Apocalipse Total
1 O início do fim!
Acordei de um sono pesado, relaxante, sem sonhos. Sorri, ainda com os olhos fechados, e me espreguicei gostosamente.
Cocei meu tornozelo. É claro que só poderia haver pulgas naquela prisão de quinta categoria. Mas não me importei com isso. Só pensava no meu plano, ele tinha dado certo, muito certo.
"Sou um gênio!" pensei, satisfeito.
A cela que eu estava não dava diretamente para a rua. Uma única janela gradeada, muito alta, fora do meu alcance, dava para um corredor largo. Neste corredor também havia outras janelas gradeadas, por onde se filtrava um pouco de luz natural. A luz que vinha de lá era tão pouca que quase não ajudava a completar a fraqueza da única lâmpada da cela que estava acesa. Naquela prisão miserável, obrigavam que as celas ficassem na escuridão total durante a noite. Eles tinham me tirado o relógio, mas aquela lâmpada mostrou-me que já havia amanhecido.
Devia ser uma manhã feia, adivinhei pelo barulho de chuva que vinha lá de fora.
Comecei a observar a prisão e pensava comigo mesmo: "Que cadeia vagabunda!", eu avaliava. "Nem café eles servem aqui?".
Senti um pouco de fome. Mas sorri ao pensar que, dentro de alguns dias, eu estarei num hotel cinco estrelas, nos Estados Unidos talvez, sendo servido por belas garçonetes de seios grandes. Fechando os olhos pude até sentir o cheirinho de café servido em bandejas de prata, com o jornal do dia ao lado, um vasinho de rosas, geleias, suco, pãezinhos quentes... Estralei meus dedos ao me lembrar da mania dos americanos de comer ovos fritos e bacon no café da manhã. E de que aquele jornal deveria estar escrito em inglês.
"Breakfast", praguejei comigo mesmo. "Na minha nova vida, acho que vou ter que aprender o Inglês..."
Levantei-me e urinei na privada encardida do canto da cela, sem paredes para proteger-me dos olhares de fora.
Além de mim, havia um vigia sonolento que ficava o dia inteiro resmungando e ouvindo o seu radinho de pilha. Sua mesinha estava vazia, sobre ela apenas o tal rádio mudo e seu comunicador.
Deitei-me novamente e olhei para cima lembrando do meu plano.
Senti vontade de rir, gritar, dançar, mas era obrigado manter minha aparência de "coitadinho" para sair daquela prisão. Tinha de parecer arrasado com a morte de minha mulher e revoltado por estar naquela cadeia.
Mas aparentar tudo isso para quem? Até o momento o vigia não apareceu. Nada do café da manhã. Nem um ruído se ouvia da cadeia.
Ruídos? Vindo do lado de fora, ouvia-se alguns barulhos. Os ruídos eram diferentes, pareciam nervosos; nervosos de mais para uma cidadezinha mixuruca como aquela.
A chuva parecia aumentar. Dava cada clarões e trovoadas no interior da cadeiazinha. Uma tempestade daquelas! Dessas que todos ficam em casa, dormindo. Ao contrario, todos estavam ativos. Carros passando em velocidade, explosões, alguém gritava... Mais alguém. Não dava para entender o que eles gritavam.
Apenas a prisão estava silenciosa. Perguntei a mim mesmo, que diabos está acontecendo?
—Ei! O que está acontecendo!? — colado as grades eu chamei, mas nada. Nenhuma resposta.
Foi aumentando os gritos e as explosões. Todos pareciam estar em pânico!
Perguntava a mim mesmo, Porque estão em pânico? Uma cidadezinha tão minúscula dessas...
— Vigia! Vigia! Apareça! — gritei
Havia silêncio na prisão, porém parecia que o mundo ia acaba.
Que se danasse o carcereiro e toda a excitação da maldita cidadezinha! Eu não tinha nada com isso. Dentro de poucas horas, estaria fora dali, a quilômetros de distância. O advogado deveria chegar em pouco tempo com o bendito habeas-corpus. O resto que se danasse! — pensei comigo mesmo
De repente no meio da confusão de fora, das aceleradas de pneus e explosões deu para ouvir um dos gritos perfeitamente.
— Vamos fugir, essa cidade está tomada por esses malditos canibais. Não temos mais tempo!
Fugir? Por que raios de razão estaria aquele caipira cretino querendo fugir? De quem? Quem são esses canibais idiotas?
Após isso, ouvi movimentações e múrmuros estranhos no andar de baixo, fiquei aterrorizado.
— O que eu devo fazer? — perguntei a mim mesmo
Olhei ao redor e nada. Depois de muito tempo tentando achar uma saída olhei para a mesa do vigia e lá estava o seu comunicador e seu radio.
[...]
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