Apocalipse Total
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"O rádio! Se eu pegar o rádio..."
Fui até o colchão velho e peguei o lençol. Voltei para as grades e passei o lençol para fora.
Estiquei o braço com o lençol para fora das grades. Dei um impulso e joguei-o na direção da mesa do vigia, sem solta-lo. Falhei. Recolhi o lençol e tentei novamente.
Falhei novamente. Eu estava tremendo de medo... Queria deitar-me novamente, mas precisava daquele rádio. Precisava de uma voz humana que me explicasse o que estava acontecendo.
Numa última tentativa o lençol ficou na mesinha.
Respirei fundo. O suor corria-me pelo rosto, pelo corpo todo. Um suor de medo.
Lentamente, fui puxando o lençol para mim. O pano agarrou-se ao que havia sobre a mesa. Lápis, um bloco de papéis, comunicador, e... o radinho!
Com cuidado, arrastei o radinho até a beira da mesa. Mais um pouco... mais um pouco e.... Pronto! O radinho estava no chão. Mas a movimentação lá em baixo aumentava, pareciam zangados com o barulho do impacto.
Com o rádio caído no chão bem mais próximo, só precisava arrasta-lo até a mim. Estiquei o braço e agarrei a presa.
Tinha o rádio. Liguei-o apressadamente. Só estática. Girei sua antena, tentando melhorar a sintonia, procurar outra estação, mas...
— Droga! O radinho quebrou-se ao cair da mesa!
Eu tinha que fazer alguma coisa. Então, encostei o ouvido no pequeno alto-falante e fiquei tentando distinguir alguma.
Uma voz masculina, distante, driblava vez por outra os chiados. A voz parecia excitada, assustada.
“Réééc... voltamos a repetir... réééc... atenção... réééc...”
— Diabo de estática! Diabo! — falei
“Aviso a toda a população... réééc... repetir... réééc... o apocalipse é mundial... réééc... réééc... réééc...”
— Maldita! Maldita estática! O que está havendo com este maldito mundo!?
O radinho calou-se. Eu apenas conseguia escutar batidas e vários ruídos no andar de baixo da prisão.
Desesperado, soquei o rádio, com raiva. A estática voltou. Mas só a estática.
— Porcaria... porcaria....
Eu mal tinha forças para gritar. Mas comecei a suplicar novamente.
— Socorro... me ajudem... estou sozinho... não sei o que ocorre... ai, meu Deus, eu estou sozinho... não me deixem sozinho... pelo amor de Deus... Não me deixem sozinho...
Os barulhos lá embaixo aumentavam, pareciam desesperados, zangados... De repente o rádio voltou...
“Réééc... voltamos a... réééc... os mortos estão vivos... não sabemos o que ocorre... réééc... a crise é mundial... réééc... a defesa civil alerta: fujam todos! Não levem nada. Não sejam mordidos ou será um deles! Toda a área vai ser bombardeada! Fujam! Fujam! Fujam pela vida!... réééc...
— O quê?!
A surpresa fez cair o radinho das minhas mãos.
Eu e ele ficamos sem fala. Mas àquela altura eu não precisava mais do rádio. Já sabia por que estava sozinho. Compreendia subitamente todos os ruídos de pânico que ouvira lá fora. Alguma epidemia trouxe esses malditos de volta a vida! Vão bombardear esta cidade... para evitar mais infectados...
Por isso todos tinham fugido. Os caipiras, o delegado, os guardas, o vigia. Todos tentaram escapar da epidemia. Todos, menos eu. O que me restava naquele momento era só a morte. Uma morte horrível. Imagine estes mortos-vivos me mordendo, os caças bombardeando a cidade... Não sei o que é pior.
Desesperado, gritei:
— Socorro! Vocês não podem me deixar aqui! Não podem! Voltem! Me ouçam! Eu fui preso por engano! Eu não tenho nada a ver com essa cidade! É tudo um engano! Não fui eu que briguei no bar!
Naquele instante, outros ruídos invadiram a cela.
Caído no chão, desesperado, uma pequena multidão invadia a cela. Através das lágrimas, vi os guardas, o delegado, o vigia do radinho e mais alguns homens que eu nunca vira antes.
Mas não era eles... Não mais... todos perambulavam e agiam de forma estranha e instintiva, seus uniformes estavam rasgados e sujos de sangue, alguns sem seus membros e outros com seus órgãos expostos.
Fiquei apavorado, todos tentavam invadir a cela onde eu estava. Um deles, o mais velho, meio gordo, vestindo um terno amarrotado, estava com as chaves.
[...]
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