Apocalipse - A Era dos Mortos 2
2 Capitulo 2
Notas iniciais
Me sento numa cadeira aproveitando o sol da manhã, o inverno se foi felizmente, mais um inverno que vencemos, esse foi menos rigoroso, ou talvez seja apenas o fato de estarmos mais preparados.
Scott e Judy brincam sentados ao meu lado. Scott adora cuidar dela, se sente um rapaz, Judith e ele algum dia serão muito importantes para esse lugar.
─Isso, uma casinha! – Ele a ajuda com seu desenho. – Olha mamãe. A Judy desenhou uma casinha. – São riscos incertos de uma garotinha de três anos, mas quem sou eu para discutir com a imaginação dos dois? Scott está sempre fazendo desenhos.
─Que lindo. Parabéns Judy. – Ela sorri, pega a folha da minha mão e volta para o chão com seu lápis colorido. Eles não têm ideia de como lápis de cor e papel em branco são coisas raras e difíceis de conseguir nesse novo mundo.
─Olha o meu, mamãe. É o Santuário. – Scott me mostra seu desenho agora com cinco anos até que encontro algum sentido em seus traços. – Nossa casa, eu e o papai e você. – Sorrio porque ele fez uma bonequinha completamente redonda para me representar e é exatamente como me sinto no momento. Está chegando a hora e embora tudo esteja pronto ainda sinto medo de algo dar errado. – Aqui é o zumbi.
Scott me mostra um risco borrado e escuro num canto a distância, meu corpo se arrepia com a ideia, encaro seus olhos um longo momento. É apenas isso que conhece como vida, não tem recordações. Scott não sabe como era antes, fico pensando como será sua vida adulta, com o que vai sonhar para si.
─Um desenho lindo filho. Adorei.
─É, você adorou. – Meu pequeno sorvetinho é simples e direto, sempre foi. Espero que cresça exatamente assim, simples e direto. Dizendo sempre como se sente.
─Vamos para casa agora? O sol começa a ficar forte. A Judy vai brincar com você lá dentro e vou fazer uma comidinha bem gostosa para os dois. O que acha?
─Eu quero. Te ajudo. – Ele segura minha mão e demonstra todo seu esforço me puxando para ficar de pé, finjo precisar de sua ajuda. Ele repete tudo que o pai faz e assiste Daryl me ajudar a levantar, sentar, deitar. – Que pesada! – Rio da honestidade infantil.
─Vem Judy, vamos entrar?
─O lápis tia. – Ela fica cada dia mais linda, os cabelos claros e os olhos azuis como os do irmão. Linda e calma, sempre alegre e fácil de lidar.
─Scott ajuda a Judy. – Não posso me abaixar por conta da barriga, pelas minhas contas prováveis quase nove meses. Os dois recolhem os brinquedos, lápis, papel, Flame e a boneca de Judith.
─Esse “sovetinho” – Judy pede apontando um lápis caído ao lado de Scott, só ela e Daryl o chamam assim o tempo todo, mas ela ainda não consegue dizer direito.
Judy me dá a mão, Scott caminha ao meu lado, entramos em casa. Uma cozinha e dois quartos pequenos, não que Scott use muito o dele, quase sempre acaba na minha cama. Deixo os dois no quarto com a porta aberta enquanto preparo uma sopa de legumes, nosso cardápio ainda não é muito variado, mas isso está mudando.
Agora começamos uma pequena criação de animais, logo vamos ter mais carne de porco e galinhas. Por enquanto eles estão se reproduzindo. São muitas as mudanças e melhorias que se aproximam. Água quente, chuveiros, esgoto, algumas máquinas para ajudar na produção de artefatos, uma padaria, escola, são muitos os planos.
Por muito tempo eram apenas sonhos, hoje já podemos chamar de planos. Sinto pena dos que se foram no processo e não vão poder aproveitar isso. Hershel me vem a mente e toco minha barriga, eu o queria aqui agora, segurando minha mão e dizendo que tudo ficara bem.
O primeiro abraço que recebi sem medo além de Daryl. A gravidez me deixou sensível e cheia de recordações, algumas boas, saudáveis, outras nem tanto. Mesmo assim cada uma dessas coisas é quem eu sou agora.
Me sento um pouco esperando os legumes cozinharem. Escuto a conversa animada dos pequenos no quarto, Flame parece cavalgar livre e ir encontrar a boneca de Judy em algum lugar muito bom. Os dois falam horas a fio quando estão sozinhos, Daryl ainda está sempre presente nas brincadeiras.
Os dois ainda brincam juntos, mas agora Daryl não fica mais envergonhado e tímido, ele se deixa levar pela imaginação e juntos vencem muitas batalhas imaginárias.
Daryl entra apressado quando desligava o fogo. Seus olhos sempre me buscam preocupados, depois quando me vê bem ele pode sorrir e se aproximar.
─Oi. – Primeiro suas mãos tocam meu rosto e ele beija meus lábios, mas depois elas descem para minha barriga e ele beija o filho.
─De todas as coisas que Mary gosta essa é sem dúvida minha preferida. – Digo quando ele se ergue e encontra meu sorriso. – Quando beija seu filho. –Toco a barriga onde sua mão ainda descansa.
─Eu sei Bruxa. Conheço seus olhos. Cadê meu sorvetinho?
─Brincando com a Judy no quarto.
─Esses dois ainda vão namorar. – Ele diz orgulhoso. Não sei se pode acontecer, eles crescem tão próximos que talvez se vejam como irmãos no futuro. Sigo com ele até a porta do quarto. Os pequenos sorriem felizes com sua chegada. Ansiosos para falar com ele e sempre penso nesse jeito que ele tem com criança e que nunca admite.
─Olha papai, desenho. – Scott entrega seu desenho e Judy faz o mesmo.
─Cada coisa bonita que desenham. Agora quero ver desenharem uns macaquinhos jogando basquete. – Daryl e seus pedidos malucos.
─O que é basquete papai? – Scott questiona e troco um olhar com Daryl, as mil coisas que eles não conhecem e nunca vão conhecer sempre se estampam em nossa frente mostrando o atraso do mundo.
─Um jogo. Vou mostrar. – Daryl se ajoelha no chão e pega papel e lápis. Dou as costas aos três e sigo para colocar a mesa e servir o almoço. Depois Judith vai para casa com Beth ou Michonne e ficamos apenas eu e Scott.
Judith se senta em meu colo na hora de comer. Vou ajudando a pequena garotinha que eu ajudei a nascer num dia trágico e inesquecível. Quando Lori dividiu comigo a maternidade que nunca pensei que experimentaria.
Sou dona de um milagre. Penso tocando o ventre. É o que mais faço desde saber do bebê. Acaricio meu milagre enquanto espero ele se concretizar num pequeno anjinho que um dia vou ter em meus braços.
O doutor Chan me vê uma vez por semana e garante que está tudo certo. É o que desejo mais que tudo.
─Glenn teve uma ótima ideia sobre a rede de energia. Talvez a gente tenha que sair para conseguir umas coisas, mas não vou antes do bebê nascer.
─Que bom amor. Não quero de jeito nenhum passar por isso longe de você e sabe que o Scott ainda não fica com qualquer pessoa.
─Só com meu pai e a minha mãe. Se não eu fico triste e até choro. – Scott comunica para o caso de termos esquecido esse seu grude.
─Pois é sorvetinho, a Judy fica bem com as pessoas, ela não chora.
─Ela é menina. – Não faz sentido, mas foi o que ele conseguiu num momento de energia e apenas sorrimos. Nosso pequeno é mimado como Maggie acusa as vezes. Que se dane, é tudo que temos e esse mundo é triste e difícil, é o mínimo que podemos fazer.
─Vai trabalhar ainda? – Pergunto e Daryl me investiga.
─Está bem? Se não estiver eu fico.
─Estou bem. Nada de diferente por enquanto.
─Então eu vou ajudar no turno da tarde na vigia dos muros. Scott vai comigo. Assim ele corre um pouco e dorme bem a noite.
─Eu quero papai. O Flame vai comigo.
─Mas precisa comer tudo. – Peço a ele que afirma se voltando para o prato. Judy já terminou e agora brinca com o botão da minha blusa distraída.
Beth chega para apanha-la. Sorri ao ver todos em torno da mesa do almoço. Se senta em uma cadeira vazia.
─Eu vou com meu pai hoje Beth, não com você.
─Obrigada por me avisar Scott, é muito bom ser assim bem recebida. – Beth ri, Judy por sua vez desse do meu colo e segue para o dela muito contente com a troca. Beth me mostra seu ar vitorioso. – Ao menos você meu docinho.
─E como poderia ser diferente? Não acho que ela ame alguém mais do que você.
─Nem eu, mas não vamos contar isso para aqueles Grimes. – Beth brinca e me faz sorrir. Depois se estiva para tocar minha barriga. – Como está esse bebê?
─Se movendo cansado do lugar apertado.
─Está chegando. Quem sabe ainda essa semana? – Beth diz tranquila Daryl engole em seco. Não sei como ele vai conseguir ser forte por nós na hora do parto. – Sabe que vai contar comigo para tudo né? Scott, a casa, o bebê. Eu e Maggie.
─Obrigada Beth. – Aperto sua mão. Me lembro do tempo que ficamos todos separados e do medo que tinha de nunca mais vê-la, da esperança que nunca me deixou nem nos piores e doloridos momentos. – E o Arthur, como está?
─Trabalhando, aquele não para, nunca vi coisa igual. Está sempre às voltas com algo.
─Arthur foi uma das boas coisas que nos aconteceram, ele é muito dedicado e forte. Seu trabalho é importante tanto na proteção quanto na reconstrução. – Daryl diz para uma orgulhosa Beth.
─Sem ele eu não teria sobrevivido. – Ela diz e alguma melancolia surge em seu olhar.
─Arthur é bom Beth. Sabemos disso. – Daryl diz tranquilo. – Mas você sobreviveu sozinha. Venceu usando a inteligência. Isso é um grande talento, o mais importante.
─Obrigada Daryl. – Ela sorri. – Vamos docinho? Hora de uma sonequinha.
Ela se levanta com Judy no colo. Acena para Scott. Depois me sorri.
─Tchau Judy. Até amanhã. – Sorrio para a linda menininha.
─Tchau. Tchau “sovetinho”.
Ficamos apenas nós. Me ponho de pé e começo a recolher a louça. Daryl vem me ajudar. Ele não gosta muito que faça nada, por ele teria passado todos esses meses deitada na cama recebendo comida na boca.
─Deixa que cuido disso. – Ele pede tentando me afastar dos pratos.
─Estou bem amor. – Obedeço mesmo assim. É importante para ele e ele já se preocupa tanto.
Ficamos conversando e brincando com Scott enquanto ele leva os pratos com a pouca agua que escorre da torneira. Depois seca a mão.
─Agora a senhora vai ler um pouco deitada na cama, eu e o Scott vamos fazer a ronda. Tem comida o bastante para o jantar. O resto do dia é seu para descansar.
─Eu precisaria dar um jeito de me cansar antes. – Ele me beija. – Amo você sabia papai Daryl?
─Estou sabendo. É a coisa mais linda que tem nesse mundo sabia? Minha Mary.
─Vejo vocês mais tarde. – Ganho mais beijos, depois afago Scott, não é muito fácil abaixar para beija-lo, Daryl o ergue no colo para que eu possa beijar meu garotinho. – Se comporta sorvetinho.
─Meu pai vai junto. – Ele me diz como se isso fosse a maior de todas as garantias. Afirmo e espero os dois partirem, depois sem alternativa vou para o quarto. Observo as coisas do bebê arrumadas e a sua espera.
Rick e Daryl saíram uma manhã e retornaram com o berço. Glenn e Maggie saíram numa busca e chegaram com roupas e fraldas. Depois disso a cada vez que alguém ia lá fora meu pequeno bebê ganhava presentes. Brinquedos, roupinhas, mamadeira, mais fraldas. Não falta nada para sua chegada.
Mas não sei como vai ser com os bebês de daqui há dez, quinze anos. Será que um dia vou ter um netinho? Sorrio com o pensamento. Me sento depois de arrumar alguns travesseiros para as costas. Me sinto uma foca boa parte do dia, me arrastando sem qualquer mobilidade.
O bebê mexe quando abro o livro.
─Oi filho! Quer conversar com a mamãe? O papai e o Scott não estão. Serve a mamãe? – Nenhum novo movimento. Dou um longo suspiro. – Entendi. Não serve. Eles não demoram.
Fico ali tentando me concentrar na leitura. Uma hora depois Maggie passa para me ver.
─OH Vida boa! – Brinca se sentando na beira da cama. – Vim te ver. Pedido do papai Dixon. Homem chato esse seu. Não te deixa em paz. Todo mundo que passa ele manda vir te ver.
─Eu sei. Acho que ele está indo muito bem, esperava um desespero muito maior.
─Vamos ver no parto. – Meu coração se aperta e se reflete em meu rosto. – Não tem o que temer. Falei com o doutor Chan. Achei que precisava da opinião dele sem sua presença. Fomos eu e a Beth pressionar o chinês. Entendo de olhos puxados. – Ela me faz rir.
─O que ele disse? Não vai me contar nada ruim, mas mesmo assim quero saber.
─Se ele tivesse dito algo ruim nem estaríamos tendo essa conversa. – Ela me avisa e acredito que não mesmo. Maggie nem tocaria no assunto. – Ele disse muito calmamente como de costume que está bem e não corre risco.
─Esse é o problema, calmo como de costume. O que tira aquele homem da calmaria. Nunca vi nada faze-lo tirar o ar zen do rosto. Fico pensando como fugia de zumbis.
─Ar zen é boa definição. Ele é calmo, mas é bom e você vai ter nosso mais novo bebê e ficar tudo bem. Estávamos precisando de um bebê. Judith e Scott já estão perdendo a graça.
─Tão lindos. – Sorrio orgulhosa dos dois.
─Tenho que ir Mary. Está mesmo bem? Me chama se tiver qualquer coisa? Me deixa ver o parto e dar o primeiro banho e sei lá, ser a primeira em tudo? Beth vai querer me roubar a vez.
─Te deixo ser a primeira em tudo, mas vai se lembrar disso quando um dia resolver ter um bebê.
─Nada de bebê para mim. Ser tia é o paraíso, deixemos isso para Beth e Arthur.
─Sim senhora. – Maggie me beija a barriga.
─Tchau bebê. Esse menino precisa de nome.
─Nem sabe se é menino.
─Esse ser precisa de nome, melhor assim? – Ela brinca já na porta. – Me chama.
─Chamo. – Fico sozinha. Pego o livro e começo a ler, umas paginas depois começo a sentir sono, nem percebo quando ele me domina e quando acordo escuto a voz de Scott e Daryl aos sussurros na cozinha.
─O Flame ganhou de novo papai.
─O Flame é muito rápido, dois anos e nunca ganhei uma corrida.
─É. Estou com fome papai.
─Vou esquentar a sopa. – Olho para a janela e começa a escurecer. Devo ter dormido horas. Me sento, arrumo a saia porque é tudo que me serve e enfio os dedos em um chinelo. Virei uma idosa. Fico de pé e vou encontra-los.
─Mamãe acordou! Oba! – A recepção de Scott é sempre a melhor. Me sento e ele se aproxima carinhoso. – Oi mamãe.
─Oi Scott. Como foi lá fora?
─Legal. Tinha um zumbi bem, bem feio do outro lado. O Rick pegou ele, eu já estava chegando com o papai, por isso que eu vi, o papai não queria que eu visse não, mas já vi agora pronto.
─Sabe que eles existem, não é? Que aparecem as vezes.
─E morde a gente e tudo se não correr e ficar bem escondido.
─Isso. Sempre bem escondido.
─A sopa. – Daryl nos interrompe. Comemos e depois de ficarmos um tempo juntos vamos colocar Scott em sua cama. Ele se deita e eu o cubro me sento na beira da cama, Daryl do outro lado.
─Que hora que o bebê sai daí em mamãe?
─Falta bem pouquinho.
─Eu também ficava guardado aí na sua barriga?
─Não. Você ficava no meu coração. – Penso na carta que ainda guardo comigo e que um dia quando ele tiver idade vou entregar para ele, quero que saiba que a mãe e a tia lutaram por ele. Que sempre foi amado mesmo antes de ser meu.
─Ele vai chamar Scott também?
─Não. Scott é você.
─E sorvetinho?
─Não. Ele vai ser irmão do sorvetinho.
─Assim que ele vai chamar? Irmão do sorvetinho?
─Gostei. Nome e sobrenome. – Daryl brinca e me encosto nele rindo.
─Nada disso, quando ele nascer vamos escolher um nome para ele.
─Flame eu escolho.
─Não filho, flame é seu cavalinho.
─Então você escolhe. – Daryl ri de mim.
─Ele tem razão, deu ótimas opções, não gostou de nenhuma.
─Vamos dormir todo mundo? – Eu peço e Scott fecha os olhos. Aos poucos adormece e deixamos seu quarto. Me deito com dificuldade. Sentada tudo é muito mais fácil. Deitar é sempre uma grande confusão, mas Daryl é incansável e sempre acha um jeito de me ajudar a ficar confortável.
Acordo no meio da noite. Uma dor aguda e curta. Me sento estranhando aquilo. Daryl dormia ao meu lado. Respiro fundo juntando calma. A dor desaparece. Fico em alerta.
Me arrumo sentada na cama, não vou acordar Daryl até ter certeza. Não demora nem dez minutos e a dor volta, minha barriga endurece, são os sintomas que o doutor Chan me explicou. Espero que passe e só então toco em Daryl.
─Daryl. – Chamo baixinho, ele salta no mesmo momento. Está sempre em alerta.
─O que? Está na hora? É o bebê?
─Sim. Acho que é a hora.
Daryl pega a besta. Sem ela ele não é nada, sorrio, é o único homem no mundo a pegar uma besta ao ouvir que é hora de um parto.
─Tá. Vou pegar o Scott e vamos para o posto médico. Não se mexe.
Dois minutos depois os dois entravam de volta no quarto. Sinto pena do meu sorvetinho tonto de sono sem entender muito bem o que se passa.
─O bebê vai nascer de noite mamãe?
─Parece que sim filho, ele é meio desligado. – A dor me domina e reprimo um gemido, não quero assustar Scott. Não sou boa nisso, os dois correm para mim. Dois pares de mãos tocam minha barriga. Scott começa a chorar quando sente a rigidez, tem medo e isso é natural.
─Mamãe! – Ele me abraça. Aquilo me deixa tensa. Não quero deixar meu filho, não quero que nada dê errado.
─Está tudo bem, a mamãe está bem. Eu vou levar ela no colo e você vem do meu lado. Tudo bem sorvetinho?
─Tudo papai.
Deixamos a casa no meio da madrugada. Cinco minutos depois estamos no posto médico. Está vazio é claro, escuro e silencioso. Daryl me coloca na cama. A dor volta forte.
Aperto sua mão quando ele tenta se afastar.
─Calma Mary, tenho que buscar o médico. Eu já venho.
─Amor... Estou com medo. E se...
─Shiu. Não pensa nenhuma bobagem. Nada vai atrapalhar isso. É nosso milagre se lembra? Como pode dar errado?
─Eu sei, eu sei. Vai. Traz a Maggie também. Prometi a ela.
Ele me beija. Está pálido, fingindo que tudo está bem, que tudo vai terminar bem, mas não sabe disso.
Scott chora desconsolado, assustado com minha reação, agarrado a calça do pai como quando chegou.
─Leva ele com você amor. Deixa com a Beth. – Puxo Scott para um longo abraço, ele chora em meus braços. – Amo você, muito, muito.
─Para com isso Mary. – Daryl diz firme e solto Scott, se tudo der errado levo esse abraço comigo. Como um dia vi a corajosa Lori fazer.
─Vai amor.
Daryl pega Scott no colo e me deixa sozinha, tento manter a calma.
─Vai ficar tudo bem filho. Mamãe está aqui. Vamos passar por isso. Não precisa ter medo. O papai vai cuidar de você, Scott, seu irmão, ele vai amar e proteger você. Vamos ficar bem. – Aperto o lençol da cama com força quando a dor vem insuportável. – Calma anjinho. Só mais um pouquinho.
Ele precisa ficar bem, aguentar e nascer em segurança. Eu sabia que esse momento me traria memórias e o parto de Lori me vem à mente, as coisas que eu e Carl fizemos para trazer Judith ao mundo. A despedido, seu apelo de mãe e entendo tudo agora. Minha vida me invade, Jack, minha mãe e seu pouco amor, Daryl arrombando a minha porta, Merle a me chamar de cunhadinha. Hershel, Carol. Scott naquele frízer, as perdas, os ganhos, tudo tão vivo e intenso em minha mente nos minutos que fico sozinha.
Me dou conta que cada dificuldade valeu a pena. Isso me enche de coragem quando Daryl entra mais uma vez correndo e seguido pelo doutor e Maggie.
─Vamos ter calma todo mundo aqui. – O doutor pede tranquilo como sempre. Maggie revira os olhos, Daryl faz careta, depois segura minha mão. Beija meus dedos. Carinhoso e meus olhos marejados encontram os dele.
─Amo tanto você. Me deu tanto. – Digo a ele mais uma vez. O dono do cantinho onde guardavas as coisas boas que aconteciam com Mary, ele me beija, tenso e feliz. Gosto de vê-lo assim e nos beijamos mais uma vez. Minha mão livre em seu rosto. – Fica comigo amor.
─Nunca vou sai do seu lado. Amo você. Tanto que não cabe dentro de mim.
─Eu sei. Parte desse amor quer ganhar o mundo agora mesmo. Aperto mais seus dedos.
─Está prontinha Mary. Agora quando a dor vier vamos começar o trabalho de trazer esse bebê ao mundo.
─Maggie, fica perto. Cuida dele? – Peço segurando sua mão.
─Eu não, cuida você. – Maggie diz e me faz rir. Amo isso, que ela é forte e me deixa forte. – Vai logo, me tirou da cama no meio da noite, faça-me o favor. Vamos com isso.
Aceito as ordens do médico a cada dor empurro e quase uma hora depois quando sinto que não sobra mais nenhuma força finalmente ele nasce. O médico ergue meu bebê e meu coração se expande de tanto amor.
─Um menino. – O médico o coloca em meus braços. – Perfeito e saudável.
Beijo a cabecinha dele, Daryl faz o mesmo, os dois chorando, ele me beija.
─Obrigado por me dar meus dois menininhos. – Não consigo parar de chorar e sorrir com meu garotinho nos braços. Maggie beija minha testa chorando como nós. Beth deve estar louca para se juntar a nós.
Maggie pega meu bebê. O médico vai ajuda-la a banha-lo. Daryl cuida de mim, mais uma vez ele cuida de mim. Amo esse homem, o modo como ele me deu força para ser quem eu sou.
Quando estou limpa e com meu filho adormecido em meus braços Beth entra com Scott. Meus olhos marejam só de vê-los.
Abraço Beth, ela acaricia o bebê sorrindo, se afasta um momento quando Scott se senta no colo do pai e me sorri.
─Ele é pequenininho assim. – Ele mostra com as mãozinhas. – Que bonito. Pode ficar aí com você? – Me arrumo deixando espaço para ele ao meu lado. – É um menino que nem eu?
─É. – Digo apenas. Como ele faria.
─Como que ele chama? – Eu e Daryl nos olhamos.
─Não sei filho. Você que sabe. Como ele se chama?
─Seth. Beth me contou uma história, tinha um menino que chamava Seth.
─Lindo nome filho. – Olho para meu bebê, lindo e adormecido, os dedinhos pequenos, as unhas cor de rosa. Acaricio sua mão. – O que acha papai?
─Que temos dois garotos muito bons. Scott e Seth.
─É. Agora tem eu, a Judy e o Seth. Três crianças. Meu pai que me ensinou a contar. Vai ensinar ele, papai?
─Vou filho. Nós vamos. – Daryl me olha tranquilo. Seus olhos brilham me enchendo de mais amor. Sempre mais amor.
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