Apocalipse - A Era Dos Mortos
55 Capítulo 55 - Ele sempre soube
Notas iniciais
Pov – Mary
Scott me chama de mãe, e não posso negar que cada vez que diz isso meu coração dá pulos de alegria, ele nem faz ideia do quanto me deixa feliz, mas ao mesmo tempo fico absolutamente preocupada porque ele simplesmente continua chamando Daryl do mesmo jeito que sempre fez, puxando sua calça.
Daryl não diz nada, mas acho que queria ouvir, me disse que queria que ele aprendesse, mas ele não aprende, sempre me refiro a Daryl como papai, ele entende isso, olha para ele cada vez que ouve a palavra, mas simplesmente não diz.
Saio com ele para o refeitório depois de jogar pela milésima vez seu joguinho de letras e números, ele aprende cada dia mais, é esperto e agora conhece muitas letras e números, Daryl está lá fora, a neve chegou finalmente depois de longos dias de ameaça, isso afasta os zumbis. Nos deixa presos, mas afasta os mortos das nossas grades e isso é bom.
Michonne chegou bem à tempo, um dia antes do primeiro floco de neve cair, ficamos todos felizes e aliviados, Carol finalmente parece ter me dado um tempo.
Não acho que desistiu de me infernizar, apenas se envolveu com outras coisas, agora ajuda muito Lizzie e Mika, passa bastante tempo com as crianças lendo e contando histórias, me ignora por completo, mas seus olhos estão frios como gelo, ela parece focada em manter a prisão e apenas isso.
Divido meu tempo entre minhas funções na prisão e Daryl e Scott, os dois se dão bem, Scott fica tão bem com ele quanto comigo, acho até que prefere ficar com ele, está sempre observando seus passos, e se pode escolher segue Daryl para cima e para baixo.
Daryl faz cara de tanto faz, mas adora quando ele decide acompanha-lo, mas agora que está nevando ficamos o tempo todo do lado de dentro, Daryl e os outros se revezam lá fora, cuidando das cercas, dos porcos, e da horta que espero resista ao inverno.
−Arthur! Eu chamo o rapaz quando cruzo com ele que caminhava para fora.
−Oi Mary! Ele sorri para Scott.
– Pode levar essa xicara de café para o Daryl?
−Não, mas posso ficar com ela para mim! Ele ri – Estou indo substituí-lo na torre e acho que ele vai preferir tomar uma aqui dentro.
−Certo! Entrego o café fumegante a ele – Fique com essa então e bom trabalho.
Ele concorda e se afasta, Beth caminha para mim e me sorri delicada.
−Você tem razão.
Ela me diz e apenas olho para ela sabendo que se refere a Arthur.
−O que vai fazer a respeito?
−Nada! Ela dá de ombros. − Já magoei o Arthur, não vou fazer o mesmo com o Zack, ele não merece, é um cara muito especial, adoro sua companhia.
−Não te entendo Beth, de quem gosta afinal?
−São sentimentos diferentes, gosto do Zack porque ele me faz sorrir e relaxar, quase me esqueço que o mundo é como é, mas meu coração não descompassa, já o Arthur faz isso, me deixa atordoada, por outro lado com ele, ou melhor perto dele não me esqueço um minuto que o mundo está acabando, que posso perde-lo.
−Sei, na verdade eu não sei, nunca vou entender isso porque só tem espaço para o Daryl na minha vida então não sei como é.
−Acha que não sei que me meti numa bela encrenca? Ela ri – Mas agora já está feito, vou deixar como está!
−Você que sabe! Eu aperto sua mão e ela me sorri.
−Mamãe, quero colo.
Scott estava do meu lado segurando minha mão e quando se dá conta que não estou lhe dando total atenção me chama manhoso.
Eu o pego na hora, beijo aquelas bochechas rosadas que um dia foram pálidas e abatidas.
−Sabem que estão mimando o garoto não é? Beth me pergunta.
−Olha quem fala, Judith não tem nem chance de chorar que já está chacoalhando ela e cantando de um lado para outro.
−Pode ser! Ela dá de ombros – Mas ele é um sortudo, Daryl então anda com ele para cima e para baixo, qualquer hora vai prender uma tira nele e levar nas costas como faz com a besta!
A ideia nos faz rir muito e então vejo Daryl entrar, ele sorri com os olhos quando me vê, Daryl não é muito de sorrisos, mas seus olhos são muito expressivos, descubro muito sobre ele só pelo olhar.
−Eu...
−Vai Mary, corre para o namorado! Beth brinca comigo e caminho para ele.
−Oi bruxa! Ele me beija – Oi Scott! O menino lhe dá os braços em resposta.
−Está com frio? Pergunto preocupada.
−Nem me fale, aquela torre é um inferno! Ele brinca e Scott se debate em meus braços querendo ele ainda com os braços estendidos – Estou gelado, tem certeza? Ele pergunta a Scott.
−Colo! Scott pede e ele o pega.
−Quer um café? Eu preparei um para você, mas...
−Arthur roubou, eu sei ele me disse, quero.
Seguimos para o refeitório e sirvo café a ele que coloca Scott no chão para pegar a xicara, olho de relance para Scott, acho que de algum jeito ele se sente triste quando Daryl faz isso, o afasta na primeira oportunidade.
−Nada de novo? Eu pergunto.
−Não tudo tranquilo, e aqui?
−Também.
Nos sentamos numa das mesas de ferro, logo metade da família estava reunida, conversamos bobagens, esses dias sem muito o que fazer eram estranhos, sempre acabamos por lembrar o inverno que passamos nas ruas, dormindo nos carros, ou em casas vazias, na fome e no medo.
Depois quando a conversa começa a ficar melancólica, quando começamos a nos lembrar de todos que já perdemos mudamos de assunto.
Maggie era sempre a mais animada, acaba nos fazendo rir de suas maluquices, e as horas vão seguindo sem nos darmos conta.
−Sente falta de sair? Sasha que se junta a nós pergunta eu dou de ombros.
−Sim e não, claro que estar em segurança é bom principalmente agora – Meu olhar caminha para Scott que brincava com seu cavalinho na mesa – Mas também gostava de como era sair e respirar, essa coisa de não saber o que vamos encontrar, sim eu gosto disso, sem zumbis seria melhor é claro.
−Sei o que está dizendo! Sasha comenta, acho que prefere a estrada, é uma guerreira assim como Michonne.
O dia chega ao fim seguimos para cama cedo, um pouco por conta do frio.
Scott corre para seu joguinho, olha para Daryl depois para mim.
−Amanhã! Aviso, ele se deita desanimado, eu o cubro, beijo seu rosto e ele leva o dedo a boca, Daryl fica observando.
−Acha que devíamos fazer alguma coisa sobre isso? Ele me questiona.
−Isso o que? Pergunto.
−Esse dedo na boca, ele devia parar não, como vamos ensinar ele?
−Não faço ideia! Aviso caminhando para ele que me puxa e caio sobre ele no colchão, rimos baixinho para não acordar nosso bebê e estragar nossos planos.
Isso já aconteceu, Scott simplesmente acordou e se recusava a dormir, e foi justo num dia desses de coisas que Mary gosta sendo sussurradas.
−Sabe o que pensei hoje quando estava lá na torre sozinho?
−Que ela devia ter paredes para não ficar tão gelada e podermos ir lá um pouquinho? Eu pergunto e ele está de boca aberta me olhando, cada dia me sinto mais tranquila em dividir com ele meus desejos.
−Isso também! Ele ri – Pensei no cantinho das coisas que Mary gosta, o que explodiu, se lembra?
−Sim, ele sempre foi todo seu.
−Pensei que agora Scott estaria nele.
−Estaria, com certeza, mas se você não tivesse explodido aquele lugar me enchendo de coisas boas, talvez eu nem desse espaço para o pequeno entrar, então até mesmo isso, a coisa que mais quis na vida foi você que me deu.
−É a mesma coisa?
−Nunca vou saber, mas eu o amo profundamente, morreria por ele, acho que sim, que é o mesmo amor independente se saiu da minha barriga ou do frízer.
−Vai ser interessante quando ele perguntar de onde vem os bebês, vamos ter que dizer a verdade bruxa, vamos ter que dizer que vem do frízer.
Ele é um bobo quando quer me fazer sorrir, nos deitamos ainda rindo.
−Você que vai ter essa conversa, ele é menino, isso é assunto seu! Daryl me olha chocado, sua cara de completo pavor me faz rir – Ainda vai demorar, não se preocupe.
Pov – Daryl
A neve dura uma semana depois desaparece, os dias continuavam absolutamente gelados, o chão ainda estava muito molhado, mas ao menos não tínhamos mais que lidar com a neve.
Scott já podia sair um pouco no pátio e fico feliz por isso, os dias dentro dos corredores da prisão eram claustrofóbicos.
Ele nunca me chama de pai, no começo não liguei, nem sabia muito se queria isso, mas depois comecei a achar que tinha algo errado e depois de muito pensar resolvi conversar com Hershel sobre ele, quem sabe o velho me dá um daqueles conselhos de sábio ancião.
−Tudo bem? Pergunto a ele quando o vejo admirando o céu cinza sobre nossas cabeças.
−E você, como vai? Hershel já entendeu que não estou ali puxando conversa feito um idiota à toa.
−O de sempre! Dou de ombros.
−Mary está muito feliz com Scott, ele parece muito bem com vocês.
−Ao menos com Mary, ela agora é a mamãe.
−Te incomoda?
−Não, fui eu mesmo quem ensinou ele a chamar Mary assim.
−Mas ele ainda não te chama de pai, queria que chamasse? Hershel me faz a pergunta que mal consigo responder a mim mesmo, sinto que preciso falar sobre isso.
−Não planejei nada disso.
−Ninguém planejou, eu acho! Ele brinca.
−Eu sei, mas mesmo antes, quando achávamos que sabíamos de tudo, quando mortos-vivos era só tolice de filme de terror e revista em quadrinhos, eu não queria nada disso.
−O que queria?
−Trabalhar, tomar uma cerveja depois do jantar, me enfiar na floresta nos fins de semana, nada demais, nunca fiz planos de ter uma família.
−Um solitário convicto! Hershel comenta e concordo.
−Mesmo quando fui até a casa da Mary não pretendia nada demais, só queria ter certeza que ela estava bem, depois achei que pegaria a estrada com o meu irmão e esperaria tudo acabar, de um jeito ou de outro.
−A cura ou a morte!
−É! Suspiro e coço a cabeça – Mas então eu a levei comigo e quando me dei conta ela era minha responsabilidade, e gostei disso e depois queria ela comigo e tentei fazer melhor por ela, e se fosse outra garota, se ela não tivesse a história que tem, se não fosse tão perfeita para mim, nunca teria me esforçado tanto, mas eu queria e juro que estava feliz com o que tínhamos.
−Ela e você são mesmo feitos um para o outro! Ele constata.
−Então ela abriu aquele frízer e o garotinho estava lá e pensei, tudo bem, levamos ele, lá vai ter abrigo, comida e cuidados, mas parece que ninguém estava mesmo disposto.
−Não é verdade, a questão é que ele escolheu vocês.
−Pode ser, Mary tentou não se apegar, mas ela estava sofrendo porque o queria e pensei que tudo bem, ele podia ficar.
−Só não contava que também iria querer o garoto, assim como ela.
−É.
Eu acabo por admitir, quero o menino, mas não sei como lidar com isso.
−Você está sempre com medo dele, Scott sabe, crianças sentem Daryl, ele entende seu bloqueio.
−Acha que sente?
−Acho, e mais acho que está sendo um idiota.
−Obrigado! Reclamo de sua honestidade.
−Demonstre como faz com Mary. E se ficar meio ridículo, como acho que é esse seu medo, tudo bem, ninguém tem mesmo nada com isso.
−Não tem mesmo! Admito − Mas acho que tem muito do que meu irmão sempre me disse sobre ser um homem e...
−Merle era um grande idiota, mas queria que ficasse feliz, então pare de se espelhar nas tolices dele.
−Acha que é por isso que o Scott não... – Caramba aquilo era mesmo complicado de dizer – Não me chama de pai?
−Sabia que era esse seu problema! Ele ri de mim, o velho podia parar de tripudiar ao menos uma vez – Não, ele não te chama de pai porque não precisa.
−Como?
−Daryl você o atende prontamente, basta ele puxar suas calças, virar seu rosto, e lá está você o atendendo, ele sabe te chamar de pai, não atende ele e vai ver como ele vai te chamar de pai.
−É só isso e me deixou ficar aqui falando feito um idiota sobre minha vida?
−Achei que precisava desabafar! Ele me deixa sozinho, ria enquanto se afastava, um dia ainda perco a cabeça com esse velho maluco.
Fico no meio do pátio olhando para o horizonte pensativo, o mar de pinheiro diante de mim, com seus tons de verde contrastando com o cinza monótono a sua volta.
Mary caminha com Scott em minha direção, ele vem na frente meio apressado, sua primeira volta pelo pátio, para do meu lado, vejo tudo por minha visão periférica, mas não me mexo, vamos ver até o onde o velho maluco está certo.
Scott puxa minha calça continuo ignorando sua presença, meus olhos fixos na floresta à minha frente, ele repete o movimento e de novo, e mais uma vez e me mantenho firme.
−Papai Daryl! Ele me chama e agora não olho simplesmente porque estou paralisado, porque não tenho a menor ideia de que fazer com essas palavras.
Mary paralisa também a alguns passos de nós, ele sempre soube, sabia antes quando era apenas Daryl e sabe agora, nunca disse apenas porque estava mancomunado com o universo decidido a me deixar maluco.
−Papai Daryl! Ele repete e me abaixo até ele, não vou olhar para o pequeno de cima como faço sempre, vou encara-lo de frente de igual para igual, é bom que ele entenda que nunca vou ser como meu pai foi comigo.
−Sim! Eu digo quando ficamos de frente um para o outro.
−A neve foi embora.
−Foi! Respondo sem esconder que estou completamente tonto, sem qualquer reação, e com uma vontade enorme de pegar meu garotinho no colo e jogar aquele jogo incrivelmente chato que ele tanto adora e sempre fujo.
−Eu tenho um cavalo! Ele me mostra o brinquedo, essa é sua frase de efeito, a que usa quando não sabe como nos chamar a atenção.
−Sim Scott, você tem um cavalo.
Meus olhos encontram os de Mary, ela está chorando, mais do que quando ele disse mamãe e posso entender o porquê, isso agora nos torna realmente uma família, ela sabe disso e fica emocionada.
−Amo você! Ela diz baixinho.
Concordo com a cabeça e pego Scott no colo, então caminho para minha garota e a beijo, ela corresponde emocionada.
−A neve foi embora, acho que agora podemos fazer uma visita a torre o que acha?
Eu pergunto e ela concorda corada, sempre corada.
−Vou junto! Scott se apressa, este é um problema que ainda precisamos resolver, ele se recusa a aceitar o cuidado de qualquer outra pessoa.
−Vai é para dentro! Eu aviso quando caminhamos para dentro.
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