Apocalipse - A Era Dos Mortos
16 Capítulo 16 - A garote do Daryl
Notas iniciais
Pov – Mary
Eu não tinha ideia do que estava acontecendo até os tiros cessarem e ela sair de lá lentamente, meu coração não estava preparado para o choque e se contorce agonizando, vasculho seu olhar em busca da menina delicada que um dia me deu um sorriso triste em troca de uma garrafa de água, não encontro nada, nenhum sinal dela.
Tudo foi em vão, cada passo que dei na floresta, toda a comoção, as buscas incansáveis de Daryl, Sophia se foi há muito tempo, era só um fantasma, uma sombra, um reflexo de nossos tolos sonhos de recomeçar.
Não, ninguém salvou Sophia, ninguém a ouviu chorar, ninguém a acolheu dizendo que tudo ficaria bem, mais uma vez, assim como eu, ela ficou sozinha, eu perdi, essa é minha sina, perder.
É Sophia que caminha por entre os mortos, mas também sou eu, tem um pouco da garotinha que um dia eu fui, não faz diferença, uma mordida de zumbi, a porta do quarto sendo aberta no meio da noite, no fim somos iguais – Me perdoe querida! Eu digo mentalmente quando caminho junto com Rick, assim como eu ele sente culpa, ele teve Sophia nas mãos e a deixou escapar, eu quase a tive, mas não consegui pegar.
Poderia lhe dar as costas, me afastar, mas preciso ficar ali, preciso assistir, é o fim de um ciclo, é o começo de uma nova era, não sei o quanto essa perda vai nos mudar, mas nenhum de nós vai ser o mesmo.
Ficamos em silencio depois do tiro, Carol se solta dos braços de Daryl, nos dá as costas, foge, mas eu não posso fugir, eu nunca pude, eu sempre fico, eu sempre paraliso diante da dor e dessa vez não é diferente.
Sinto os braços de Daryl me envolverem, apenas aceito, agradeço mentalmente ele ainda estar aqui, não tenho dúvidas que um dia vai me deixar, é bom demais para mim.
Beth corre para sua mãe, ali caída, ela não teme, confia tanto no seu amor que não acredita que a mãe possa mesmo como um zumbi machuca-la, não sei como é receber esse tipo de amor, ninguém me ofereceu nada assim.
Seus gritos, a mãe puxando seu cabelo na fome cega fazem o grupo reagir, ou parte dele, continuo estática, nos braços mudos de Daryl, Andrea resolve o problema com uma foice.
−Não sei como é isso! Eu digo a Daryl vendo Beth ser retirada de perto do corpo agora morto da mãe.
−O que? Ele me pergunta me apertando mais, ainda não consegui chorar.
−Sentir que alguém te ama assim, correr para um zumbi, achar que tudo bem, que de algum jeito ele vai se lembrar, vai te amar, que ainda é parte de você!
−Não somos tão diferentes Mary! Ele me diz com o queixo sobre a minha cabeça enquanto me envolvia – Nunca tive esse tipo de amor que está falando, mas estou de pé, não me importo! Era uma grande mentira, ele se importava, e de todo modo eu o amo, ele podia não saber, mas eu sabia, amava Daryl, acho que ainda amaria se eu fosse um zumbi – Vem! Ele me arrasta para longe, obedeço.
−Carol! Eu digo, não é uma pergunta, é só um lamento.
Vamos os dois até o treiler e ela estava sentada, olhava pela janela chorando, ainda não consigo chorar.
Ninguém diz nada e ficamos ali, não sei se nos quer por perto, mas não temos mais para onde ir, tínhamos um objetivo, encontrar Sophia, agora não restou mais nada.
Lori nos avisa que estava tudo pronto para um funeral, Carol se recusa a participar, entendo sua dor, mas não posso me esquivar tenho que ir até o fim, cutucar a ferida até arrancar toda casca e voltar a sentir a dor que nunca me deixou, só estava adormecida, na minha entorpecida cegueira momentânea.
Fico assistindo os corpos serem cobertos por terra, ainda não chorei, não sei quando vai ser isso, não sei se restou mais alguma lágrima.
−Queria ficar afastada de tudo! Eu comento quando caminhávamos para longe.
−Podemos resolver isso! Daryl pega minha mão e me puxa para o acampamento – Vamos recolher tudo e montar a barraca longe.
Gosto da ideia, ao menos naquele momento, está tudo tão confuso, todos tão cheios de dor, não quero olhar para eles, assistir seus olhares sobre mim, sei que é loucura, mas acho que me olham dizendo que poderia ter feito mais, e se não bastasse ainda tem todo meu medo, de Shane, do futuro, de tudo que não tenho, mas que mesmo assim não quero perder, quero um pouco de solidão, quero ficar um pouco sem ter que me esforçar para fazer parte deles.
Depois do serviço pronto nos sentamos, Daryl começa a raspar um pedaço de madeira, produzindo uma flecha, me sento no chão em silencio, perdida em meus pensamentos, de que adiantou Daryl me salvar, até quando tudo isso duraria? Se eu morresse tudo bem, mas se ele morresse eu nunca poderia continuar.
Ele não me olha, não fui só eu que perdi, Daryl perdeu sua única motivação, a única coisa que o ligava a mim, nossa busca por Sophia, acho que agora tudo que ele queria era simplesmente ir embora, e talvez ele faça isso.
Queria ter algo a dizer, mas não tenho, não sei como vai ser agora, que caminho o grupo vai seguir, se ainda somos um grupo, depois de tudo, da confusão, do descontrole calculado de Shane, de abatermos o que para Hershel ainda era sua família, eu não sei se podemos de novo ser um grupo, sei que quero ficar com Daryl, mas não sei o quanto ele quer isso.
Eu sou só a garota que ele salvou porque é bom, a vizinha que passava na porta dele, que ele beija e diz que pode esperar, mas não acho que queira fazer isso, não comigo, deve me achar uma tola, afinal eu não sou uma virgenzinha inocente e agora ele sabe disso, quanto ele pode aguentar antes de achar que estou jogando com ele, eu sou a garota que Jack usava para se distrair, que era motivo de boas risadas nos bares da cidade, quem ficaria com alguém assim?
Daryl é um homem digno, merece uma garota inteira, não um resto de gente que tem medo de tudo, que mal pode abrir a boca, que obedece calada a tudo e a todos por que sabe que não serve para muito mais que isso.
Eu estava perdida em meus pensamentos quando Lori se aproxima, gosto dela, imagino como foi difícil para ela ver o marido voltando quando estava de namoro com o melhor amigo dele, eu não entendo muito disso, desse amor que passa quando se perde a pessoa, o meu nunca passaria, eu nunca poderia imaginar esquecer Daryl e continuar, mas sei lá nem todos são iguais.
−Se mudando para o subúrbio? Ela tenta brincar, mas percebo alguma crítica em suas palavras e acho que Daryl também, seu olhar diz tudo – Daryl, Hershel sumiu, Rick e Glenn foram atrás dele, mas Beth está muito mal, preciso que o encontre.
−O velho está por ai, quando quiser voltar ele volta! Daryl responde sem qualquer humor – Quer encontra-lo, vá você mesma atrás, cansei de procurar por desaparecidos!
−Porque está sendo tão egoísta? Eu não acredito que ela o acusou disso, não ele, Daryl é o único ali que não precisa de ninguém o único que estaria melhor sozinho, mas ele continua com o grupo, muito mais para ajudar do que ser ajudado.
−Egoísta! Ele grita fora de si, está de pé agora e não esconde sua revolta, ele nunca esconde – Procurei a menina todos os dias sua magrela, não venha me acusar de egoísta!
Lori o olha espantada, acho que acaba se dando conta da tolice que disse, ou não, porque se afasta sem se desculpar e vejo Daryl chutar uma pedra e atirar longe a flecha que produzia, Lori já sumia de nosso campo de visão.
−Tudo que queria era pegar minha moto e sumir daqui! Ele grita revoltado e então elas chegam, todas as lágrimas que deveria ter derramado e que simplesmente se esconderam, ele as traz de volta, não faz de propósito, não pediu para me tornar tão dependente dele, mas é isso que sou e estou cansada de amarrá-lo num lugar onde ele não quer ficar com pessoas que não quer conviver, eu me levanto e Daryl me olha, acho que só agora pode ver que estou chorando.
−É isso que quer não é? Eu pergunto entre meus soluços – Partir sem olhar para trás, pegar sua moto e cair no mundo! Daryl não diz nada, está me olhando como se não entendesse do que afinal estou falando.
−Mary...
−É o que devia fazer! Eu não consigo impedir minhas lágrimas de rolarem livres numa grande crise de desespero – Eu o estou prendendo não é? Vou dizer tudo, estou esgotada, preciso acabar logo com esse tormento e deixa-lo livre – Não precisa se sentir preso a mim, fez tudo que podia, salvou minha vida, eu nem sei se queria ser salva, mas sou grata, juro que sou! Ele fica perplexo me olhando paralisado, deve estar com raiva da minha ingratidão, mas preciso libertá-lo – Eu não mereço todo esse seu cuidado, não mereço que se esforce tanto, não sou nada está bem! Quase grito – Porcaria de coisa alguma, incapaz se quer de proteger uma menininha perdida, deixei ela ir, ouvi sua voz e deixei ela ir porque queria estar em seus braços!
−Pare de se culpar por isso! Ele grita comigo, ele sempre grita.
−Ela era só uma garotinha, sorriu para mim quando ofereci minha água na estrada, era o meu sorriso triste de menina! Choro muito, mas ele não se aproxima – Sophia era amiga do Carl, queria ficar morando na pedreira o resto da vida e disse que éramos o casal mais bonito do grupo!
−Não pode achar que é culpada.
−Eu sei que confiava na minha esperança de achar Sophia, que era isso que o ligava a mim e que agora ela se foi e que quer ir também, eu sei...
−Acha que era isso? Ele está muito bravo, mas não tenho medo, ele nunca me deixa com esse tipo de medo – Não tinha nenhuma garotinha desaparecida quando fui na sua casa te resgatar, nem quando te enfiei no meu carro e a trouxe comigo ou quando dividi minha barraca com você! Daryl andava de um lado para outro – Nem quando dormimos juntos no CCD!
−Mas quando me salvou não sabia quem eu era! Eu digo entre minhas lágrimas – Se soubesse o que acontecia comigo não teria se esforçado tanto para me manter viva! Agora eu grito, não com ele, grito com a porcaria da vida que sempre tive – Eu contei a ela, contei quando a chamaram na escola porque parei de falar com as pessoas, porque nunca mais deixei que me tocassem, juntei toda coragem que pude e contei a ela, era minha mãe, ela me acusou, disse que a culpa era minha, que devia ficar longe do homem dela, eu tinha dez anos! Ele tinha que saber quem eu era, assim podia ir embora sem carregar nenhuma culpa – Me mudou de escola, foi isso que ela fez!
−Sua mãe era uma vaca, o que você tem a ver com isso? Ele grita mais uma vez, felizmente estávamos muito distantes da casa e do acampamento.
−Eu fugi! Me encolho longe dele, não busco sua piedade, quero só que ele se liberte, porque Daryl Dixon é o melhor homem que conheci e merece isso – Fugi muitas vezes, mas cada vez que era encontrada, cada vez que era devolvida, era tão pior, então eu simplesmente desisti, eu desisti e me submeti, eu parei de lutar porque ninguém se importava, acha que não sei que um dia vai fazer como todos e deixar de se importar comigo?
−Eu não vou fazer isso! Ele se aproxima de mim, não gritava mais – Não vou fazer isso porque não posso, não podia antes de tudo isso começar e não posso agora, por quatro anos a última coisa que pensava antes de adormecer era em seus olhos dourados, e devia ter arrombado aquela porta muito antes, teria feito se soubesse o que acontecia lá, mas eu não sabia, sinto muito, eu nunca pensei que algo assim estava acontecendo com você.
Queria muito ter como rebater suas palavras, queria mais ainda poder acreditar nelas, mas só consigo chorar copiosamente encolhida como uma menininha tola e sozinha, a criança que a vida nunca me deixou ser.
−Mary, eu não vou a lugar nenhum sem você! Sua voz é suave e ele se aproxima de mim, me ajuda a ficar de pé e me envolve num abraço carinhoso – Não quero ir, quando disse que queria pegar minha moto e me mandar estava me referindo a nós dois! Eu não consigo olhar para ele, me sinto envergonhada, ele sabe quem eu sou, porque ainda está aqui?
Com cuidado me leva para dentro da barraca, meu choro é mais controlado agora, eu aceito ser conduzida, me sinto perdida e sozinha, só quero que ele cuide de mim.
−A culpa das coisas que aquele monstro fez com você não é sua, pare de achar que é, e pare de achar que não merece, você é linda, não estou falando da sua aparência, o que fez por Sophia, quando se arriscou por ela, e depois quando continuou acreditando, lutando, mesmo Carol desistiu, mas não você.
−Eu não sei o que fazer? Soluço perdida – Tenho tanto medo, você é especial, eu não sei ser assim como você merece que seja, não sou inteira.
−Viemos do mesmo lugar Mary, sabe disso, não vivi melhor que você, pare de achar que não sei como é, pare de achar que não reconheço essa dor por que reconheço, não é muito diferente da minha, eu também não sou inteiro!
Estamos na barraca, eu estou em seus braços e não quero nunca mais sair dali, não sei porque Daryl está comigo, porque me consola, nunca vou entender quando foi que a sorte decidiu sorrir para mim, mas é tão bom que tudo isso esteja me acontecendo e me deixa com tanto medo de acabar.
−Sabe que ele... mesmo assim quer me tocar, porque?
−Porque gosto, porque me faz feliz e não me importo, você é inocente sobre tantas coisas Mary, um dia vai se sentir pronta e descobrir tantas coisas sobre nós, mas até lá não quero que tenha medo, vergonha, não precisa, não tem nada errado com você, não foram suas escolhas.
−Mas eu desisti de lutar, ficava só imóvel de olhos fechados esperando tudo aquilo acabar, não quero mentir nunca para você, precisa saber disso.
−Se sente culpada por ter desistido de lutar? Acha que isso faz alguma diferença para mim? Daryl me aperta a ele e gosto tanto de estar ali – Pois não faz diferença, e ainda assim não tem culpa, e precisa deixar tudo isso no passado.
−Não vai embora sem mim? Eu pergunto a ele, preciso ter certeza disso, quero ser forte e adulta, mas para isso preciso ter certeza que ele não vai embora sem mim.
−Nem mesmo vou embora! Ele me beija com carinho – Não sem esse grupo, chegamos até aqui com eles e vamos continuar assim, por eles e por nós, embora eu não vá mais ficar por ai correndo atrás de resolver os problemas deles, então eu não quero mais que se preocupe com nada disso.
−Eu... – Queria tanto dizer a ele, mas não sei o que ele faria se eu dissesse que o amo – Eu vou tentar, desculpe!
−Acho que foi bom desabafar e resolver de uma vez essa questão, entende que não me importo não é?
−Vou tentar! Eu seco minhas lágrimas, devia estar horrível – Estou horrível não é?
−Já disse o que acho sobre sua aparência, você é uma bruxa! Eu acabo sorrindo, mas meu sorriso logo se desfaz.
−Nunca vou contar a ninguém sobre essas coisas, não quero que se sinta um idiota, você disse que as pessoas pensam que sou sua garota e não queria que eu te fizesse de idiota e não vou fazer, não vou deixar ninguém saber de nada, não enquanto acharem que sou sua garota.
−Eu também acho que é! Ele me diz e olho para ele confusa – Eu acho que é minha garota, não quer ser? Daryl fica tímido, assim como eu, acho que é difícil para ele falar sobre isso comigo.
−Eu sou? Eu não devia sorrir depois de tudo que aconteceu mas não consigo evitar.
−É! Ele me diz mais tranquilo.
−Desde que me beijou, quando estava bravo comigo? Ele ri despreocupado, me beija de leve.
−Desde que enchi a cara e fui te agarrar lá no CCD!
−Não me agarrou! Na verdade ele fez isso – Só um pouquinho! Brinco – Quero ser sua garota sim.
−Ótimo! Ele me beija – Então é só com isso que vou me preocupar de agora em diante, esse bando de malucos que resolvam seus próprios problemas, nenhum de nós vai mais sofrer por conta deles.
Eu sei que no fundo ele não pensa assim, que só está decepcionado por não termos conseguido salvar Sophia, mas acho que logo isso passa, que no primeiro problema ele vai fazer de tudo para ajudar por que ele é assim.
−Vamos morar no subúrbio então, e visitar as pessoas do centro de vez em quando! Eu digo encostada em seu peito.
−E caçar muitos esquilos! Vamos sair juntos para fazer isso, eu e você, vai aprender a usar a besta, quero que seja capaz de se defender, pode ser indefesa para muitas coisas, mas não sobre isso.
−Consegui atirar em alvos em movimento, me concentrei, esqueci todo o resto e consegui!
−Isso é bom! Vem vamos descansar um pouco, logo vai escurecer e vamos fazer uma fogueira!
−As pessoas vão dizer que sou sua garota e é verdade! Eu não resisto em comentar quando nos deitamos de conchinha, chorei tanto fiquei tão triste com o que aconteceu com Sophia que me sinto esgotada, quero ficar em seus braços.
−Sim Mary, é a garota do Daryl, e aquele coreano que não invente de te contar mais segredos! Gosto tanto do Glenn, não sei porque ele não gosta, mas um dia se tiver coragem eu pergunto, se sou a garota dele, o que será que ele é meu? Namorado? Será que posso dizer assim? Acho que posso, acho que posso dizer... o meu namorado....
Sorrio ante a ideia, quem sabe agora poderia conversar com Maggie e Beth e falar sobre isso, amanhã vou ver Beth, espero que esteja bem, foi um susto para ela, sinto muito que tenha acontecido, mas agora só quero fazer uma visita no cantinho onde as coisas boas que acontecem com Mary ficam guardadas e levar mais essa novidade, eu sou a garota do Daryl.
−No que está pensando? Ele me pergunta me envolvendo mais, respirando na minha nuca como gosto tanto e acho que agora que ele sabe faz de propósito.
−No cantinho onde guardo as coisas boas que acontecem com Mary.
−Gosto desse lugar! Eu também gosto, penso antes de adormecer.
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