Apocalipse - A Era Dos Mortos

53 Capítulo 53 - Fantasmas


Notas iniciais
Desculpem se demorei, mas tive um dia complicado. Aqui está mais um capítulo, espero que gostem.

Pov — Mary

Eu não queria nada disso, era só achar algo descente para Scott, agora coloquei Daryl em risco, ele está furioso e eu nem consigo pensar direito, o rosto da menina zumbi me assombrando, me lembrando Sophia, como se a pequena tivesse vindo cobrar sua dívida, eu a deixei para trás, não corri o suficiente e agora ela está aqui, foi isso que senti quando abri aquela porta e a menina caminhou para mim.

Não enxerguei um zumbi, apenas um espectro, assustador, e depois aquele pequeno corpo estendido no chão, restos mortais de uma criança ainda menor, Scott indefeso, só posso pensar nisso, não consigo reagir a nada, minha mente fica voltando para aquele momento e o barulho na porta me tortura.

Daryl me manda ir para o quarto e obedeço porque sou de novo a Mary de antes, a que obedece, a que deixou Sophia escapar por entre os dedos, caminho pelo corredor, mas não posso me fechar no quarto com o zumbi daquela criança, mesmo morto ainda vou me sentir diante do fantasma de Sophia, abro a outra porta e fecho atrás de mim olhando atenta para o ambiente, me sento no chão próxima a porta, a cama me dá calafrios, me encolho atenta aos sons do lado de fora, Daryl está matando os zumbis na porta.

Acho que está furioso comigo, por que fui pedir isso a ele? Daryl não quer essa vida, não quer um menininho para cuidar, eu o empurro para isso o tempo todo, meu rosto está molhado pelas lágrimas minha visão tão embaçada que se não fosse os gemidos anunciando o que estava por vir eu nunca teria visto.

A primeira coisa que consigo ver quando pisco rápido, para afastar as lagrimas e limpar a visão, são mãos podres saindo se arrastando de baixo da cama, um filme de terror alucinante, depois longos cabelos ensebados e negros e o rosto grotesco de dentes podres e protuberantes me encarando num esforço gigante de me alcançar.

Me atrapalho na hora de me levantar em meio a pressa, me enrosco na besta que desarma, sinto meu pé sendo puxado e luto para me soltar, chutando aquela coisa que desesperada tentava morder a sola do meu sapato, a besta vai para longe e me lembro da faca, ainda lutando eu a puxo e juntando minhas forças acerto a cabeça do zumbi no momento que a porta se abria e Daryl pálido e assustado entrava com a faca em punho.

Volto meu olhar para o cadáver a minha frente, me arrasto para a parede trêmula e assustada, me sinto num mundo paralelo, não são zumbis, são fantasmas me aterrorizando, meu cérebro não quer registrar os acontecimentos de forma clara.

Sem perceber estou nos braços de Daryl, ele me carrega no colo para a sala, me aperto a ele tentando trazer de volta a realidade que conheço.

−Calma meu amor, vai ficar tudo bem! Ele me diz com a voz um tanto angustiada.

Se senta no sofá comigo ainda encolhida em seus braços, me escondo em seu peito, quero ir para casa, esse lugar tem um cheiro de morte que me dá náuseas, só então me dou conta que estamos no escuro, que é noite.

Tenho uma crise de choro nos braços de Daryl, demora a passar, meu peito se contorcendo numa angustia sem fim.

−Desculpe fazer você passar por isso! Eu soluço e ele apenas me envolve mais.

−Vamos para casa bruxa, eu prometo que vamos! Ele me diz baixinho e apenas concordo com a cabeça.

−Não devia ter te pedido para fazer isso.

−Precisa parar com isso, precisa entender que ele é tão meu quanto seu, que quero estar aqui.

Eu o olho confusa, ele está falando de Scott?

−Sim bruxa, ele é tão meu quanto seu, eu sei que não consigo demonstrar, que o afasto mais do que aproximo, mas é meu também, e vamos voltar para casa.

−Ele deve estar chorando agora! Eu me lembro que é noite que nunca ficamos fora sozinhos uma única noite, que todos estão achando que estamos mortos, que talvez um grupo de busca se forme, mas sequer dissemos que caminho tomaríamos.

Volto a chorar compulsivamente, se alguém se ferir tentando nos achar nunca vou me perdoar.

−Vão procurar por nós.

−Não, vão esperar, ninguém sabe para onde fomos e Rick não vai permitir que saiam, nessas horas ele está acima do conselho, sabe disso.

−Mas Michonne está acima de todo o resto, ela não liga para ordens de ninguém, vai sair atrás de nós.

−Tem razão, nesse caso vamos embora antes disso! Ele me tranquiliza.

Ficamos abraçados e em silêncio, naquele lugar assustador, não conseguia parar de tremer e se precisasse usar minha besta seria incapaz de acertar um alvo.

−Com frio? Ele me pergunta me envolvendo mais.

−Não, acho que estou meio em pânico, não consigo controlar isso.

−Certo, apenas se acalme, estamos juntos isso é tudo que importa, vamos voltar.

−Quando abri a porta... Pensei que era Sophia, o passado me atingiu em cheio, era como se visse um fantasma! Estremeço diante da recordação.

−Foi chocante eu sei, mas apenas esqueça!

−Pensei no Scott, tão indefeso, não se vê muitas crianças zumbi e entendi porque quando vi o corpo dilacerado no chão! Me lembro que estão a apenas alguns metros de nós e me aperto a ele.

−Porque?

−Eles foram devorados, as crianças... tão frágeis que foram devoradas por seus pais, avós... Deus isso é tão horrível!

−Mary! Daryl me faz olhar para ele, sua voz fica firme, eu o encaro tentando buscar algum controle – Preciso que se acalme, que foque em mim, vamos ficar bem e voltar para casa, mas preciso que volte a terra, acorde! Ele me pede.

−Eu sei, eu sei! Respiro fundo, várias vezes – Desculpe!

Preciso limpar a mente, ajudar Daryl a nos tirar daqui e voltar para casa, se ficar assim em pânico eu o deixo tenso, atrapalho ao invés de ajudar, vou respirando fundo, puxando o ar com força, enchendo os pulmões e soltando devagar pela boca, limpando a mente até parar de tremer, meus olhos fixos nele, até que me controlo mais uma vez.

−Melhor? Ele me pergunta me abraçando, ainda estou no seu colo, eu afirmo com a cabeça – Então fique aqui vou até a janela ver como estão as coisas.

Saio do seu colo e fico onde estou, sentada no sofá, não quero ver as ruas tomadas por aquelas coisas nos negando o direito de voltar para os nossos.

−Tudo igual, assim que amanhecer vamos dar um jeito nisso.

−Eu estou bem, podemos tentar sair se quiser, vou me concentrar e fazer o que for preciso.

−Agora não meu amor! Ele diz carinhoso voltando para meu lado e me abraçando – Pela manhã assim que o dia clarear, agora seria tolice, nem vamos vê-los se aproximando.

Ele estava certo, as noites eram mais escuras agora, não tínhamos mais luz elétrica, tudo que podíamos contar era com as luzes das estrelas, mas o céu estava encoberto por grossas nuvens e era tudo breu diante de nós.

Ficamos calados assistindo o tempo passar, as horas correm lentas, estou cansada, mas não consigo relaxar, Apenas quero que o dia chegue e nos traga esperança.

Os primeiros raios surgem e nos olhamos, era hora de termos alguma ideia, caminhamos até a janela, ainda muitos zumbis, nunca chegaríamos a moto.

−Que adianta esperar por barulho numa cidade morta como essa? Eu digo abatida.

−Espere, os apartamentos do outro lado, devem dar para rua de trás, vamos ver, quem sabe podemos produzir barulho! Daryl me diz quase feliz.

Nos preparamos para sair, ele abre a porta e saímos armados, de costas um para o outro e ele força uma porta no primeiro apartamento diante de nós, estava aberta, isso era bom, entramos e felizmente o apartamento estava vazio.

Daryl abre a janela e sim, dava para rua de trás, era uma chance, tanto podíamos afastá-los, quanto podíamos chamar ainda mais zumbis, mas que outra escolha tínhamos?

−Bruxa preciso que volte para o outro apartamento e fique observando se consigo afastar os zumbis, vou atirar coisas lá em baixo.

−Certo! Eu digo tensa e ele me beija suavemente, apenas um toque leve.

−Vai, fique calma! Ele me beija de novo e obedeço.

Encosto a porta por que não quero ser surpreendida, fico olhando para baixo, todo meu corpo está arrepiado por estar sozinha naquele lugar, demora uns minutos para perceber os zumbis mudando seu padrão, eles ficam quietos e de repente começam a caminhar na mesma direção, estão seguindo o som e meu coração bate forte e descompassado, vou para casa, agora sei que vou.

Quero que aqueles infelizes corram, mas eles caminham atrapalhados como um comboio de robôs em teste.

A rua começa a ficar limpa e corro para Daryl, quando entro ele atirava um aparelho de tv pela janela.

−Funcionou! Aviso — Melhor irmos! Ele atira um abajur como último teste e caminha para mim.

−Isso foi libertador! Brinca quando caminhamos pelo corredor rumo a escada, as mochilas nas costas e toda coragem reunida.

Daryl abre uma fresta da porta de entrada do pequeno edifício, zumbis ainda caminhavam mas era possível chegar até a moto e pegar a rua lateral, depois era contar com a sorte.

−Pronta? Ele me pergunta.

−Sim, estou bem! Aviso e saímos os dois em disparada rumo a moto, Daryl sobe e eu me sento atrás dele, meia dúzia de zumbis caminhando para nós, ele dá a partida enquanto eu segurava a pistola e saímos em alta velocidade, a rua lateral estava praticamente vazia, viramos uma segunda rua, zumbis caminhavam e Daryl vira em outra rua, mais zumbis, mas dessa vez não temos escolha e ele avança, desviando de todos e quando me dou conta estávamos fora da cidade e rumando para casa, nem acredito que finalmente estávamos seguindo para prisão.

Relaxo completamente. Scott, vou ver meu pequenino, e acalmar minha família, meu coração se enche de esperanças e me recosto em Daryl agora tranquila.

Assim que avisto a prisão meu coração bate rápido, quero ver todos lá, me dá medo achar que alguém saiu atrás de nós, vejo Michonne perto do portão com sua espada e Glenn e Maggie falando com ela, então Glenn corre para o portão e entramos.

−O que foi isso? Maggie diz correndo em minha direção quando descia da moto.

−Ficamos presos! Eu consigo dizer antes de ser enlaçada por ela, e depois Glenn, todos falando ao mesmo tempo.

Rick surge caminhando apressado e Carl corre para mim, me abraça apertado, eu nem acredito na recepção calorosa, Daryl ganha alguns apertos de mão e um quase abraço de Carl.

−Chegaram na hora certa, Michonne já estava se preparando para sair atrás de vocês! Maggie avisa – Eu e o Glenn iriamos mais no fim da tarde se não voltassem.

−E o Scott! Consigo perguntar quando me dão uma pequena folga.

−Lá dentro, eu tentei Mary, contei mil histórias para ele, mas quando anoiteceu ele ficou mesmo muito abatido, e chorou sem parar, acho que ainda está lá na cela de vocês, o Hershel e a Beth se revezaram com ele durante a noite.

Carl me conta e eu e Daryl nos olhamos, acho que os dois querem correr para dentro, nem me lembro que estou com fome e sede, só quero que o pequeno veja que estamos aqui.

−Desculpe, termos preocupado todos e obrigada por pensarem em ir atrás de nós.

Eu digo olhando de um para outro.

−Que estão esperando vão de uma vez, antes que o garoto desidrate! Maggie brinca e Daryl me pega pela mão seguimos os dois para dentro com passos apressados, acenando aqui e ali para cumprimentar as pessoas, o dia na prisão estava começando.

Eu não me lembrava que nossa cela era assim tão longe, penso quando subíamos os degraus, assim que me aproximo da porta meu coração volta a bater descompassado, o pequeno nunca mais nos deixaria sair, não depois desse susto.

Quando surjo na porta ele estava sentado na cama abraçado ao cavalinho, não chorava, soluçava apenas, os olhos baixos, Beth estava a seu lado com Judith nos braços, tão triste quanto ele.

−Mary! Ela diz num alivio de emocionar, mas é Scott quem me interessa e ele ergue os olhos que se iluminam e fazem minha vida ganhar um novo sentido.

−Oi Scott! Eu digo quando o cavalinho é deixado de lado e ele ergue os braços pedindo colo, eu o pego e aperto o pequeno em meus braços, Daryl ganhava um abraço desajeitado de Beth e Judith, que ele mal consegue retribuir porque assim como eu essa coisa de carinho era um problema para ele – Como está pequeno! Eu pergunto vasculhando seu rosto em busca de algum sinal.

−Chorei! Ele diz e então dá os braços para Daryl, que o pega sem nenhuma dúvida, dessa vez ele não pensa a respeito, quer pegar o pequeno e não só o pega no colo como abraça.

Beth me abraça forte, eu aproveito para dar um beijo em Judith que parece um pouco confusa com a situação.

−Eu pensei... Droga Mary não faça mais isso! Ela diz num suspiro de alivio – Ele ficou simplesmente arrasado, vocês precisam acertar as coisas com ele, fazer ele entender que não vão deixa-lo para traz! Ela diz quando nos afastamos, ele ainda está no colo de Daryl, um recorde, Daryl sempre o coloca no chão assim que tem chance mas dessa vez continua segurando ele que nos olha de um para outro sem acreditar que voltamos.

−Eu sei Beth, vamos dar um jeito nisso!

−Ótimo, agora vou descer, ele precisa comer e dormir e acho que vocês também, nos vemos lá em baixo, acalmem ele antes.

Ficamos sozinhos, nos sentamos no beliche, Scott ainda nos braços de Daryl deitadinho, tem um ar cansado e sonolento, ficamos os três em silencio, ele toca a barba por fazer de Daryl, eu bem queria tê-lo em meus braços mais um pouquinho, mas ele está tão tranquilo ali, e Daryl parece tão relaxado que não tenho coragem de separá-los, me encosto no ombro de Daryl e fico ali olhando para ele, Scott vai fechando os olhinhos e então adormece e apenas continuamos ali olhando aquele rostinho sem coragem para colocá-lo na cama.

−Me comportei como uma menininha assustada lá, me desculpe! Eu digo sem desviar meus olhos de Scott, com medo de perder algum detalhe daquele momento tranquilo.

−Me comportei como um ogro lá, me desculpe! Daryl me diz também sem desviar os olhos do pequeno em seus braços.

−Ou seja, fomos nós mesmos! Brinco e nos olhamos sorrindo, ele me beija.

−Sim bruxa, fomos nós mesmos, o que importa é que estamos aqui agora, juntos e com ele.

−Acha errado eu tentar ensiná-lo a me chamar de mãe? Pergunto fazendo um carinho nos cabelos macios de Scott – Antes eu queria ter um filho, mas agora eu quero ter ele!

−Não acho errado, acho que é o certo, afinal é isso que é, a mãe dele.

−Vou treinar com ele até ele aprender a dizer seu nome, prometo! Aviso porque acho que ele iria gostar.

−Isso é errado, você vai ser a mamãe e eu o Daryl? Ele me diz sorrindo um tanto tímido, desvia o olhar e só me faz lembrar que o amo como nunca pensei que poderia amar alguém.

−Quer que ele te chame de pai? Pergunto só para confirmar se entendi mesmo certo, os olhos meio marejados por que isso seria muito mais do que sequer achei que um dia teríamos.

−Melhor que me chamar puxando minhas calças como ele faz.

−Está certo! É só o que digo, não quero prolongar muito o assunto e deixa-lo constrangido, Daryl se arruma e Scott resmunga, voltamos a ficar imóveis.

−Gostei dos abraços, de todos os abraços, não senti nada de ruim, nem mesmo me lembrei que não gostava de ser tocada.

−Está curada bruxa, ao menos sobre isso!

−Acho que sim, mas também acho que é porque foi a nossa família, não sei se seria assim com estranhos.

−Fico feliz que isso não seja mais um problema para você, embora eu tenha que confessar que gostava da exclusividade!

−Ainda sou apenas sua! Ele me beija de novo.

−E do Scott! Daryl brinca e sorri para ele que ressona agora num sono tranquilo – O sorvetinho, trouxe duas crianças a vida Mary, Judith quando fez aquele parto e Scott quando abriu aquele frízer.

−Parece que sim! Eu me encolho me aproximando mais dele.

−Gostou de todos os abraços é? Daryl me pergunta e eu o olho – Inclusive o do Glenn?

−Eu te amo, mas às vezes você é ridículo! Brinco com ele que me beija.

−Sei disso, assim como sei que eu te amo muito mais, por isso sou ciumento!

−Eu que te amo mais! Brincamos um com o outro, mas as horas passadas em meio ao terror me vem à memória.

−Supérfluo! Paro para pensar.

−O que? Ele me pergunta, ainda estamos na mesma posição e queria ficar assim para sempre, eu suspiro.

−Sapatos que te servem, roupas que te aqueçam, tudo supérfluo, se não é água, comida e remédios se arriscar é tolice, não podíamos ter saído por um motivo como esse – Ele me olha pensativo — Às vezes nos pegamos tentando levar uma vida perto do normal, ou do que vivíamos antes e isso é tolice, não tem mais nada disso, não se pode colocar tudo a perder por um casaco acolchoado!

−Não se sinta culpada, está certo que fomos precipitados, mas ele precisava disso, erramos quando não dissemos onde estávamos indo, quando decidimos ir de moto, e no fundo eu sei que estávamos mesmo buscando um pouco de aventura, acho que estamos acostumados com toda essa adrenalina das ruas, se quer saber foi uma ótima lição!

−Acha?

−Sim, estamos acostumados a sair e voltar, esquecemos um pouco o que essas coisas são e o mal que podem fazer, foi bom lembrar, assim não repetimos mais.

−Tem razão, foi bom e agora ele tem roupas para o inverno e uns brinquedinhos novos, ele e Judith!

−Precisamos dormir um pouco bruxa, logo ele acorda e vai querer atenção.

−Tem razão!

Daryl coloca Scott na cama e ele apenas se enrola nas cobertas, nem se dá conta, seguimos para cama, é dia na prisão e podemos ouvir as pessoas se movimentando, mas só quero ficar assim, nos braços de Daryl olhando Scott dormir tranquilo.

Me aconchego nos braços de Daryl, sinto sua respiração tranquila na minha nuca.

−As coisas que Mary gosta! Ele sussurra antes de adormecer e esgotada eu faço o mesmo.

Notas finais
E então, o que acharam?