Apocalipse - A Era Dos Mortos
23 Capítulo 23 - Inverno
Notas iniciais
Pov – Mary
Acabo adormecendo nos braços de Daryl, queria ter ficado acordada, mas me sinto tão segura perto dele e estava tão cansada, esgotada era a palavra, Dale estava morto e a fazenda não existia mais, perdemos tudo de uma só vez.
Quando acordo amanhecia, estava deitada a jaqueta de Daryl me servindo de travesseiro e ele estava de vigia com Rick e T-dog, os outros estavam quase todos dormindo, me sento e olho em volta, não sei como vai ser de agora em diante, sempre acabamos achando um lugar, foi assim com a pedreira, com o CCD e com a fazenda, vamos ter sorte, uma hora tudo vai dar certo.
Me levanto e levo a jaqueta para Daryl, ele me sorri quando me aproximo.
−Está bem? Me pergunta e faço que sim quando estendo a jaqueta – Vista está esfriando.
−Estou bem! Respondo e estava mesmo, mas não sei até quando – Vista você.
Ele veste, o dia enfim nos encontra e Rick acorda os outros, temos muito que fazer e temos de fazer antes de anoitecer mais uma vez, voltamos para estrada, precisamos de comida e combustível, deixamos todos nos carros e sigo com Daryl de moto em busca de combustível.
−Assim que acharmos um carro paro pego o combustível e voltamos! Ele me diz por sobre o ombro, não saímos da estrada, não encontramos zumbis e felizmente dois carros batidos a alguns quilômetros são suficientes, enchemos dois galões e voltamos muito rápido, ele dirigia e eu carregava os galões.
−Carl deve estar com fome! Eu digo a ele – Acha perigoso caçar?
−Acho! Ele me diz no caminho de volta – Ao menos por aqui, esse lado da floresta ainda está cheio de zumbis, vamos para mais longe então caçamos.
Depois de nos reorganizarmos partimos, precisamos de tudo, comida, roupas, munição, mais armas, àgua, não restou nada e o inverno está na nossa porta.
Paramos numa pequena cidade, o tempo todo Rick exige que fiquemos juntos, achamos comida, e roupas, mais também zumbis, eu uso a besta e Daryl também, Rick e Glenn as facas, os outros não podem fazer muito, T-dog está melhor, mas precisa ficar cuidando dos indefesos nos carros.
Depois de conseguirmos o necessário para mais algumas horas de viagem seguimos caminho, paramos no meio da tarde, Daryl vê um carro grande desses utilitários na estrada, a verdade é que nem sempre poderíamos seguir de moto e os carros estavam muito lotados, ele guarda a moto na caminhonete com a ajuda dos outros homens e quando anoitece simplesmente seguimos em frente, Rick assume o utilitário porque Daryl não quer se afastar da moto e seguimos na caminhonete só eu e ele, nada de parar em lugar nenhum, não vamos poder fazer isso por todo inverno.
−Acha que temos chance de encontrar um novo lugar? Eu pergunto a ele.
−Não sei Mary, mas na estrada é que não podemos ficar, acho que precisamos de um lugar ao menos para descansar um pouco, quem sabe na cidade, uma casa, sei lá, preciso dormir! Ele me diz e sei que não dorme a tempo demais.
−Eu não sei dirigir! Aviso mas acho que ele sabe disso, nunca pude aprender e nunca precisei, para onde iria, com que dinheiro compraria um carro.
−Temos muitos motoristas, não se preocupe, se e quando as coisas se acalmarem eu te ensino, precisa aprender.
Eu fico olhando para ele, sinto vontade de chorar, uma mistura de tantas coisas, mas me controlo, não quero que se preocupe com minhas lágrimas também.
Só paramos quando o dia está claro, estamos em uma pequena vila de casas, no meio da estrada de terra, nada seguro, mas estão todos exaustos demais para ir mais longe.
Encontramos comida e três zumbis na casa que escolhemos, Daryl, T-dog e Rick dão conta deles e seguimos direto para cozinha, enlatados e frutas secas, tudo que o apocalipse nos deixou, comemos e dividimos turnos de vigia, vamos dormir de dia e dirigir de noite, esse é o plano, ao menos até acharmos um lugar para nos abrigar, as grandes cidades estão fora de cogitação, sabemos o que vamos encontrar.
Me deito ao lado de Daryl e ele me envolve, mas acho que pega no sono instantaneamente e decido fazer o mesmo ou não poderia ajudá-lo a ficar acordado durante a noite.
Acordo com T-dog chamando Daryl para trocar o turno e me levanto com ele, sentamos na varanda da casa, Glenn estava com Maggie nos fundos, ele me envolve num abraço carinhoso, fico pensando se algum dia teríamos um tempo juntos de novo.
−Se não estivesse na moto comigo, não sei se estaríamos juntos agora! Ele me lembra, eu concordo com um movimento de cabeça – Por isso vamos evitar nos separar, nada está garantido Mary, outro grupo como aquele pode aparecer e temos que estar perto um do outro.
−Não tenho intensão de ficar longe! Aviso e ele beija meus lábios, me dou conta que senti falta disso, ficamos de vigia até amanhecer, dividimos o que encontramos de comida e seguimos viagem quando meia dúzia de zumbis começam a surgir pelos fundos da casa.
Um mês depois e tudo estava da mesma maneira, pouca comida, muitos perigos, e nada de sequer duas noites no mesmo lugar às vezes nem mesmo uma noite inteira tínhamos, mas ao menos conseguimos cobertores, roupas mais apropriadas e barracas e sacos de dormir, logo começaria a nevar, ninguém sabia muito bem como a neve afetaria os zumbis, mas sabíamos exatamente como nos afetaria.
Deixávamos o máximo de comida que podíamos para Lori, ela estava fraca e abatida, nada nos fazia desistir, não sei qual era a motivação dos outros, as minhas eram Daryl e meus amigos, nunca pensei que teria amigos e gostava de todos que estavam ali, Carol e eu não falávamos muito, ela estava sempre silenciosa e acho que era por conta de Sophia, mas não me importava com isso, apenas fazia o possível para ser útil e me tornei útil ao grupo, minha besta ao menos era, e isso era bom, um revolver era quase uma sentença de morte e praticamente não foi usado.
Maggie aprendeu a matar zumbis, foi preciso, ela era forte e teve que se proteger e proteger Beth mais de uma vez.
Quando os primeiros flocos de neve começaram a cair encontramos um condomínio de luxo, casas de alto padrão, coisa de gente muito rica que só nos deu ideia de que dinheiro não serviu para muita coisa quando o fim começou, o lugar parecia limpo de zumbis e escolhemos a primeira casa para ficar, deixamos como sempre os carros prontos para uma fuga, estávamos bons nisso, muitas vezes era entrar e sair, sem nem ao menos olhar as dispensas, a casa era grande e a dispensa estava lotada, nos sentamos e comemos muito bem, como não fazíamos a dias, a neve logo pintou tudo a nossa volta de branco e nos demos conta de que isso deixava os zumbis mais lentos, e no dia seguinte com a neve alta e o frio insuportável assistimos a um zumbi congelado a alguns metros da casa.
−Pensei em ficarmos aqui, mais essa noite! Rick diz, parece razoavelmente seguro e com toda essa neve os carros podem ter problemas na estrada, precisaríamos de correntes para seguir caminho.
−Não acho que tenhamos escolha! Daryl diz a ele e ficamos todos juntos na sala, a casa parecia bem trancada e fizemos um isolamento nas portas e janelas dos fundos, a vigia ficou nas janelas em turnos de três horas, isso era outro problema que enfrentávamos, poucas horas de sono, deixava todos esgotados e de péssimo humor, cada dia as conversas diminuíam mais e mais, podíamos ficar horas sentados e o silencio era brutal, eu e Daryl estávamos sempre muito perto, continuávamos conversando baixinho e quando ele dirigia podíamos até rir um pouco, mas quando o grupo estava reunido era só silencio, acho que todos querendo poupar forças.
A casa se torna segura por uns dias, racionamos a comida e ficamos aquecidos até a nevasca passar, depois tivemos que ganhar o mundo outra vez e assim seguimos por todo inverno, a barriga de Lori estava crescendo, mas sua tristeza e preocupação era visível.
−Coma Lori! Eu entrego um parte da minha comida a ela que sorri muito triste.
−Não posso aceitar Mary, está sempre fazendo isso, mas eu realmente não posso aceitar mais.
−Seu bebê é um pouco de todos nós sabia? Ela me olha sem entender muito – Quando ele nascer, quando tudo estiver bem, bom acho que vai nos dar esperança, e além disso nosso desejo de mantê-lo nos ajuda a não desistir.
−Obrigada Mary! Ela pega a comida que ofereci com os olhos marejados, todos fazíamos isso, comer menos para deixar uma quantidade boa para ela.
Estávamos acampados na floresta perto de uma estrada secundaria, tínhamos uma fogueira baixa acesa, e comíamos esperando escurecer para levantar acampamento mais uma vez.
−Você sabe que fazer isso não ajuda nada realmente não é? Carol me diz – Daryl não vai achar que é mais especial porque cede sua comida, acho que por ele você estava longe agora!
−Carol eu sei que está triste, eu entendo que acha que eu...
−Não estou triste e não acho nada sobre você, só sinto pena do Daryl, ele sem ter que carregar você estaria muito melhor, enquanto dá sua comida para Lori ele deixa de comer para alimentar você melhor.
−Estamos todos preocupados uns com os outros, você também dá sua comida para Lori! Eu a lembro.
−Mas não tiro da boca do homem mais forte do grupo, do único que pode nos proteger de verdade! Eu sei que aquilo fazia sentido, mas aquele era o jeito dele de cuidar de mim, eu não tinha culpa – Proteger você em exagero como ele faz nos enfraquece, eu já disse a ele que esse namorinho de vocês funcionava bem antes do mundo acabar, agora isso é tolice.
Eu olho para ela espantada, só agora me dou conta que o problema de Carol era comigo, não tinha nada de tristeza pela morte de Sophia, ela não gostava de mim e não sabia porquê.
E descubro que falava de mim com Daryl, mas ele nunca me contou, sei que fez isso para me proteger, mas fico pensando em tudo que ela já disse, no quanto talvez o tenha envenenado e se de algum jeito isso pode ter atingido Daryl colocado em dúvida seus sentimentos por mim.
Ele não era o mesmo da fazenda, ninguém era, mas e se ele estivesse mesmo cansado de mim, se esses dias intermináveis na estrada tivessem mudado sua opinião sobre o que sente?
Não sei se me diria, não sei se gostava mesmo de mim ou se no momento só o que sentia era pena, nunca mais o ouvi dizer que me ama, não acho que tenha que ficar repetindo toda hora, mas talvez ele não diga porque não sente.
Carol percebe que conseguiu me atingir, seu olhar vitorioso me diz isso e eu apenas sigo para longe dela, arrumamos nossas coisas e seguimos viagem antes de anoitecer.
−Está triste! Daryl me diz uns minutos depois que pegamos a estrada – Sei que tem o dedo da Carol nisso! Ele não tira os olhos da estrada – Ela vem nos provocando a muito tempo!
−Ela está sofrendo, posso entender isso! Não quero criar atrito, estamos num péssimo momento para uma coisa como essa.
−Eu sei que pode, mas ela vem fazendo isso a tempo demais!
−Acho que vai passar!
−Pare de defender essa mulher porque ela não faria o mesmo por você! Ele está sério – A Carol não nos quer juntos e vai acabar te envenenando então fique longe!
−Não sabia disso até hoje, mas acho que a pouco descobri isso!
−Ótimo, então fique longe! Ele não está sendo nem um pouco delicado, mas posso entender seus motivos, pelo que pude perceber é com ele que ela fala o tempo todo sobre mim, nas minhas costas e eu nunca me dei conta, sou mesmo uma grande idiota, acho que ele estaria melhor sem mim mesmo.
−Vou ficar! É tudo que consigo dizer.
−Acho que a neve foi embora de vez! Ele muda de assunto – Da próxima vez que pararmos vamos caçar um pouco!
−Sinto falta disso, aqueles dias na fazenda, quando podíamos sair os dois e caçar, seria muito bom!
−Seria, são muitas pessoas e está todo mundo fraco!
−Ontem a Maggie disse que queria estar nadando numa piscina bem grande e bebendo suco de frutas daqueles que vem com canudinhos e guarda-chuvas, fiquei pensando um pouco e acho que eu queria estar na floresta caçando com você, só por brincadeira, procurando um cervo, caminhando, dormindo numa barraca e quem sabe de noite acender uma fogueira.
−Acho que eu iria gostar disso, ao menos mais do que a piscina e o suco de guarda-chuva! Ele me faz sorrir, não consigo imagina-lo nesse cenário.
−Daryl, eu sou um peso? Preciso perguntar.
−Carol é uma grande imbecil! Ele reclama, está mesmo bravo – Ontem estivemos bem encrencados naquela casa que entramos, você matou um zumbi que estava a dois metros do Glenn, onde estava Carol nessa hora?
−No carro! Eu respondo.
−Exato Mary, enquanto eu você, Maggie, Glenn e Rick limpávamos uma casa, ela estava no carro esperando um aviso para entrar, quem é um peso morto? Ele me olha sério – Acho que nem precisava ser tão inteligente como eu sei que você é para chegar a essa conclusão, então pare de pensar nela e nas tolices que ela diz.
−Eu prometo! Respondo, mas a verdade é que de todas as coisas que ela falou o que realmente me atingiu foi ela dizer que ele estava cansado de mim, e não acho que seja impossível, nem me lembro quando foi a última vez que trocamos um beijo de verdade, e quero tanto estar nos braços dele, quero tanto que ele me beije e me abrace, mas as coisas estão tão difíceis, tenho medo de estar sendo tola, de estar construindo um castelo de areia, mas também tenho medo de estar sendo injusta com Daryl.
De qualquer modo sou covarde demais para perguntar a ele se algo mudou, por que simplesmente não suportaria a resposta se fosse sim.
−Continua pensativa!
−Preocupada com tudo que está acontecendo, com medo de quando chegar a hora do bebê da Lori nascer, essas coisas.
−Vamos dar um jeito! Ele me diz e aperta minha mão, meu coração dispara, cada vez que ele me toca sinto meu coração saltar e então sorrio, ele me devolve o sorriso depois solta minha mão e se concentra em dirigir.
−Sinto falta da moto! Eu conto e ele concorda.
−Vamos voltar a usa-la agora que o inverno está indo embora.
−Que bom, me sinto livre nela, eu gosto.
−É livre bruxa! Ele brinca e meu coração volta a saltar a muito tempo Daryl não me chama assim e meus olhos ficam cheios de água.
−Mas agora não quero mais ser livre! Eu digo a ele que fica silencioso, não sei se entende o que quero dizer, gosto de me sentir dele, sou dele, e sou feliz assim.
−Droga! Ele reclama e olho para estrada, uma dúzia de zumbis caminhavam em nossa direção bem no meio da estrada, Daryl vira a direita numa estrada secundária que surge em nossa frente e fico olhando para trás com medo dos outros carros não conseguirem, mas felizmente o último carro passa ainda com os zumbis batendo na lataria, suspiro aliviada.
−Que susto! Eu digo me ajeitando no banco mais uma vez.
−Esse é o problema com a moto!
−Dar de cara com um grupo desse na moto dá medo, mas por outro lado poderia entrar na floresta sem problemas se estivesse de moto e de carro isso é impossível!
−Está certa, vamos sair de moto amanhã! Ele pisca e sorrio para ele, nessas horas ainda me sinto a garota de Daryl Dixon.
−Daryl! Eu o chamo e ele me olha – Ainda sua a sua garota? Eu pergunto.
−Carol fez um bom estrago! Ele resmunga – Ainda quer ser a minha garota?
−Quero! Não sei se devia ser assim tão honesta, mas nunca vou mentir para ele, mesmo que isso seja ruim que ele esteja comigo só por pena sempre vou dizer.
−Então ainda é minha garota, mande Carol para o inferno da próxima vez!
Eu começo a achar uma boa ideia, não que achasse que um dia teria coragem de enfrentar Carol ou quem quer que seja, ainda sou a garota que se cala e obedece, agora posso sorrir, agora sei que tem mais coisas no mundo além de dor e medo, mas isso não foi capaz de me mudar tanto quanto gostaria, tanto quanto acho que Daryl esperaria e esse é meu maior medo que um diz essa Mary dependente e frágil o canse e ele me deixe, talvez esse seja só um reflexo de como me vejo, inadequada e inferior ao que ele merecia, mas de todo modo eu fico até Daryl me mandar embora, essa sou eu, e não posso ser diferente, não ainda.
Notas finais
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