Apocalipse - A Era dos Mortos 2
7 Capitulo 7
Notas iniciais
Pov – Scott
─Vamos evitar a cidade. – Aponto o mapa. – Ao menos na ida, vamos perder umas três horas com isso, entrando pela floresta aqui. – Arthur concorda com um movimento de cabeça.
─Certo, é boa ideia. Principalmente se não sabemos como as coisas são.
─Scott, você não está indo em uma missão de salvamento. – Carl me comunica. – Se as coisas lá estiverem feias...
─Eu sei Carl, não vou colocar nosso grupo em risco invadindo uma cidade dominada ou coisa do tipo.
─Observe antes de entrar.
─Pensei em chegar pelos fundos, eles têm aquela torre ao norte que dá boa visão de tudo, se chegar pelo sul eu posso me aproximar bastante sem ser visto.
─Bom plano. – Carl concorda. – O grupo de busca sai daqui exatamente na manhã do quinto dia. Vai refazer esse caminho. Então volte a tempo ou repita o caminho para tentarem se encontrar.
─Farei isso, no mínimo mando o Spencer. Ele é bom sozinho. – Eles afirmam.
─Caso tudo esteja como sempre, alerte sobre as possibilidades. – Arthur me comunica. – Já se despediu da Judy? – Todo mundo sabe que não viajo sem me despedir dela, nego, ergo a cabeça me perguntando onde ela está. Então Judy surge com uma mochila nas costas e andar decidido. Pronta para a guerra.
─Mas que merda é essa? – Carl vocifera. E sorrio. Um dia ela faria isso, agora o circo pega fogo e fico no meio da artilharia pesada. Essa garota ainda me mata.
Meu pai me sorri de lado se aproximando com Rick, sempre posso contar com seu apoio. Meu grupo esperava numa rodinha próximo ao portão, o mapa sobre a mesa, junto com meu facão, balança com o vento, eu o recolho e guardo enquanto Judith caminha para nós.
─Eu vou com o sorv... Com o Scott. – Ela conserta, acho que compreende que me chamar de sorvetinho nesse momento não mostra maturidade alguma.
─Não é hora para bancar a mimada Judy. – Carl diz a ela, Judy procura meu olhar, espera de mim ajuda, só o que posso fazer é cuidar dela se for comigo, não vou ajuda-la, essa é sua luta, além disso eu não posso prometer nada, sair é não ter certeza. Não quero esse peso.
─Estou pronta Scott, a mochila foi montada pelo meu pai, revisada toda semana, então acho que está em ordem. – Ela ignora Carl.
─Pai. – Carl apela para Rick, ele olha dela para o irmão. Os dois se enfrentando.
─Judy, isso é importante.
─Sei me defender, eu vou. Não estou pedindo. Não é sua escolha. Sinto muito pai, mas eu cresci.
─Não vai mesmo! – Carl avisa, ele é sempre dominador, protetor também, muitas vezes foi ele quem cuidou dela e de mim, me lembro dele lendo quadrinhos, segurando minha mão, carregando Judy, não somos inimigos e entendo que isso é amor em excesso.
─Podemos ir Scott. A hora que quiser partir. – Ela me olha, encaro o grupo com suas mochilas, é cedo, mas temos que aproveitar o sol e realmente não posso ficar aqui esperando que Pai, irmão e irmã se decidam numa briga que vem de meses. Anos talvez.
─Ela não vai Scott. – Carl comunica.
─Vai me prender? Usar finalmente a cela que temos? Pelo que sei não se perde tempo prendendo ninguém por aqui.
─Estou protegendo você. É minha irmã. Sempre te protegi.
─Para que? Até quando? Queria que eu vivesse e vivi, me trouxeram até aqui e agradeço, mas agora eu preciso seguir. Preciso ser dona da minha vida. Vou lá fora, Scott me treinou, eu sei o que tenho que fazer.
Todos me olham, eu fiz isso pelas costas deles, mas não podia fingir que tudo ficaria sempre bem. Nunca fica e hora ou outra ela pode precisar.
─Um dia filha. Não hoje. – Rick tenta debater.
─Hoje. – Ela caminha em minha direção. Carl aperta seu braço.
─Não. – Os dois se enfrentam. Judy tenta se soltar. Carl aperta mais seu braço.
─Ei. Solta ela. – Não queria me meter, mas ele não vai machuca-la só por que se acha seu proprietário. Dou dois passos em sua direção, meu pai se aproxima. Rick também. Carl solta Judy.
─Desculpe Judy, não queria te machucar. – Para surpresa geral Judith abraça o irmão ele corresponde meio sem entender.
─Eu te amo. Me protegeu enquanto o papai lutava, eu sei, teria morrido por mim mil vezes, não me esqueci, não estou sendo ingrata, me perdoa. Não quero sair brigada com você.
─Então fica. – Ele pede ainda abraçado a ela. – Ainda posso morrer por você.
─Por isso tenho que ir. Para não precisar fazer isso. – Os dois se afastam. – Olhe para ele. – Ela me aponta. – Não é o monstro matador de tudo que se move? Como posso não estar segura?
─Scott. – Rick se aproxima de mim. Seus olhos fixos nos meus. – É Judy. Minha filha. Tudo que construí, tudo que enfrentei, cada homem ou zumbi que derrubei foi por ela.
─Desculpe Rick, não posso fazer nenhuma promessa e você sabe disso, se te tranquiliza eu caio antes dela.
Rick aperta minha mão, ele sabe disso, todo mundo sabe, não é nada demais, é como sempre fomos.
─É o bastante para mim. Volte e abra mão da viagem se ficar difícil. – Ele sussurra. Sabe que não vou deixar Judy em perigo, ao menos não se puder evitar.
Meu pai se aproxima enquanto Rick e Carl se despedem de Judith e enchem a garota de recomendações e conselhos que deviam ter dado antes.
─Nunca tive tanto medo de te ver cruzar esse portão. – Meu pai diz com a mão no meu ombro, ele sabe que morro por ela e por todos os nossos. – Ao mesmo tempo, nunca tive tanta certeza de sua volta. Você tem sorte garoto, ela anda do seu lado desde sempre.
Eu sei. Sempre soube, eu estava num frízer, morreria ali sozinho, por um milagre eles passaram e ouviram gritos, ajudaram minha tia em seus últimos segundos de vida, depois me salvaram, foi apenas sorte, um empurrão do destino e eles surgirem no último segundo.
Abraço meu pai, beijo seu rosto e ele me envolve apertado, sinto que quer largar tudo e seguir comigo, mas agora sou eu que não o quero por perto, ele se atiraria na frente dos mortos no primeiro sinal de perigo, nunca me deixaria lutar.
Judy agora está nos braços de Beth, ainda tem Michonne na fila e vai levar mais tempo até tudo isso acabar.
Seth vem correndo, minha mãe logo atrás, ele veste um avental sujo de farinha. Me abraça.
─Boa sorte lá fora.
─Boa sorte aqui dentro. – Digo sorrindo. Minha mãe chega, me abraça e é aquela humilhação de sempre, no fundo me sinto amado e protegido pelo amor de todos eles.
─Amo você, amo você mais que tudo. É meu bebê, meu presente, volta logo e fica seguro.
─Prometo mamãe. Me lembro de tudo que me ensinou, estou bem. Seguro. Nada vai dar errado.
─Eu sei. – Ela me beija mil vezes, depois me liberta, pego meu rifle, aceno para todos e Judy se aproxima, segura minha mão sorrindo. Parece a garotinha de sempre prestes a aprontar alguma. Pisco e ela pisca de volta. – Amo vocês.
Aviso minha família antes de dar as costas a todos e passar pelo portão seguido pelo pequeno grupo. Ashley está nele e sei bem que não vai ser fácil manter ela e Judy no mesmo lugar sem provocações, as duas andam se estranhando pelo que sei.
Solto a mão de Judy, não estamos passeando pelo Santuário. Aqui é vida real e é cheia de mortos.
Passamos pela vala, três zumbis gemem espatifados lá dentro, normalmente daria cabo deles antes de continuar, mas hoje apenas sigo em frente. Isso é meu jeito de não correr riscos.
─Pouco barulho, economizem a água, não percam tempo matando se não for para se proteger. Nossa missão é chegar em Nova Albany, não exterminar zumbis.
Todos concordam com um movimento de cabeça, Ashley tem uma postura dominadora, quer de todo modo provar sua força, isso sempre leva a morte, preciso dobrar minha atenção a ela.
Desvio meus olhos de seu caminhar e eles encontram os de Judith, ela fecha a cara. Garota ciumenta que sempre entende tudo errado. Não me explico, me lembro dela dizendo que não tem nada com isso.
Caminhamos duas horas sem cruzar um único zumbi. Não é mais como antes. A cada dia eles diminuem, não morrem, mas dissolvem, desintegram, se fundem a natureza, a ação do tempo, a podridão, tudo vai destruindo aquelas coisas, até que você pise sem perceber numa cabeça.
Os que caminham se transformaram a menos tempo, ou passaram mais tempo protegidos da ação do tempo, em casas, galpões, vilas, prédios.
Escuto o gruir antes mesmo de ver qualquer coisa, todo mundo se prepara ficando atento, então é apenas um corpo preso a um tronco de árvore, a pele se desprendendo, um braço solto enquanto o outro está preso. Metade dele é apenas esqueleto.
Judy para diante daquela imagem deprimente, não é assustador, é triste, feio, é como um castigo a todos nós.
Judy que segura sua faca firme me pede autorização com o olhar. Afirmo e ela se aproxima, não titubeia nenhum momento, enfia a faca no cérebro e depois só volta para meu lado.
─Vamos. – Convido me colocando a andar de novo, não conversamos muito, economiza água e garante a segurança, meu grupo sabe disso, nossa vida é no santuário, lá temos tempo para conversar, aqui fora é sobreviver e é o que fazemos.
Depois de quatro horas caminhando sem parar decido que todos precisam de um descanso. Só uns minutos para repor as energias e continuar. Temos que estar na vila de casas quando escurecer e falta uma boa caminhada.
Faço sinal e nos sentamos todos. Judy se senta ao meu lado numa pequena roda que fazemos, assim um protege o outro. Caleb nos segue a distância desde que deixamos Terminus, não sei por que não se junta a nós de uma vez, mas eu é que não vou estragar sua brincadeira de esconde-esconde, se o idiota acabar devorado por conta disso problema dele.
─O silencio é tão opressor. – Judy me diz e afirmo. – No fundo até que me acostumei com ele.
─Gostei que enfrentou o Carl. – Ally diz a Judy que sorri um tanto sem graça. Ally e Carl namoraram uns anos atrás, depois acabou e ficou esse clima chato entre eles, uma certa implicância por parte de Ally, nada que afete seu trabalho aqui fora. – Estava na hora de dar um basta nele. Carl acha que é dono das pessoas.
─Ele queria me proteger Ally. – Judy defende o irmão, Ally sorri. As duas se entendem apesar de tudo, Judy não costuma confundir as coisas.
─Carl não conhece limites nesse ponto. – Ela toma um gole de água. Kevin se incomoda com a conversa, só Ally não vê que ele é apaixonado por ela desde sempre.
─Vamos passar a noite no abrigo? – Judy me pergunta mudando de assunto.
─É mais seguro, não temos bateria para ficar com a lanterna ligada a noite toda, além disso a luz chamaria muita atenção.
─Como sabe tudo que vamos fazer Judy? – Paul pergunta ela me dá um empurrãozinho no ombro.
─Obrigo o sorvetinho a me contar cada passo que dão. – Ashley faz um barulho como se estivesse querendo prender o riso, é apenas deboche. Judy a fuzila com o olhar. Ignoro o momento. – Quando ficaram três dias lá para deixar tudo seguro eu quase morri de preocupação.
─Valeu a pena. É um bom lugar, ao menos contra os mortos. Os vivos já não acho boa ideia. Logo se vê que tem pessoas lá, colocamos estacas, abrimos uma vala em torno de duas casas e deixamos sempre muita água estocada.
─Isso é bom, se alguém em apuros precisar tem onde se esconder.
─Judy as pessoas que estão do lado de fora sabem o que fazer. Não é como antes. Não tem mais inocentes, ou aprenderam ou morreram.
Paul tem por volta de quarenta anos. Sabe tudo do apocalipse, como era antes, como tudo ruiu e onde chegamos. Ele não tem ilusões.
─Vamos continuar? – Fico de pé, olho em direção onde Caleb deve estar escondido pelas folhagens, quero ver se vai continuar escondido quando fecharmos a porta ao anoitecer.
─O que foi Scott? – Judy pergunta seguindo meu olhar.
─Nada. – Spencer sorri, ele é bom na mata, assim como eu sabe que o palhaço nos segue.
Continuamos a caminhar, uma hora depois encontro uma bicicleta caída, uma perna ou o que resta dela presa a ela.
─Que tipo de estúpido pensou em fugir pela floresta de bicicleta? – Ashley questiona rindo. É ignorada, depois de mais uns metros um zumbi sem perna se arrasta, de novo é Judy a acerta-lo, dessa vez ela se esforça mais para afundar a faca em seu cérebro.
─Não se transformou faz muito, por isso foi mais difícil. – Aviso a ela que só continua a caminhar. Deixamos a floresta e seguimos por uma estradinha de terra, por ela o caminho é mais rápido, mas sempre pode ter mais zumbis.
─A floresta estava sufocante. – Ela me diz respirando fundo. – Parece mais úmido.
─E é. Prefiro a estrada, mas fica mais atenta.
─Cuidado para não tropeçar. – Ashley provoca passando a frente.
─Vai ficar acompanhando o andar dela com os olhos? – Judy pergunta e balanço a cabeça achando aquilo ridículo.
─Quer parar de ser ridícula? Só um pouco. – Ela faz careta e também se apressa, estava bom demais para ser verdade. Spencer se junta a mim, descanso a faca e pego o rifle, se ela vai andar na frente é bom que eu tenha uma arma mais rápida.
─O cara vai nos seguir até quando?
─Até quando ele quiser Spencer, ou até ser devorado, isso não é problema meu.
─Se queria vir junto por que não se juntou a nós? Não fica preocupado?
─Não. É só um cara, ele não é perigoso. Não para ninguém além dele mesmo. Deixe que nos siga.
Dois zumbis saem da floresta. Ashley se apressa a derruba-los, quer medir forças com Judith.
─Só mata os que estão no chão ou presos? – Ela pergunta a Judy que não deixa de encara-la. – O próximo é seu.
─Isso não é uma disputa, não tenho tempo para isso. Ashley volte para perto do grupo ou para casa, não vão brincar disso. Não enquanto eu liderar esse grupo.
Ela se espanta um pouco. Se junta a nós e Judy faz o mesmo. Não paro mais nenhuma vez. Sei que estou sacrificando os outros, mas quero chegar logo a cabana. Não estou afim de mais problemas.
A noite estava próxima quando nos aproximamos da pequena vila, meia dúzia de casas próximas a estrada, duas delas queimada, uma sem teto e as outras em bom estado, a do meio é onde sempre ficamos. É o bastante para uma noite de sono entre Albany e Terminus.
Eu e Paul passamos a frente do grupo. Spencer e Ally fecham o grupo e Ashley e Judy ficam no meio.
─Não preciso de proteção. – Ashley reclama.
─Cala a boca garota. – Ally se irrita, se Judy não é muito paciente Ally é zero paciência. Com ela não tem dialogo.
Prendemos estacas protegendo a entrada, cinco zumbis estão presos a elas, acerto seus cérebros com a ajuda de Paul, passamos para o outro lado, a porta está encostada.
Faço sinal avisando que vamos entrar antes, empurro a porta com o rifle em punho, eu e Paul nos separamos dentro da casa. Dois galões de água estão vazios e jogados pelo chão. Tem sinais de que a casa foi ocupada a pouco tempo.
Talvez por isso os zumbis nas estacas, sentiram a presença de alguém. A casa está vazia e segura, quem quer que tenha estado aqui já foi. Pode ser que sejam os possíveis inimigos, ou qualquer pessoa, talvez mesmo o grupo de Albany que estava indo a nosso encontro, eles também conhecem o lugar e usam em suas viagens.
Vou até a porta e faço sinal para os outros, assim que estamos todos do lado de dentro fecho a porta. É noite, passo o trinco e penso em Caleb do lado de fora. Me viro para Judy.
─Fica aqui dentro. – Aviso e ela arregala os olhos, tenta contestar. – Aqui. Paul.
─Vai buscar o palhaço. Cuido dela.
─Buscar quem? – Ela pergunta, mas deixo que um dos outros explique. Saio fechando a porta atrás de mim. Uso a faca. A escuridão não ajuda a mirar. Circundo a casa, nada dele. Que merda. Ando um pouco mais para dentro da floresta pensando onde ele se esconderia para passar a noite.
Olho para casa queimada. Talvez ele tenha se encolhido entre as ruinas.
─Caleb! – Não quero gritar, mas se está por perto ele vai ouvir. – Caleb!
Entro na casa. Nada dele, ao menos não visível. Decido que ele deve saber se cuidar, já fiz mais do que merece pela idiotice de nos seguir. Dou uns passos para fora da ruina quando escuto seu grito. Me volto saltando por móveis queimados e restos de parede. Invado o que restou de um quarto e ele está acertando a cabeça de um zumbi, mais dois se aproximam. Ele empurra um deles e cai junto, segura a cabeça do zumbi enquanto o outro se debruça sobre ele.
Me aproximo, acerto o que está livre e depois o que ele luta. Tiro o corpo de cima dele e Caleb se levanta limpando a fuligem e o sangue dos corpos.
─Eu estava dando um jeito. – Me diz irritado. – Foi você que os convidou me gritando.
─Por que diabos está nos seguindo o dia todo?
─Quero ver esse lugar. Nova Albany. Talvez eu prefira ficar por lá.
─Será um prazer deixa-lo lá. – Dou as costas a ele e sigo de volta a casa, ele me acompanha.
─Eu estava dando um jeito. – Ele repete e afirmo sem vontade de discutir.
Quando entro com ele logo atrás de mim, Judy se pendura em meu pescoço assustada.
─Que susto. Ouvi os gritos, não me deixaram sair.
─Está tudo bem. – Me solto dela para encarar Caleb. – Ele vai seguir conosco, quer ficar em Nova Albany. – Ashley o encara um tanto brava, eles que se entendam.
─Faço a primeira guarda com a Ally. – Kevin avisa parando próximo a janela da sala, Ally pega seu rifle e segue para os fundos.
Forro o chão com um cobertor, aponto para Judy, ela sorri e se deita depois de tirar a faca e colocar a seu lado. A pistola junto. Me deito também.
─Faz tempo que não dormimos no telhado olhando as estrelas. – Ela me lembra e afirmo. Judy usa meu braço como travesseiro. – Pode me acordar e vigio com você.
─Dorme, amanhã não tem parada. É só caminhar. – Ela fecha os olhos, em um outro dia talvez eu dormisse umas horas, mas com ela ali tão longe de casa não consigo pegar no sono, se algo acontece tenho que estar pronto.
Judy nunca teve problemas com sono, Beth brinca que ela dormia até no meio de uma fuga, com hordas nos perseguindo. Tiroteio. Sorrio com a ideia. Ter ela perto assim sempre me confunde um pouco.
Eu amo Judith, mas não posso confundir as coisas, não posso pensar nela de outro modo que não seja como uma amiga, irmã, ou coisa do tipo, Rick não me perdoaria, não, isso não é certo.
Mais de uma vez pensei, todas as vezes eu queria beija-la. Afasto a ideia ficando de pé sem fazer barulho, ela continua a dormir. Sigo para cozinha. Ally encarava a noite pela janela.
Toco seu ombro ela se vira num leve sobressalto. Me vê e relaxa.
─Vai descansar. Eu fico. – Ela afirma. No meio do caminho se volta.
─Cuidado Scott, esses dois não são nossa família. Não sabemos o que podem aprontar, o quanto podem nos colocar em risco. Carl morreria se acontecesse algo com a Judy.
─Eu também Ally. – Ela afirma e depois me dá as costas, me posiciono, é tudo sempre tão monótono, apenas olhar o nada, horas a fio encarando a mesma paisagem esgotada, vez por outra o vento sopra balançando as folhas e quase festejo o leve movimento. Sinto passos atrás de mim, não é Judy. Conheço seu andar.
─Oi. – Ashley se senta ao meu lado diante da janela, encara a noite assim como eu. – Quer que fique no seu lugar?
─Não.
─Por que não confia em mim ou não me acha capaz?
─Não sei. Talvez os dois. – Ela me sorri.
─Sempre honesto. Gosto disso em você Scott. – Ela toca meu braço.
─Não tenho por que mentir.
─Posso ficar com você? Sua paixão secreta não vai se importar. – A mão continua a tocar meu braço.
─Está falando bobagem.
─Retire o que eu disse, nem sempre honesto. – Suas palavras me incomodam, não sei se por que talvez seja verdade ou porque ela põe em palavras o que muitos pensam.
─Não somos amigos Ashley. – Por que ela acha que vou falar de mim? Sua mão sobe por meu braço em direção a meu ombro, olho para ela confuso. Não sinto qualquer vontade de ser tocado por ela.
─Prove que ela não é importante. – Ashley se aproxima mais, tenta me beijar e toco seu ombro afastando-a.
─Eu nunca disse que ela não era importante. Ela é a pessoa mais importante. Vá dormir, eu continuo com a segurança.
─Certo Scott. – Ela sorri ficando de pé. – A conversa continua um outro dia. Quando não estiver tão preocupado com sua protegida.
Quando menos espero Ashley se dobra e beija meus lábios, depois some. Não devia mexer comigo, não devia significar nada, mas é o oposto. Aquele leve tocar de lábios me atira ao inferno da certeza. Eu amo Judith Grimes, a única mulher que eu não podia amar.
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