Apocalipse - A Era dos Mortos 2
6 Capitulo 6
Notas iniciais
Pov – Judy
Se Rosita não tem certeza sobre as pessoas com quem viveu anos, então talvez possa mesmo ser seu grupo. Mesmo ela tendo demorado tanto a chegar talvez eles tenham vindo depois, é difícil ter certeza.
Fico em dúvida mais uma vez se os quero ou não aqui. No começo pareceu ser boa ideia gente nova, mas agora sinto tudo meio mudando. Scott passando horas sozinho com a garota lá fora quando eu imploro há anos e só ouço não de todos os lados.
─Obrigado Rosita. Você está bem aqui. Não se preocupe, não é sobre você. Vamos conversar e depois te aviso. – Carl diz a ela. ─ Avisa ao Caleb e a Ashley que a entrevista fica para um outro momento. – Ela afirma.
─Eu trouxe meu pequeno grupo aqui. Posso ir lá fora e ajudar. Sabem que sei e posso lutar como antes. – Ela avisa e depois deixa a sala, os olhares recaem sobre mim.
─O que? – Pergunto sabendo bem que eles querem que eu saia.
─Deixa a gente um pouco Judy. – Carl Grimes e seu ar de líder me pede. Olho para Scott.
─Vamos Judy. – Ele toca meu cotovelo. – Eles querem conversar.
─Scott! – Arthur o chama. – Precisa ficar. – Ele insiste.
─Ficamos os dois ou nenhum dos dois. – Scott diz a todos, meu pai me fuzila com o olhar. Eles precisam de Scott, Daryl esconde um sorriso, ele sempre admira o filho e por ele eu já estaria lá fora, lutando pela vida como todo mundo que faz por merecer viver.
─Senta Judith. – Meu pai diz a contragosto, Carl olha para ele um tanto bravo, os olhos do meu pai pedem paciência ao filho, seus olhos sempre pedem isso a ele.
─E então? – Daryl questiona. – Alguma ideia?
─Vou pegar um pequeno grupo e seguir para Nova Albany quando amanhecer. É tudo que podemos fazer por enquanto. – Scott avisa para meu desespero.
Um silencio se forma. Todos trocando olhares. Cruzo os braços no peito, rezo mentalmente para alguém dizer ao meu sorvetinho que ele não vai deixar esses muros. Odeio isso, simplesmente não é justo que ele se arrisque lá fora enquanto fico aqui sem saber de nada.
─Parece que é isso. Leve os melhores. – Carl pede a ele.
─Quero ir. – Arrisco um pedido.
─Não. – Meu pai responde por todos. – Isso não está em negociação. Você fica.
Nem Scott o desafiaria. Não teria resultado e acabaríamos os dois presos aqui. Suspiro sem insistir.
─Vamos dobrar a segurança. – Carl comunica. – Meu pai e Daryl podiam dar uma busca por perto. Só verificar nosso posto de segurança. Daryl e Scott são ainda os únicos a seguir rastros e o Scott vai partir para Albany.
─Você tem razão Carl. Nós vamos. – Meu pai concorda.
─Ótimo. Vou dobrar a segurança. Não sei se é boa ideia, mas acho que podemos colocar Rosita na segurança. O que acham?
─Carl eu acho que ela é confiável. – Arthur comenta. – E a Ashley? O que achou dela? – Ele pergunta a Scott e me interesso pela resposta.
─Segura. Não estava com medo, parecia saber o que estava fazendo. Não sei se é confiável, mas não precisa ser protegida. – Como eu preciso. Penso magoada, nem devia. Scott é o menos culpado. Me ensinou tudo que aprendeu, escondido é claro.
Rastrear, caçar, lutar, atirar. Tudo, a cada dia que voltava depois de um treinamento com Daryl me ensinava. Tudo teoria, na teoria sou forte e capaz, na prática nunca vou saber. Eles nunca vão me permitir.
─Certo. Quem vai levar? – Carl questiona Scott.
─Spencer, Ally, Kevin e Paul. É um bom número. – Ally pode ir. Eu não. Suspiro.
─Então é isso. Mich e Glenn coordenam a segurança, Scott vai a Albany, Daryl e Rick procuram por sinais. Alguma pergunta? – Arthur questiona.
─Eu tenho. – Ergo o braço e ganho os olhares. – No caso de um ataque, atrás de quem devo me esconder? Quem vai morrer por mim?
Lá está o silencio sem resposta de sempre. Nenhum deles pode contestar isso. Não sou criança, não é justo que um homem ou mulher se sacrifique para a filha de Rick Grimes viver.
─Atrás de mim Judith. Seu pai. Estou aqui. De pé. Acredite, já foi muito mais difícil proteger você. Eu tinha apenas uma mão. A outra usava para carregar você. – Meu pai me atira na cara sem pena. Scott pega minha mão.
─Vem Judy, a reunião acabou. Vamos para o telhado. É nossa vigia.
Não é, mas aceito de bom grado. Uso a escada, ele salta pelo muro, escala uma calha e chega primeiro lá em cima, tem um lindo sorriso a me recepcionar. Acabo por sorrir de volta.
─Carl diz que tinha um super herói que se chamava homem aranha que fazia essas coisas. – Conto a ele. – Essas coisas de historinhas que ele conta.
─Se imagina naquele mundo? – Ele me pergunta quando nos sentamos no telhado balançando as pernas lado a lado.
─Não. Fico pensando que eles ririam se pudessem ver como as coisas são na minha mente. Eles contam, mas não entendo bem. Parece estranho. O que acha mais estranho de tudo?
─Tecnologia eu acho. Essa coisa de computadores.
─É estranho, mas acho que o que mais me causa estranheza é também o mais básico, a grande diferença, o que mudou tudo. Os mortos. – Digo um tanto melancólica. – Pense em como era estranho. Simples. As pessoas só morriam.
─E mesmo assim havia guerras e diferenças. – Scott comenta. – Deve ter sido difícil se acostumarem. Apavorante eu acho.
─Nunca vou saber. – Ele concorda. – Nunca vai acabar. Eles continuam e continuam.
─Meu pai diz que eu tinha medo. É estranho, porque não me lembro.
─Quando está lá fora. Não tem medo? – Pergunto a ele, mais uma vez pergunto a ele.
─É diferente. Não é medo deles. Meu medo é não salvar quem está ao meu lado, é não voltar para casa. Eles são só mandíbulas. Apenas isso.
─Meu medo é você morrer para salvar quem está do seu lado.
─Me cuido. – Ele tenta me tranquilizar. – Vai se cuidar enquanto estiver fora?
─Volta? – Pergunto passando meu braço pelo dele e me encostando em seu ombro.
─Sempre.
─Queria estar lá fora com você.
─Vamos fazer uma rebelião e tomar o poder. – Ele tenta brincar. Sorrio um tanto triste, dias e dias sem ele, isso me mata.
─Estou pronta sorvetinho. Armas em punho! – Ele ri. Beija minha mão presa a dele. – Gosta dessa garota nova?
─Vai começar?
─Vai ficar bravinho? – Reclamo.
─Bravinha aqui é você! – Faço careta. – Eu sei que cresceu, que quer ir ver o mundo, mas Judy, acredite, é feio. Não tem nada bom lá fora. Só mortos, eles estão se desmanchando, mas ainda te seguindo, tudo cheira mal, é feio e triste.
─Lembra aquele álbum que encontrou uma vez e me trouxe? Que sua mãe disse que era de alguém que tinha viajado o mundo?
─Sim. As coisas eram bonitas, as ruas cheias de gente, limpas, agora...
─Eu posso enfrentar esse mundo. Eu quero.
─Não sou eu Judy, não é a mim que tem que convencer.
─O que seria imperdoável Scott?
─Como assim? – Ele me pergunta sem entender minha pergunta.
─O que eu precisaria fazer para não me perdoar nunca?
─Não consigo pensar em nada. Matar meus pais? – Ele brinca. Nego, isso é bom, tem uma ideia se formando em minha cabeça e tenho medo de perder Scott.
─Que bom.
─Tenho que armar o grupo Judy, me preparar, preciso descer.
─Eu sei. Vou ficar aqui mais um pouco. Te vejo depois. – Ele me beija a testa. Depois escorrega pelo parapeito, se apoia na calha e uns segundos depois está lá em baixo, some em seguida.
Se eu não me arriscar, se não tomar as rédeas da minha vida vou ser sempre o bebê Judith, esse mundo já provou que não dá chance aos fracos. Sei rastrear, posso pega uma mochila, um rifle e seguir Scott, ir finalmente até Nova Albany.
Ajudar a resolver as coisas, tomar minha vida a força. Quem pode condenar alguém por tentar vencer? É melhor que me esconder feito uma covarde, uma princesinha como Caleb diz.
Mary era frágil, Daryl a ensinou. Ele não precisava, podia apenas ter trazido ela até aqui sob suas asas, mas ele a ensinou. Ensinou Scott a ser que é hoje. Ensina Seth. E eu ainda sou apenas o bebê Judith.
─Vou fazer isso, ninguém vai me impedir. – Digo em voz alta determinada como nunca estive antes.
─Fazer o que? – A voz de Caleb me assusta, quase caio ele ri me segurando pelo ombro, depois se senta no lugar de Scott.
─Nada. Estava apenas pensando alto. O que faz aqui? – Ele olha o horizonte. Da de ombros.
─Apreciar a vista?
─Vou deixar você em paz então. Se vir algo é só gritar. – Tento me levantar, ele toca meu ombro.
─Fica. – Me sento novamente. Caleb me intriga. Todos eles têm esse efeito sobre mim. – Eu vi o seu herói descer. Parece ter algo acontecendo.
─Parece que tem a ver com os mortos. – Respondo, ele me olha curioso. – Não soube? Ouvimos dizer que agora eles caminham por aí e pior. Comem pessoas.
─Certo. Mereci essa. Está triste princesa do apocalipse?
─Me chamar assim não incentiva uma futura amizade.
─Talvez eu seja um tanto cínico. Não é uma ofensa.
─Apenas uma provocação. – Rebato, ele sorri.
–Pode ser.
─Não estou triste. Só preocupada. Quem não está?
─Eu não estou.
─Que bom para você. Que pena também. Deve ser triste não ter com o que ou quem se preocupar.
Ele passa a mão pelos cabelos, sorri mais uma vez, suspira encarando a vista. Floresta, trilhos, silencio.
─Honestidade afasta as pessoas. Sei disso, mas que se dane. É quem eu sou.
─Acho que só tem medo, já perdeu muito como todo mundo e agora quer a todo custo afastar as pessoas. Parece só uma defesa. Você não é quem diz ser.
─E não é que os psicólogos sobreviveram? – Ele ri da minha cara. – Gente que analisava mente. Ajudava os fracos. Frequentava um quando o mundo acabou.
─Então era um fraco? – Pergunto e ele me olha um momento.
─Eu era um garotinho. Pequeno demais para fazer escolhas, não sabia o que esperavam de mim. Eles queriam... Esquece.
─Segredo?
─Bobagem. O mundo acabou, todo mundo morreu e eu estou aqui.
─Nasci depois do fim. Não sei muito como era antes. Só o que me contam.
─Acredite, não era nada diferente. Não se deixe iludir. – Ele força a visão. – É para lá? – Aponta o horizonte. – A tal cidade amiga. A liga das nações?
─Sim. Nova Albany fica naquela direção.
─Como eles são?
─Orelhas pontudas, verdes, três dedos. – Caleb ri. – Eu e o sorvetinho... Scott sempre brincamos disso.
─Sorvetinho? Que humilhação.
─Idiota é mais humilhante, mas esse titulo é seu, não tenha medo. – Fico de pé. Tenho que colocar meu plano em ação. – Preciso ir.
─Ficou brava? Estava só...
─Tchau Caleb. Eu tenho pessoas. Eu sei que acha estranho, mas tenho e gosto delas, então preciso olhar por elas.
Desço pelas escadas, ele não insiste, apenas me segue e quando piso em terra firme ele ainda ria saltando ao meu lado.
─Judy! – Scott para olhando de um para o outro. Cruza os braços e sei que está bravo. Caleb acena, não força a presença só se afasta com um sorriso idiota no rosto.
─Oi. Já aprontou tudo?
─O que fazia lá em cima? Qual seu negócio com esse cara?
─Você desceu e eu fiquei, ele apareceu, conversamos uns minutos e desci. Só isso. – Me explico, ele com cara de que me odeia para sempre e sou uma idiota. – Está bravo?
─O que acha?
─É uma retórica? – Abro seus braços que antes estavam cruzados e o obrigo a me abraçar. – Vai partir que horas?
─A gente não terminou de falar sobre esse Caleb.
─Terminou sim. Ele é um perigo, eu não o conheço, tudo pode dar errado, ele podia ter me machucado lá em cima e ninguém nunca saberia. Pronto. Ah! E eu preciso ser muito mais cuidadosa se quero que um dia meu pai confie em mim.
─Sou assim repetitivo? – Ele faz uma carata desiludida. Afirmo. – Então seja boazinha e fique longe.
─E você. Vai ficar longe dessa Ashley? – Ele desvia os olhos, tem algo que não sei e me afasto para olhar para ele.
─Não foi ideia minha. Ela vai. Carl e Arthur acham um bom teste, Rosita não se opôs.
─Boa noite Scott. – Dou as costas a ele.
─Mas ainda é dia.
─Para você ver que por hoje chega de você. Não cuide mais da minha vida.
─Você está com ciúme! – Ele me acusa e claro que estou. Quem não estaria? Ela pode tudo, vai com ele, no meu lugar, onde eu devia estar, sempre assim. Não respondo, nem olho para ele. Apenas caminho para longe me sentindo um nada.
Scott não me segue. Ele me conhece mais que qualquer um e sabe que as vezes preciso ficar sozinha. Entro em meu quarto na casa do meu pai. Felizmente não tem ninguém em casa.
Lori Grimes não precisava ter ido tão longe. Morrer para me salvar e para que? Nada. Minha mãe morreu por nada. Só para um monte de gente passar a vida a me proteger. Desde sempre. Nomes e mais nomes, gente que nem me lembro já me teve nos braços. Fazendo minha vida valer mais que a própria e no fim eu vou acabar como todo mundo. Gruindo.
Separo meu jeans mais confortável. Tudo sempre é velho. Tecido é raridade, em Albany eles fabricam e reciclam roupas. Ajeito as botas, couro e borracha é conosco. Somos bons nisso.
Encaro a mochila. Tudo está bem, você está segura, eles dizem, mas desde sempre tenho uma mochila pronta. Montada pelo velho Rick Grimes.
Agua, comida desidratada, uma pistola e uma caixa de munição, faca extra, sinalizador por que ele não tem limites, fósforo, lanterna. Tudo pronto, posso segui-los, não vai ser minha primeira tolice. Talvez seja a última, mas não a primeira.
Saio pela janela quando estiver amanhecendo, pulo o muro e os sigo a uma distância segura. Se precisar de ajuda... Bom, se precisar de ajuda eu grito e Scott me traz de volta pelo cabelo.
Me deito na cama pensando o quão estúpida é minha ideia, ao mesmo tempo eu simplesmente sei que nunca vou ganhar espaço se não pegar a força.
Penso em deixar um bilhete. Nada vai ser o bastante para parar meu pai. Eles vão colocar um pelotão de gente atrás de mim, enfraquecer nosso forte e tudo que vou conseguir é ser chamada por todos de princesinha mimada.
Encaro a mala, não posso fazer isso. Não é certo. É infantil demais até para mim.
Só tem um jeito. Quando o dia amanhecer vou colocar minha mochila nas costas e sair pelos portões com o grupo. Eles só vão ter um modo de me impedir, me amarrando e não sou uma prisioneira.
O quarto começa a escurecer com o cair da noite. O jeito é ir me desculpar com meu sorvetinho, ele não tem culpa de me achar incapaz. Todo mundo acha. E não mentiu quando disse que eu estava com ciúme, estava mesmo.
Bato em sua porta. Mary abre e sorri ao me ver. Tenho tantas mães. Essa é uma delas. Eu a abraço. Foi ela a me trazer ao mundo.
─Oi. – Ela me dá passagem quando nos afastamos. Daryl e Seth conversavam na cozinha. Os dois me encaram. Beijo a cabeça de Seth. Depois abraço Daryl.
─O que foi Bravinha?
─Estou triste, quero ir junto Daryl.
─Aposto que quer.
─Na verdade. Eu vou junto. – Ele ergue uma sobrancelha. – Nem faz essa cara, eu já decidi. Acha que o Scott vai me matar?
─Acho, mas seu pai vai ser mais rápido. Não é algo muito grande para se rebelar? Que tal uma volta lá fora, te ajudo a pular o muro e passamos uma noite na floresta.
─Já fiz isso Judy, é legal e apavorante. – Seth me conta. – Mas não precisei pular o muro. Meu pai me levou.
─Se permitir eles não vão me deixar lutar.
─Seu pai é meu irmão Judy. Não vou me meter nisso. Não é certo. Sinto muito.
─Sei disso. Não quero criar nada entre vocês. Vou cuidar das coisas. Juro que não vou fugir.
─Scott está no quarto. – Daryl me avisa. – Vai lá.
Quando entro sem bater ele ergue o olhar já deitado. Não diz nada. Só se afasta um pouco e me sento em sua cama.
─Eu sei que tenho ciúme.
─Que bom. Admitir é o primeiro passo.
─Você ficou com ciúme do Caleb. – Ele revira os olhos ofendido.
─Está sendo ridícula, cuidar de você não é ciúme?
─Só vim dar boa noite. Vou dormir cedo também.
─Se cuida quando eu estiver fora. Isso é sério e para de esquecer sua faca que alias...
─Droga! – Toco a cintura e não encontro nada, deixei tudo pronto para amanhã e acabei me esquecendo dela. – Não precisa sair daí, eu levo a sua. – Pego sua faca, ele pega da minha mão.
─Eu te levo. – Ele me atropela para se levantar. Nem reclamo, se não amanhã ele ainda vai estar bravo comigo.
Deixamos a casa depois de eu acenar para todos. Seth já não está mais. O garoto já pode andar a noite, na idade dele eu não podia quase nunca.
Scott me deixa na porta, eu o abraço. Sorrimos um para o outro. Vou com ele, meu sorvetinho ainda não sabe, mas eu vou e nada nem ninguém vai me impedir.
─Prometo não partir sem dar tchau. – Dessa vez eu não ia pedir isso, então apenas aceno concordando.
─Boa noite sorvetinho. – Ele me beija o rosto, me abraça e entro ou ele não vai embora. Me deito com medo de perder a hora ou a coragem.
Amanhã será meu grande dia. Preciso estar descansada e forte. Carl e meu pai vão ter vários pequenos ataques e Scott nunca vai me dizer não, mas vai passar metade do caminho resmungando. Ele é igual ao pai, Daryl jura que o achou num frízer, mas Mary sempre brinca que acha que foi ele que o colocou lá.
Pov – Seth
─Vou dar uma volta antes de dormir. – Aviso meu pai e ele sorri. Agora todo mundo fica me provocando por que andei perguntando de Nina. Não é nada demais. Só aqueles cabelos vermelhos que me chamam a atenção.
Nunca nem falei com ela. Descobri do nada que sou tímido. Não sabia até ela chegar. Deixo a casa, circundo o lote de pequenas casas e chego ao pátio, passo pelos estábulos, as gaiolas, atravesso toda a área dos animais.
Finjo que estou só dando uma volta, mas a verdade é que quero passar em frente a janela dela, já notei que ela fica lá a noite e sinto uma curiosidade irresistível de vê-la.
Desde que chegou toda hora penso nela. Meu pai disse que ela vai começar a trabalhar em breve e que vai começar pela padaria. Que ele mesmo pediu a Maggie e a mamãe para coloca-la lá.
Fingi que não me importava, mas gostei da ideia. Sorrio quando penso nisso. Quando me aproximo do alojamento já com a visão apurada para a janela tropeço em um corpo, puxo a faca no ambiente escuro.
─Desculpa! – A voz feminina e delicada me faz parar e lá está ela. Nina. Me olhando pálida de susto. Guardo a faca.
─Não vi que era você. Pensei que pudesse... Desculpe.
Ela afirma, depois sorri. Sorrio de volta, olho para os lados, não vem ninguém, está tudo calmo como sempre.
─Eu saí para dar uma volta. Fui ver os animais, depois me atrapalhei na volta. – Ela diz meio sem graça.
─O alojamento... – Aponto na direção, ela afirma.
─É. Agora eu vi.
─Te acompanho. – Ela aceita começando a andar. Vou seguindo a seu lado, lento para demorar mais. – Está desarmada? – Ela afirma. – Não é boa ideia. Ande com uma faca ao menos.
─Só ia dar uma voltinha. Acha que aqui não é seguro?
─Nenhum lugar é. As pessoas sempre podem morrer e começar uma confusão.
─Vou tomar mais cuidado. Sou a Nina. – Ela me diz e afirmo.
─Eu sei. Todo mundo sabe. – Me apresso para não parecer que andei perguntado por ela. O que eu fiz e muito.
─Você é o Seth.
─Isso. Seth Dixon.
─Nina Ford! – Ela diz e apertamos as mãos, depois continuamos a andar.
─Está gostando?
─Acho que sim. É diferente do lugar de onde eu vim. Lá nem parecia o fim do mundo, mas aqui as pessoas veem tudo de modo mais claro, acho melhor.
─É. Seu nome é diferente. Nina. Eu gosto. – Ela sorri e puxa esse sorriso assim grande fica bonito demais nela. Até me da uma coisa.
─Minha mãe é latina. Ela sempre diz que o povo dela sabia se virar nas dificuldades, que deve ter muita gente viva.
─Tomara.
─Nina quer dizer menina, mas também significa fogo em algumas tribos antigas de onde ela vem. Ela gostou do nome. Diz que eu tinha muitos cabelos quando nasci. Vermelhos como os do meu pai.
─Meus pais conheceram ele. Me disseram que ele parecia ser muito forte.
─Um guerreiro, minha mãe e eu sempre tivemos orgulho dele. – Chegamos a sua porta. Ela se senta nos degraus e aproveito para fazer o mesmo e ficar mais tempo com ela.
─Sinto muito. – Agora seus olhos ficam tristes, ela afirma. – Não sei como pode ser isso, nem gosto de pensar.
─O cara da besta. – Ela diz e olho para ela. – Era como meu pai se referia ao seu. Ele dizia para minha mãe que o cara da besta estaria vivo. Que seu pai era o tipo que não se deixava morrer. Por isso minha mãe se esforçou tanto para chegar aqui. Ela achava que ao menos ele estaria de pé.
─Ele nunca se dobra. É o que nos ensina.
─Seu irmão é um gigante. É o que ouvi por aí. Ashley não para de falar nele. Passou o dia assim. Articulou e lutou até conseguir convencer a todos para ir com ele amanhã.
─Judy vai ficar brava. – Conto a ela. – Os dois vão namorar um dia, quando pararem de ser idiotas. Já namorou? – Cala a boca Seth! Fico branco de vergonha no minuto que pergunto. Que coisa estúpida.
─Nunca. Tinha dois meninos lá, um deles gostava de meninos também, era meu amigo. O outro namorava minha melhor amiga. Nunca mais vou vê-los. – Os olhos marejam.
─Não queria te fazer lembrar de nada. Desculpe Nina.
─Está tudo bem. Na verdade é bom ter com quem falar sobre isso, não quero magoar minha mãe fazendo ela lembrar. Caleb é um idiota, Ashley e eu não somos muito próximas.
─Não gosta desse Caleb?
─Gosto muito. As pessoas pensam mal dele, mas ele é legal, só estranho, todo mundo é um pouco, mas a gente se implica um pouco, ele morava na minha casa, era como meu irmão.
─Sei. Daí fugiram juntos quando tudo acabou.
─Sim. Ainda escuto os gritos, os gemidos, o barulho do fogo e umas explosões, depois foi só caos, dia e noite. Eu não tinha a menor ideia de como as coisas eram. O que meu pai e minha mãe fizeram, as coisas que vencemos para chegar aqui.
─Escuto histórias, muitas, tristes, outras cheias de coragem. No fundo eu não sei, nunca sai muito além desses muros.
─Que sorte. Nem acreditei quando vi seu irmão, quando entendi que estava vindo para um lugar seguro, me fez esquecer tudo de ruim. Na hora renovei as esperanças e Ashley me chamou de infantil.
─Por que?
─Ela é muito pessimista. Caleb é o oposto, as coisas sempre estão boas para ele, minha mãe é realista e eu só sonhava.
─Espero que seus sonhos se realizem.
─Também. Vou começar a trabalhar e ajudar. Caleb está reclamando de tudo. Ashley já se encaixou e minha mãe também.
─Vai trabalhar comigo na padaria. Vai odiar, mas depois de um tempo eles te colocam para fazer outra coisa. Aqui é assim que se aprende a fazer tudo. Rodizio.
─É bom, eu não fazia nada lá. – Ela me sorri, mais do que nunca quero ela por perto, Nina tem um cheiro bom, os cabelos vermelhos de perto são ainda mais bonitos.
─Nina! Entre! – A voz de Rosita surge de dentro da casa. – É tarde filha.
─Quando terminar seu trabalho pode vir aqui se quiser, quem sabe conversamos mais.
─Legal. Eu venho. – Ficamos de pé. – Nunca tinha visto cabelos vermelhos. – Toco neles sem pensar. Me afasto na hora. Agora meu rosto queima assim como o dela. – Tchau, até amanhã. – Dou as costas a Nina e sumo o mais rápido que posso, agora ou ela me acha um atrevido ou um idiota.
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