Apocalipse - A Era Dos Mortos
30 Capítulo 30 - Sequestro
Notas iniciais
Pov — Mary
Já era dia, nos reunimos para dividir tarefas, todos temos muito o que fazer, me sinto muito desconfortável perto dos novos membros, mas Daryl me prometeu ficar perto então vou ficar bem, Beth está com o bebê nos braços e ela é tão linda.
−Como ela está? Pergunto me sentando perto do bebê, faço um carinho leve na menina e depois sorrio, não posso negar o quanto essa criança mexe comigo, não consigo parar de sorrir perto dela, fico feito uma tola, ela me emociona demais, só eu e Carl sabemos como foi para trazê-la ao mundo.
−Já mamou de novo, é só comer e dormir! Beth sorri −Pode ficar com ela só um minuto, vou me trocar e arrumar um pouco a cela para ela ficar lá.
Me esqueço do mundo com o bebê no colo, fico ninando a menina e uma vez ou outra procuro os olhos de Daryl, só para poder sorrir para ele, sinto pena de Lori, de todas as coisas que essa pequena vai fazer e ela nunca vai poder saber, e não posso deixar de pensar em como seria ser mãe dela, procurar num pequeno ser como esse as semelhanças nos traços, assistir seu crescimento, as coisas que pais de verdade fazem, ou faziam antes do mundo acabar.
Rick ainda não deu as caras, mas não posso condená-lo, ele perdeu a mulher, tem dois filhos para criar sozinho em meio a um apocalipse, nem sei como seria se estivesse em seu lugar.
Beth volta e comíamos alguma coisa, ainda tem muito o que fazer, mas já fizemos tanto que parece que o dia nunca vai acabar.
Rick finalmente surge, ignora completamente a filha, seus olhos demonstram uma certa demência, já vi muita gente assim, mas o motivo eram drogas, o que não é o caso de Rick, era assim que os amigos de Jack ficavam, com esse olhar vago, com a cabeça em outra coisa, minha mãe também, Jack era diferente, tinha ódio no olhar, e outras coisas que detesto lembrar.
−Estão todos bem? Ele pergunta, de algum modo sim estávamos.
−Estamos! Maggie responde por todos.
−E você? Hershel pergunta.
−Limpei o bloco da caldeira! Aquilo é muita coisa eu penso assustada, com o tamanho de sua fúria.
−Quantos tinham? Daryl questiona.
−Uma dúzia, duas, eu não sei, tenho que voltar, só queria saber como estava o Carl, nem sinal de perguntar sobre o bebê, isso me machuca, ela era tão indefesa.
−Rick a gente tirou os corpos de lá, você não precisa ir! Glenn tenta convencê-lo, sei o que está fazendo, Rick está fugindo, posso entender por que já quis fazer isso muitas vezes, mas a dor nos persegue em qualquer lugar.
−Não, eu vou! Ele caminha para Daryl que está sentado na escada – Todos tem uma arma e uma faca?
−Tem, mas a munição está acabando!
−A Maggie e eu estamos planejando fazer uma busca essa tarde! Glenn tenta mais uma vez trazer Rick de volta – Achamos uma lista telefônica, com lugares onde tem munição e formula.
−Limpamos a sala do gerador! Daryl continua – O Axel está lá tentando consertar, para o caso de uma emergência e vamos varrer os andares mais baixos também! Quero ir junto eu penso, não quero ficar longe dele.
−Ótimo! Ele diz e simplesmente some para dentro da prisão mais uma vez, ficamos tontos com sua atitude, olho para Carl e sinto pena de seu completo abandono.
−O que vamos fazer? Beth pergunta se referindo a Rick.
−Vou tentar falar com ele! Hershel comunica.
−E nós vamos trabalhar! Daryl diz se levantando, eu entrego o bebê para Beth vou com ele e ele me sorri ao me ver caminhar para perto.
−Disse que posso ficar perto, vou descer com você! Eu estou quase implorando, acho que ele nota porque passa o braço sobre meu ombro e me puxa para perto.
−Eu sei bruxa! Ele me beija – Carl, melhor ir junto, tem muito o que fazer lá em baixo! Nem acredito que ele está fazendo isso, ele sabe que o menino precisa distrair a mente um pouco, acho que Daryl não tem a menor ideia do homem bom que é.
−Certo! Carl logo se posiciona, feliz por poder fazer algo.
−Oscar vem comigo, Maggie e Glenn podem ir procurar fórmula e armas, Beth fica com a bravinha.
Todos concordamos, sigo com ele para o pátio, temos que abrir para Maggie e Glenn, ela me abraça antes de sair, suspiramos ao mesmo tempo e acabamos por rir.
−Que merda! Ela me diz quando nos afastamos – Cuida das coisas aqui, e fica de olho na minha irmãzinha, te vejo de noite!
−Cuidado Maggie! Eu peço a ela.
−Pode deixar, mas você também, se cuida, sei que foi difícil lá dentro, mas foi muito forte.
−Não tive escolha! Eu conto a ela, nos abraçamos de novo.
−Se cuidem! Ela diz olhando para Daryl ele apenas assente e os dois partem na caminhonete vermelha, não posso deixar de me preocupar.
−Quer mesmo voltar lá para baixo? Daryl me pergunta – Tem corpos e sangue para todos os lados.
−Tudo bem, tem corpos e sangue em qualquer lugar hoje em dia.
Me lembro de uma vez que atravessava a avenida, um homem tinha sido atropelado e desviei os olhos chocada com a imagem de sangue, as pessoas se aglomeravam para ver e fiquei pensando o que fazia com que pessoas comuns se sentissem tão curiosas sobre algo assim, mas hoje depois de tanto tempo assistindo a morte nos perseguir dia e noite isso é só parte do dia, corpos e sangue não querem dizer muito.
Entramos de mãos dadas, eu gosto tanto disso, faz parecer que ainda temos um mundo, quase posso me ver caminhando por calçadas na saída de um cinema numa tarde de domingo, quem sabe um sorvete, mas então quando tenho que pegar uma pistola e uma faca, além da besta nas costas, penso que se quiser cinema vou ter que me contentar com a Madrugada dos mortos, a ideia me faz sorrir.
−O que foi? Daryl me pergunta.
−Tenho medo de filme de terror, ou tinha.
−Nunca foram meus preferidos! Ele me diz e depois de pronto se vira para Carl – Pronto para descer? Carl concorda e seguimos para os corredores escuros da prisão, o lugar me lembrava tumbas gigantes, corpos espalhados e sangue, muito sangue, o cheiro de mofo se misturava a podridão de corpos em decomposição, o cheiro da morte que nunca saia dos nossos narizes.
Caminhamos em silencio, Daryl na frente, Oscar atrás e eu e Carl no meio, mais sendo protegidos do que ajudando. Uma porte batia num movimento constante, um corpo caído impedindo que abrisse.
−Olha isso, acho que deixei passar ontem à noite! Oscar avisa.
−Deve ser um ou dois deles, não vão a lugar nenhum a gente cuida deles na volta! Daryl avisa, continuamos a caminhar para dentro, pulando mortos, verificando um ou outro, Carl agora está ao lado de Daryl ele está abatido, silencioso, olhando tudo sem qualquer reação.
−Minha mãe gostava de beber! Daryl começa a contar a ele, me olha de lado e depois continua – E gostava de fumar, Eugenia Slems! Enquanto falava caminhávamos olhando as celas uma a uma, com uma lanterna cada um – Eu sai um dia para brincar com a molecada, só podia fazer isso quando o Merle não estava em casa, eles tinham bicicleta eu não, então ouvimos sirenes vindo para o nosso lado e eles correram, eu tentei acompanhar, mas cheguei depois, estava todo mundo me olhando, as sirenes eram para minha casa, era minha mãe na cama, era um punhado de cinzas! Fico meio tonta com a ideia, uma morte trágica, e sei que é difícil para ele falar sobre aquilo, que quer dizer algo a Carl, ajudar e fico emocionada – Essa foi a parte difícil, ela estava morta e não sobrou nada dela, as pessoas disseram que era melhor assim, sei lá, era como se aquilo não fosse real sabe!
−Atirei na minha mãe! Carl conta depois de me olhar, dividimos aquilo, passamos juntos por aquela pequena tragédia – Não tinha virado ainda, estava apagada, eu coloquei um fim, foi real, estávamos lá eu e Mary e tive que fazer! Ele me olha com todo pesar, tento parecer firme – Sinto pela sua mãe! Ele diz a Daryl que o olha, era um momento de laços sendo criados, de mundos distantes que o apocalipse unia.
−E eu sinto pela sua – Eles se encaram um minuto e Daryl volta a realidade – Vamos lá! Continuamos.
Oscar encontra um par de chinelos numa cela e fica muito feliz, entramos com ele sem entender porque um par de chinelos fosse tão importante.
−Para relaxar no final do dia! Ele diz enquanto olhávamos para ele.
Um zumbi geme e nos viramos todos ao mesmo tempo, Daryl atira sua flecha ao mesmo tempo que Oscar e Carl disparam, ele cai e suspiramos aliviados diante do zumbi mais morto que já vi.
−Está tudo bem! Daryl diz rindo e nos aproximamos do corpo caído na porta da cela ele tinha uma faca no rosto e Daryl puxa vejo o sangue pulsar e escorrer pelo corpo caído – É a faca da Carol! Ele diz e ficamos em silencio, não me conformo em simplesmente aceitar que ela esteja morta sem uma prova disso.
−Devíamos procurar mais por ela, ela ainda pode estar por ai! Eu digo – Eu sei que depois de procurarmos tanto Sophia isso é difícil, mas não devíamos desistir!
Daryl me olha, eu me mantenho firme, não importa o que ela pensa de mim, é um ser humano e não quero desistir dela.
−Se subir com o Carl eu fico e prometo que procuro com o Oscar mais um pouco! Eu sei que depois de encontrar um zumbi ele não nos queria mais lá em baixo e não quero que fique preocupado comigo, eu concordo com um movimento de cabeça.
−Eu concordo! Carl dá de ombros.
−Ótimo, vou levar vocês lá! Ele me sorri feliz por eu estar sendo razoável e voltamos para dentro, Daryl bebe água e volta para baixo, me sento com Hershel depois de lavar bem as mãos e fico olhando para o bebê, a pobre criança ainda não tinha um nome e bravinha passou a ser um jeito carinhoso de chamarmos nosso bebê.
Rick entra no refeitório, nos olha longamente e então caminha para o bebê, fico aliviada quando ele pega pela primeira vez a criança no colo, meus olhos ficam marejados.
−É o papai! Ele diz e Carl estava completamente aliviado – Ei, vem com o papai! Ele sorri por entra as lágrimas, olha a filha longamente antes de aperta-la em seus braços e então está orgulhoso da filha, queria que Daryl estivesse aqui para assistir esse momento.
Rick sai para fora com o bebê nos braços, Hershel e Beth o acompanham, Carl fica um minuto comigo, nos olhamos, cúmplices, sorrimos um para o outro, acho que entendemos que valeu a pena tudo que fizemos, que não podia ser de outro jeito e ele corre para o encontro do pai, então vejo Daryl entrando e trazia Carol com ele, fico chocada quando vejo, ele me sorri, posso ver que está feliz e devolvo o sorriso.
Ele a coloca na cama e levo água para ela, Carol está fraca, nos diz que lutou e se escondeu quando perdeu as forças, Daryl me olha me dizendo com o olhar que eu tinha razão.
−Que bom que está bem! Eu digo para ela que parece me ignorar, não me importo, ela está esgotada.
Ouvimos barulho de todos entrando.
−Vou chama-los, fica com ela bruxa! Ele me sorri e segue para o refeitório, ficamos as duas em silencio, ela não me olhava, logo todos voltam e mais uma vez um onda de emoção nos invade, é uma vitória, e elas eram tão raras, Carol ao se dar conta de que Lori estava morta fica triste, se emociona, e abraça a pequena, traz de volta todo a emoção da perda mais uma vez, mas então eu olho para as grades fechadas do bloco e vejo uma mulher suja e ferida nos olhando.
Era uma mulher forte de olhar seguro, está ferida.
−Quem é ela? Pergunto e Rick se volta para olhar.
−Vamos descobrir em breve! Ele olha para Daryl que concorda.
Hershel e os dois seguem para o encontro dela, fico com o bebê enquanto Beth cuida de Carol, ela nunca aceitaria meus cuidados.
Posso ouvir a conversa e me assusto quando escuto que alguém levou Maggie e Glenn, meu coração bate alucinado, Maggie não, ela é uma amiga, prometeu se cuidar, como pode estar nas mãos de um maluco que se intitula governador?
Entrego o bebê para Carol que está mais recuperada, vou ajudar a encontrar Maggie e Glenn, Daryl não gosta mas Glenn é como um irmão para mim, me confia segredos que só dividia com Dale, e Maggie, não eu não posso ficar parada.
Nos reunimos um tempo depois decidindo como faríamos para resolver essa situação.
−É a Maggie e o Glenn, por que ainda estamos discutindo? Beth demonstra sua preocupação.
−Não estamos discutindo, eu vou! Daryl me olha.
−Eu também! Aviso, e ele nega com a cabeça enquanto os outros todos se prontificavam, depois ele me puxa para nossa cela.
−Mary, não estamos falando de zumbis!
−Eu sei, por isso tenho que ir, é pela Maggie e o Glenn, eu não posso ficar aqui sabendo que tem uma maluco se achando o governador e querendo machuca-los, atiro bem, preciso ajudar.
−Mas pode se ferir! Ele me diz andando de um lado para outro.
−Posso me ferir aqui também, quase aconteceu ainda ontem! Eu o olho – Hoje mais cedo, naquela cela, vocês três atiraram, de uma vez, eu não! Tento fazê-lo entender – Fui fria, mais do que vocês, vi o zumbi, sabia que você estava com a besta em punho e esperei.
−Sei que zumbis te deixam bem tranquila, um modo estranho de agir aliás, mas estamos falando de sobreviventes, com armas de fogo.
−Se ficar aqui e não fizer nada pela Maggie nunca mais vou conseguir me olhar num espelho! Acho que isso o faz reconsiderar – Ela e Glenn, eu não posso não fazer nada, eles fariam por mim, sem pensar duas vezes, um dia pode acontecer!
−Certo Mary! Ele concorda me puxando para seus braços – às vezes sinto falta da garota que obedecia calada!
−Eu não! Digo sorrindo, me sinto orgulhosa de ter vencido Daryl numa discussão adulta, sem lágrimas e ele sabe disso, me beija e me recosto nele, meu coração está a mil, às vezes as coisas se complicam e é como se os dias ganhassem horas intermináveis.
−Mas no momento em que passarmos por aquele portão vai me obedecer cegamente! Ele diz e sua determinação só me obriga a concordar, mesmo que isso fosse uma mentira, fugir não faz parte dos meus planos sob nenhuma circunstância.
−Eu amo você! Aviso a ele, depois que sairmos não sei se vou poder lembra-lo disso mais uma vez e ele me beija um longo beijo.
−Bruxa! Me diz me puxando para descermos.
Recolhemos nossas armas, pegamos coisas que poderiam ser úteis na estrada e antes de sair sigo até Carol que estava segurando a Bravinha no colo, eu beijo a cabecinha dela com cuidado, se for a última vez que a vejo quero que tenha sorte, que sobreviva e seja feliz, penso voltando a beijá-la.
−Ele não desistiu de me procurar! Carol me diz – Quando minha filha estava perdida me deu uma flor e me disse coisas bem bonitas, não está tudo acabado! Ela me diz porque estamos sozinhas, eu olho para Carol profundamente, não sei o que pensar de alguém que faz algo assim.
−Eu pedi a ele que desce a rosa, depois de ele me contar a lenda, eu pedi a ele que continuasse te procurando hoje, ele fez isso em troca de subir e ficar em segurança! Eu a encaro firme – Foi por mim, não por você! Me sinto bem quando me afasto dela, pedi a ele que não a deixasse tirá-lo de mim, mas podia dar uma ajudinha, não vou ficar mais tão calada aceitando tudo, não depois do que fiz, só eu acreditava que ela ainda estivesse viva e ela me agradece tentando mais uma vez me colocar contra ele.
−Vamos bruxa! Daryl me chama e caminho com minha pequena mochila nas costas ele tira dos meus ombros e coloca no carro, Carl está ajudando e eles se olham – Fica tranquilo que vou cuidar do seu pai e trazer ele de volta!
Gosto de ver essa nova amizade se formando, não sei bem de onde vem, talvez por cada dia mais nossas histórias ficarem tão parecidas, Carl sorri em agradecimento.
−Me traz a Mary também! Ele diz.
−Vou trazer, mas ela é por mim e não por você! Ele da um tapa no chapéu de Carl que se afasta com o chamado do pai.
Ficamos nos olhando enquanto pai e filho conversavam, Daryl me beija e me encosto nele.
−Vamos ficar bem! Ele me tranquiliza sem qualquer convicção nas palavras.
−Essa mulher, acha que podemos confiar nela?
−Ela está indo buscar vingança, vai nos ajudar por que precisa de nós para isso!
−Mas não custa ficar de olho nela, até agora ela não disse sequer o nome.
−Uma samurai misteriosa! Ele brinca e então Rick se junta a nós, Heshel se despede nos encorajando Beth e eu nos abraçamos antes de ela correr para abrir o portão e Daryl sorria quando o olho.
−Que foi? Pergunto corada pelo modo como ele me olhava.
−Estou com saudade de você! Ele me diz e meu rosto queima enquanto meu sangue ferve, desvio o olhar e entramos no carro.
−Nunca vai me deixar não é?
−Nunca! Ele me promete enquanto seguíamos em direção a uma cidade desconhecida lutar com sobreviventes, mesmo em meio a um mundo de mortos, ainda lutamos contra os vivos, nada muito diferente de como sempre foi.
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