Apocalipse - A Era dos Mortos 2
1 Capítulo 1 - Capitulo 1
Notas iniciais
Pov – Daryl
Os olhos dourados de Mary me encaram risonhos, é linda, sempre foi, sempre vai ser. Ela me envolve o pescoço. Descanso minhas mãos em sua cintura. Seu rosto está corado, muito melhor do que pela manhã.
─Está mais corada. – Digo depois de beijar seus lábios. – Passou o mal estar?
─Completamente, só pode ter sido a comida.
─Acho que pode ser, mas só você se sentiu mal, então temos que ficar de olho, se não melhorar vai procurar o doutor Chan. – Mary afirma.
─Prometo. Vai para onde agora?
─Ajudar Arthur e Rick com o gerador, se der certo então podemos ter energia para mais do que quatro horas por dia.
─Boa sorte então, ter energia para pelo menos a noite toda seria incrível. – Seria mesmo, melhoramos muito esse lugar, expandimos, muitos chegaram nos dois últimos anos, somos uma comunidade de cem pessoas, todos têm trabalhos, espaço, comida, segurança.
Ainda há muito a ser feito. Sonhos que pretendemos realizar. Os mortos ainda nos rondam, protegemos o Santuário o máximo que podemos sem, no entanto, fechar nossas portas, ainda se pode chegar e apenas se juntar a nós, mas há meses que ninguém chega. Não sei mais se tem gente ainda lá fora.
─Vai fazer o que agora Bruxa? – Ela olha para Scott distraído com seu cavalinho inseparável.
─Vou cuidar da despensa. Eu, Maggi e Beth temos que receber o que foi colhido e distribuir. Sabe que quando chega os produtos da horta ficamos malucas para separar em quantidade igual para todos.
─Ao menos não falta. – Ela concorda.
─Te vejo mais tarde. – Scott ergue os olhos do brinquedo.
─Vou com você papai? – Me abaixo para olhar em seus olhos, cinco anos, ainda é para mim apenas um bebê, mas agora é muito mais falante e menos medroso.
─Não pode sorvetinho, fica com a mamãe. Te pego mais tarde, assim que terminar com o gerador.
─Tá bom. Fico com a mamãe e com a Judy. Ela vai mamãe?
─Claro. Beth está com ela. – Afago seus cabelos e beijo sua testa.
─Se comporta e cuida da mamãe. – Ele afirma, da a mão para Mary e depois de me beijar ela segue com ele para a grande despensa.
Desde que dominamos Terminus Mary se transformou ainda mais, assumiu muitas responsabilidades, ter toda família de volta e um lugar para chamar de lar deu força a ela.
Ainda é a mulher mais delicada e linda que existe, mas agora consegue ser forte. É boa com a besta, mas não sai muito lá fora, tem muito a se fazer aqui dentro e temos Scott.
Enquanto caminho ao encontro dos outros penso em tudo que vencemos, no tempo que ficamos apenas os três nas ruas, foi há dois anos, mas ainda parece que foi ontem, outras vezes faz parecer que foi só um sonho ruim.
Limpar esse lugar, construir os dormitórios com suas pequenas cozinhas, dividir espaço para todos, plantar, construir novos prédios a nossa volta, reforçar cercas, treinar os mais fracos.
Tanto trabalho que começamos no dia seguinte e parece que nunca mais paramos, ainda estamos vivendo como aquele dia, reconstruindo, tornando os dois anos um interminável dia de plantar. Colher fica para os que amamos.
Temos um número razoável de crianças, dez delas de várias idades. De Judy e Scott os mais jovens até Carl agora um quase adulto rapaz.
Me envolvo no trabalho de apertar parafusos, arrastar máquinas pesadas, lubrificar e testar a grande máquina e suas pequenas subdivisões.
Arthur é muito inteligente, Rick e eu apenas vamos ajudando, no que ele precisa. Jeremy era o engenheiro que fazia o trabalho com Arthur durante todo o ano, mas há quatro semanas ele acabou morto em uma saída. Ainda se morre.
Infelizmente ainda não vencemos todas as batalhas e Jeremy foi nossa última perda.
─Acho que temos que ligar esse fio naquele preto. – Arthur comunica com um pedaço de fio na mão, eu e Rick trocamos um olhar. – Era mais ou menos isso eu acho. Tento me lembrar de tudo que o Jeremy dizia, mas...
─Tudo bem Arthur, uma hora da certo. – Rick incentiva. – Sabe o que pensei hoje? – Ele diz fazendo esforço junto comigo para empurrar uma máquina que parece pesar meia tonelada. – Abraham, Tyreese, nunca tivemos notícias deles, nunca vamos saber.
─Realmente não acho que eles chegaram a lugar nenhum. Isso foi há tanto tempo. Uma pena Ty ter ido com eles, mas...
─Se tivessem encontrado algo acha que voltariam?
─Tyreese voltaria, mas não acho que um dia a gente vá descobrir. – Arthur aperta o fio e passa a fita isolante, se funcionar a capacidade triplica.
─Vamos testar? – Pergunta sorrindo. – Estamos nisso há semanas.
─Vai. – Digo apressado, o gerador funciona, sorrimos vitoriosos. – Vamos ver como vai ser isso. Se dura como pretendemos. Por enquanto. Parabéns Arthur!
Apertamos as mãos, os três contentes.
─Vou contar para a Beth. Ela vai ficar orgulhosa. – Arthur e Beth se juntaram há seis meses, estão cada dia mais próximos. Maggie adora o cunhado e fez muita pressão para se juntarem de uma vez e pararem com aquele namoro colegial.
─Papai! Papai! – Os gritos de Scott ecoam pelo grande pátio, sinto pelo tom de sua voz que está assustado, pego a besta ao mesmo tempo que me viro em busca dele. Meu garotinho corria para mim chorando.
Varro o lugar com os olhos em busca de zumbis, inimigos ou Mary, nada.
─Scott! – Pego ele no colo, Rick está comigo, Arthur também. – Cadê sua mãe?
─Caiu, de olhos fechados, eu corri papai, lá perto da despensa quando a gente estava saindo.
Corro com ele, Mary desmaiar é muito estranho, quando a encontro está sentada apoiada por Maggie e Beth.
─Mamãe! – Scott desce do meu colo e corre para ela que o abraça.
─Estou bem filho, não é nada, só uma tontura e apaguei. – Agora ela me olha. Me ajoelho a seu lado, nem posso pensar em Mary doente. – Desculpe te preocupar.
─Se machucou? Bateu a cabeça? Dói alguma coisa? – Ela nega. Mesmo assim investigo. – Vou te levar ao doutor Chan. – Ela abre a boca para recusar, mas Maggie é mais rápida.
─Nem reclama, você vai. Não tem escolha. Precisa saber o que está errado. Quer que fique com o Scott?
─Fico com meu pai e minha mãe. – Scott pede e apenas afirmo.
─Vamos bruxa. Levo você. – Nem sei o que pensar, a princípio fico aliviado de ter sido apenas um desmaio, Scott correndo e gritando me fez pensar em um ataque. – Carrego você.
─Não amor, eu estou bem. – Ajudo Mary a ficar de pé, ela firma os pés no chão, foca a visão, confirma seu estado físico. – Viram, estou bem, nem sei o que vamos fazer na sala do doutor Chan.
─Confirmar que está bem, se não tem nada errado não tem o que temer.
Meu argumento a convence. Scott se põe a caminhar conosco, Maggie e Beth ficam paradas e um tanto atônitas no lugar que as deixamos.
A sala do doutor fica num pequeno prédio ao lado, é lá que funciona a enfermaria, a sala de Rick que é quem dirige tudo como líder, o estoque de armas, ali é o comando central do Santuário como costumamos chamar nossa comunidade.
O doutor chegou no primeiro grupo de pessoas umas semanas depois de nós, foi bom ter um médico no grupo, mais ainda porque ele entende muito de medicina chinesa e com o fim dos laboratórios é importante ter alguém que vá além de comprimidos e injeções.
Doutor Chan é um senhor de quase setenta anos, chinês que vivia no país há vinte anos, perdeu toda família no apocalipse, sobreviveu até aqui por que como médico ajudou muita gente. Ainda ajuda e não faltou quem o protegesse.
─Daryl eu me sinto realmente bem, não precisa se preocupar.
─Ta doente mamãe? Caiu e chorei de susto, não foi papai? Eu fui buscar o papai.
─Estou bem filho. Obrigada por buscar o papai. Foi muito corajoso.
─É. – Ele é ainda tão engraçadinho quanto o garotinho que tirei de um frízer. Custou a me chamar de pai, mas depois nunca mais parou.
Bato na porta do médico, o rosto de Mary agora mais corado, os lábios perderam o tom esbranquiçado.
─Entre. – O sotaque inconfundível do médico é divertido. Entramos, ele tira os óculos do rosto e sorri.
─Desculpe doutor, está ocupado? – Mary pergunta.
─Claro que não Mary. Desde quando papeis são mais importantes que pessoas? Quem está doente afinal? – Ele olha para as três figuras diante dele, Scott busca minha mão, crianças odeiam médicos com ou sem apocalipse.
─É a Mary doutor Chan. – Aviso e ela fica incomodada.
─Sentem. O que está acontecendo? – Nos sentamos, Scott no meu colo. Se encosta em mim ainda em dúvida se não está sendo enganado e vai terminar o dia engolindo um remédio ruim.
─Conta Mary. – Peço a ela.
─Então doutor eu tive um desmaio. Acho que foi só uma queda de pressão.
─Puxa gosto de paciente assim, já chega com o diagnóstico. – Ele brinca.
─Não é só isso doutor, hoje ela acordou passando mal, teve enjoo, vomitou e ficou bem mal, achamos que era alimentação, mas agora com esse desmaio. – Ele afirma olhando para ela como se já começasse uma avaliação. – Ah e tem uns dois dias ela teve uma tontura, ficou pálida, mas foi rápido.
─Sua alimentação é a mesma de sempre Mary?
─Sim doutor. Tudo como sempre. Não tive nenhuma mudança na minha rotina. Nenhuma tensão diferente. Acho até que me sinto bem, muito melhor do que em qualquer outro momento.
─Entendo. E sua menstruação, como está?
Mary me olha um tanto surpresa. Scott esta distraído com o peso de papel.
─Eu não... Doutor isso que está pensando... – Mary me encara nervosa. Seguro sua mão, beijo seus dedos.
─Mary, é o doutor Chan, tem que se abrir.
─Doutor eu acho que se está pensando em gravidez eu não... Eu tive um problema na adolescência... – A voz embarga, aperto sua mão, vencemos o passado, mas isso é algo que ainda a machuca, as coisas que viveu, ainda não dorme sem mim, ainda carrega um pouco a dor de não poder ter filhos, mesmo que Scott tenha preenchido esse espaço em seu coração.
─Certo. Não pode ter filhos. Tem certeza sobre isso? Quando foi o diagnóstico?
─Há muito tempo, eu e Daryl nunca nos preocupamos com proteção e estamos juntos há anos.
─Pouco mais de quatro anos doutor. – Eu comunico. Ele se encosta na cadeira e a observa.
─Qual foi o diagnóstico. O que o médico disse exatamente?
─Era muito menina doutor Chan, não sei responder com certeza, algo como... não poderia engravidar nunca sem um tratamento ou sei lá... realmente não me lembro. – A voz fraqueja, os olhos dourados procuram os meus.
─Vai demorar papai? – Scott pergunta largando o peso de papel de volta no lugar.
─Toma aqui Scott, que tal fazer um desenho para seu pai? – O doutor estende papel e caneta. Scott sai do meu colo e se senta no chão, ainda adora desenhar. – Mary, vamos para o biombo, preciso te examinar.
Mary obedece depois de me olhar com atenção. Os dois somem um momento atrás do biombo. Scott se aproxima.
─Olha meu desenho papai. Eu, você a Judy e a mamãe.
─Muito bom. Cada dia melhor.
─A gente já vai para casa?
─O doutor Chan e a mamãe já vem, depois sim, vamos para casa.
─Eu chorei né papai? Que fiquei com medo, a minha mãe vai ficar aqui?
─Não, vamos logo para casa.
─Vou desenhar mais um pouco. – Ele volta para o chão, fico ali sentado esperando um tanto constrangido e preocupado. Escuto o doutor perguntar de dói aqui ou ali, Mary sempre negar, depois ele falar qualquer coisa sobre exame ginecológico e quero sumir.
Uns minutos depois doutor Chan se aproxima, se senta depois de tirar as luvas e lavar as mãos.
─Ela está se vestindo e já vem. Vamos esperar. – Mary surge se sentando ao meu lado, ela procura minha mão, beijo seus dedos, não gosto de demonstrações públicas, mas sinto que ela precisa.
─O que Mary tem doutor? É sério?
─Não. Nada grave, algo muito comum. Mary não sei o que seu médico disse há anos atrás, se você se curou ou se ele se enganou, mas tenho certeza. Você está grávida. – As palavras do doutor Chan demoram a chegar até mim, penso a respeito e parece que não entendi o que significa. Ele pareceu dizer algo como grávida? Mary vai ter um bebê?
Olho para ela, as lagrimas escorrendo por seu rosto provam que ouvi direito, ela toca a barriga, nenhum dos dois parece capaz de falar.
─Não precisam se desesperar. Não é nada demais, temos total condições de lidar com isso. – O doutor diz e nem cheguei a pensar sobre perigos, ainda estou na fase da negação.
─Doutor, pode estar errado, não é? Quer dizer como pode ter certeza?
─Acabo de fazer um exame, Mary está cem por cento grávida.
─E nós... –Gosto da ideia, é seu sonho, ou era, temos Scott, mas ela nunca o teve crescendo dentro dela como sonhou, isso... depois de todo esse tempo se algo assim nos aconteceu é como um presente. É assim que vejo a situação. Ela seca lagrimas. – O que fazemos?
─Enjoos são normais, tonturas, até desmaio, vamos administrar isso com paciência boa alimentação e nada de esforço físico. Apenas isso.
Mary ainda está imóvel e muda, só tentando conter as lágrimas. O Doutor fica de pé.
─Vou dar um tempinho para vocês, tenho umas coisas para resolver, encostem a porta quando saírem e estou aqui para quando precisar.
Ficamos sozinhos, Scott ainda distraído com seu desenho, Mary me olha, não sabe o que dizer e só consigo ver o quanto é linda e que de algum modo um milagre acaba de acontecer.
─A gente já vai? – Scott pergunta e me dou conta que o milagre está se repetindo.
─Daryl eu não sei como isso... desculpe, estou... amor...
─Ei. – Abraço Mary. – Vamos ter mais um filho, estou feliz, é um milagre, um presente. – Mary se entrega as lagrimas, me abraça.
─Senti tanto medo por um minuto, como nunca senti antes, achei que ficaria... Te amo. Te amo.
─Também te amo. Amo nossa família, vai ficar tudo bem.
─Um bebê. Daryl tem um bebê crescendo dentro de mim. – Ela agora pode sorrir, apesar de ainda chorar. – Vamos mesmo ter mais um filho?
─Tem bebê na sua barriga? – Scott se aproxima confuso, toca a barriga de Mary, nos voltamos para ele. – Aqui dentro tem um bebê?
─Isso mesmo sorvetinho. Um irmãozinho. – Pego meu pequeno no colo. – Você vai ter um irmão.
─É. Papai eu esqueci o Flame lá onde a mamãe caiu. E agora?
─Agora vamos buscar e depois vamos para casa, sua mãe tem que descansar.
─Daryl eu não estou doente. – Ela sorri linda, minha Mary, dona do meu destino, de tudo que me importa.
─Eu sei Bruxa, mas eu vou ficar se não ficar quietinha. Nada de tanta arrumação e andar de um lado para outro o dia todo.
─É serio isso? Arrumou um jeito de me parar? Gosto de arrumação.
─Eu e Scott sabemos disso. Não é sorvetinho? A mamãe arruma tudo toda hora.
─É mesmo, só fica arrumando as coisas. – Beijo Mary, afasto seus cabelos, não quero pensar muito no que está por vir. Só cuidar dela.
─Acho que vou gostar de você cuidando de mim o tempo todo.
─Posso me tornar um cara bem difícil. – Ela se encosta em mim. – Mas depois prometo compensar com as coisas que Mary gosta. – Ela ri. – Vem, vamos contar para as irmãs Greene, eu preciso de aliados.
Notas finais
Obrigada.
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