Apocalipse
15 Outro Dia Monótono
Notas iniciais
Certa vez, uma jovem garota, cujos cabelos negros eram tão lindos e tão longos, que lhe caíam como uma capa preta brilhante, seus olhos cor-de-mel transmitiam tranquilidade, segurança e bondade, sua voz era doce e suave, como se tudo o que dissesse pudesse tomar vida. Porém, quem a visse de longe, logo imaginava que era só mais um rosto bonito em meio a pessoas comuns. Mas não.
Essa garota guardava consigo um segredo mortal, ela foi mordida por um lobisomem e agora carregava consigo essa maldição, no qual ela teria que suportar por toda a eternidade ver as pessoas que ama partirem, pois ela não envelhecia...
Logo a loucura tomou conta de sua mente, ela já não conseguia mais controlar os seus poderes, e a pressão de ter outro lobo, cujos cabelos eram negros como a escuridão de uma floresta a noite, tentando roubar seu patente só piorava as coisas.
Não demorou para ela cair em uma profunda depressão. Após lutar até a morte com seu rival a loucura já tinha chego ao seu ápice, ela não poderia mais suportar o fato de sua melhor amiga estar internada em um hospital por sua causa e quase ter matado seu amado namorado.
Então, a garota tomou uma decisão fatal, escalou o mais alto penhasco, ficando frente à frente com uma fenda profunda, na qual a escuridão era mais densa, mesmo que o sol estivesse a pino. Ali seria o seu túmulo.
Ignorando todas as súplicas de seu namorado e seu amigo, ela abriu os braços e...
Lizzie parou e ficou encarando a parede. Seus telespectadores já estavam na ponta do sofá, ansiando pela continuação da história, nenhum dos três jovens ali presentes ousava dizer uma palavra sequer, mal se atreviam a respirar, se isso fosse atrapalhar a contadora.
A ruiva olhou para baixo e percebeu que Ellie já havia dormido, ela sorriu e passou a mão em seus cabelos.
— E... — Nick disse impaciente.
— Só lendo o livro pra vocês saberem... — abriu-se um largo sorriso nos labios de Lizzie.
— Aahhhh! Qual é? Todo esse suspense pra mandar a gente ler o livro?! — Josh reclamou. — Que custa contar?
— Aí perderia toda a graça! A história é bem mais complexa e bem mais extensa do que isso.
Lizzie pegou Ellie no colo e levou-a para a cama, cobriu-a e fechou a porta do quarto. A chuva parecia estar mais fortela fora, o som do trovão estava mais alto. Ela voltou para a sala, sentou no sofá e pegou Aika no colo, acariciando seus pelos.
— Ah, conta aí! — dessa vez foi Alice quem pediu.
— Talvez um dia... Mas não hoje. A propósito, está ficando tarde, vocês vão passar a noite aqui? — Lizzie perguntou.
— Mas nossa casa é aqui na frente... — disse Nick.
— Ah, se não for nenhum incômodo, ficaremos sim... — Alice disse sorrindo.
— Ok... Você pode ficar no meu quarto, Alice.
A loira assentiu com a cabeça e se levantou, junto com Lizzie. O grupo começou a se mexer, Josh foi para seu quarto, Alice ficou na cama de Lizzie, a beliche de cima, e a ruiva pegou cobertas e travesseiros para ela e Nick. Os dois ficaram na sala.
Lizzie estava deitada em um sofá, com a collie, ela estava quase dormindo, porém, o rapaz ainda estava intrigado com a história.
— Li... Ta dormindo?
— Uhum...
— Me conta o final da história?
— Se eu contar, você me deixa dormir? — ela virou-se para ele.
— Deixo. — ele sorriu.
Lizzie respirou fundo e fechou os olhos.
Ela se jogou na fenda. Seu namorado não pôde fazer nada a respeito, ele estava impossibilitado de usar seus poderes de controlar o tempo, tudo que lhe restou a fazer foi ver sua amada cair e ser engolida pela densa escuridão.
— E fim! — ela se encolheu e cobriu-se até a cabeça com a coberta.
— Aaaahh, Lizziiie, eu sei que tem mais coisa, por que não quer me contar?
— Porque vai perder a graça...
*** *** *** *** ***
26 de Maio P. A.
Já faz uma semana que comecei a ajudar no canil e na biblioteca, não tenho tido muito tempo para escrever, mas como hoje é meu dia de folga resolvi atualizar o diário...
Passei bastante tempo com a Íris nesses últimos dias, ela é uma pessoa boa, gentil e atenciosa. Gosto da companhia dela, vejo ela como uma amiga.
Na biblioteca, recebemos a colaboração de muitas pessoas, diariamente recebemos uma média de 5 a 10 livros. Além disso, crianças vão lá para estudar, aprender a ler e a escrever... Um tipo de escola. Eu tenho sido de grande ajuda para Dona Isabel, geralmente eu faço as coisas que ela já não tem a capacidade de fazer, como arrumar todos os livros em ordem alfabética, aqueles que ficam no alto. Ela já é idosa, não pode ficar fazendo tanto esforço.
Lizzie guardou seu diário na mochila e jogou-se da beliche de cima, aterrissando no chão. Ela estava sozinha no apartamento, Josh foi para a loja de antiguidades e Ellie deveria estar na biblioteca, estudando.
— O que quer fazer hoje? — ela perguntou para a collie.
Aika levantou e foi para a sala, a ruiva a seguiu. A collie parou em frente a porta e olhou para Lizzie.
— Ok, vamos sair.
Aika saiu em disparada pelo corredor, seguindo para as escadas. A garota trancou a porta e tomou rumo às escadas, calmamente.
Do lado de fora, Lizzie começou a caminhar na direção no portão do Norte. O dia parecia estar movimentado, as pessoas pareciam animadas e conversavam sobre algo em específico, mas a ruiva não entendia o motivo de tanta animação.
Ela chegou ao estábulo para ver como estava seu cavalo, quando percebeu um garoto no alto da muralha. Lizzie ficou intrigada, o que um garoto tão jovem estaria fazendo ali?
— Lizzie! — um rapaz moreno a chamou.
— Thomas? Ela virou-se.
— Eu mesmo. Você deve estar de folga hoje, mas chegou uma caixa cheia de livros, achei que você seria a melhor pessoa para o serviço, se não estiver ocupada, é claro...
— Ah, eu estou livre hoje. — ela sorriu.
— Se puder me acompanhar...
Ele seguiu até o um estacionamento coberto, o lugar se assemelhava muito com um salão, embora não apresentasse muito capricho, não tinha janelas, apenas uma enorme "porta" para a entrada e saída dos carros e muitas vagas já ocupadas, mas o local ainda tinha bastante espaço.
Thomas entrou em uma cabine que tinha próximo da entrada. Lizzie ficou esperando do lado de fora, observou um pouco o estacionamento e depois voltou seu olhar para fora, no alto da muralha. Agora ela podia ver o garoto melhor, era um pouco gordinho, parecia que tinha cortado seu cabelo com uma faca, pois estava repicado e uma parte maior que a outra, ele carregava um rifle.
— Quem é o moleque? — ela perguntou.
— O gordinho? É um aprendiz...
— Aprendiz? — ela repetiu.
— Sim. O Alex achou melhor começar a treinar os jovens para tarefas como essa. Você é uma boa atiradora, talvez ele peça pra você ajudar nessa tarefa.
— Entendo...
Thomas saiu da cabine com uma caixa de papelão.
— Ela está pesada... — o moreno começou — É melhor segurar em baixo, para não abrir no caminho...
Ela assentiu com a cabeça e fez o que lhe foi aconselhado. Ela voltou para o estábulo, celou seu cavalo e dividiu o peso dos livros igualmente nas duas bolsas que tinha na cela, uma de cada lado do cavalo. Lizzie montou no cavalo e já estava pronta para ir ao Sul.
— Obrigada, Thomas.
Ele fez um movimento com seu boné e ela saiu.
A ruiva gostava de correr com o cavalo, desse modo, ela o fazia ir rápido, mas sem forçar muito. Ela gostava da sensação do vento fresco balançando seu cabelo.
Logo chegaram à biblioteca. Lizzie amarrou o cavalo sob a sombra de uma árvore e adentrou na biblioteca com Aika.
— Bom dia, Dona Isabel! — a garota sorriu.
— Bom dia, querida... — ela disse tristemente.
— Há algo errado? — ela colocou os livros no balcão.
— Ah, minha jovem... O meu filho saiu na semana passada com o sr. Thompson, mas ele não retornou... — ela suspirou de tristeza.
— Eu acho que não o conheço... — ela coçou a nuca.
— É um homem com cabelos quase branco, ele tem um olho azul e o outro cor-de-mel...
Lizzie engoliu em seco. Só poderia ser o homem que queria matar seu pai.
— Ele deve ter se perdido... — a garota tentou tranqüilizá-la.
— Não Lizzie, todos que vão com o Thompson nunca retornaram...
Ela ponderou por alguns instantes e pegou a pilha de livros outra vez. As estantes estavam com livros, embora ainda parecesse vazio. A ruiva começou a colocar os livros no lugar, mas sua mente estava cheia de dúvidas, o que teria acontecido? A resposta mais óbvia seria a morte, mas por quê?
Seus pensamentos foram interrompidos por um tumulto, vozes de crianças ecoaram pela biblioteca, embora ela ainda não entendesse do que se tratava, ela seguiu o som até as mesas. Um grupo de crianças estava ali, porém, um garoto tomou um livro da mão de uma garota e não queria devolver, ameaçando rasgá-lo.
— Hey você — ela disse em tom severo — Devolva o livro.
O garoto parou e olhou para ela.
— E quem é você pra me impedir? — ele respondeu em tom de deboche. — Eu sou malandro.
Lizzie estreitou os olhos e foi até ele rapidamente, tomou o livro e jogou-o sobre a mesa, o garoto ficou assustado.
— Quem você pensa que é pra-
A garota pegou-o pela nuca e bateu sua cabeça com força na mesa, ela apoiou o cotovelo nas costas do rapaz e começou a fazer pressão, de modo que ele mão conseguisse levantar.
— Você é malandro? — ela falou em seu ouvido — E eu sou a rainha de Inglaterra... Depois que você passar uma noite sozinha fora da cidade você vem conversar como um homem de verdade comigo, seu pirralho de merda!
O rapaz engoliu em seco. Ela o levantou e jogou-o contra uma estante, chegando bem perto de seu ouvido, em tom persuasivo:
— Depois que você passar o inverno inteiro lá fora, vivendo de tudo o que encontrar, ou ter matado pelo menos 5 homens, você vem discutir comigo.
Lizzie se afastou e o olhou friamente. O garoto estava apavorado e sem reação.
— Vaza daqui moleque! — ela fez um sinal com a cabeça.
O rapaz correu na direção da saída, as outras crianças estavam congeladas, olhando para a ruiva. Ela simplesmente olhou-as e voltou para a recepção.
— Tudo arrumado, Dona Isabel. — ela sorriu.
A idosa assentiu com a cabeça e a ruiva saiu.
A garota já estava indo na direção do cavalo, quando alguém chamou sua atenção, ela se virou e viu Íris correndo em sua direção.
— Lizzie!! — a garota chegou e se apoiou na árvore, estava ofegante.
— Olá, Íris. — a ruiva sorriu.
— Olá... — ela se recompôs e respirou fundo. — Você soube?
— Do que?
— Da festa do Solstício.
— Não. Que isso?
— É uma festa que celebra o início no verão.
— Ah, eu não sabia...
— Vai ser no mês que vem, você vai, né?
— Acho que sim...
— Então, te espero lá. — Íris sorriu e correu de volta para o canil.
Lizzie ficou olhando-a se afastar. Botou seus pensamentos em ordem e desamarrou o cavalo, tomando rumo de volta ao norte.
*** *** *** *** ***
Depois do almoço, Lizzie passeava pela cidade, entrou em algumas lojas para ver o que ofereciam e acabou encontrando Olívia em uma loja de roupas. Ela pensou em sair assim que viu a tia, mas ela queria respostas.
A garota se aproximou furtivamente da mulher e postou-se atrás dela:
— Você emagreceu... — ela começou — Você estava mais gorda há quatro anos atrás...
— Pois é, as pessoas mudam com o tempo, você é um ótimo exemplo. — Olívia lançou-lhe um olhar hostil e tomou rumo na direção da saída.
Lizzie a segurou pelo braço.
— Me solte! — a mulher exigiu.
— Eu quero respostas! — disse a ruiva, em tom de frieza.
— Respostas? — Olívia soltou-se bruscamente. — Eu acho que você sabe até demais!
— Por que você me odeia? — a ruiva foi direta.
— Talvez porque você matou o meu marido?! — a mulher virou-se e começou a andar outra vez.
— Eu sei que não é isso! — Lizzie puxou-a pela gola da camisa. — Desde que eu fui morar contigo eu vi que tinha algo mais, eu vi o ódio em seus olhos, o que aconteceu? Você me adorava...
Olívia virou-se e estreitou os olhos.
— Sua mãe me disse que você fez coisas horríveis...
— Minha mãe? — ela perguntou confusa — O que ela sabe sobre mim?
— Ela sabia de coisas... Me disse para tomar cuidado, que seu pai havia te influenciado negativamente... Que você seria capaz de qualquer coisa, que havia se voltado contra ela durante o julgamento de Oliver...
— Ah, ela disse isso? — a jovem estreitou os olhos — Por um lado ela tem razão, eu me voltei contra ela sim, pois eu sou justa! O que ela fez com meu pai... — ela começou a balançar a cabeça em desaprovação.
— Que seja, isso não importa mais.
— E minha irmã?
— Sua irmã? Sua mãe me mandava cartas com fotos e cartões postais. A meu ver ela largou o seu pai e foi com aquele homem rico e bonito...
— Como vocês são patéticas... — Lizzie tomou rumo à saída da loja.
"Como minha mãe era ridícula... Mas não tenho tempo para ela agora, preciso de respostas sobre outro assunto..." Lizzie pensou consigo mesma.
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