Apocalipse - A Era Dos Mortos
2 Capítulo 2 - Pedreira
Notas iniciais
Obrigada a todas as minhas queridas amigas que estão me dando uma força, comentando e incentivando.
Vocês são de mais!!!
Pov – Mary
−Vamos Mary! Ele disse meu nome e algo em mim disparou, se ligou, um arrepio, eu obedeço e entro no carro, as outras pessoas fazem o mesmo e o grupo deixa a rodovia principal com a moto de Merle Dixon na frente levando o comboio.
Meus olhos se perdem na paisagem verde a minha volta, minha mente se distância, volta para algumas horas atrás, quando encontro Jack de joelhos mastigando minha mãe, nada muito diferente do que sempre foi, fico paralisada assistindo aquilo, então tudo aquilo era verdade, os mortos estavam de pé.
Ele me vê, se ergue devagar e caminha para mim, eu sabia que era o fim, entendo isso e não sinto medo, aquela seria a última vez que me renderia a ele, era a última vez que seria tratada como um pedaço de carne, não me mexo, mesmo morto eu ainda o obedecia, cresci assim, obedecendo.
Nunca fui nada, coisa alguma que quem quer que fosse pudesse dar valor, sou só um erro, um pedaço de carne, um resto de gente, agora aquelas pessoas sabiam como era não valer coisa alguma, como era ser olhado como uma coisa qualquer sem valor.
Mas estava no fim, e eu não iria chorar, nem gritar e muito menos implorar, aprendi muito cedo que chorar e resistir, tornava tudo mais demorado e dolorido, então a porta foi arrebentada, e Jack estava morto.
Era como se o diabo estivesse me mandando um recado, avisando que eu não tinha tido o suficiente, que precisava assistir de camarote o fim do mundo, a era dos mortos, não sei porque fizeram aquilo, nunca vou saber.
Merle e Jack eram amigos, Daryl devia ser também, eles viviam metidos em confusão, cada vez que Jack era preso eu respirava aliviada, mas ele nunca ficou muito tempo, nunca soube de nada sobre Daryl, uma ou outra história de brigas em bares, nada além disso, foram lá buscar Jack e acabaram me salvando.
Sei o que vai acontecer, sei porque me trouxeram, mas quando ele disse meu nome, eu me senti diferente, olho para ele que dirigia silencioso, de mal humor, sinto fome e sede, mas eu não peço nada, nunca pedia.
A estrada fica íngreme e depois de terra, o carro perde força e velocidade, até parar num pequeno vale no alto da montanha, o lugar era lindo, tinha uma boa vista de tudo, Atlanta a distância, mata e um lago no meio de uma depressão gigante, as aguas eram de um tom maravilhoso, sinto vontade de me atirar nelas e ficar ali para sempre.
−Acho que aqui estamos seguros! Ele me diz quando estaciona – Vem vamos ver como essa gente se ajeita! Desço do carro e me encosto nele.
−O lugar é perfeito! Um rapaz diz se aproximando, era asiático e do seu lado um outro rapaz também sorria, um negro de rosto simpático, Jack o odiaria, olho para Daryl pensando se como Jack ele tinha algum preconceito, não noto nada em sua expressão.
As pessoas começam a caminhar pelo lugar olhando tudo admirando a vista, quase esquecidas do porque estávamos ali, Merle caminha até onde estávamos.
−Gostou do lugar? Ele diz ao meu lado, fico paralisada – Vamos boneca, quem sabe você não se anima e diz alguma coisa! Ele toca meu braço, eu puxo o braço imediatamente, não suporto nenhum toque, de quem quer que seja, é quase uma dor física, Merle não se importa ri com gosto.
−Merle para de encher a porra do saco da garota e vai arrumar suas coisas! Daryl diz a ele que olha espantado.
Os dois se afastam com barracas e mochilas, as mulheres começam a juntar coisas, conversar, Dale abre o trailer e retira suprimentos.
−Vamos reunir tudo que temos, nos organizar, se vamos ficar juntos o melhor é cooperarmos! Shane diz, ele parecia o tipo que gostava de controlar as coisas e sei que com os irmãos Dixons aquilo seria um problema.
−Como é seu nome? Uma jovem me pergunta, ela estava com Dale sabia que tinham se conhecido na estrada, parece simpática, gentil.
−Mary! Eu respondo e olho para Daryl ele me olha assim que ouve minha voz, depois volta a montar a barraca, eu queria ajudar, pegar as coisas que tínhamos trazido da minha casa e oferecer a todos, mas não faria isso, Daryl e Merle podiam não gostar.
−Sou Amy, aquela é minha irmão Andrea, estávamos tentando voltar para casa, mas acho que vai demorar um pouco para resolverem essa confusão.
−Vocês duas ajudem aqui com essas caixas! Shane nos pede, usa um tom autoritário que Amy logo estranha, mas assim como eu ela obedece.
Anoitece rápido, eles fazem uma fogueira, fogo baixo para não chamar atenção, combinam vigias e duas mulheres começam a dividir a comida, Lori que era mãe do menininho e que estavam viajando com Shane pelo que entendi das conversas era apenas amigo, Carol viajava com o marido e a filha, eu tinha dado minha agua para sua garotinha na estrada, o marido não parecia muito melhor do que Jack, eles ficam meio afastados do grupo.
−Sou descendente de coreanos! O rapaz asiático diz, Glenn era seu nome, T-dog era o amigo que estava com ele, também tinham se conhecido na estrada no meio daquela confusão.
Merle estava deitado a alguns metros de todos, bebia uma garrafa de tequila, Daryl estava sentado perto da barraca e mexia em suas flechas.
As pessoas estavam se apresentando contando suas histórias, eu estava sozinha sentada de longe olhando o fogo crepitar, a mente perdida em como as coisas seriam, se tudo acabasse para onde iria, como seria, uso a visão periférica para acompanhar os movimentos de Daryl, e quando ele se cansasse e me mandasse embora, o que eu faria?
Shane e Dale ficariam de guarda, as pessoas começam a se retirar, se acomodar em barracas e carros, continuo onde estava, não sei o que fazer, quero chorar, a tanto tempo não choro, mas as lágrimas simplesmente não aparecem, fica só aquele nó que conheço tão bem que nunca me deixa.
−Vem Mary! Daryl me chama – Vou dividir minha barraca com você até... sei lá! Ele me chama e eu me levanto imediatamente, queria ser diferente, dizer não, ser corajosa, mas só sabia obedecer.
Merle solta uma risada alta que chama atenção de todos, quando olhamos ele faz movimentos obscenos para o irmão.
−Vai nessa! Ele ria – Mas sem barulho! Daryl não diz nada, eu começo a tremer, eles são sempre iguais, quero tanto sumir.
Ele me aponta um travesseiro e o saco de dormir aberto no chão da barraca.
−Pode ficar com o saco de dormir estou acostumado com o chão! Ele diz se deitando o mais distante possível.
−Obrigada! Eu digo ainda assustada, me deitando.
−Até que enfim! Ele comemora sem me olhar.
Eu me encolho esperando, fecho meus olhos, e para minha surpresa ele não faz nada, não se aproxima, não me olha, eu fico imóvel, dormir nunca era boa ideia para mim. Os pesadelos me acompanhavam a anos, quando coisas ruins não estavam acontecendo eu sonhava que estavam, e se acordada era silenciosa e submissa no sonho eu lutava, implorava e chorava, se dormisse acordaria todo acampamento e não sei o que Daryl faria, talvez me mandasse dormir lá fora, ou ir embora, não sei mais o que quero.
Fico apenas deitada, os olhos bem abertos de costas para ele, com medo de senti-lo se aproximar de mim, com medo de dormir e gritar, então me mantenho acordada e o tempo vai passando ouço a respiração dele se ritmar num sono tranquilo, minha visão vai embaçando e as pálpebras ficando cada vez mais pesadas, decido fechar os olhos por apenas um instante.
Jack estava sobre mim, agora com aquele feição de zumbi, eu tentava empurra-lo, quero fugir, tenho nojo, me debato, choro.
−Não por favor, me solta! Eu choro – Jack eu imploro me deixa! Ele ria, gemia suas mãos me machucando – Socorro!
Então ouço uma voz distante, alguém finalmente vinha me salvar tirar aquele monstro de cima de mim.
−Mary! Eu me mexo, gemo e me debato – Mary acorda! Alguém me chacoalha e então eu abro meus olhos e me sento me encolhendo assim que noto Daryl do meu lado.
−Você está bem querida! Só então noto Dale e Shane de pé na abertura da barraca, armados e me olhando assim como Daryl – Quer uma água, quem sabe algo mais forte para se acalmar? Dale era tão gentil, não conheço pessoas assim, olhava para todos confusa, mas só me importava o que Daryl diria.
−Ela está bem, foi só um pesadelo! Daryl os comunica de má vontade – Podem avisar os curiosos.
Os dois se olham estranhando o comportamento de Daryl, aquilo era só um aperitivo se ele fosse parecido com Jack e Merle.
−Desculpe! Eu peço quando ficamos sozinhos, passo a mão pelo rosto e só então me dou conta de que estava molhado por minhas lágrimas.
−Volte a dormir! Ele diz seco antes de se deitar de costas para mim.
Estava amanhecendo quando adormeço. Acordo por causa do calor, a barraca fervia, me sento confusa e olho em volta, estava sozinha, minha mochila estava aos meus pés, ele se preocupou em me trazer, acho aquilo estranho, troco minha roupa muito rápido com medo de alguém entrar, depois saio e vejo todos ocupados, procuro com o olhar e vejo Daryl e Merle sentados lado a lado.
−Bom dia Mary! Amy me diz sorridente – Vamos ao lago, lavar roupa e nos refrescar, por que não vem conosco.
Faço que sim, quero muito me refrescar naquela água límpida, e preciso ajudar em algo.
−Se tiver roupas sujas eu tenho sabão! Carol me diz sorrindo – Junte tudo e vamos conosco.
Volto para dentro da barraca, pego as roupas que estava no dia anterior, e uma muda de roupa para um banho, então vejo as roupas que Daryl havia usado e fico em dúvida se ele ficaria bravo comigo, mas ele me salvou, me deu abrigo, o mínimo que podia fazer era lavar suas roupas, recolho junto com as minhas e saio no minuto seguinte.
Acompanho as mulheres até o lago e quando sinto a água fria nos pés descalços me sinto leve, quase feliz, mas felicidade era algo que não conhecia.
−Namoram a muito tempo? Andrea me pergunta quando me vê lavando as roupas de Daryl.
−Ele não é meu namorado, me salvou, somos vizinhos! Eu conto, a frase mais longa que disse nas últimas horas.
−Ele é bem gostoso! Ela ri e pisco sem acreditar, volto minha atenção para o trabalho, ouvindo as histórias de todas, depois elas seguem para o banho, atrás de umas pedras suficientemente escondidas para ninguém enxergar nada de onde ficava nosso acampamento, me recuso a ir com elas, quando voltam vou sozinha e elas me esperam, Lori e Carol falavam sobre casamento, filhos, pelo que entendi o marido de Lori que era policial estava morto.
Voltamos deixando as roupas secando lá em baixo, depois Daryl se aproxima de mim, fico nervosa, será que ele estava bravo por que lavei suas roupas?
−Vou caçar, não saia do acampamento, não se afaste do grupo! Ele diz e não espera resposta me dá as costas e some na floresta.
Glenn decide sair sozinho, dar uma busca, ir em direção a Atlanta, buscar informações. O resto fica no acampamento, Merle dormia sob uma sombra, eu me sento e fico assistindo as crianças brincarem, não eram muitas, mas eram encantadoras.
Dale se aproxima e se senta do meu lado, me sorri, não devolvo o sorriso simplesmente por que não podia.
−Está bem? Ele pergunta, dou de ombros, ninguém estava – Pesadelos são normais depois da tensão que estamos enfrentando, não se preocupe.
−Obrigada! Eu respondo sem querem explicar que antes dos zumbis eu já os tinha.
−Nos deu um susto ontem, felizmente foi só um sonho, se precisar de alguma coisa é só falar, um amigo, uma ajuda.
−Obrigada Dale, não se vê muitas pessoas como você, gentis! Eu falo, me sinto bem com ele.
−Tem andado nos lugares errados querida, tem muita gente boa nesse mundo.
Tenho vontade de pedir a ele que me apresente, não conheço nenhuma.
No fim da tarde recolhemos as roupas, Carol tinha um ferro e passamos tudo, as coisas começavam a se encaixar, Glenn chega com a mochila cheia e um olhar assustado.
Todos se reúnem a sua volta para saber o que estava acontecendo, Merle para do meu lado, pisca para mim, me encolho e desvio o olhar.
−Acabou! Ele diz pesaroso – Atlanta acabou, está tudo dominado por zumbis, a cidade caiu, nada de militares, sobreviventes, nada vivo!
Começa uma pequena confusão, todos falando ao mesmo tempo fazendo perguntas e conversando entre si.
−Achei uma passagem entrei na cidade e peguei umas coisas! Ele entrega a mochila a Lori – Está tudo ai, vamos ter de ficar aqui até essa coisa acabar e rezar para não sermos alcançados.
Daryl então surge da mata trazendo um cervo nas costas, não era dos maiores, talvez um filhote, vi muitos na minha vida de caipira como as pessoas das grandes cidades nos chamam, ele o atira no chão sem muito cuidado.
−Passei o dia caçando esse maldito! Resmunga − Se economizar tem carne para uns dias.
−Que merda Daryl, perdeu a mão, isso é um filhote! Merle reclama.
−Vá tentar a sorte você! Daryl responde.
−O que vamos fazer com isso? Andrea pergunta.
−Loira, pode escolher, limpar e assar ou pode comer terra, a decisão é sua quero que se dane! Daryl responde.
−Meu nome é Andrea! Ela diz com o olhar de desdém – E nenhuma de nós sabe como limpar essa coisa! Ela o desafia – Por que não faz isso, já que caçou.
Daryl fica olhando para ela um segundo, uma tensão surge e Merle ria adorando o clima, sem paciência Daryl tira a faca do cinto num movimento brusco que assusta a todos, ele me estende a faca.
−Vai lá Mary, ensina as madames como se faz! Eu faço que sim pegando a faca imediatamente – Aprendam, ela não vai trabalhar para vocês! Ele se afasta e fico paralisada, ele me defendeu.
Eu me junto a elas, levamos o bicho mais para longe e mostro como se faz, limpo e separo as partes, mostro como salga-lo para durar mais e todas ficam impressionadas, depois de mais de uma hora a carne começa a ser assada por Shane.
Me sento um pouco afastada de todos, Daryl conversava com o irmão, não parecia contente com o assunto, eu desvio o olhar quando ele me olha.
Comemos e me sinto cansada, queria tanto me deitar um pouco dormir sem medo, mas espero, depois do show da noite anterior não sei se ainda sou bem-vinda.
−Mary! Daryl me chama – Não precisa me esperar para ir dormir! Ele me diz ainda sentado com o irmão que lhe dá um soco no ombro.
−A bichinha prefere ficar sentada aqui e deixar a boneca sozinha na cama! Ele ri e noto o olhar de desprezo de Shane e todos os outros – Escolheu o Dixon errado boneca!
Eu baixo meu olhar, fico envergonhada e sem saber o que fazer entro na barraca e me deito onde dormi na noite anterior, mais uma vez sinto medo e espero, Daryl entra, silencioso, as roupas limpas e passadas estavam sobre sua mala, ele não diz nada quando as vê, apenas se deita de costas para mim e pela primeira vez não sinto medo de ser atacada, cansada adormeço.
−Acorda Mary! Ouço a voz de Daryl me chamando e mais uma vez me sento assustada, ele balança a cabeça em negação – Ela está bem! Ele grita quando vemos passos de alguém se aproximando da barraca – Volte a dormir! Me diz e se deita.
Fico sentada com medo de dormir e ter outro pesadelo, o tempo passa e quando amanhece deixo a barraca e me sento numa pedra distante de todos, me lembro do aviso de Glenn de que estava tudo acabado em Atlanta, penso quando aquilo terminaria, se terminaria, e até quando Daryl seria bom comigo, quando me mandaria para o inferno, me sinto estranha sobre ele, tenho medo, sempre tenho medo, mas ao mesmo tempo quero vê-lo, ouvir a voz dele.
Ele não é como Merle, mas também não se encaixa entre os outros homens do grupo, ele é diferente, e não sei o quanto isso é bom ou ruim, não sei como lidar com tudo que está acontecendo, os mortos, os vivos, todos me assustam, me confundem, não sei o que fazer, simplesmente não sei.
Notas finais
comentem!!!
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