Apocalipse - A Era dos Mortos 2
18 Capitulo 18
Notas iniciais
Pov – Carl
─Definitivamente, você nesse momento ultrapassou todos os limites do aceitável. – Ally me diz no momento que a porta se fecha atrás de Judy e Scott.
─É fácil para você, não é sua irmã. Quero ver o que meu pai vai achar. Confiamos no Scott.
─E namorar sua irmã é trair sua confiança? Estamos falando de dois adultos Carl. Mais do que isso, estamos falando do Scott, ele é o cara mais digno que conhece, todo dia arrisca o pescoço por essas pessoas, por Judy, você, eu.
─Bom então vamos dar a ele um arem! Quem sabe ele fica contente e continua nos mantendo vivos! – Já estava começando a me acalmar, mas Ally me tira do sério e no fim só quero mesmo discordar dela.
─Às vezes eu me pergunto se você ouve o que diz, por que é muito, mas muito patético! – Ally caminha pela pequena cozinha.
─Estou acostumado com isso Ally, com o prazer que sente em me diminuir. Sabia que ficaria do lado dele. Ficaria do lado de qualquer um que fosse contra mim.
─Não é verdade e sabe disso, apenas não fico concordando com tudo como se você fosse alguma espécie de louco que não pode ser contrariado, é assim que muita gente faz Carl, não vê isso? Tem tanto potencial, é inteligente, determinado, cabeça dura, mas usa isso sempre contra você mesmo.
─Me admira que tenha ficado comigo tanto tempo, é sempre tão potencialmente superior.
─Quer saber? – Ela me olha com um ar subitamente cansado, como se não tivesse mais vontade de discutir. – Não vou me meter nisso, Scott é um bom amigo, voltou por mim, Judy também é e espero que sejam felizes, isso é problema da sua família e não faço parte dela. Vivam como quiserem.
─Também fui te resgatar. Mesmo que não se importe. E foi bem fácil para você abrir mão da família. Eu sei que está melhor agora, deixou isso claro.
Minha magoa se expressa em palavras, no modo como meus olhos repousam no rosto bonito de Ally, na presença marcante.
─Fácil? É isso que acha? Me acusa de não ter me exposto num chilique dramático quando acabou, quando foi você a desfilar com Kim uma semana depois? Você seguiu em frente. Não me acuse. Você recomeçou bem rápido, eu estou sozinha desde você.
Aquilo me choca um pouco, não foi assim, não como ela pensa, eu nunca segui em frente, Kim foi apenas a boa alma que me estendeu a mão, que ficou do meu lado quando achei que nada mais tinha importância, ficamos juntos apenas muito tempo depois.
─Eu queria ter alguém ao meu lado, não dez passos a minha frente, me mandou para o inferno. – Eu a lembro, Ally me olha depois de um suspiro resignado, como se ficar ali remoendo o passado não levasse a parte alguma.
─E você foi. – Ela diz e me dói, pela primeira vez vejo algo mais que indiferença em seu olhar. – Mais rápido que um raio mergulho de cabeça nos braços do diabo, pareceu mesmo que só estava esperando por uma chance.
─Está errada sobre tudo isso. Kim foi uma amiga, ela estava machucada como eu, sozinha, disposta a me apoiar quando eu achei que morrer era o caminho mais fácil, Kim segurou minha mão. Foram semanas e mais semanas até algo acontecer.
─Que diferença faz agora? Nenhuma, você ficou com ela, eu fiquei sozinha.
─Não me queria.
─Não lutou por mim. Você não luta por nada, acaba de magoar sua irmã do modo mais sujo que podia, tornou feio algo limpo, bonito e verdadeiro, e está aí arranjando um jeito de fugir disso.
─Como sabe como as coisas aconteceram? Eu os peguei aos beijos na sua cozinha. Não se pergunta desde quando? Não pensa o que ele fazia quando ficavam sozinhos? – Ally caminha para a porta, abre com os olhos marejados. Nunca chora, mas agora parece não conseguir evitar.
─Pode por favor sair da minha casa?
─Ally...
─Por favor Carl. Não quero ouvir suas teorias, talvez elas até tivessem fundamento, se não fosse Scott, o cara que você conhece da vida toda. Nem mesmo deu a eles uma chance, nem se esforçou para ouvi-los, só despejou suas magoas.
─Quer que eu vá embora?
─Quero.
─Pede que dê uma chance a eles, mas não me dá a mesma condição?
─Não acho que eu seja seu problema nesse momento, talvez tenha que procurar a sua irmã e dizer a ela que sente muito. Você sente? Por que eu espero que sinta.
Não sei como me sinto, um pouco traído, por Judy, Scott e mesmo Ally, cansado, todas as perdas, inseguro, tudo quase ruiu e eu melhor que boa parte deles sabe como é perder tudo. Eu estava lá, era só um garoto quando ajudei Judy a ganhar o mundo, eu atirei na minha mãe, eu fiquei perdido, mas para todos isso é só passado.
─Agora que sei como pensa que tudo aconteceu nossa conversa ainda não acabou, mas está claro que hoje não é um bom dia. Tenho trabalho. Depois falamos.
Deixo a casa de Ally. Meu coração cansado. Estranhamente cansado de tudo e de todos. Sigo pelo pátio, vejo Scott e Judy sentados no telhado do prédio principal, abraçados e conversando, rindo como se nada demais tivesse acontecido.
Queria ter sangue frio, mas não tenho, isso me irrita um pouco. Tem uma pilha de zumbis para serem queimados, Scott devia estar organizando quem vai lá fora fazer isso.
Meu pai não vai ficar nada contente com isso, Judy nem mesmo foi falar com ele, é isso que estou entendendo?
Vou para casa, ainda não tive um momento sozinho, com as coisas de Kim. Tranco a porta quando entro, não quero ver ninguém, a cama está arrumada do jeito que ela gostava de arrumar, com um ursinho vermelho no meio dos travesseiros.
Num móvel de canto tem seu perfume, era o último frasco e Kim economizava, ele só era usado em ocasiões muito especiais, vasculho a memória quantas vezes usou. No dia que nos mudamos. Quando completamos seis meses juntos. Nada mais, apenas isso, depois rotina, fingir que tudo ia bem.
─Sinto muito Kim. Não fui grande coisa para você. – Me atiro na cama sem pena de desarrumar o que nunca mais será arrumado pelas mãos de Kim. Ela não sabia como se defender, confiava a mim sua vida e falhei. – É isso que faz Carl, desaponta as pessoas. Magoa uma por uma.
Ela diria que não. Que sou bom, que sou generoso, que estive do seu lado quando ninguém mais estava. Sorrio com a ideia. Acabou defesa incontestável, agora não tem ninguém para me jogar para cima e me fazer seguir em frente.
É hora de fazer isso sozinho ou me perder em culpa e medo. Penso em Judy. Na nossa vida desde que ela nasceu. No modo como ela e Scott sempre estiveram juntos. Como não vi? Me sinto um tanto idiota. Agora é claro como agua.
Fecho os olhos, por uma hora ao menos quero só fechar os olhos e não pensar em nada. Nem mesmo Ally e as coisas que me disse, as que gostei de ouvir e as que odiei ouvir. Me pergunto se podíamos ter uma nova chance, tem coisas em mim que não mudam e Ally é a principal delas, nem toda a dedicação de Kim apagou meus sentimentos.
Amo Ally como sempre amei, como sempre vou amar não importa se vamos ou não ficar juntos.
Depois eu penso nisso, depois eu penso em tudo. Me deixo adormecer, não sei quanto tempo se passa, mas salto da cama pensando que tenho muito o que fazer e não posso ficar aqui.
Olho o pequeno cômodo, vou me desfazer das coisas dela, tirar tudo que lembra nossa vida. Não quero pensar nisso toda vez que entrar aqui. Toda hora perdemos alguém, eu já devia saber que com a minha sorte eu a perderia e não o contrário. Pareço estar condenado a ficar vivo.
As pessoas começavam a trocar seus turnos. É hora de assumir as coisas e deixar Arthur descansar. Tomo algumas decisões sobre a troca de um turno confuso, mais algumas ordens sobre o trabalho na horta que terá que dobrar.
─Carl os corpos não podem ser levados logo? – Paty me pergunta com seu menino ao lado. – Minha janela é a mais próxima da pilha. Vou passar mais uma noite com esse cheiro?
─Vou resolver isso Paty. Pode deixar.
Ela agradece e segue seu caminho, mais uns passos e encontro Judy e Scott caminhando de mãos dadas, se ele pensa que vai passar seus dias desfilando com minha irmã e deixando o trabalho dele para outros está enganado.
─Scott forme um grupo de segurança e junte uns homens, leve os corpos para queimar lá fora ainda hoje. – Não consigo ser gentil, talvez um dia a raiva passe, mas não hoje, não sem ter certeza. Talvez o modo como olho para ele, ou meu tom, não importa, Scott avança em minha direção, sinto suas mãos em meu colarinho, me choca vê-lo fora de si. Ele é sempre calmo. Sua reação me deixa um momento paralisado.
─Você não é meu líder, não trabalho para você. Eu avisei para ficar longe!
─Tira a mão de mim! – Exijo tentando empurra-lo, vozes de longe gritam meu nome e o dele, meu pai e Daryl.
Caleb surge. Coloca a mão entre nós dois. Parece tenso. Olha diretamente para Scott.
─Cara você não quer fazer isso. Se cruzar a linha vai ser difícil. É irmão dela. – Scott o escuta, mas seus olhos se voltam para mim, parece ignorar Caleb.
─Ouviu o que eu disse? Não me dê ordens como se não conhecesse meu trabalho, não se dirija a mim, nunca mais. Para de fingir que manda aqui, quer os corpos queimado? Vá queimá-los você mesmo! – Scott me empurra de súbito, me desequilibro dando uns passos para traz. Judy me olha e olha para Scott, quando penso que vem em minha direção me engano mais uma vez, ela segue para ele.
─Vamos Scott, por favor. – Meu pai chega, Daryl a seu lado, todos os olhares me condenam. Dou as costas a todos.
─Carl! – Meu pai me chama. – Quero falar com você.
─Devia falar com sua filha. Acho que ela é que tem algo a dizer.
─Ela já disse. – Meu pai avisa, me viro para olhar para ele. – Daryl, leva eles para sua casa. Depois vou até lá com o Carl.
Daryl toca o ombro do filho, eu os vejo tomar distância, quando estão longe e todo o Santuário decide que não somos mais atração encaro meu pai.
─Me surpreende que esteja tão calmo sobre isso.
─Estou me segurando para não pedir que se casem logo.
─O que está dizendo? Entende o que aconteceu?
─Claro. Finalmente sua irmã e o Scott entenderam que são mais que amigos e estão namorando. Que bom! Já estava disposto a me meter seriamente nisso. Como devia ter feito com você e Ally, quem sabe hoje não estaria tão amargo.
─Você acha natural? Não pensa nas coisas que eles fizeram antes?
─Scott é homem honrado, filho de Daryl Dixon, o cara que salvou meu bebê quando fiquei maluco, porque se lembra que fiquei maluco quando Judy mais precisou. Daryl ensinou Scott a amar e respeitar sua irmã, esse amor de amigo se transformou e foi há muito tempo, eles demoraram para entender.
─Ela te disse isso?
─Não. Scott fez isso, ele me procurou e contou. Fiquei feliz, que mais posso querer para minha filha se não a proteção do nosso melhor homem?
─Nunca tenho razão. Não importa o que eu faço, sempre tem alguém me mostrando como sou inadequado.
Meu pai toca meu ombro, os anos tranquilos por aqui o deixaram mais leve, ainda tem aquele líder duro e perigoso dentro dele, mas no dia a dia encontrou seu equilíbrio.
─Escute Carl. Nunca, preste atenção, nunca colocaria você no meu lugar se não tivesse plena certeza da sua capacidade. Se ainda divide essa responsabilidade com Arthur é unicamente porque se entrega a tudo de modo inteiro e sem freios, Arthur tem sido seus freios, quando for capaz disso então o Santuário vai estar nas melhores mãos.
─Digo o que penso.
─Isso é bom. O que te atrapalha é que também diz o que não pensa. Isso é sobre todas as coisas, as vezes só quer explodir. E com isso ataca quem te cerca e normalmente quem te cerca são as pessoas que se importam. Cuidado, isso só te faz perder.
─Eu sei.
─Sabe que sua irmã vai ser feliz com Scott, sabe que ele é sério, que sabe o que fazer, os homens já estavam se armando para sair.
─No fundo eu sei.
─Coloque um ponto final nisso filho, resolve com eles, pede desculpas, aproveita e pede desculpas a Ally, tenta um recomeço com ela. Uma segunda chance, tivemos tantas vezes uma segunda chance. Uma segunda chance de viver, uma segunda chance de amar. Não perde isso.
─Obrigado pai. Sinto por tudo.
─Vai falar com a Judy? Ela não vai ficar realmente feliz até se perdoarem.
─Não tenho que perdoa-la, mas acho que hoje não é um bom dia. Amanhã os procuro. Cuida das coisas pai, vou para casa.
Ele afirma, toca meu ombro com força, diz sem palavras que tudo vai ficar bem, talvez fique, talvez não, nem mesmo ele sabe, mas como pai seu trabalho é dizer que vai.
─Carl! – Ally me chama quando passo por sua porta. Paro diante dela. – Entra? – Ela convida me dando espaço. Aceito, estou meio perdido mesmo. Entro e espero que feche a porta.
Tem algo diferente no ar, no modo como me olha. Ally caminha até mim e sem que espere suas mãos envolvem meu pescoço, ela me puxa para si e me beija.
Parece o fim de uma longa caminhada. É como voltar para casa depois de enfrentar perigos, sinto alivio, paz, nem penso em recuar, minhas mãos a envolvem, nosso corpo se cola, somos assim, intensos quando estamos juntos, é paixão, dessas que cegam, tiram a razão e mandam o juízo para o espaço.
Meus lábios descem saudosos por seu pescoço, ela geme, ao mesmo tempo que seus dedos procuram os botões da camisa, eu a ajudo a manda-la longe.
─Ally. – Digo seu nome, meus olhos se encontram com os dela. – Isso é...
─Não fala nada. Não quero pensar em nada.
Nem eu. Afirmo, me deixo viver aquilo e que se dane onde vamos terminar. Eu a ajudo a tirar a blusa. Meus dedos tocam seus seios, nunca me esqueci de nenhuma parte dela.
Vamos em direção ao quarto, arrancando roupas, trocando beijos, tudo ficando pelo caminho até que seja só minha pele e a dela, só o desejo sendo consumido como lenha em fogo.
Ela se deixa me puxando com ela. Minha boca vasculhando cada canto de sua boca. A respiração entrecortada, a mente perdida. Os olhos se encontram e Ally é tudo que importa.
Quando nos movemos a vida se encaixa, é como se nada tivesse nos afastado.
─Ally, amo você. – Eu disse tantas vezes, acho que nunca entendi realmente o significado disso.
─Te amo Carl. – Ela sorri. Voltamos a nos beijar, ainda estamos em guerra, sempre estamos, mas nesse momento eu quero viver essa trégua. É isso que me torna inteiro e agora entendo.
Depois é silencio, conforto, os dois meio sorrindo, confusos, assustados com o que vivemos, esperançosos de dessa vez ser diferente.
─Sinto muito. – Digo a ela, Ally balança a cabeça em concordância. – Senti sua falta.
─Senti a sua. – Ela me diz baixinho. Depois se arruma em meus braços. – Não vamos falar, não ainda. Só ficar assim, quietos, se não falamos não brigamos e não quero brigar.
─Nem eu. – Fecho meus olhos, com ela em meus braços o resto do mundo fica pequeno e os problemas insignificantes. Suspiro, beijo o topo de sua cabeça. Seus dedos acariciam meu peito. Ficamos num silencio doce, não tem a tensão que nos atrai e repeli. Não nesse momento.
Fale com o autor