Apocalipse Brasil
3 Capítulo dois – Início do Fim
Fabielle dirigiu rápido por uma comprida estrada, até encontrar uma saída de estrada de terra, entrou e avançou por mais meia hora, até uma pequena casinha de sapê, completamente isolada. Não havia sinal de zumbis, o que era ótimo.
— Vocês estão com fome?
Fabielle perguntou, Aline balançou a cabeça em negativa, ao lado da cacheada, e Maiadson gemeu um sim, do banco de trás.
— E sede.
Completou respirando devagar. O moreno havia tropeçado numa escadaria, enquanto fugiam de zumbis, na última empreitada por suprimentos, e acabou quebrando a perna e deslocando o ombro. Ele pediu pra ficar pra trás, mas Aline se recusou a abandoná-lo.
“Eu já perdi todo mundo, não vou perder nenhum de vocês” – A morena berrava, enquanto arrastava o corpo dolorido de Maiadson, indo mais rápido que fosse possível. Eram dois dramáticos, mesmo...
Os zumbis estavam bem atrás, e no último minuto, Fabielle, que havia corrido na frente com os suprimentos, apareceu com a camionete. Depois de fugir ás pressas do local, finalmente pararam. Foi preciso as duas garotas para colocarem o ombro de Maiadson de volta no lugar, Aline fez uma tala com um pedaço de madeira e amarrou bem firme na perna do moreno, mantendo-a ereta e imobilizada.
Fabielle desceu da camionete, verificando se seu facão estava no cinto, caso precisasse se defender, verificou o ambiente e andou até a traseira da caminhonete, abrindo a tampa da carroceria.
Essa caminhonete não era dela, ou de nenhum de seus amigos que estavam dentro. Não que eles tenham roubado, longe disso. No começo eles viajavam em cinco, Sávio foi o primeiro que eles perderam e aquela caminhonete pertencia a ele. Sávio havia morrido bravamente, salvando a vida de Fabielle no último minuto.
Dentro da carroceria, havia mochilas e isopores, além de galões de gasolina. Os isopores estavam cheios de suprimento, a última aventura havia rendido uma boa quantidade de alimento. Fabielle pegou uma garrafa d’água e um pacote bolachas, além de algumas frutas.
Haviam passado por Petrolina durante sua eterna fuga, a região é cheia de pomares e vinhedos que são regados pelas águas do Rio São Francisco, onde Fabielle quis tomar banho uma vez, mas era proibido. Lá eles pegaram maçãs, laranjas, mangas e uvas. As frutas que pegaram na casa de Aline antes de fugirem, já haviam acabado há algum tempo.
Fabielle retornou para dentro do carro, travando as portas em seguida. No carro ecoava o a música When You’re Gone da Avril Lavigne, no volume mínimo, para não atrair mortos vivos. A cacheada entregou a garrafa d’água já aberta para o garoto deitado no banco de trás e ofereceu-lhe bolachas e fruta, ele pegou as bolachas. Aline resolveu comer uma manga, pegou sua faca no cinto e limpou o máximo possível na camisa. Aquela faca já tinha sido utilizada diversas vezes para mantar zumbis.
Se fosse em outros tempos, Fabielle estaria brigando com Aline por estar usando uma faca suja, ou não ter lavado as mãos para comer, mas nesse mundo apocalíptico não há tempo para muita higiene. Com mortos vivos tentando comer o seu fígado, quem se importa com bactérias? Já estavam infectados mesmo.
Maiadson cantarolava balançando a cabeça de leve, acompanhando o ritmo da música. As músicas eram a única coisa que havia restado de sua vida antes de tudo isso. As músicas, as imagens, as lembranças... A música ia tocando e tudo isso ia rodando na mente do moreno, fazendo lágrimas silenciosas brotarem.
As meninas não notaram isso, Aline estava ocupada sendo uma criança de cinco anos, se lambuzando de manga, enquanto Fabielle dava risada da cara dela. A morena de cabelo liso não havia mudado muito, mesmo que Maiadson notasse a mudança nas coisas que importavam. Aline estava mais responsável, mais cuidadosa, mais atenciosa. Foi preciso um apocalipse zumbi começar para isso acontecer... Ele deu risada desse pensamento.
Quando terminaram de comer, Aline limpou-se com o resto de água que sobrara na garrafa, então recomeçaram a gravação.
“Esses bichos começaram a se erguer, cadáveres ambulantes, famintos por carne humana... Mas se fosse só isso, beleza, já teriam sido contidos, mas o vírus não morreu com eles, só ficou mais forte. Está em tudo naqueles seres, sangue, saliva, pele. Uma mísera mordida já é suficiente pra te matar e te transformar em um deles. Se qualquer fluido deles tocar sua pele, ou respingar na sua boca e olhos, você já está infectada. Não te mata, mas se você morrer, certamente vai virar um deles.
“A primeira cidade a ser tomada foi São Paulo, nosso exército não serviu de muita coisa, se quer saber. Não sabiam onde atirar direito, estavam completamente destreinados para isso, não foram páreo. Em seguida, Rio de Janeiro, as grandes cidades foram tomadas. Quem conseguiu fugir abrigou-se ao norte do país, mas isso de nada serviu, a doença veio com eles. E o único meio de mata-los e causando danos em seu cérebro.
A morena começou a chorar.
“Eu perdi pessoas que amo, todos nós perdemos... Escapar não foi nada fácil, mas conseguimos. Mas as vezes eu me pergunto: escapar para quê? Que esperança ainda nos resta?”
— Corta. — Fabielle sussurrou, parando a gravação. – Ficou deprimente, mas tá legal para a primeira parte. Vamos ver se encontramos algum sinal de wi-fi, mas acho que vamos ter que entrar em alguma cidade.
Aline tirou a arma do coldre em sua cintura e engatilhou.
— Vamo nessa.
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