Apocalipse - A Era dos Mortos 2
8 Capitulo 8
Notas iniciais
Pov – Judith
Quando ela toca seus lábios nos dele meu coração dói como nunca pensei que poderia doer, meus olhos se enchem de lágrimas e corro de volta para meu lugar. Fico com os olhos fechados fingindo dormir.
A conversa dos dois se repetindo em minha mente e me sinto morrer um pouquinho. Scott não teve culpa, deu para ver que não esperava, que a conversa o incomodava, ele disse sem palavras claras que não tem interesse nela.
Ao mesmo tempo naquele pequeno dialogo senti como se eu não fosse importante para ele de outro modo, sou importante para Scott como sou para Carl. Será que é assim que ele se sente? Como se estivesse cuidando de uma irmã querida? Se for assim quanto mais ele vai resistir até se encantar pela beleza e a coragem de Ashley?
Não posso negar que ela é bonita, forte e está disposta a luta por ele. Por que isso me mata? O que eu quero? Seco uma lagrima, não sou e nunca vou ser irmã do Scott, ele é meu sorvetinho, meu amigo, meu rumo, toda minha certeza.
As coisas que sinto por ele não são coisas de irmão, eu gosto do seu toque, de deitar no seu peito, de abraça-lo, do cheiro da pele dele, da voz, quantas vezes não sonhei que ele me beijava e acordei sorrindo?
Gosto dele, amo. Amo Scott Dixon como uma mulher, quero eu ser a garota dele, eu é que tinha que ter beijado Scott, não ela, nunca aquela garota, ela não sabe quem ele é, as coisas que gosta, do que tem medo, ela não conhece seus olhos e o que eles dizem.
Seco mais uma lagrima de modo discreto, tenho medo dele voltar e me ver chorando, tenho raiva também, por que ele nunca vai gostar de mim do mesmo modo e um dia ele vai escolher alguém e vou perde-lo para sempre.
Não tenho com quem dividir essa angustia, todo mundo nos olha como os amiguinhos de infância, os bebês que cresceram juntos, as pessoas simplesmente nunca vão entender como me sinto.
Scott é a pessoa que conto tudo, se não posso dividir com ele esse medo então eu não sei com quem posso fazer isso. Tudo que eu queria agora era o colo de Beth, sua voz doce me cantarolando uma música romântica, seus dedos delicados me fazendo cafuné e me jurando que tudo vai acabar bem, por que ela sempre acredita nisso e ninguém pode mudar isso nela.
Quero ser o bebê Judith, só um pouquinho, quero ser o bebê protegido que não conhece os perigos de um coração partido. Não pode ser justo ele a partir meu coração.
O dia começa a clarear e as pessoas vão se movimentando. Respiro fundo, limpo as lagrimas, deixo o chão e me ponho de pé como todo mundo, não sou e nunca vou ser alguém que se rende e se entrega. Não foi isso que aprendi com os Grimes.
Ally se aproxima com um galão de água. Me sorri, mas logo percebe minha tristeza, então me puxa pela mão para um banheiro.
─Aqui. Agua limpa, lava esse rosto, não dá esse gostinho a ela. – Ally é sempre durona, me lembro que quando terminou com Carl era como se nada tivesse acontecido, continuo orgulhosa e de cabeça erguida. Ninguém nunca soube que sofria.
─Ally...
─Judy eu não sou idiota, tá bem? Eu vi ela indo atrás dele, vi que a seguiu e depois voltou chorando, eu sei que gosta dele de outro jeito.
Pego o galão de sua mão. Ela afasta meus cabelos. Por um tempinho fomos cunhadas e eu bem que aprovava o namoro deles.
─Obrigada Ally.
─Sem problemas, fica inteira e rápido, temos que sair logo e não queremos que seja você a atrasar as coisas. – Ela sai do banheiro, me ajeito rapidamente, escovo os dentes, lavo o rosto e prendo os cabelos. Eu sei que o mundo aqui fora não permite muito isso, mas se tenho chance agora por que não?
Troco a camiseta suada por uma limpa e mais fresca. Depois deixo o banheiro. Por mim ficava longe dele e dela. Scott me conhece como ninguém e vai saber que estou triste, além disso não vou fingir que estou feliz. Também não sei fazer isso.
─Tudo bem? – Ele pergunta assim que me vê. Afirmo desviando meus olhos, pego minha pistola, a faca e olho em volta. Todos prontos. – Judy.
─Podemos ir. Estou pronta. – Digo antes que ele faça perguntas.
─Certo. Vamos. ─ Ele se rende a minha determinação de olhar distante e se afasta.
Paul e Scott vão na frente, olham em volta antes de liberar a saída e depois continuamos pela pequena estrada. Um silencio brutal recai sobre todos. Em outros tempos me incomodaria, mas agora apenas aceito, me faz bem, minha cabeça está repleta de pensamentos ruins.
─Me acha um idiota por ter seguido vocês? – Caleb me pergunta se juntando a mim. Desde que saímos caminho ao lado de Ally.
─Já achava antes Caleb, ter nos seguido só confirmou. – Ele ri. Meia dúzia de bocas chiam pedindo silencio, ele para de rir, mas mantem o sorriso.
─Talvez lá seja melhor e eu possa me livrar do clube da Luluzinha.
─Quem? – Pergunto fazendo ele balançar a cabeça e sorrir.
─Eram revistas em quadrinhos, coisa de criança, uma menina que só andava com meninas. Só quero ficar longe.
─Devia sentar e chorar tudo que tem para chorar, ficar de pé e apoiar quem está do seu lado. Fingir que não se importa é tolice. Se bem que você é bem tolo.
─Você é tão linda. Podia parar de tentar me dar lições de vida, podíamos dar certo sem isso. – Abro a boca para responder que não tem chance, mas Scott se aproxima pisando duro. Entra no meio de nós dois.
─Qual a parte do fazer silencio não ficou bem clara? – Ele pergunta irritado.
─Um grupo como o nosso não precisa abrir a boca para ser percebido. – Caleb rebate. Scott olha para ele cheio de desdém.
─Mais um motivo para ficar em silencio. – Diz num fio de voz.
─Scott! – Kevin chama sua atenção, ele olha para frente e um grupo de pelo menos vinte zumbis caminhava lado a lado pela estrada.
Meu coração salta de susto, nunca estive tão perto, não depois de compreender o que eles são. Olho para Scott, o grupo apenas parado, observando aquela pequena horda caminhar em nossa direção a uns cem metros de nós.
─Vamos pegar eles e continuar. – Paul diz puxando o facão. – Judy pode ficar mais atrás.
─Não. – Scott determina. – Vamos entrar pela floresta e dar a volta. Pegamos a estrada mais à frente. Sem riscos Paul.
─Você manda! – Paul desanima. Me aperta o coração saber que ele poderia lutar com aquelas coisas, mais ainda saber que já fez isso algumas vezes. Que vai fazer outras tantas.
─Vem Judy. Silencio. – Ele encara Caleb. Deixamos a estrada e nos afastamos em direção a mata, depois viramos a esquerda e continuamos. Encaro o chão, Um grupo grande deles andou por aqui não faz muito tempo.
─Scott. – Mostro o chão.
─Eu sei. Seguiram para o sentido contrário ao nosso. Estamos bem. – Aceito isso e continuo a caminhar. Me afasto mais uma vez dele, dessa vez Ashley se aproxima.
─Quer dizer que a princesinha sabe reconhecer pegadas?
─Aprendi a esmagar traqueia também. Com a mão, mata e você nem se dá conta. Uma mordida na jugular também resolve. Meu pai fez isso uma vez. Ele estava com as mãos presas. Quer dizer, assim como os mortos eu nem preciso usar as mãos para te tirar do meu caminho.
─E o que as pessoas diriam disso? – Ela pergunta pulando um galho de árvore caído.
─As pessoas de Terminus? – Respiro fundo um tanto cansada, circundo uma arvore. – Quer saber o que as pessoas diriam para a princesinha mimada? Diriam, que feio Bravinha, não, não, não. Vai ficar sem jantar.
Ela arregala os olhos, é assim que me vê, como a protegida do Santuário, acredita mesmo nisso e por isso não tem dúvida que o grupo faria isso. Me afasto dela e me junto a Ally.
─Sabe que eu vou torcer o pescoço dessa garota antes de chegarmos em Albany né? – Ally me diz impaciente. Coloco um dedo na boca pedindo silencio, ela revira os olhos, balança a cabeça afastando a ideia e só continua a caminhar.
Começamos a pegar o caminho em direção a estrada mais uma vez, a floresta é quente, abafada, úmida, sinto calor, minha testa fica molhada e passo as costas da mão, tomo um gole de água. Scott se aproxima de mim e aperto o passo, ele me alcança.
─Está me evitando desde que saímos da cabana. Qual o problema?
─Nenhum. – Olho para frente, as pessoas vão passando por nós. Caleb com um sorriso cínico, Ashley com um olhar interessado. Paul, Kevin e Spencer atentos ao ambiente.
─Eu não sou cego. O que eu fiz? Sim por que eu sempre sou o culpado.
─Nada. Você não fez nada. Está se sentindo sozinho vá beijar sua nova amiguinha. Ou vai esperar a calada da noite? – Scott, fica bravo, seus olhos cintilam de raiva ele segura meu braço. Me impede de continuar.
─Paul. Vão indo. Lidera o grupo, alcanço vocês na estrada. – Ashley nos olha. – Todos vocês. – Ele esclarece determinado e sem alternativa ela segue com os outros.
Scott me mantem presa pelo braço, acompanha com os olhos até todos terem sumido pela mata, depois me solta e seus olhos encontram os meus.
─Do que diabos está falando? De onde tirou isso?
─Eu vi. Acordei e feito uma idiota quis ir te fazer companhia, mas você estava bem acompanhado. – Atiro a verdade, mesmo que ele não tenha tido culpa do beijo e a tenha recusado quero culpa-lo, quero brigar com ele, estou brava com o mundo e não consigo controlar.
─É típico de você! – Ele me acusa. – Joga sempre a culpa sobre mim. Se estava lá e viu sabe que não participei daquilo. Que não queria beijar ninguém, não dei espaço ela que veio se atirando.
─Você beija quem você quiser. Não tenho nada com isso. – Não quero chorar, nem ficar discutindo com Scott no meio da floresta, principalmente correndo o risco de zumbis surgirem e ele se matar para me proteger, mas não consigo controlar a revolta.
─Então por que diabos está de cara amarrada e me tratando mal?
─Te tratando mal? Não fiz isso. Estou te dando espaço para viver sua grande história de amor. Não é isso que quer?
─É surda? – Ele quase grita, depois se cala, anda de um lado para o outro, seus olhos encontram os meus. – Não quero viver nada com ela.
─Escondeu de mim o que aconteceu.
─Está fugindo de mim, como queria que contasse? Além disso o que tem para contar? Não aconteceu nada. – Ele se defende magoado, eu que devia ficar magoada, não ele.
─Nada? ─Aquilo é uma afronta a minha inteligência. ─ Beijou aquela garota. – As lagrimas embaçam minha visão, sabia que não aguentaria fingir que não vi nada.
Acho que nunca vi Scott com tanta raiva, até me assusta o modo intenso e irritado com que me olha, ele vem até mim com dois passos decididos. Sua mão toca minhas costas e ele me puxa, vou de encontro a seu peito sem reação de tanta surpresa.
─Aquilo não foi um beijo. Isso é um beijo. – Ele toma meus lábios. Meu coração acelera quando sinto seus lábios macios cobrindo os meus, não é gentil, é forte, poderoso, ele me envolve e me entrego como sempre quis fazer, como nunca tinha entendido que queria até estar realmente em seus braços.
Sinto o sabor da sua boca, o braço firme que mantem meu corpo colado ao dele, um procurando o outro numa brincadeira sensual de línguas e sensações, minhas mãos caídas ao longo do corpo se rendem e afundam em seus cabelos, me deixo levar pela sensação de pertencer a ele e quero repetir isso eternamente.
Scott se afasta. Seus olhos encontram os meus e sinto que me queimam a alma, ele sente algo por mim, me deseja como eu a ele e quando penso em sorrir sua expressão se transforma.
Um movimento e ele está com o rifle em punho, zumbis começam a surgir a nossa volta, boca podres e gemidos, braços e fome, estremeço de puro pânico, aperto a faca.
─A pistola Judy. – Ele diz com a voz rouca. Obedeço. Os mais próximos vão tendo suas cabeças esmagadas pelo cabo do rifle, Scott não se parece em nada com o garoto que convivi toda minha vida.
Fica cego, forte e tudo a nossa volta vai caindo enquanto vou tentando mirar algo que sempre cai antes de se aproximar de mim. Mais meia dúzia deles saia do meio das arvores e então ele faz mira com o rifle.
Os disparos derrubam um por um sem erro, a testa com uma perfuração como se fossem alvos imóveis. É apavorante perceber do que ele é capaz por mim. Então ele me puxa pela mão e corremos de encontro ao grupo.
─Temos que sair daqui, chamamos eles. – Só corro a seu lado, quero muito me concentrar em sobreviver e no apocalipse, mas só consigo pensar que ele me beijou.
Quando chegamos a estrada o grupo está armado e Paul já começa a correr em direção a mata. Ele para ao nos ver.
─Vamos. Eram muitos, tive que atirar! – Scott diz e continuamos a correr, agora todo o grupo apressado correndo conosco pela estrada.
O medo de mais deles nos cercarem e alguém se ferir se sobrepõe a imagem do beijo e só corro com todos deixando para trás o momento mais bonito da minha vida.
Tem um pequeno acidente na estrada, dois carros batidos, as portas abertas, esqueletos pelo chão, quando passamos eu pulo os ossos, uma lembrança qualquer parece invadir minha mente, talvez eu tenha visto coisas assim quando bebê.
A pequena estrada faz uma curva fechada, o grupo diminui os passos e saca as armas, o não saber é aterrorizante, meu coração salta alucinado, pelo medo e a corrida, aperto o cabo da pistola, um dia ela pertenceu ao meu pai, ele me deu quando fiz quinze anos.
Disse que tinha salvo nossas vidas de muitos modos muitas vezes e que faria o mesmo por mim quando fosse preciso. Não quero precisar. Não ter os portões do Santuário a minha disposição me enchem de pavor, estou longe de tudo e todos e como que por encanto compreendo realmente os perigos do lado de fora.
Ergo o braço como todos, fazendo mira em coisa alguma conforme vamos caminhando lado a lado em direção ao desconhecido.
Um zumbi apenas, um corpo arrastando tecido e cordas caminha perdido, Scott guarda o rifle, dá uns passos a frente e acerta a cabeça, o corpo não oferece resistência, as vezes sinto que de algum modo eles ficam gratos.
Nunca vou parar de pensar o que deve sentir essa coisa, que parte do cérebro sobrevive, o doutor Chan me diz que nada, não tem sentimento, lembrança, só fome e instinto de se alimentar.
Paramos de correr, seguimos apenas mais atentos que nunca, Scott um pouco mais a frente e agora não sei se querendo me evitar ou proteger.
Eu o amo, isso é assustador, amo e tenho medo, não quero perder quem somos, o que temos. Quero Scott na minha vida para sempre.
Ele diminui os passos e nos espera apenas muito tempo depois, o grupo esgotado, a tarde ganhando da manhã.
─Vamos comer e respirar um momento. – Ele determina no centro da estrada, o sol não está muito forte, estamos cada dia mais perto do inverno. – Agora Nova Albany está mais perto. Chegamos antes do anoitecer, mas como quero dar a volta vamos chegar a noite.
─Scott se eles foram atacados, se tiver algum outro grupo as coisas podem estar bem diferentes pelas redondezas. – Kevin diz um tanto preocupado.
─Kevin tem razão, conhecemos a segurança, sabemos onde estão as armadilhas, mas com pessoas novas... – Paul para de falar um momento.
─Podemos cair em alguma emboscada. – Ally termina e os olhos de Scott encontram os meus. Sou tudo que importa a ele, seu único medo.
─Vou me concentrar, obedecer, me treinou, sei o que fazer e não vou atrapalhar. – Aviso para tranquiliza-lo.
─Não torna nada menos perigoso.
─Vamos ficar todos atentos. – Ally me ajuda.
─Até eu perco a cabeça de vez em quando. – Ele diz sem olhar para ninguém em especial e penso se foi apenas isso, ele perdeu a cabeça e me beijou, odeio não poder esclarecer as coisas. – Do meu lado Judy. – Scott me diz quando finalmente nos sentamos todos em um círculo mais uma vez e ele abre a mochila, me estende um sanduiche, Kevin oferece um a Caleb que veio fugido e não tem nada. Duas garrafinhas de água vão passando de mão em mão.
Um zumbi surge uns quilômetros à frente, vem caminhando e apesar de todos o perceberem ninguém realmente se importa. Só continuamos a comer e respirar e fico olhando aquela coisa vindo em nossa direção, constante, por isso ainda estão aqui. Não param, eles nunca param. Nós cansamos, nos entregamos, mas não eles. Eles perseveram. Por isso sempre vencem.
Leva quase dez minutos para todo mundo comer, beber uns goles de água e se colocar de pé. O zumbi agora a poucos metros de nós. As pessoas continuam a não se importar e só começam a caminhar se afastando mais.
Ele nunca vai nos alcançar, vai seguir firme nosso rastro, mas não pode nos alcançar. Tento caminhar sem pensar nele a nos seguir, mas não consigo ignorar aquilo.
Um dia pode ter alguém no limite de suas forças, pode ser uma criança, alguém ferido e então ele vai se debruçar sobre aquela pessoa e matar sua fome de nós. Dou meia volta e caminho para ele, puxo minha faca, ele ergue os braços, eu o chuto, não quero aquelas mãos tocando em mim.
O corpo cai sem equilíbrio, piso em seu peito e acerto seu cérebro. Tiro a faca e me volto. Scott tinha a pistola em punho. Não diz nada, só me espera.
Meus olhos encontram os dele, sinto seu calor, ainda é ele, Scott, o meu sorvetinho, sorrimos um para o outro. Passo meu braço pelo seu. Continuamos a caminhar lado a lado.
Não sei o que vai acontecer conosco, mas ainda somos nós e no momento é só isso que importa. Ele se solta, passa o braço por meu pescoço, beija o topo da minha cabeça, meu braço envolve sua cintura.
─Bravinha!
─Sorvetinho!
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