bandeja metálica.
— Seu quarto é diferente dos demais, ele é muito... vazio. — Aquele quarto era realmente diferente dos demais. Tudo que havia nele era uma grande janela de vidro, que agora estava inútil aos olhos do garoto. Existia também uma pequena cômoda de madeira que anteriormente apoiava um vaso com uma flor de Astromélia, vaso que agora estava no chão, pois perdeu seu lugar para uma pilha de livros. O que mais chamava a atenção no quarto com certeza era um belo telescópio newtoniano, telescópio que só era possível ter dentro do hospital em determinada ala, em determinadas condições.
— A maioria dos pacientes dessa ala se esforça para deixar seus quartos o mais semelhante possível com suas casas. Não quero criar uma falsa ilusão de aconchego em um lugar como esse. —
— Perdoe-me, não quis ser tão evasiva assim. — Então o garoto a retribuiu com o mesmo sorriso que ela o deu momentos antes.
— Bem, é hora de tirar um pouco de sangue. —
— Sangue? Eu só tiro sangue uma vez por semana. —
— Os médicos querem fazer um exame. Será breve — Ela disse com o mesmo sorriso penetrante.
Depois de retirar três frascos de sangue do garoto, a enfermeira se retirou da sala. Ao abrir a porta, ela esbarrou em uma garota que estava em frente à porta. Uma garota de cabelos negros Chanel. A garota ignorou a presença da enfermeira e entrou no quarto.
— Helena! — O garoto gritou sem perceber, ficando com suas bochechas semelhantes com a de um gato sem pelo que acabou de devorar uma pimenta malagueta inteira.
— Você continua lendo esses livros estranhos. Bem... talvez seja menos estranho que ficar o dia todo olhando uma janela. Alguém em seu estado, deveria achar algo melhor para matar o tempo. —
— Eu tenho poucos meses de vida, mas durante todo minha vida, nunca me senti tão vivo antes. —
O Garoto estava naquele hospital já faziam quatro meses, e não viveria muito mais. Tudo começou quando uma falta de ar o levou ao hospital. Duas semanas depois ele já estava em tratamento intensivo contra um câncer no coração. Em três meses a metástase já havia se espalhada pelo pulmão. Agora, tudo que lhe restava era esperar.
— Sabe, não quero dar uma de coitadinho. Só quero que as pessoas perguntem o motivo das coisas que eu faço ao invés de simplesmente criticarem o que eu faço. Isso me enche o saco, mais que a merda do câncer. —
— Então me diga. Qual o motivo de olhar essa janela todo santo dia, será que essa é a melhor forma de viver seus dias? —
— Venha aqui Helena. — Enquanto ela se aproximava, ele desembaçava o vidro da janela com a manga de seu suéter de lã.
— Existe um poema que diz o seguinte
“A tarde talvez fosse azul
Não houvesse tantos desejos” . —
— Sabe o que significa? —
— O que? —
— Veja só Helena. Eu acordo todos os dias às seis da manhã, durante o dia eu olho pela janela e vejo o céu nublado, vejo as gotas de chuva batendo em minha janela, sinto o cheiro da terra do jardim ao lado quando a chuva bate nela e transmite seu perfume pelo ar. É incrível. Então eu olho para baixo e vejo as pessoas com telefones nas mãos e o sentimento de angustia estampado em seus rostos. Elas tem a sorte de terem décadas de vida para contemplar o horizonte, mas desperdiçam olhando para o mesmo asfalta cinzento do chão. —
— E a noite? —
— Venha comigo, quero te mostrar uma coisa — Puxando-a pelo braço, Ele a levou para o terraço do prédio, e lá ele se deitou sobre um lençol que pegou do varal que havia ali em cima.
— O que é isso? Está frio aqui em cima. —
— Deite-se ao meu lado. Vou te mostrar algo. — Helena então se deitou ao lado dele.
— Vamos olhar para o céu, e compartilhar um momento de silencio. — Ambos ficaram deitados observando o céu em silencio ignorando seus dedos quase congelados.
Para o garoto, tudo o que lhe restava era a sua contemplação pelo mundo, sua imensidão inexplorada, suas belezas desconhecidas.
— Helena. —
— Eu estava quase conseguindo me concentrar! O que foi? —
— Olhe, uma estrela cadente —
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