Apocalipse - A Era Dos Mortos
62 Capitulo 62 - Caçando
Notas iniciais
Pov — Daryl
Não sou o tipo que ri por ai, nunca fui, não que esconda o riso ou algo assim, apenas sempre fui mais fechado, mas Scott é um menino engraçadinho, e acabo rindo com ele, mesmo ele sendo tão econômico nas palavras quando diz algo sempre me causa alguma emoção.
Brincar de carrinho não é algo comum para mim, devo ter esquecido os meus muito cedo porque não me lembro disso, mas ele se diverte e posso fazer isso às vezes.
Ainda era cedo, mesmo depois de tudo que fizemos o dia ainda não tinha acabado e fico brincando com Scott até a hora do jantar, depois descemos os três e nos sentamos no refeitório, Ty vem me dizer que instalou o novo morador, conversamos um pouco e ele segue ao encontro de Karen, acho que o fato de estarmos vivendo tempos de paz facilita as relações, isso é bom.
−Mary amanhã vai sair? Carl pergunta se aproximando.
−Não, porque?
−Michonne trouxe quadrinhos novos da última vez que veio e eu pretendia ler com o Scott, mas podemos deixar para quando forem sair, assim ele não chora tanto.
−Obrigada Carl! Mary faz um carinho nos cabelos do garoto, que responde com uma careta, Carl não quer ser criança e qualquer movimento que o faça se sentir uma ele rejeita – Como vão as coisas com seu pai? Ela pergunta ignorando seu comportamento arredio, os dois se entendem bem, dividiram algo que os uniu muito.
−O de sempre, ele nunca participa das reuniões do conselho, me obriga a ajuda-lo com a horta e os animais e nem sei onde enfiou minha arma, mas já entendi que isso é o melhor por enquanto.
−Entendeu mesmo? Ela pergunta e ele dá de ombros.
−Os zumbis na cerca aumentam a cada dia, acho que ao menos isso ele devia me deixar fazer.
−Quando achar que está pronto ele deixa! Ela responde sorrindo, os belos sorrisos de Mary.
−Ou quando não tiver escolha! Ele me olha – Daryl não acha estranho todos esses zumbis nas cercas, eles tem aumentado tanto nas últimas semanas, quase todos os dias um grupo precisa ir para cercas matar aqueles imbecis.
−Não sei Carl, venho tentando compreender isso a uns dias, mas pode ser apenas por conta do nosso barulho, cheiro, sei lá, mas estamos dando conta não é?
−Sim, estão, já eu alimentos porcos, não é que não goste, Violet é bem legal, mas mesmo assim...
−Acho que não devia dar nomes aos animais.
Carl dá de ombros desanimado, suspira, é mesmo muita pressão sobre ele.
−Meu pai já me disse isso, mas lido com eles todos os dias, não consigo evitar.
Ele se afasta e ficamos apenas nós distraídos assistindo aquela pequena confusão do jantar, depois caminhamos para o quarto e Scott acaba pegando no sono, me deito com Mary em meus braços, penso que amanhã depois que tudo estiver tranquilo vou rouba-la para a torre.
Mas por hoje as coisas que Mary gosta podem ser ditas aos sussurros e isso também é muito bom, ficamos envolvidos, é muito fácil esquecer de tudo quando estou com ela, e mais fácil ainda é entrarmos em sintonia, não é preciso muito para ficarmos rendidos um ao outro.
Nos separamos pela manhã, ela se envolve com Beth e seus afazeres e eu sigo para o pátio com Scott na minha cola, ele sempre prefere me seguir e isso até que é bom, ele não chega a incomodar, fala pouco e se contenta a me olhar e me seguir com seu cavalinho na mão, Michonne ainda não voltou e olho para as cercas preocupado, um grupo matava zumbis e aquilo era um inferno, logo teríamos que sair lá para recolher os corpos e queimar como de costume, odeio aquele cheiro que sobe quando fazemos a fogueira maldita.
−Senhor Dixon, Scott pode brincar com a gente? Mika me pergunta se aproximando com a irmã e outras crianças, olho para eles pensativo, brincar, mesmo em meio ao caos que é nossa vida, mesmo com os mortos a nossa volta essas crianças ainda desejam brincar.
−Ele ainda é muito pequeno, pode se distrair e chegar perto das cercas.
Acho que é isso que pais fazem, cuidam da segurança dos seus filhos.
−Eu cuido dele senhor Dixon, sei que sou meio grande para ficar com as crianças, mas...
−Está tudo bem Patrick, não precisa explicar nada! Eu o tranquilizo, todo mundo sempre arruma um jeito de escapar um pouco desse tormento que é viver no mundo que temos agora, se esse é o dele não me importo.
Me abaixo para olhar para Scott, quero que ele faça apenas o que quiser fazer, se ele não quiser ir não precisa, já chega cada vez que saímos e ele chora até voltarmos.
−Ei sorvetinho, que acha de brincar um pouco com as crianças?
Scott encara as crianças, depois me olha um tanto indeciso, arruma o brinquedo nos braços.
−Vai sair? Ele pergunta preocupado, nego com a cabeça – Mamãe Mary vai?
−Não, quando não quiser mais brincar é só pedir ao Patrick para te trazer até mim, que acha?
−O Flame vai também?
−Sim.
−Eu quero – ele me abraça e me beija antes de se afastar e fico sem reação, não esperava por aquilo, não digo nada, nem ao menos retribuo o gesto, acho que de algum jeito ele entende meus limites, por que não estranha, apenas se afasta com Patrick e os outros enquanto eu o observo caminhar.
−O apocalipse trouxe muitas surpresas, papai Daryl é uma delas! Carol me diz parando do meu lado, eu nem me dou ao trabalho de responder, se quer olho para ela, sei que ela não desistiu, que tem planos para me ferrar com Mary e não vai me pegar desprevenido, até porque no momento eu também tenho planos para Mary e eles são bem simples, vou roubar minha garota para torre.
Me afasto apressado e encontro Mary conversando com Beth na cozinha externa, ela me sorri quando nota minha presença.
−Onde...
−Brincando com as crianças, Patrick está de olho nele e você vem comigo! Eu a puxo pela mão e ela me segue rindo.
−Depois continuamos Beth! Ela acena para a amiga quando eu a puxo para meus braços – Onde está me levando?
−Para a torre o que acha? Seu filho tem amiguinhos agora, temos que aproveitar!
−Diz meu filho só para me deixar emocionada! Ela se encosta em mim enquanto caminhávamos.
−Claro, e acredite, tenho segundas intensões! Ela fica completamente corada, mas os olhos brilham e só consegue me deixar mais louco por ela.
O dia ainda estava frio e um vento gelado soprava na torre, mas a temperatura do meu corpo subia em disparada a medida que eu e Mary íamos nos despindo entre beijos, estamos cheios de pressa e desejo, ter um garotinho na cela nos limita um pouco, não me importo realmente principalmente por que isso torna esses momentos na torre ainda mais alucinantes.
−Como posso estar o tempo todo com você e ainda assim sentir sua falta? Ela me pergunta com a voz rouca.
−Porque somos viciados um no outro! Eu brinco quando finalmente estamos prontos um para o outro.
−Quero ser sua! Ela me pede e isso é como uma ordem, ao menos para meu corpo os desejos de Mary tem sempre prioridade, então mais uma vez estamos caminhando de mãos dadas por um caminho intenso e desconhecido para o resto da humanidade ou o que sobrou dela, ali, só nós dois conhecemos o lugar, e não temos pressa de voltar.
Ficamos na torre por um bom tempo, sem ela eu não tenho ideia de como seria passar por isso, possivelmente eu seria intragável, e já estaria sozinho ou morto, mas Mary torna tudo mais fácil e possível, dá sentido a essa luta Alucinada e constante pela vida, por mais um dia aqui, mesmo sendo um dia cheio de incertezas e medo.
−Senhor Dixon! Escuto ao longe enquanto Mary estava recostada em meu peito e eu brincava com seus cabelos – Mary! Era a voz de Patrick.
−Porque sou senhor Dixon e você é só Mary! Reclamo me sentando, ela sorri se espreguiçando, eu me visto apressado, Patrick ainda aos gritos, anunciando a todo continente que eu e Mary estamos na torre, apareço na grade.
−Senhor Di...
−O que? O interrompo e ele dá de ombros, segurava a mão de Scott que ao me ver acena sorrindo.
−Achei você! Ele diz e minha pequena irritação desaparece.
−Estamos descendo Scott, espere ai.
Olho para Mary que terminava de se vestir.
−Ele sempre nos acha afinal! Ela sorri e se levanta, passa as mãos pelos cabelos bagunçados, está corada e feliz, minha rosa cherokee, eu penso me aproximando dela, não posso ficar sem Mary, ela é tudo que tenho, eu beijo seus lábios.
−O dever nos chama mamãe.
−Eu sei papai! Ela responde e descemos os dois, Patrick estava parado com Scott no colo, assim que saímos ele desce e corre para Mary.
−Brinquei muito mamãe. Quero brincar mais.
Olhamos para Patrick.
−É hora da leitura com a Carol, eu pretendia levar ele, mas ela... – O rapaz fica sem graça, olha para o chão e sei que tem algo escondido.
−Mas? Pergunto.
−Desculpe senhor, mas a senhora Carol, bem... é que ela disse para entregar o Scott para os pais que lá não era lugar de bebê, depois da leitura se ele quiser eu e as crianças continuamos a brincar.
Nos olhamos os dois, aquilo era uma grande estupidez, mas a verdade é que de qualquer modo não tinha a menor intensão de deixar meu pequeno com ela um minuto se quer, não sei do que ela é capaz para nos provocar.
−Pode ir Patrick, amanhã vocês brincam mais! Eu aviso e ele se afasta correndo.
−Sabia que acho que eles não leem coisa nenhuma! Mary me diz – Acho que fazem alguma outra coisa lá, só não sei o que e para ser honesta não quero descobrir de qualquer modo.
Estamos caminhando de volta eu a abraço.
Mas eu quero, penso preocupado, Carol não está normal, há muito que não está, espero que o que quer que esteja fazendo sirva para ajudar as crianças e não piorar as coisas ainda mais, talvez leve a questão ao conselho, mas isso decido depois, estou relaxado demais para me deixar preocupar com aquela mulher rancorosa e tola.
Mais dois dias se passam, o frio tinha diminuído muito e decido sair para caçar, seria bom ter carne de verdade só para variar, e Mary estava sonhando ainda em caçar um cervo, Scott agora brincava todos os dias com as crianças e podíamos aproveitar para sair.
Vamos logo depois do café, para voltarmos antes da leitura das crianças, Mary carregava sua besta e sempre me impressiono como se dava bem com ela, a floresta estava tranquila, nada de zumbis na primeira hora de caminhada, depois passamos por um ou outro, preferimos desviar o caminho, sempre acho que o melhor é matar cada um deles, quem sabe um dia acabamos com essas coisas, mas eles parecem brotar e então é tolice fazer isso, por isso, apenas caminhamos nos desviando.
Depois de mais meia hora um cervo surge glorioso em nosso caminho, estava distraído, era jovem ainda e isso chega a me dar esperança, ele se agita um instante quando nos sente, paralisa erguendo o focinho, buscando reconhecer de onde vem o inimigo, adoro esse momento, essa luta silenciosa, me sinto vivo quando assisto seu poderoso instinto animal o preparando para caçada, meu sangue pulsa sei que o dele também.
Mas dessa vez ele tem outro predador, é Mary quem está pronta com sua arma em punho, os olhos semicerrados e o animal na mira, não me mexo, feliz por poder apreciar aquele embate, a besta devia servir apenas para isso, essa é sua função principal, matar zumbis é só uma adaptação macabra.
Mary está pronta, o cervo sente, sabe onde está o perigo e se prepara num segundo de indecisão, que caminho seguir? E então essa é a hora que um caçador de verdade sabe o que fazer e Mary faz, atira sua flecha e está percorre certeira e rápida o caminho entre predador e presa, é precisa e o cervo se rende, cai elegante enquanto Mary prepara mais uma flecha, e lá está o animal, dessa vez nós vencemos, mas perdemos algumas vezes e isso torna tudo perfeito, grandioso.
Não é diversão, não faria isso apenas por diversão, essa é a cadeia alimentar fazendo sentido, tornando a vida daquele ser mais digna, ele cumpre seu papel na perfeição da natureza, por isso não entendo os zumbis, eles não fazem parte disso, ou não deveriam fazer, mas se estão aqui, então alguma função eles tem, e talvez aquela coisa de seleção natural seja verdade e nosso tempo esteja chegando ao fim.
Retiro minhas flechas, Mary está exultante de olhos brilhantes e sorriso aberto, vitoriosa.
−Viu isso! Ela me diz – Eu o cacei, nem acredito!
−Caçou Mary, você fez mesmo isso!
−Vou alimentar aquelas pessoas, isso é incrível, perfeito como sempre sonhei, me faz sentir importante.
−Você é importante, caçando cervos ou não! Eu a beijo de leve e depois com sua ajuda recolho o animal e seguimos para casa.
−Quando eu o via saindo para floresta com sua besta nas costas antes de tudo isso começar, eu pensava que devia ser incrível ser assim livre, depois quando estávamos na pedreira tudo que eu queria era isso, estar com você numa hora como essa, e hoje, isso foi tão libertador! Ela estava exultante me deixava encantado e tonto.
−Libertador! Eu concordo – Faz parecer que ainda não acabou.
−Eu sou feliz amor, sei que parece até errado, mas sou, mesmo com esses mortos, com as perdas pelo caminho, eu sou feliz e devo isso a você! Ela tem os olhos marejados e se não estivesse carregando aquele bicho e se não fosse tão perigoso eu a tomaria em meus braços.
−Não me deve nada, me devolve tudo a cada minuto, acho que no máximo trocamos! Eu respondo e ela me sorri.
−Acha que um dia Scott vai poder viver isso?
−É para isso que lutamos não acha? Ela concorda – Nesse caso podemos ter esperança, tudo está bem agora, como nunca esteve antes.
−Chega a dar medo.
Mary tem razão, tudo está tão bem que chega a dar medo, ficamos quietos um pouco cada um com seus pensamentos e logo estamos na prisão, entramos pela lateral como de costume, por furos nas grades que preparamos para momentos como esse.
O cervo é a atração e depois de deixa-lo com as mulheres sigo em busca de Scott, Carl estava com ele, os dois liam quadrinhos sentados no refeitório, ele nos vê e esquece a história, corre para os braços de Mary que o beija.
−Eu chorei só um pouco! Scott comunica – Carl leu o desenho para mim.
−Que bom, está se divertindo não é? Ela pergunta mas ele nega.
−Não pode ir embora! Ele reclama e vem para meus braços.
−Pode brincar comigo agora? Me pede e fico sem escolha, na verdade tenho escolha, posso dizer não, mas não quero fazer isso e concordo com um movimento de cabeça.
−ótimo, eu vou ajudar as mulheres com o cervo! Mary avisa.
−Caçou um cervo Daryl? Carl me pergunta.
−Eu não, a caçadora aqui é Mary! Respondo e ele ergue uma sobrancelha.
−Legal, já estive diante de um antes, bom levei um tiro por isso, mas foi emocionante! Carl corre para fora para ver a caça e Mary depois de me dar um beijo e outro em Scott também nos deixa, olho para o garotinho em meus braços, suspiro e ele abre um largo sorriso.
−E então Scott o que vamos fazer?
−Brincar! Ele diz com naturalidade sem a menor ideia do que está me pedindo.
−Certo, vamos brincar então.
Subo para cela com ele no colo, posso até brincar com o garotinho, mas ninguém precisa assistir a isso.
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