Apocalipse - A Era Dos Mortos

67 Capítulo 67 - Entre o medo e a esperança


Notas iniciais
Olá pessoas, eu sei que ando meio em falta, mas estou na correria aqui, de qualquer modo desculpe pelo atraso. Espero que gostem, vou contar esses momentos até o ataque com calma, quero mostrar como cada um deles vai enfrentar esses momentos.

Pov – Mary

Assisto Daryl me dar as costas e partir, respiro fundo antes de tomar coragem para me virar e enfrentar o que vem a seguir, sinto o cheiro de sangue velho e morte, o ar está pesado.

O ambiente escuro não lembra em nada uma enfermaria, está longe do ambiente claro e limpo que doentes precisam.

Scott choraminga em meus braços, está assustado, assim como eu, me lembro das mil vezes em que desejei a morte, e agora quando ela está tão perto de mim eu a renego, rezo para nos deixar em paz.

O doutor S se aproxima de mim, já está doente, ele me olha cansado e depois de uma acesso de tosse se aproxima.

−Vocês dois também! Ele parece decepcionado.

−Apenas ele, por enquanto! Respondo sabendo que logo essa coisa me pega, Doutor S ergue uma sobrancelha, mas não diz nada, toca a testa de Scott com as costas da mão, Scott tem uma febre baixa, no momento parece livre da tosse incessante, mas está pálido e com os olhos cansados.

−Procure mantê-lo fresco, não deixe a febre subir muito, só podemos fazer isso, deixe que descanse.

−Posso ajudar doutor.

−Não há muito o que fazer Mary, não temos remédios e tenho colocado o que resta de soro e analgésico nos mais debilitados, mas isso não vai durar muito, eu não vou durar muito! Ele me diz para meu assombro.

−Mesmo assim se precisar de algo...

−Está com sua faca? Ele me pergunta pessimista, ou apenas realista, afirmo com um movimento de cabeça – Ótimo, esteja pronta e mantenha as celas fechadas.

Doutor S me dá as costas, passo por uma cela, Sasha está deitada dormindo, coloco Scott sentado, umedeço um pano que estava em uma bacia a seu lado coloco em sua testa, ela me olha abatida e volta a dormir.

Saio fechando sua cela, ela não está em condições de fazer muito agora, subo as escadas, a tosse, os gemidos e resmungos me deixam assustada, Scott está apertado a mim, toco sua testa, passo por Lizze que jogava cartas com mais uma criança, ela acena, devolvo o aceno.

Glenn está sentado no que Daryl chamaria de poleiro, quase sinto vontade de sorrir, ele está muito fraco, parece que essa doença é muito rápida, não faz muito que estive com ele e Glenn estava em um estado muito mais inicial da doença.

−Ai meu Deus Mary! Ele diz deprimido – Vocês dois?

−Estou bem, vim cuidar do Scott! Ele fica mais espantado.

−Eu podia ficar com ele, a Sasha também, não precisava ter entrado.

−Acontece que eu não podia me separar dele! Respondo tocando a testa de Glenn a febre está alta, sento Scott a seu lado – Fica aqui só um instante filho.

Scott está tão abatido que nem reclama, se encosta em Glenn e fica me olhando enquanto me afasto, preciso ajudar Glenn, ele sempre foi meu amigo, sinto como se fossemos irmãos.

Acho panos secos, molho em água limpa e entrego a Glenn, ele pega de má vontade, está bravo com a doença, posso sentir isso.

−Lutamos tanto não é? Ele me diz – E vamos acabar assim.

−Daryl vai trazer os remédios, eu sei que sim e você vai ficar bem.

−Agora tenho certeza que ele vai mesmo trazer, sabe que você está aqui?

−Sim, me despedi dele aqui na porta! Meus olhos ficam marejados diante da lembrança, meu coração falha ao pensar nos perigos que ele vai enfrentar.

−Maggie, como ela está? Me pergunta com alguma dificuldade.

−Bem, sabe como é forte, vamos ficar bem, tenha um pouco de esperança.

−Fico me lembrando do tempo em que todos os nossos problemas eram uma dúzia de zumbis muito bem trancados em um celeiro! Ele me lembra e sinto falta da fazenda, de tudo que vivi lá.

−Segredos! Eu brinco e ele ri, depois tem um acesso de tosse, nada de sangue ainda e fico grata, Scott também tosse, eu o ajudo a se sentar e ele respira aliviado depois que passa – Daryl detestava que me contasse tudo! Eu me lembro ele tenta sorrir.

−Ele tinha ciúme de você, uma grande tolice não é? Rimos daquilo, dos bons momentos que vivemos no passado, tudo parecia tão grande e perto de hoje é tão insignificante.

−Perdemos muitos desde então, mas nunca assim por conta de uma doença estúpida como essa, e justo quando tudo parecia caminhar tão bem.

−Zumbis sobre nossas cabeças foi um mal pressagio! Glenn comenta se arrumando mais, acho que devia se deitar, mas não vou dizer a ele, sei que se entregar a uma cama é tudo que ele não quer fazer – Fique pronta Mary, as coisas estão caminhando... – Ele olha para Scott – Você sabe.

−Acho que precisa ficar mais otimista, não faz bem pensar o pior o tempo todo!

Glenn me sorri, passa a mão pelo cabelo e respira fundo evitando mais um acesso de tosse.

−Você nunca foi muito otimista, mas acho que o apocalipse te fez bem! Ele me diz e está certo, ao menos no meu caso eu tive sorte, encontrei pessoas que me ajudaram a vencer meus medos, ou talvez eles estejam adormecidos a espera de momentos como esse para se libertarem, não posso me deixar levar pelo medo.

−Fez bem a você também, encontrou a Maggie!

−Tem razão, no mundo de antes ela nunca me daria bola! Ele tosse e se levanta – Vai Mary, acha uma cela para colocar o menino, vou dar uma volta, é o que posso fazer, ajudar quem está pior que eu.

Descemos e entro numa cela vazia, sento com Scott no colo, na cela ao lado alguém tem uma crise, deixo Scott sentado na cama, e sigo até lá, uma senhora cuspia sangue em um lenço, estava sentada, eu a ajudo a se deitar depois de oferecer um copo de água.

Scott me chama e volto para perto dele, me sento e então vejo Hershel passar, me levanto assustada, não acredito que ele também está doente.

−Hershel! Eu digo triste quando o vejo, ele me sorri esperançoso, coloca a cesta que trazia nas mãos no chão, ainda parece forte – Está doente?

−Não, vim ajudar, trouxe umas plantas para fazer chá, isso pode ajudar a todos até que se recuperem, até Daryl chegar com o que precisamos.

−Maggie e Beth sabem que está aqui? Pergunto não gostando nada de vê-lo se arriscar, ele chega perto de mim, toca minha testa, e depois me olha nos olhos.

−Disse a Maggie que nesse mundo em que vivemos agora só nos resta escolher em que vamos nos arriscar, eu e você decidimos nos arriscar aqui dentro, Daryl lá fora, se posso salvar vidas porque vou me esconder?

−Eu sei, você está certo, precisa de ajuda?

−Sim, eu preciso, me ajude a subir e me instalar, depois vamos ajudar esses doentes.

Concordo, levo a cesta para ele que começa a preparar seu chá, enquanto faz isso Scott fica sentado ao meu lado, quero que ele seja o primeiro a tomar, faria qualquer coisa para ver meu bebê bem e saudável.

Depois de pronto Hershel me olha e tem tanta força e esperança em seu olhar, eu sorriria para ele se não estivesse tão assustada.

−Agora vá para sua cela com ele, faça com que tome tudo e tome uma xicara você também, descanse com ele.

Eu desço com Scott enquanto Hershel faz sua ronda pelo bloco, indo de cela em cela, verificando os doentes, oferecendo seu chá.

Me sento com Scott no colo.

−Scott precisa tomar isso, vai te ajudar.

−É o remédio do papai Daryl, ele já chegou?

−Não, ele está vindo! Daryl está longe de voltar, temos pelo menos uma longa noite pela frente, mas ele não precisa saber disso.

Scott toma um gole e faz cara feia, empurra o copo, meu coração se aperta, ele precisa tomar tudo, eu fico séria, olho para ele e me dói ter que ser severa quando só quero envolve-lo em meus braços e protege-lo de tudo.

−Precisa tomar tudo! Ele me olha triste – Vamos, depois podemos brincar um pouco, agora Scott! Ele me obedece e tenho vontade de chorar.

Fico com ele no colo, seus olhos estavam pesados, ele queria dormir, não posso deixar que durma, me dá medo pensar que ele pode nunca mais voltar a abrir os olhos.

−Ei sorvetinho, não dorme, ainda não acabou a história! Eu o faço se sentar em meu colo, minha voz embargada.

−Deixe-o dormir Mary! Hershel me pede parando na porta da cela, faço que não com a cabeça.

−Tenho medo! Então me deixo dominar pelas lágrimas, depois de Daryl, Hershel é quem me deixa mais segura.

−Quando está dormindo o corpo dele armazena energia, isso é importante para ele poder aguentar, Scott precisa de toda energia que puder, seu metabolismo fica mais lento e atrasamos um pouco as coisas, confie, ele vai ficar bem.

Hershel se senta do meu lado toca a testa dele, a febre aumentou um pouco, mas nada preocupante ainda.

−Se ele engasgar...

−Não vai acontecer, não ainda! Ele me garante – As crianças tem mais resistência a febre, acredite!

−Certo! Respondo quando Scott já fechava os olhos, ele parecia tão esgotado que nem mesmo se preocupa com minhas lágrimas, se ajeita em meus braços e deixo que durma.

−Talvez devesse dormir um pouco também!

−Não posso Hershel, quando o Daryl não está perto de mim eu tenho pesadelos.

−Ainda isso, achei que estivesse recuperada.

−Não, ele é minha fortaleza, sem Daryl sou a mesma Mary de sempre! Respondo chorando, não queria ser fraca, mas ver Scott assim, entregue a doença sem ter nada que possa fazer e saber que Daryl está nas ruas enfrentando toda sorte de perigos me deixa frágil.

−Então se é assim, fique descansando um pouco com ele, se sair da cela feche nosso pequeno, se precisar te chamo.

Hershel me deixa sozinha mais uma vez, eu coloco Scott deitado, cubro meu pequeno com um lençol e passo a observá-lo, tão pequeno e inocente, não tem ideia do que está acontecendo, não sabe o risco que corre.

Ele tosse, eu o coloco de lado e então seu sono fica tranquilo, a febre sede um pouco e me tranquilizo, começo a pensar em Daryl, Michonne está com ele, Tyreese também, e Bob, é um bom grupo, todos vão fazer tudo que puderem, mas nunca fomos tão longe, depois que chegamos a prisão nossas saídas nunca foram a mais que alguns quilômetros nas redondezas, nem imagino como o mundo pode estar agora.

Me lembro da horda de zumbis que vimos, e se eles encontram algo como aquilo, no meio do caminho, se ficam cercados, se dão de cara com sobreviventes mal intencionados, Glenn e Maggie acabaram nas mão daquele lunático numa simples saída em busca de leite.

Cada músculo do meu corpo doía, me sinto cansada e sei que a doença me alcançou, mas ela vai precisar esperar Daryl voltar para me pegar, não vou me render antes disso, não posso, Scott precisa de mim, no momento sou tudo que meu pequeno tem.

Saio em busca de Hershel, me sinto quente, ele estava em uma cela, os olhos perdidos, olhando para um homem deitado, olho de um para outro e me dou conta que a doença venceu aquele pobre coitado, sei que Hershel não pode fazer o que é preciso, por isso parece tão perdido, nunca teve que fazer e compreendo que para alguém como ele aquilo é uma dor sem limites, Hershel é só esperança, sempre foi.

Pego minha faca e me aproximo, ele me olha e segura minha mão quando chego perto do homem.

−Não quero que ninguém veja isso Mary, vamos tirá-lo daqui antes.

Obedeço, pego uma maca e colocamos o homem, seguimos pelo corredor e entramos por uma sala, a prisão agora está praticamente limpa, ele abre a bíblia quando ficamos a sós, fico olhando para ele que lê algumas palavras.

Como queria acreditar em Deus, mas não consigo, não depois da vida que tive, mas respeito sua fé, e espero silenciosa, depois ele fecha o livro e faço o que é preciso, enfio uma faca na têmpora do homem, depois levamos para um pátio e Hershel e eu colocamos fogo no corpo, volto rápido para dentro Glenn estava descansando, Sasha também e me deito com Scott, ele nem sabe que saí, seu sono é profundo.

Fixo meus olhos em seu rosto, decorando os detalhes, meu pequeno milagre, a sessão de tosse o acorda e eu o sento a febre ainda lá, faço com que beba mais chá, dessa vez ele apenas obedece calado.

−Mamãe, minha cabeça está doendo, e minha barriga!

−Já vai passar, não tenha medo, tome o remédio.

Lizzie entra na cela, nos olha pensativa, ela tem uma maneira estranha de se comportar sobre todas as coisas, mas é apenas uma criança sozinha no meio do fim do mundo.

−Queria sair daqui! Ela se senta — Acha que vamos todos morrer e virar zumbi?

−Não, vamos todos ficar bem Lizzie.

−Morreu um homem não é? Eu vi que levaram um corpo, deviam deixar ele se transformar, assim ele continuaria vivendo.

−Aquilo não é viver Lizzie, isso é um jeito de ajudar.

−Você não sabe, ninguém sabe, eu não tenho medo de virar um, assim posso continuar.

Ela me deixa e fico sem saber o que pensar sobre ela, o dia amanhece e Glenn volta a minha cela, se senta no chão, piorou muito desde que foi se deitar na noite anterior.

−Acha que já estão voltando? Eu pergunto a ele.

−Não sei, espero que sim, está mais perto agora! Ele me diz e estremeço, Maggie não aguentaria o tranco – E agora tem o Hershel e você aqui, isso só parece piorar.

Eu tusso, não pretendia, apenas sinto uma coceira na garganta, meu peito dói um pouco com a tosse e Glenn tampa o rosto com as mãos.

−Eu sabia que corria esse risco, ninguém nem ao menos sabe se já não estava com isso antes, talvez eu tivesse que vir para cá do mesmo jeito.

Tento me defender e ele me olha negando com a cabeça.

−Não acredito que o Daryl te deixou passar por essa maldita porta!

−Eu não tinha escolha! Respondo – Scott veio para mim como um milagre Glenn, eu nem mesmo acredito em Deus, mas acreditei no milagre que foi tê-lo encontrado, sabia o que estava fazendo, nunca me senti tão mãe como agora, Daryl nunca foi tão pai como quando me deixou passar por essa maldita porta.

−Ele mudou muito desde que nos conhecemos, você também, e agora com ele... – Glenn passa as mãos pelo cabelo de Scott – Acho que entendo um pouco disso, desse tipo de amor, eu faria pela Maggie.

−Vê! Hershel entra pedindo ajuda a Glenn e os dois me deixam mais uma vez, olho para Scott deitadinho na cama abraçado a seu cavalinho.

−Mamãe podemos ir lá fora?

−Depois, agora você está doente e precisa descansar.

Eu começo a tossir, sinto náuseas e preciso me controlar, respiro fundo, meu corpo começa a dar sinais de febre e minha cabeça lateja um pouco.

−Está doente também? Eu o pego no colo, ele se encosta em mim e fico em silencio, controlando as lágrimas, sinto medo, se morrer aqui, com ele tão perto de mim, me dou conta que sou uma ameaça, eu mesma posso destruir tudo pelo que estou lutando para manter.

Um arrepio de puro terror passa por meu corpo, aperto Scott, e em silencio eu rezo, faço um último pedido a Deus, talvez dessa vez ele me atenda, me lembro da história de Daryl, as mães Cherokee, quem sabe em nome desse amor uma flor de esperança nasça e meu filho fique bem e seguro, não peço por mim, não sei se mereço, mas ele merece, que pecados um bebê como ele pode ter?

Me sinto esgotar de uma hora para outra, é tudo tão frágil e instável, me deito com Scott, não posso dormir, não posso deixar que ele fique à mercê do monstro que posso me tornar.

Nesse momento eu me debato entre o medo e a esperança, espero que ela vença, já chega de perder.

Notas finais
E então, o próximo será Daryl enfrentando a horda na estrada e a busca pelos remédios, são acontecimentos simultâneos que vou contar aos poucos. beijos